5.º Domingo dA QUARESMA

21 de Março de 2021

 

Onde se fizerem os escrutínios preparatórios do Baptismo dos adultos, neste Domingo, podem utilizar-se as orações rituais e as intercessões próprias: p. 1063 do Missal Romano.

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Senhor são muitos os nossos pecados – J. Santos, NRMS, 53

Salmo 42, 1-2

Antífona de entrada: Fazei-me justiça, meu Deus, defendei a minha causa contra a gente sem piedade, livrai-me do homem desleal e perverso. Vós sois o meu refúgio.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Reunimo-nos para celebrar a Eucaristia do quinto domingo da Quaresma. A “Hora” de Jesus aproxima-se. Perante a proximidade da Sua Paixão, Jesus, vai indicar-nos qual o caminho dos que O procuram sinceramente: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto.

Deixemos que o Senhor inscreva a Sua nova lei no nosso coração para que as nossas vidas dêem fruto abundante.

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, concedei-nos a graça de viver com alegria o mesmo espírito de caridade que levou o vosso Filho a entregar-Se à morte pela salvação dos homens. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A aliança foi um eixo fundamental na história de Deus com o seu povo. No entanto, o povo quebrou muitas vezes essa aliança. Jeremias fala de uma Aliança Nova, escrita e gravada num coração novo.

 

Jeremias 31,31-34

 

31Dias virão, diz o Senhor, em que estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova. 32Não será como a aliança que firmei com os seus pais, no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egipto, aliança que eles violaram, embora Eu exercesse o meu domínio sobre eles, diz o Senhor. 33Esta é a aliança que estabelecerei com a casa de Israel, naqueles dias, diz o Senhor: Hei-de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. 34Não terão já de se instruir uns aos outros, nem de dizer cada um a seu irmão: «Aprendei a conhecer o Senhor». Todos eles Me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno, diz o Senhor. Porque vou perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas.

 

O nosso texto insere-se num conjunto de anúncios de restauração, tanto política como religiosa, o chamado Livro da Consolação de Jeremias (Jer 30,1 – 33,26). Os versículos da leitura são fulcrais na obra do profeta de Anatot: os seus apelos para «uma aliança nova» são considerados como o pivot da reforma religiosa do piedoso rei Josias, por isso se pensa que foi pronunciado logo no início da sua actuação como profeta. Este oráculo, tem uma importância central na Teologia do Novo Testamento, como uma das grandes profecias messiânicas. O povo de Israel tinha violado a aliança, não observando a Lei de Deus que no Sinai solenemente se comprometera a observar (Ex 24), por isso Deus já não estava, por assim dizer, obrigado a proteger este povo que se negava a ser de Yahwéh. Mas Ele não volta atrás no seu amor misericordioso, e anuncia que vai oferecer aos homens uma aliança «nova», isto é, definitiva, interior, pois gravada «no íntimo da alma… no coração» (v. 33) e que estabelece uma nova relação afectiva, de sincero e fiel amor, como o amor perfeito entre os esposos: «Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo» (v. 33; cf Os 2,21-22.25). Esta aliança de amor teve o seu pleno cumprimento em Jesus Cristo que selou a nova, definitiva e universal aliança com o seu próprio sangue (Hebr 9,12; Lc 22,20), tornando antiquada a aliança do Sinai (Hebr 8,6-13).

34 «Vou perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas». Trata-se de uma aliança que, além de nova, é renovadora, pois implica «a remissão dos pecados» (cf. Mt 26,28). A Liturgia, ao propor este texto em pleno tempo da Quaresma, presta-se a lembrar-nos o perdão que Deus concede no Sacramento da Reconciliação.

 

Salmo Responsorial    Salmo 50 (51), 3-4.12-13.14-15 (R. 12a)

 

Monição: Cantamos hoje o Salmo 50 (51), a súplica penitencial por excelência. Supliquemos ao Senhor nos lave de toda a iniquidade, crie em nós um coração puro e faça nascer dentro de nós um espírito firme.

 

 

Refrão:        Dai-me, Senhor, um coração puro.

 

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.

Lavai-me de toda a iniquidade

e purificai-me de todas as faltas.

 

Criai em mim, ó Deus, um coração puro

e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.

Não queirais repelir-me da vossa presença

e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

 

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação

e sustentai-me com espírito generoso.

Ensinarei aos pecadores os vossos caminhos

e os transviados hão-de voltar para Vós.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Jesus Cristo é o sumo-sacerdote da nova aliança que se solidariza com que Se solidariza com os homens e lhes aponta o caminho da salvação.

 

Hebreus 5,7-9

 

7Nos dias da sua vida mortal, Cristo dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte e foi atendido por causa da sua piedade. 8Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento 9e, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se para todos os que Lhe obedecem causa de salvação eterna.

 

Este texto pequeno, mas deveras impressionante – há mesmo estudiosos que o consideram um extracto de um antigo hino a Cristo –, é tirado da parte central do célebre sermão, que é esta epístola (Hebr 4,14 – 7,28), onde se desenvolve o tema do sacerdócio de Cristo, o sumo sacerdote perfeito, que supera completamente o sacerdócio levítico.

7 Este versículo parece evocar o relato da agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras (cf. Mt 26,36-44). «Preces e súplicas»: estas duas palavras sinónimas correspondem a uma expressão grega da época usada nos pedidos a uma alta autoridade; o uso do plural sugere a insistência na oração, segundo o «prolixius orabat» de Lc 22,43. «Com um grande clamor e lágrimas»; os ensinos rabínicos sobre a oração referem três graus ascendentes: a prece (em silêncio), os gritos, e as lágrimas (como a forma mais elevada da oração). Os Evangelhos só falam de um forte brado de Jesus, na Cruz (Lc 23,46), mas é de supor que se conhecessem pela tradição oral, pormenores da oração no horto que justificariam tão impressionante expressão.

«Foi atendido», em quê? É difícil de dizer, a tal ponto que Harnack pensa numa corrupção do texto original: «não foi atendido». Limitamo-nos a referir as explicações mais viáveis. Jesus não obteve a libertação do cálice de amargura, mas alcançou a coragem para enfrentar a sua Paixão identificando-se plenamente com a vontade do Pai. Ou então, como pensam outros, Jesus foi atendido ao ser livre da morte pela sua ressurreição, o que lhe permite exercer o seu sacerdócio eterno (cf. 7,24; 10,10), com efeito, «a sua morte era essencial para o seu sacerdócio, pois, se Ele não fosse salvo da morte pela ressurreição, não seria agora o sumo sacerdote do seu povo» (J. H. Neyrey).

8 «Aprendeu a obediência no sofrimento», ou, melhor, «por aquilo que sofreu», ou também, «aprendeu de quanto sofrera, o que é obedecer». Trata-se de uma aprendizagem não teórica, mas experimental, existencial. Aprender através do sofrimento era um lugar comum na literatura grega, e até havia esta máxima: «os sofrimentos são lições». O que aqui há de particular é a aplicação à aprendizagem da obediência. No entanto, a obediência de Jesus na sua Paixão só é referida em mais dois lugares do N. T.: Rom 5,19 e Filp 2,8. Não se pense que a Jesus, por ser Deus, Lhe custava menos o sofrimento, antes pelo contrário, pois o sofrimento é directamente proporcional à dignidade da pessoa que sofre.

9 «Tendo atingido a sua plenitude». Esta tradução não deixa ver uma das ideias centrais da epístola, que é a de «perfeição», pelo que seria preferível a tradução do Cón. Falcão, «tendo chegado à perfeição» ou a da Difusora Bíblica, «tornado perfeito». Note-se que a perfeição de que aqui se fala não é a do amadurecimento na virtude, mas a que advém a Jesus pelo exercício do seu sumo sacerdócio com a consumação da obra salvadora pela oferta do sacrifício da nova aliança: «a obediência de Jesus leva-o à sua consagração sacerdotal, que, por sua vez, O torna apto para salvar aqueles que Lhe obedecem» (The new Jerome Biblical Commentary, p. 929).

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 12, 26

 

Monição: O caminho da cruz parece, aos olhos do mundo, um caminho de fracasso e de morte; mas é desse caminho de amor e de doação é nesse grão de trigo lançado à terra, que brota a vida verdadeira e eterna que Deus nos quer oferecer.

 

Cântico: Louvor a Vós Rei da eterna glória – M. Simões, NRMS, 40

 

Se alguém Me quiser servir, que Me siga, diz o Senhor,

e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo.

 

 

Evangelho

 

São João 12,20-33

 

Naquele tempo, 20alguns gregos que tinham vindo a Jerusalém para adorar nos dias da festa, 21foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia, e fizeram-lhe este pedido: «Senhor, nós queríamos ver Jesus». 22Filipe foi dizê-lo a André; e então André e Filipe foram dizê-lo a Jesus. 23Jesus respondeu-lhes: «Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado. 24Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. 25Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. 26Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará. 27Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. 28Pai, glorifica o teu nome». Veio então do Céu uma voz que dizia: «Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l’O». 29A multidão que estava presente e ouvira dizia ter sido um trovão. Outros afirmavam: «Foi um Anjo que Lhe falou». 30Disse Jesus: «Não foi por minha causa que esta voz se fez ouvir; foi por vossa causa. 31Chegou a hora em que este mundo vai ser julgado. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo. 32E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim». 33Falava deste modo, para indicar de que morte ia morrer.

 

Estamos no final da 1ª parte do IV Evangelho, do chamado «livro dos sinais». Ouvem-se os últimos apelos de Jesus à fé, mas a multidão permanece dividida (v. 29), e a sua entrega à morte está iminente (vv. 31-33).

20 «Gregos»: não deveriam ser judeus de língua grega, nem prosélitos, mas simples tementes a Deus ou adoradores de Deus, isto é, uns gentios convertidos ao único Deus de Israel, sem no entanto se sujeitarem aos ritos judaicos como o da circuncisão (cf. Act 10,2; 13,16.26.50; 16,14; 17,4.17; 18,7).

21-22 «Filipe… André». Filipe é nome grego, bem como o de André, o que ajuda a explicar a mediação de ambos para um encontro com Jesus, pessoas mais acessíveis e compreensíveis para com os estrangeiros. Filipe, tendo em conta que Jesus só se dirigia aos judeus (cf. Mt 15,24; Mc 7,27), teve a prudência de tratar do assunto com o conselho de André. «Betsaida» não era rigorosamente da Galileia, mas da Gaulanítide, tetrarquia de Filipe, ficando a oriente da entrada do Jordão no lago de Genesaré. Alguns, para evitar que S. João pudesse ser acusado dum indesculpável erro geográfico, imaginam uma outra Betsaida ocidental. O mais natural é que os habitantes judeus de Betsaida se considerassem galileus, como o próprio Apóstolo Filipe, dando assim lugar a que se pudesse falar, impropriamente, de Betsaida da Galileia.

23-26 A «hora» da «glória» não é de modo nenhum a da glória humana, como poderia ser a da entrada triunfal em Jerusalém, mas a hora de dar a vida, de morrer para dar fruto; e, para o seguidor de Cristo, também já não lhe resta outra alternativa (cf. Jo 15,18-20). O sentido da morte de Jesus fica esclarecido com a comparação do «grão de trigo», que deve morrer para dar fruto; nisto está a sua glória e a glória dos seus seguidores. «Desprezar a vida», à letra, odiar:  de acordo com o uso semítico, odiar em oposição a amar, significa não dar grande valor ou amar menos (cf. Gn 29,31-33; Dt 21,15; Mt 6,24; Lc 14,26; 16,13).

27-28 «A minha alma está perturbada… Pai, salva-me…». Esta passagem faz pensar na agonia do Getxemaní relatada nos Sinópticos e a que S. João mal alude (18,11), a fim de que o leitor não se fixe em tão grande humilhação do Senhor no momento em que Ele avança para a glória da Cruz. Tenha-se na devida conta que em S. João glorificar tem frequentemente um sentido «manifestativo» (cf. 17,1-6.24-26), e o nome equivale à pessoa, por isso «glorifica o teu nome» equivale a manifesta a tua glória. A voz vinda do Céu era um grande motivo de credibilidade na época, a chamada bat-qol; esta ilumina com o sentido optimista da fé a Paixão e Morte do Senhor.

30-31 Agora, vai chegar (chegou, numa prolepse muito ao gosto de S. João) a «hora» de Jesus, a hora da glória, que é ao mesmo tempo de vida e salvação e, simultaneamente, de julgamento e condenação (cf. Jo 16,11). Ao terminar a primeira parte do Evangelho, esta alternativa, a que não se pode fugir, é posta em relevo (vv. 35-36.45-48): ninguém pode ficar na penumbra; tem de optar entre a Luz e as trevas. Mundo aqui identifica-se com os que rejeitam a fé e se situam no domínio tenebroso de Satanás (cf. Lc 4,5-6).

32 «Erguido da terra, no sentido físico – na Cruz – encerra um segundo sentido espiritual de exaltação e glória, que S. João quer acentuar (cf. Jo 3, 14; 8, 28; 18, 32). Há manuscritos que têm atrairei tudo, em vez de todos: Jesus crucificado exerce um poderoso atractivo sobre todas as almas sinceras, provocando uma resposta de amor incondicional, até que Ele venha a tornar-se o centro de tudo, de todas as actividades humanas e de todo o universo criado por Deus.

 

Sugestões para a homilia

 

À medida que nos aproximamos do final da Quaresma - esta é  a semana que antecede a celebração dos grandes acontecimentos em Jerusalém, em que o grão de trigo vai ser lançado à terra para morrer e deixar sair toda a força que traz dentro de si -, vai ficando, cada vez mais claro para nós o que nos espera: a proposta de uma Nova Aliança, gravada no coração; o Mandamento Novo do Senhor, uma nova gramática de vida: onde uma vida dada gera vida; uma vida entregue gera esperança e uma nova solidariedade, uma nova liberdade e uma nova comunidade.

Neste ponto do nosso caminhar a Liturgia pergunta-nos: que frutos tens produzido? Que mudanças aconteceram na tua vida e nas tuas relações com Deus e os irmãos? Os pobres e aflitos encontraram em ti um olhar que se compadece e um coração que vê e atua em consequência...? Também tu queres ver Jesus e aceitar a sua proposta de ser lançado à terra, perdendo a vida, para poder dar fruto abundante?

 

1. Dai-me, Senhor, um coração puro

Para que isso aconteça o Senhor propõe-nos, através do profeta Jeremias (1ª leitura), uma nova aliança. Ele quer imprimir a Sua Lei e preceitos no nosso coração e não em tábuas de pedra ou em rolos de papel. Ou seja, Deus quer que a sua Lei esteja onde nascem os pensamentos, onde se definem os valores, se decidem as ações e se assumem responsabilidades. Ele não quer que volte a acontecer connosco o que aconteceu com o povo da Aliança do Sinai que aderiu à aliança mas mais com a boca do que com o coração e por isso depressa a esqueceu e continuou a trilhar caminhos de infidelidade, de injustiça, de auto suficiência, de pecado.

Só com um coração puro, continua o profeta, tocado, purificado e transformado pela graça do Amor e da misericórdia de Deus, o crente poderá viver na fidelidade à Aliança, na obediência aos mandamentos e no respeito pela lei. Só assim ele será capaz de amar porque foi amado e perdoado por Deus.

Desafio: pede ao Senhor, como o salmista: dai-me, Senhor, um coração puro... e fazei nascer dentro de mim um espírito firme; acolhe e deixa-te transformar pelo dom de Deus; renuncia ao egoísmo e a esses caminhos de recusa e indiferença para que possas testemunhar a vida de Deus nos gestos simples do dia a dia.

 

2. Chegou a hora de ver para ser grão de trigo

O projeto de uma nova Aliança entre Deus e o seu povo concretiza-se em Jesus quando, chegou a hora em que o Filho do Homem foi glorificado. E, elevado na cruz, atraiu todos a si, deixando-se morrer na terra, como o grão de trigo para explodir em colheita abundante (Evangelho).

O episódio deu-se poucos dias antes dos acontecimentos da última Páscoa de Jesus. Há um grupo de gregos simpatizantes do judaísmo, que se encontra em Jerusalém para as festas pascais e adorar a Deus no templo. Mas eles desejam mais: querem ver Jesus, encontrar-se com Ele, conhecer o Seu projeto, tomar contacto com a proposta de Salvação que Ele veio oferecer, e, até quem sabe, acreditar nas Suas palavras, na vida renovada que Ele propõe e convida a abraçar. Filipe e André fazem chegar este pedido ao Mestre.

A resposta de Jesus à primeira vista é desconcertante: perante os pagãos que queriam conhecê-l’O, Jesus anuncia a sua morte. Jesus fala de si, fala dos seus clamores e lágrimas que ninguém vê, da Sua entrega iminente, fala da sua obra e do fim da Sua missão. E acrescenta: se quereis ver-me, olhai o grão de trigo... Se quereis compreender-me, olhai a cruz, porque, quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim.

Duas imagens, o grão de trigo e a cruz. É esta a autoapresentação de Jesus. É aí, nessa anulação que Jesus vê frutificar a abundância da Vida Nova. É crucificado que Jesus é elevado. E é na cruz que Ele se dá a ver, atraindo todos a si. Pois daí Ele lança o seu olhar à terra infértil dos nossos corações para torná-la fecunda e quebrar todas as durezas que impedem o germinar da graça e do amor. Dali ele nos olha e diz: confiança; Quem é totalmente livre do medo, quem se esquece dos seus interesses e seguranças, quem se compromete com a luta pela justiça, pela dignidade e liberdade do homem, quem ama tanto os outros que entrega a sua vida por eles, esse dará frutos de vida e viverá uma vida plena, quem nem a morte calará.

Desafio: “Queremos ver Jesus”, é o desejo que muitos homens e mulheres têm no íntimo do seu coração. A quem irão, para que os levem a Jesus? Podemos nós levar alguém a Jesus? Se alguém se aproxima de mim, descobre o rosto de um Deus capaz de dar a vida pela ovelha perdida? Capaz de se fazer próximo para cuidar e acompanhar, como o samaritano?

 

Fala o Santo Padre

 

«Que significa perder a vida? Significa pensar menos em si mesmo, nos interesses pessoais,

e saber “ver” e ir ao encontro das necessidades do nosso próximo, especialmente dos últimos.»

O Evangelho de hoje (cf. Jo 12, 20-33) narra um episódio ocorrido nos últimos dias da vida de Jesus. A cena desenrola-se em Jerusalém, onde Ele se encontra para a festa da Páscoa judaica. Para esta celebração ritual vieram também alguns gregos; trata-se de homens animados por sentimentos religiosos, atraídos pela fé do povo hebreu e que, tendo ouvido falar deste grande profeta, aproximam-se de Filipe, um dos doze apóstolos, e dizem-lhe: «Senhor, quiséramos ver Jesus» (v. 21). João realça esta frase, centrada no verbo ver, que no vocabulário do evangelista significa ir além das aparências para colher o mistério de uma pessoa. O verbo que João utiliza, “ver”, é chegar ao coração, chegar com a vista, com a compreensão até ao íntimo da pessoa, dentro da pessoa.

A reação de Jesus é surpreendente. Ele não responde com um “sim” nem com um “não”, mas diz: «Chegou a hora para o Filho do Homem ser glorificado» (v. 23). Estas palavras, que à primeira vista parecem ignorar a pergunta daqueles gregos, na realidade dão a verdadeira resposta, porque quem quiser conhecer Jesus deve olhar dentro da cruz, onde se revela a sua glória. Olhar dentro da cruz. O Evangelho de hoje convida-nos a dirigir o nosso olhar para o crucifixo, que não é um objeto ornamental nem um acessório de vestuário — por vezes abusado! — mas é um sinal religioso a ser contemplado e compreendido. No imaginário de Jesus crucificado desvela-se o mistério da morte do Filho como gesto supremo de amor, fonte de vida e de salvação para a humanidade de todos os tempos. Fomos curados nas suas chagas.

Posso pensar: “Como olho eu para o crucifixo? Como uma obra de arte, para ver se é bonito ou não? Ou olho para dentro, entro nas chagas de Jesus até ao seu coração? Olho o mistério de Deus aniquilado até à morte, como um escravo, como um criminoso?”. Não vos esqueçais disto: olhar para o crucifixo, mas olhar dentro dele. Há esta bela devoção de recitar um Pai-Nosso por cada uma das cinco chagas: quando rezamos aquele Pai-Nosso, tentemos entrar através das chagas de Jesus dentro, dentro, precisamente do seu coração. E ali aprendemos a grande sabedoria do mistério de Cristo, a grande sabedoria da cruz.

E para explicar o significado da sua morte e ressurreição, Jesus faz uso de uma imagem e diz: «Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto» (v. 24). Quer fazer compreender que a sua vicissitude extrema — ou seja, a cruz, morte e ressurreição — é um ato de fecundidade — as suas chagas sararam-nos — uma fecundidade que dará fruto para muitos. Deste modo, compara-se a si mesmo com o grão de trigo que, apodrecendo na terra, gera uma nova vida. Com a Encarnação Jesus veio sobre a terra; mas isto não é suficiente: Ele deve também morrer, para resgatar os homens da escravidão do pecado e lhes doar uma nova vida reconciliada no amor. Eu disse “para resgatar os homens”: mas, a fim de resgatar a mim, a ti, a todos nós, cada um de nós, Ele pagou aquele preço. Este é o mistério de Cristo. Vai rumo às suas chagas, entra, contempla; vê Jesus, mas a partir de dentro.

E este dinamismo do grão de trigo, que se realizou em Jesus, deve realizar-se também em nós seus discípulos: somos chamados a fazer nossa esta lei pascal do perder a vida para a receber nova e também eterna. E que significa perder a vida? Isto é, que significa ser o grão de trigo? Significa pensar menos em si mesmo, nos interesses pessoais, e saber “ver” e ir ao encontro das necessidades do nosso próximo, especialmente dos últimos. Cumprir com alegria obras de caridade a favor de quantos sofrem no corpo e no espírito é o modo mais autêntico de viver o Evangelho, é o fundamento necessário para que as nossas comunidades possam crescer na fraternidade e no acolhimento recíproco. Quero ver Jesus, mas vê-lo dentro. Entra nas suas chagas e contempla aquele amor do seu coração por ti, por ti, por ti, por mim, por todos.

A Virgem Maria, que sempre manteve o olhar do coração fixo no seu Filho, da manjedoura de Belém até à cruz no Calvário, nos ajude a encontrá-lo e a conhecê-lo assim como Ele deseja, para que possamos viver iluminados por Ele, e levar pelo mundo frutos de justiça e de paz.

 Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 18 de março de 2018

 

Oração Universal

 

Caríssimos irmãos e irmãs:

Oremos a Deus, nosso Pai,

que gravou a sua lei no íntimo dos corações,

e peçamos-Lhe a graça de O conhecer sempre melhor,

dizendo (ou: cantando), com alegria:

R. Ouvi-nos, Senhor.

Ou: Ouvi, Senhor, as nossas súplicas.

Ou: Senhor, tende piedade de nós.

 

1.     Pelos bispos, presbíteros, diáconos e catequistas,

para que falem aos homens do amor que Deus lhes tem

e da esperança pascal que o seu Filho trouxe ao mundo, oremos.

 

2.     Por todos os povos da terra,

para que vivam em paz e se desenvolvam,

na justiça, no respeito e na compreensão mútua, oremos.

 

3.     Por todos aqueles que desejam ver Jesus,

para que os cristãos os levem até Ele

pela forma como vivem o Evangelho, oremos.

 

4.     Pelos que trabalham e se cansam pelos outros,

para que recordem sempre que o grão lançado à terra,

morrendo, produz fruto abundante, oremos.

 

5.     Pelos fiéis da nossa comunidade (paroquial),

para que sigam a Cristo e O sirvam

nos mais pobres, nos doentes e nos que sofrem, oremos.

 

(Outras intenções: acontecimentos nacionais importantes; defuntos ...).

Deus, nosso Pai, escutai aqueles por quem o vosso Filho

aceitou cair na terra e morrer e fazei brotar em nossos corações

o desejo de seguirmos os seus passos. Por Cristo Senhor nosso.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Cruz fiel e redentora – M. Faria, NRMS, 25

 

Oração sobre as oblatas: Ouvi-nos, Senhor Deus omnipotente, e, pela virtude deste sacrifício, purificai os vossos servos que iluminastes com os ensinamentos da fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: J. F. Silva – NRMS, 38

 

Monição da Comunhão

 

Jesus quis dizer-nos alguma coisa com a pequena parábola do grão de trigo na terra. Se agora comungamos o Pão da Vida, é porque queremos ser como Ele.

 

Cântico da Comunhão: Tomai e Comei – J. F. Silva, NRMS, 25

Jo 12, 24-25

Antífona da comunhão: Em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará fruto abundante,

 

Cântico de acção de graças: O cálice de bênção – J. F. Silva, NRMS, 21

 

Oração depois da comunhão: Deus omnipotente, concedei-nos a graça de sermos sempre contados entre os membros de Cristo, nós que comungámos o seu Corpo e Sangue. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Para Jesus viver é entregar-se. Se queremos segui-l’O, não passemos por este mundo a pensar só em nós, na nossa comodidade e proveito. Estamos chamados a criar vida e brindá-la com alegria, sobretudo com os mais necessitados. Que o Senhor nos ajude.

 

Cântico final: Vós me salvastes Senhor – M. Simões, NRMS, 16

 

 

Homilias Feriais

 

5ª SEMANA

 

2ª Feira, 22-III: O perdão de Deus e a conversão.

Dan 13, 41-62 / Jo 8 1-1

Ninguém te condenou? Ela respondeu: Ninguém, Senhor. Vai e, doravante não tornes a pecar.

Susana foi acusada injustamente de um pecado de adultério e foi salva de morte pela intervenção do profeta Daniel (LT). O mesmo aconteceu à mulher adúltera, que foi salva da morte, imposta pela Lei, por Jesus, que lhe perdoou também os seus pecados, salvando-a de morte eterna (EV). Não temerei nenhum mal porque Deus está comigo (SR)

Jesus tem o poder de perdoar pecados e confere esse direito aos sacerdotes. Pede-se a conversão, que há-de levar o pecador a tudo suportar de bom grado: no seu coração, a contrição; na boca, a confissão; nas obras, a humildade e a satisfação.

 

3ª Feira, 23-III: Olha para a Cruz e o crucifixo.

Num 21, 4-9 / Jo 8, 21-30

Faz uma serpente de bronze e prende-a num poste. Todo aquele que, depois de mordido, olhar para ela, terá a vida salva.

Esta serpente é uma prefigura da Cruz de Cristo no Calvário. Já no Antigo Testamento, Deus tinha ordenado a instituição de imagens que conduziriam simbolicamente à salvação como, por exemplo, a serpente de bronze (LT). Lá do Céu, o Senhor olha para a terra (SR).

Olhemos especialmente para a Cruz, que Jesus pede que levantemos (EV), na celebração eucarística, na recepção do Sacramento da penitência e, para o nosso crucifixo. Assim nos lembraremos que os nossos sofrimentos são muito pequenos, comparados com os dEle, e ofereçamo-los pela salvação das almas.

 

4ª Feira, 24-III: A Verdade que liberta.

Dan 3, 14-20 / Jo 8, 31-42

Bendito seja o Deus de Sidrach. Mandou o seu Anjo, para livrar os seus servidores, que tiveram confiança nEle.

Embora sendo escravos do rei da Babilónia, os três jovens foram salvos e libertados pela sua confiança em Deus, que é a Verdade (LT). Bendito sejais Senhor, digno de louvor e glória para sempre (SR).

Jesus recorda também que é a Verdade que nos libertará (EV), e que Ele levou a cabo pela sua Paixão. Com a sua morte na Cruz, resgatou-nos do pecado, que nos mantinha na situação de escravidão. Procuremos chegar ao conhecimento da Verdade, contida nos ensinamentos de Jesus (EV), lendo e meditando os Evangelhos.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:        Avelino dos Santos Mendes

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:               José Carlos Azevedo

 


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