TEMAS LITÚRGICOS

Romano Guardini e a sua obra:

«O Espírito da Liturgia»

 

 

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

Romano Guardini (1885-1968) ajudou a renovar o conceito de Liturgia, sendo um nome emblemático do Movimento Litúrgico. Na Páscoa de 1918, Guardini publica «O espírito da Liturgia», obra de êxito absolutamente notável e que contribui significativamente para a difusão do Movimento Litúrgico nos ambientes da juventude católica não só alemã, mas também europeia. Este livro era o primeiro de uma nova coleção, «Ecclesia orans», criada pelo abade de Maria-Laach, D. Ildefonso Herwegen (+1946), com o fim de promover a sensibilidade litúrgica dentro da Igreja.

Estando ainda relativamente recente o centenário  desta obra, e tendo sido assinalado com a publicação de uma tradução em português por parte do Secretariado Nacional da Liturgia, pensámos apresentar um «apontamento» no sentido de promover a sua releitura ou estudo.[1]

 

A liturgia como jogo

Vista do exterior a liturgia pode dar a impressão de se resumir a um conjunto de cerimónias, algo teatral, artificial, complicado e sem objeto.

Segundo o espírito moderno procurar-se-ia uma utilidade na liturgia e eis que Guardini expõe como esta nunca a poderá ter. Porquê? Porque «a sua razão de ser é Deus e não o homem. Na liturgia o homem concentra o olhar, não em si, mas em Deus. Não pensa em se formar ou aperfeiçoar, mas volta-se para o esplendor de Deus. O sentido da liturgia consiste em estar diante de Deus» p. 72.

A liturgia tem sentido, mas quase não tem finalidade prática. Tem algo de comum com a Criança e com a Arte: «não está dependente de nenhum critério utilitário. Em compensação está repleta de sentido. Não é trabalho, é jogo. Brincar diante de Deus. Não criar, mas ser cada qual uma obra de arte, eis a essência da liturgia. Daí a mescla de seriedade e de alegria divina que nela transparece» p. 76, 3.

«Viver liturgicamente, é – levado pela Graça e conduzido pela Igreja – tornar-se uma obra de arte viva diante de Deus, sem outro fim que estar e viver na presença de Deus. É cumprir a palavra do Mestre e «fazer-se criança». É, seja dito duma vez para sempre, renunciar à falsa prudência da idade adulta que para tudo quer encontrar um fim. É decidir-se a jogar, como David quando dançava diante da arca da aliança» p. 78, 5.

 

A oração da Igreja

Guardini apresenta a liturgia como a oração pública oficial da Igreja e, portanto, não só um ato de piedade individual destinado à edificação do individuo, mas sim uma homenagem que a comunidade dos fiéis rende a Deus.

«A pessoa litúrgica é a união da comunidade crente, como tal, alguma coisa que ultrapassa a simples adição numérica dos indivíduos (…). É nisto que se manifesta a absoluta divergência entre o conceito católico de culto coletivo e a conceção protestante que visa o indivíduo». (p. 14)

Esclarece que a liturgia não pode ser a forma exclusiva de piedade coletiva, porém, «é e será sempre a Lex orandi».

Dito isto, compreende-se que a oração litúrgica não pode ser sentimental, mas deve ter por base o pensamento, uma vez que tem de servir a um coletivo com variados estados de espírito.

«Quem não possui ainda a experiência desta oração, sente por vezes a impressão de se encontrar diante de fórmulas doutrinais tiradas da teologia, até ao momento em que penetra profundamente na plenitude de emoção dessas fórmulas cristalinas, translúcidas e expressivas» p. 15, 3

Porém, Guardini alerta que isto não quer dizer que o coração e a sensibilidade estejam excluídos da oração litúrgica: «Toda a oração é elevação da alma para Deus. Mas este coração deve tomar por guia o pensamento que o ampara e lhe clarifica as emoções». p. 16, 2

A liturgia revela-se como mestra. «Ela integra na oração toda a amplitude da verdade. Ela não é mais do que a Verdade, a Verdade vestida de oração (…) Só uma verdade assim nunca se esgotará; só ela é capaz de ser realmente para todos, e ser sempre nova». p. 19, 2

O autor alerta para o extremo aposto e como a liturgia não pode ficar sob o domínio frio da razão: «É necessário que o calor do sentimento penetre, impregne todas as formas de oração (…).

E fala de um sábio equilíbrio interior. «A liturgia não gosta dos excessos de sentimento (…) A liturgia é emoção sempre dominada» p. 21

Sim, dominada, mas, ao mesmo tempo, permitida e fomentada, não reprimida. Por isso, Guardini diz que a liturgia realizou uma «obra-prima»: tornou possível ao homem exprimir ao mesmo tempo em toda a sua profundidade e plenitude o mais recôndito da sua vida interior e conservar oculto o seu mistério: secretum meum mihi. A alma pode desabafar sem temor de que se espalhe aos quatro ventos o que deve permanecer secreto» p. 23, 2

 

A comunidade litúrgica

«Na liturgia, o crente não se vê diante de Deus como um ser isolado, mas sim como um membro da unidade» litúrgica que é a Igreja.

«Se o crente vive ativamente da vida litúrgica, toma consciência de que ora e atua como membro da Igreja e que esta, por sua vez, ora e atua nele; então sente-se (e deseja sentir-se) uma só coisa com todos os seus irmãos crentes no seio desta vasta unidade» p. 35, 1.

Para isso exigem-se do indivíduo duas coisas (que Guardini reconhece constituírem uma «tremenda dificuldade»):

Um sacrifício: «deve renunciar a tudo o que não é senão para ele e exclui os demais. Deve esquecer-se de si próprio para estar com os outros, e sacrificar à comunidade uma parte da sua autonomia e independência».

Um contributo positivo: «acolher como seu um conteúdo de vida mais amplo, que é precisamente o da comunidade, que dilate o seu coração, e considere como próprios, afirmando-os e sentindo-os como seus, os interesses e atividades da comunidade». p. 35, 4

 

O material e o espiritual na liturgia

Se Deus é espírito, porquê o material na liturgia? Não se falseia a imagem de Deus misturando-a com o material? Não seria melhor «adorar Deus em espírito e verdade»? (cfr. P. 55).

Efetivamente, a liturgia move-se na tensão entre o espiritual e o material. Guardini defende que tem de haver uma «comunicação e delimitação»: «na mais estreita interpenetração o espiritual e o corpóreo devem aqui ajudar-se mutuamente» p. 61.

Guardini adverte que os sinais litúrgicos possuem um duplo e grande poder de impressão e de expressão. «De impressão, enquanto comunicam à verdade força penetrante e dinamismo persuasivo que a linguagem, escrita ou falada, não comporta. De expressão, enquanto são dotados de peculiar virtude libertadora, e não só traduzem mas também projetam a verdade com uma plenitude que, mais uma vez, a palavra não possui» p. 64

Sem deixar de ver que «a liturgia nos seus símbolos fica inteiramente livre de qualquer servidão aos materiais da natureza». Isto porque na liturgia «todas as formas naturais passam por uma espécie de refundição que as transforma em formas culturais». P. 64

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] GUARDINI, R. O Espírito da Liturgia, Secretariado Nacional da Liturgia, 2017.


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