ANUNCIAÇÃO DO SENHOR

25 de Março de 2021

 

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Anjo do Senhor anunciou a Maria – M. Simões, NRMS,31

Hebr 10, 5.7

Antífona de entrada: Ao entrar no mundo, o Senhor disse: Eu venho, meu Deus, para fazer a vossa vontade.

 

Diz–se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Solenidade da Anunciação faz-nos pensar no Nascimento de Jesus. O Evangelho de hoje também é proclamado na Solenidade da Imaculada Conceição e no Quarto Domingo do Advento. Contudo, o calendário litúrgico coloca esta solenidade muito próxima do tempo pascal. Deste modo a Encarnação do Senhor está intimamente unida ao mistério da Redenção. A Leitura da Carta aos Hebreus, introduz-nos no Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, que vamos celebrar, brevemente. A festa da Anunciação também é uma festa mariana: “O Anjo do Senhor anunciou a Maria. E Ela concebeu do Espírito Santo.” O mistério da Encarnação realizou-se quando a Virgem Maria pronunciou o seu sim, dizendo ao Anjo Gabriel: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.”

 

Oração colecta: Deus, Pai santo, que na vossa benigna providência quisestes que o vosso Verbo assumisse verdadeira carne humana no seio da Virgem Maria concedei–nos que, celebrando o nosso Redentor como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mereçamos também participar da sua natureza divina.

Por Nosso Senhor...

 

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: “A virgem conceberá e dará à luz um filho.” (Isaías 7,14)

O profeta Isaías foi ter com o rei Acaz, levando-lhe uma mensagem de esperança: “Pede um sinal ao Senhor teu Deus.” Acaz não pediu nenhum sinal. Alegou uma razão aparentemente religiosa para esconder a sua incredulidade: “Não porei o Senhor à prova.” Ora, pedir um sinal, nestas circunstâncias difíceis para o reino de Judá, em guerra contra os reis da Síria e de Israel, seria uma atitude de fé e de humildade. Apesar disso, Deus deu-lhe um sinal: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, chamado Emanuel.”

 

Isaías 7,10-14.8-10

 

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11“Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas”. 12Acaz respondeu: “Não pedirei, não porei o Senhor à prova”. 13Então Isaías disse: “Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, 8, 10porque Deus está connosco.

 

Este célebre texto messiânico é extraído do início do «Livro do Emanuel», assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (connosco Deus), um «menino» descrito com traços que excedem tudo o que a história da monarquia hebraica regista (Is 7,1 – 12,6), daí o seu carácter messiânico, em quem os cristãos vêem uma figura do Salvador.

10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, o mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente o mesmo momento) em que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadeiramente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 2Sam 7,16).

14 Esse «sinal» é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado «Livro do Imanuel» (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco); embora, em primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele é considerado uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: ‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas, Áquila, Símaco e Teodocião), e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto para eles. A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, «Deus connosco» é a mesma personagem extraordinária anunciada em Is 9,5-6: «Deus forte, príncipe da paz...». Bento XVI após ter feito referência a todas as interpretações propostas pela crítica bíblica, que não resolvem definitivamente a identificação de quem é este filho da virgem, apela para uma Palavra de Deus à espera de ser decifrada, uma Palavra do ano 733 a C., então incompreensível, que acabou por ficar esclarecida no seu sentido mais profundo ao ser cumprida no momento da concepção de Jesus Cristo (Jesus de Nazaré. A Infância de Jesus p. 47).

 

Salmo Responsorial    Sl 39 (40), 7–8a.8b–9.10.11 (R. 8a.9a)

 

Monição: “Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações, mas formaste-me um corpo.

Não te agradaram os holocaustos nem imolações pelo pecado. Então, Eu disse: Eis-me aqui.” 

Jesus vem ao nosso mundo, nascendo da Virgem Maria, para fazer a vontade de Deus Pai, como estava escrito acerca d’Ele no Livro da Lei. Deste modo “aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo.” Na Nova Aliança, somos santificados por meio da “oferta do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.”

 

Refrão:        Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.

 

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,

mas abristes-me os ouvidos

não pedistes holocaustos nem expiações,

então clamei: «Aqui estou».

 

De mim está escrito no livro da Lei

que faça a vossa vontade.

Assim o quero, ó meu Deus,

a vossa lei está no meu coração».

 

Proclamei a justiça na grande assembleia,

não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.

 

Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,

proclamei a vossa fidelidade e salvação.

Não ocultei a vossa bondade e fidelidade

no meio da grande assembleia.

 

Segunda Leitura

 

Monição: «No livro sagrado está escrito a meu respeito: 

Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade.» Hebr 10, 4-10 

A vontade de Deus é que todos se salvem. Para realizar a obra da Redenção, Santo Agostinho diz que Deus prometeu aos mortais a imortalidade, aos pecadores a justificação. Aos homens parecia incrível a promessa de Deus de os libertar da sua condição e de os tornar semelhantes aos Anjos. Por isso, firmou por escrito uma aliança com os homens, para que acreditassem e estabeleceu como garantia da sua fidelidade um mediador, que não foi qualquer príncipe, ou um Anjo ou um Arcanjo, mas o seu Filho Unigénito. Mas para Deus ainda era pouco revelar-nos o caminho, por meio de seu Filho; quis que Jesus fosse o Caminho, a fim de que nos deixássemos conduzir por Ele, caminhando sobre o próprio Caminho.[1]

 

Hebreus 10,4-10

 

Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’”. 8Primeiro disse: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado”. E, no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: “Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade”. Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.

 

O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios da Lei Antiga (8,1 – 10,18), sob o ponto de vista da eficácia, argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40,7-9 e 110,1. Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade (Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente, mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos nos nossos altares, aplicando-nos os méritos do sacrifício da Cruz.

7 «Eis-me aqui». Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem, que diz também «eis aqui a serva do Senhor» (Lc 1,38).

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 1, 14ab

 

Monição: “O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória.” (Jo 1, 14) 

Ave-Maria, Senhora, cheia da graça de Deus. Pelo teu sim generoso abristes as portas dos Céus. Cantemos em honra do Verbo Eterno que veio acampar entre nós. Cantemos em honra da humilde serva do Senhor, que pelo seu “Fiat” se tornou Mãe do Redentor.

 

Cântico: Louvor e glória a Vós – J. F. Silva, NRMS, 1 (I)

 

O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós

e nós vimos a sua glória.

 

 

Evangelho

 

Lucas 1, 26-38

 

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”. 34Maria disse ao Anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?”. 35O Anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível”. 38Maria disse então: “Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra”.

 

A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma densidade tal, que cada palavra encerra uma riqueza e profundidade impressionante, o que condiz bem com o acontecimento mais assombroso e transcendente da História, a Incarnação do Filho eterno de Deus, quando o Eterno entra no tempo, o Criador se faz criatura! Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria!

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8,16-26; 9,21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia» (a nova tradução tem salve); cf. Mt 26,49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10,5); seria de preferir a tradução (como a italiana e a espanhola): «alegra-te» – a tradução literal do imperativo grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêem na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3,14; Jl 2,21-23; Zac 9,9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28,15), Moisés (Ex 3,12) e Gedeão (Jz 6,12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Nova Vulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1,12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1,18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1Sam 1,18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6,8) e Moisés (Ex 33,12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2Sam 7,8-16; Salm 2,7; 88,27; Is 9,6; Jer 23,5; Miq 4,7; Dan 7,14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7,14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1,2; Salm 104,30) e santificadora (cf. Act 2,3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; para a nova tradução propõe-se: «te envolverá»); o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40,34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Nova Vulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2,7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino, mas a nova tradução propõe serva. Com efeitos, Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus, que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).

 

Sugestões para a homilia

 

“O Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem, chamado José. O nome da virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo.»

 

“Ao entrar no mundo, Cristo disse: Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. Então Eu disse: Eis-Me aqui. Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade». (Hebr 10, 4-10)

 

 

“O Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré.”

1. Ao longo dos séculos, “de muitos modos e de muitas maneiras, Deus falou aos nossos pais através dos profetas.” Quando chegou a plenitude dos tempos, enviou-nos o seu próprio Filho. Deus Pai quis que a Encarnação fosse precedida da aceitação, por parte daquela que Ele tinha predestinado para ser a Mãe do Redentor, para que, “assim como uma mulher contribuiu para a morte, também outra mulher contribuísse para a vida.»[2] No momento da Anunciação, o Anjo Gabriel expõe à Virgem Maria os desígnios divinos: “Não temas, Maria porque encontraste graça diante de Deus.  Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus.”  Consciente, livre e generosamente, Ela aceitou o plano divino, tornando possível, pelo que a Ela competia, o mistério da Encarnação do Verbo. O filho de Deus fez-se Filho do Homem. O Deus Altíssimo torna-se “Emanuel, que quer dizer, Deus connosco. ”[3]

2. Quando recitamos os Mistérios gozosos do Rosário, no primeiro mistério contemplamos a Anunciação do Anjo a Nossa Senhora. São Lucas afirma que se informou cuidadosamente, consultando aqueles que “foram testemunhas oculares da vida de Jesus”, a fim de nos transmitir toda a verdade. (Lc 1, 2-3) A Virgem Maria “guardava todas as coisas no Seu Coração.” (Lc 2, 19) Sendo a Mãe de Jesus, Ela era a melhor testemunha para lhe revelar o mistério da Encarnação de seu filho.

São Lucas, apesar de não fazer parte dos Doze Apóstolos e de não ter conhecido pessoalmente o divino Mestre, estava próximo dos acontecimentos que marcaram a vida da Igreja nascente. Com a ajuda das “testemunhas oculares” e com a inspiração do Espírito Santo ele transmitiu-nos, nesta página do seu Evangelho, a beleza da Anunciação do Anjo Gabriel a Nossa Senhora. Revelou-nos o segredo do mistério da Encarnação do Filho de Deus, no seio da Virgem Maria. Com São Leão Magno contemplemos este mistério tão profundo do amor de Deus pelo mundo: “A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza pela força, a mortalidade pela eternidade. Numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na sua humanidade. Para saldar a dívida da nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à nossa natureza passível, a fim de que, como convinha para nosso remédio, “o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo”, pudesse ser submetido à morte como homem e dela estivesse imune como Deus.”

 

3. “O Anjo Gabriel foi enviado por Deus.” São Lucas também descreveu a Anunciação do Anjo Gabriel a Zacarias, pai de São João Baptista, o Precursor de Jesus. Reparemos no contraste entre a grandeza do Templo, a dignidade sacerdotal de Zacarias, que não acreditou e a humildade da Virgem Maria, “que acreditou no que lhe foi dito da parte do Senhor.” A Anunciação a Zacarias aconteceu no interior do Templo sagrado de Jerusalém, a cidade santa dos Judeus. A Anunciação à Virgem Maria aconteceu numa pequena casa, em Nazaré da Galileia, terra desprezada por ser habitada pelos gentios: “De Nazaré pode vir alguma coisa boa?” (Jo 1, 46) Nossa Senhora acreditou e respondeu prontamente ao mensageiro celeste: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim, segundo a tua palavra.”

 “O Filho de Deus entra na baixeza deste mundo, descendo do trono celeste, mas sem deixar a glória do Pai; sendo invisível em Si mesmo, torna-Se visível na nossa natureza; existindo antes do tempo, começa a viver no tempo; o Senhor do Universo toma a condição de servo. O Deus imortal submete-Se às leis da morte. Aquele que é Deus verdadeiro é também verdadeiro homem. Nem Deus sofre mudança com esta condescendência da sua misericórdia, nem o homem é destruído com a elevação a tão alta dignidade. Cada natureza realiza, em comunhão com a outra, aquilo que lhe é próprio: o Verbo realiza o que é próprio do Verbo, e a carne realiza o que é próprio da carne. A natureza divina resplandece nos milagres, a humana sucumbe nos sofrimentos. Jesus Cristo é verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro Filho do homem. É Deus, porque no princípio era o Verbo e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus; é homem, porque o Verbo Se fez carne e habitou entre nós.”[4]

 

Ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui; no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade.» (Heb 10, 4-10)

 

4. Diz a Liturgia do Advento acerca de Jesus: “Para salvar-nos todos do pecado, viestes até nós como um Cordeiro. Dum seio imaculado vós nascestes para Vos imolardes num madeiro.”[5]

 Celebramos o Mistério da Anunciação, hoje, Terça-feira da V semana da Quaresma. O próximo Domingo, é o Domingo de Ramos, ou da Paixão, o início da Semana Santa. O autor da Carta aos Hebreus põe na boca de Jesus estas palavras: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-me um corpo. Eis-me aqui. Eu venho, meu Deus, para fazer a Tua vontade.” Por nosso amor, Jesus morreu crucificado. Jesus entregou a sua vida pela redenção de todos. São Paulo apresenta-nos este total despojamento de Jesus: “Cristo Jesus, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte e morte de Cruz.” (Filipenses 2, 5-8)

 

5. Nos mistérios Gozosos do Rosário de Nossa Senhora, no quarto mistério, contemplamos a Apresentação de Jesus no Templo. Aqui encontramos uma referência ao futuro sofrimento de Jesus e de sua Mãe. Este mistério, conserva o sabor da alegria, que extasia o justo Simeão, mas antecipa já os sinais do drama da Paixão. “Simeão disse a Maria, sua Mãe: Este Menino será sinal de contradição. E uma espada de dor trespassará a tua alma.” (Lucas 2, 34). Aquilo que Simeão diz, apresenta-se como um segundo anúncio à Virgem Maria, indicando a dimensão histórica e concreta em realizará a sua missão: “A sua maternidade será obscura e marcada pela dor.”[6]

Na Sexta-feira Santa, encontramos a Virgem Maria, de pé, junto à Cruz de Jesus. Ela participou no mistério desconcertante do aniquilamento de Jesus. A Mãe participou na morte redentora do Filho. [7]

Ao longo do ano, a Liturgia celebra os mistérios da nossa Redenção e nós vamos seguindo as pegadas do itinerário percorrido pela Virgem Maria, desde a Anunciação ao Presépio, passando pela perda e encontro de Jesus no Templo de Jerusalém, Bodas de Caná e finalmente o momento doloroso do Calvário: «Ela avançou na peregrinação da fé, mantendo fielmente a união com o seu Filho, desde o berço em Belém até à Cruz, em Jerusalém.» [8]  Alegremo-nos com a Boa Nova trazida pelo Arcanjo Gabriel: “Não temas Maria, conceberás e darás à luz um filho a quem porás o nome de Jesus.”

“Ave-Maria, Senhora, cheia da graça de Deus,

pelo teu sim generoso, abristes as portas do Céu.”[9]

 

6. Estamos a viver um Ano dedicado a São José.[10] São Mateus descreve a Anunciação do Anjo a São José. Deus manifestou à Virgem Maria o seu plano de salvação e de igual modo também revelou a São José os seus desígnios por meio de um Anjo, durante o sono. São José sentiu um grande sofrimento com a gravidez de Maria, mas não querendo «difamá-la» decidiu «deixá-la secretamente.»[11] O Anjo ajudou-o a compreender a sua participação neste divino mistério da Encarnação do Verbo: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu pôr-lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.” São Lucas, por sua vez escreveu: “Quando se completaram os oito dias para o Menino ser circuncidado, deram-lhe o nome de Jesus, indicado pelo Anjo, antes de ter sido concebido no seio materno.” São José, homem justo, obedientíssimo e fidelíssimo, fez como o Anjo lhe ordenara e assumiu a paternidade legal. Deste modo, Jesus entrou no mundo, como Filho de José, da linhagem de David.

“O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados. Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do profeta que diz: A virgem conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emanuel, que quer dizer Deus connosco. Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa. E, sem que antes a tivesse conhecido, Ela deu à luz um filho, ao qual ele pôs o nome de Jesus.” [12]

 

 

Diz-se o Credo.

Às palavras «e encarnou ...», ajoelha-se.

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs em Cristo:

Unidos, pela fé, à Virgem Maria,

em cujo seio o Verbo Se fez carne para a salvação do mundo,

façamos subir ao Pai as nossas súplicas, dizendo

 (cantando), com alegria:

 

R. Interceda por nós a Virgem cheia de graça.

 

1. Para que a Igreja, dispersa pelo mundo,

anuncie fielmente Jesus Cristo,

 concebido no seio da Virgem Maria, por obra do Espírito Santo,

oremos, por intercessão de Maria.

 

2. Para que o Santo Padre, o Papa Francisco,

os bispos, os presbíteros e os diáconos,

amem a Deus de todo o coração

e exerçam o seu ministério imitando a Cristo,

oremos, por intercessão de Maria.

 

3. Para que em Cristo, servo obediente,

 que veio ao mundo para fazer a vontade do Pai,

 ofereçamos a Deus a nossa própria vida,

oremos, por intercessão de Maria.

 

4. Para que Jesus, Salvador do mundo,

cujo nome foi revelado pelo Anjo a José, o homem justo,

salve todos os homens dos seus pecados,

oremos, por intercessão de Maria.

 

5. Para que a Virgem Santa Maria, Mãe do ‘Emanuel’,

que nos foi dada por seu Filho como nossa Mãe,

nos acompanhe quer na vida quer na morte,

oremos, por intercessão de Maria.

 

6. Para que os cristãos de todas as Igrejas e os da nossa Diocese,

imitem Cristo no seu modo de viver,

oremos, por intercessão de Maria.

 

 Oremos: Infundi, Senhor, a vossa graça em nossas almas,

 para que a anunciação do Anjo,

que nos revelou a encarnação do vosso Filho,

e a intercessão da Virgem Santa Maria

 nos levem a contemplar a vossa glória.

Por Nosso senhor Jesus Cristo, Vosso Filho.

Que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Avé Maria, cheia de graça – M. Silva, CNPL, 225

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, os dons da vossa Igreja, que reconhece a sua origem na Encarnação do vosso Filho e fazei-lhe sentir a alegria de celebrar nesta solenidade os mistérios do seu Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio

 

O mistério da Encarnação

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor. Pela Anunciação do mensageiro celeste, a Virgem Imaculada acolheu com fé a vossa Palavra e pela acção admirável do Espírito Santo trouxe em seu ventre com amor inefável o Primogénito da nova humanidade, que vinha cumprir as promessas feitas a Israel e revelar-Se ao mundo como a esperança de todos os povos.

Por isso com os Anjos, que adoram a vossa majestade e exulta eternamente na vossa presença, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

Santo, Santo, Santo...

 

Santo: C. Silva – COM, (pg 193)

 

Monição da Comunhão

 

O nome de Jesus é um nome divino, indicado pelo Anjo, antes de ter sido concebido no seio materno. Em primeiro lugar, o Senhor deu a conhecer este nome à Virgem Maria: «O Anjo disse-lhe: conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus.» (Lc 1,31) Deus também revelou este nome divino a São José, durante o sono. “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu pôr-lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.” Jesus é o nome que está «acima de todo o nome», «o único nome pelo qual seremos salvos.» (Fil 2,9; At 4,12).

Rezemos agradecidos: Jesus, Filho do eterno Pai, filho de Maria, filho de José, filho de David; Jesus nascido em Belém, casa do pão; Jesus, Pão vivo descido do Céu, tende piedade de nós.

 

Cântico da Comunhão: Louvemos o Senhor, cantemos ao Senhor – J. Santos, NRMS, 81

Is 7, 14

Antífona da comunhão: A Virgem conceberá e dará à luz um Filho e o seu nome será Emanuel, Deus connosco.

 

Cântico de acção de graças: Alegrai-vos, ó Virgem Maria – M. F. Borda, NRMS, 41

 

Oração depois da comunhão: Confirmai em nós, Senhor, os mistérios da verdadeira fé, para que, tendo proclamado que Jesus Cristo, concebido da Virgem Maria, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cheguemos, pelo poder da sua ressurreição, às alegrias da vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Eva e Maria

“Jesus Cristo veio recapitular a desobediência cometida junto à árvore do paraíso terrestre, mediante a sua obediência na árvore da Cruz. As consequências da maldita sedução com que foi enganada Eva, a virgem destinada ao primeiro homem, foram anuladas por meio da mensagem bendita da verdade que o Anjo trouxe a Maria, também ela virgem, desposada com um homem. E assim, enquanto Eva, seduzida pela mensagem de um anjo, desobedeceu à palavra divina e se afastou de Deus, Maria, ao contrário, guiada pela anunciação de outro anjo, obedeceu à palavra divina e mereceu trazer a Deus em seu seio. Recapitulando em Si mesmo todas as coisas, o Senhor venceu aquele que ao princípio, por meio de Adão, havia feito de nós todos seus prisioneiros; e esmagou a sua cabeça, segundo estas palavras de Deus à serpente que se lêem no Génesis: “Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela; esta esmagará a tua cabeça enquanto tu tentarás ferir o seu calcanhar.”

Com tais palavras, se proclama de antemão que Aquele que havia de nascer da Mulher Virgem, feito homem como Adão, esmagaria a cabeça da serpente. É deste descendente que fala o Apóstolo na Epístola aos Gálatas: subsistiu a Lei até chegar o descendente para quem tinha sido feita a promessa. Exprime-se ainda com mais clareza o Apóstolo na mesma Epístola, ao dizer: Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher. O inimigo não teria sido derrotado com justiça, se o seu vencedor não tivesse sido um homem nascido de mulher, pois que desde o princípio ele se tinha oposto ao homem, dominando-o por meio da mulher.”[13]

 

Basílica da Anunciação, em Nazaré.

 “Como será isso se eu não conheço homem?” Ultrapassada a objecção, Maria responde: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra.”. Maria responde que Sim. Deus chama, mas não impõe. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada. É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática!

Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de Março de 1969 e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099, pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da actual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est. “Aqui, o Verbo se fez carne.”[14]

 

Cântico final: Rainha da graça – Az. Oliveira, NRMS, 75

 

 

Homilias Feriais

 

6ª Feira, 26-III: A vitória de Cristo sobre o demónio.

Jer 20, 10-13 / Jo 10, 31-42

Mas o Senhor está comigo como herói poderoso e os meus perseguidores cairão vencidos.

Este herói poderoso (LT) é o próprio Cristo, que veio à terra para vencer o demónio. No entanto, os judeus querem matá-lo, apedrejando-o (EV). Jesus venceu-o pela oração. Por isso, a nossa vida será sempre um combate, que venceremos igualmente com a oração. Na minha aflição, invoquei o Senhor (SR).

A Cruz é igualmente outro recurso para vencer o demónio. O sinal da Cruz manifesta a marca de Cristo impressa naquele que lhe pertence, e significa a graça da Redenção que Ele nos obteve na Cruz.

 

Sábado, 27-III: Meios para conseguir a unidade.

Ez 37, 21-28 / Jo 11, 45-56

Vou reuni-los de toda a parte. Farei deles um só povo.

Segundo esta profecia, Deus promete reunir os filhos de Israel, dispersos por toda a terra (LT). Mas Caifás diz que a unidade dos filhos de Israel será fruto da morte de Cristo, pois Ele provocava divisões entre o povo. No entanto, essa unidade será um dom do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, em que se reuniu uma enorme multidão de diferentes línguas.

A reza da oração do Pai-nosso é feita por todos os homens que andavam dispersos, para que se unam à volta do Pai comum (EV). Aquele que dispersou Israel vai reuni-lo (SR). Na Terra Santa há um espaço muito grande em que encontra esta oração em todas as línguas,

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:        José Roque

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:               José Carlos Azevedo

 



[1] Comentários de Santo Agostinho sobre os Salmos. Liturgia das Horas I, Ofício de Leituras, Quarta-feira  da, Segunda Semana do Advento.

[2] Lumen Gentium, 56

[3] Isaías 7, 14

[4] São Leão Magno, Liturgia das Horas, Oficio de Leituras, 25 de Março.

[5] Liturgia das Horas, Hino de Vésperas, Advento.

[6] São João Paulo II, Redemptoris Mater, nº 16

[7] Redemptoris Mater, 18

[8] Lumen Gentium, nº 58. João 19,25

[9] Liturgia das Horas, Anunciação do Senhor, Hino de Laudes.

[10] O Santo Padre, Papa Francisco, anunciou no dia da Imaculada Conceição, a convocação de um Ano dedicado a São José, para assinalar o 150.º aniversário da sua declaração como padroeiro da Igreja universal, feita pelo Beato Pio IX , a 8 de Dezembro de 1870. (Vaticano, 08 dez 2020.)

[11] Papa Francisco, Patris Corde, 3

[12] Mateus 1,18-25. Lucas 2, 21

[13]  Santo Ireneu, bispo, Tratado “Contra as heresias.” Liturgia das Horas Vol. I, Ofício de Leituras, Sexta-feira da II Semana do Advento.

[14] D. António Couto, Mesa de Palavras, Solenidade da Anunciação, 25 Março de 2020

 


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