Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo

Missa da Vigília

24 de Dezembro de 2020

 

Esta Missa diz-se na tarde do dia 24 de Dezembro, antes ou depois das Vésperas I do Natal.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Ó Infante suavíssimo – M. Faria, NRMS, 4 

cf. Ex 16, 6-7

Antífona de entrada: Hoje sabereis que o Senhor vem salvar-nos. Amanhã vereis a sua glória.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Em cada família, as pessoas começam a reunir-se alegremente à volta da mesma mesa, para celebrar a festa do Natal, a festa do nascimento de Jesus Cristo, nosso Salvador.

Procura-se que ninguém falte a este encontro familiar, o mais intenso de todo o ano.

Diligenciemos para que não falte junto de nós Aquele cujo aniversário queremos celebrar. Ele quer estar presente na nossa amizade às pessoas, hoje renovada, no cuidado dois mais pequeninos e pobres e, sobretudo, na nossa alma em graça, para O podermos acolher em nós, pela Comunhão Sacramental. 

 

Ato penitencial

 

Peçamos ao Senhor que vem ao nosso encontro que lance um olhar de misericórdia para a nossa vida, ajudando-nos a reconhecer os nossos pecados, a arrependermo-nos e procurarmos emendar, para a que a nossa festa do Natal seja celebrada com toda a alegria.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos elementos para o esquema A)

 

Confessemos os nossos pecados...

Senhor, tende piedade de nós...

 

Glória a Deus nas alturas...

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que todos os anos nos alegrais com a esperança da salvação, concedei-nos a graça de vermos sem temor vir um dia como Juiz Aquele que em alegria recebemos como Redentor, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O profeta Isaías, numa profecia messiânica, fala da “impaciência” de Deus em vir salvar o Seu Povo.

Isaías coloca na boca de Deus expressões encantadoras dirigidas a Jerusalém: Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor, diadema real nas mãos do teu Deus. Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta»; mas hão-de chamar-te «Predilecta» e à tua terra «Desposada».

 

Isaías 62, 1-5

2Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação não resplandecer como facho ardente. 2Os povos hão-de ver a tua justiça e todos os reis da terra a tua glória. Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará. 3Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor, diadema real nas mãos do teu Deus. 4Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta»; mas hão-de chamar-te «Predilecta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predilecta do Senhor e a tua terra terá um esposo. 5Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.

 

Neste breve texto temos a mensagem centra da terceira parte de Isaías. É um belo canto à Jerusalém (Sião), que o Profeta anseia por ver renovada após a prova do exílio de Babilónia.

1 «A sua justiça», ao aparecer paralela a «a sua salvação» (1b) e a «a tua glória» (v. 2), vê-se que se trata duma justiça que visa mais a acção de Deus que salva e glorifica Jerusalém, do que o simples restabelecimento dos direitos espezinhados. Esta «justiça que desponta como a aurora» é o prenúncio e a figura da vinda de Jesus Cristo à terra, o «Sol da Justiça» (cf. Mal 3,20). A Vulgata (já não assim a Nova Vulgata) tinha personificado (na linha da Septuaginta) esta justiça e esta salvação, traduzindo por «justo» e «salvador» (iustus eius et salvator eius). Se o profeta, em primeira intenção, visa a restauração de Jerusalém após o exílio, a profecia tem o seu pleno cumprimento com a vinda do Messias.

4-5 «Abandonada»: Jerusalém, durante o exílio, é comparada a uma esposa abandonada. Este anúncio feliz tem um cumprimento imediato e imperfeito com o regresso do cativeiro de Babilónia, mas o seu pleno cumprimento dá-se na Igreja, a nova Jerusalém (cf. Apoc 21,2), a fiel «Esposa» de Cristo, «santa e imaculada» (Ef 5,27).

«O teu Construtor te desposará»: a Nova Vulgata, contra o que seria de esperar, manteve a tradução da Vulgata: «os teus filhos te desposarão», mas não assim as traduções modernas em geral (apesar da pontuação massorética); a confusão deve-se a que as mesmas consoantes hebraicas de bnyk, podem traduzir-se das duas maneiras, conforme as vogais adoptadas; a tradução grega dos LXX optou pela versão que fazia mais sentido, «o teu construtor», na linha tradicional de apresentar Deus como esposo do seu povo.

 

Salmo Responsorial    Sl 88 (89), 4-5.16-17. 27 e 29

 

Monição: O Espírito Santo convida-nos a entoar um cântico de louvor em honra do nosso Deus que hoje vai cumprir a Sua promessa de nos dar o Salvador.

Façamos deste salmo um belo canto do Natal, para agradecermos ao Senhor este dom inestimável de Jesus Cristo. Nosso Salvador.

 

Refrão:        Senhor, cantarei eternamente a vossa bondade.

 

Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor

e para sempre proclamarei a sua fidelidade.

Vós dissestes: «A fidelidade está estabelecida para sempre»,

no céu permanece firme a vossa fidelidade.

 

«Concluí uma aliança com o meu eleito,

fiz um juramento a David, meu servo:

‘Conservarei a tua descendência para sempre,

estabelecerei o teu trono por todas as gerações’».

 

Ele Me invocará: «Vós sois meu pai,

meu Deus, meu Salvador».

Assegurar-lhe-ei para sempre o meu favor,

a minha aliança com ele será irrevogável.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Paulo, em Antioquia da Pisídia, profere um testemunho vibrante sobre Jesus Cristo, o Prometido aos Patriarcas e anunciado pelos Profetas.

Deus cumpre sempre as Suas promessas, no momento que na Sua Sabedoria infinita, lhe parece que é oportuno.

 

Actos 13, 16-17.22-25

Naqueles dias, 16Paulo chegou a Antioquia da Pisídia. Uma vez em que ele estava na sinagoga, levantou-se, fez sinal com a mão e disse: «Homens de Israel e vós que temeis a Deus, escutai: 17O Deus deste povo de Israel escolheu os nossos pais e fez deles um grande povo, quando viviam como estrangeiros na terra do Egipto. 22Depois, com seu braço poderoso, tirou-os de lá. Por fim, suscitou-lhes David como rei, de quem deu este testemunho: ‘Encontrei David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará sempre a minha vontade’. 23Da sua descendência, Deus fez nascer, segundo a sua promessa, um Salvador, Jesus. 24João tinha proclamado, antes da sua vinda, um baptismo de penitência a todo o povo de Israel. 25Prestes a terminar a sua carreira, João dizia: ‘Eu não sou quem julgais; mas depois de mim, vai chegar Alguém, a quem eu não sou digno de desatar as sandálias dos seus pés’».

 

Temos aqui um pequeno extracto do primeiro discurso de Paulo em Actos: uma breve síntese da história da salvação, que culmina em Jesus Cristo. Foi seleccionada a parte do texto que põe em evidência que, de acordo com as promessas de Deus, «Jesus, é o Salvador de Israel», sendo «da descendência de David» (v. 23); o último elo da corrente profética que prepara a sua vinda é João.

16 Os «tementes a Deus» eram os gentios simpatizantes do judaísmo, que aderiam ao seu monoteísmo e esperança messiânica; embora não se sujeitassem às práticas da lei judaica, frequentavam a liturgia sinagogal.

22 «Encontrei David...» A citação profética não é literal, mas feita a partir do que se lê em 1Sam 13,14; 16,12-13; Salm 89(88),21.

25 «João dizia...» O testemunho do Baptista era de suma importância dada a sua fama de santidade, um testemunho posto em evidência por todos os evangelistas: Mt 3,11; Mc 1,7; Lc 3,16 e sobretudo por S. João (Jo 1,6-7.15.20-27).

 

Aclamação ao Evangelho

 

Monição: Chegou a hora feliz na qual o próprio deus em Pessoa vem ao nosso encontro para nos salvar.

Aclamemos o Evangelho que proclama, para nós, esta grande notícia e agradeçamo-la ao Senhor.

 

Aleluia

 

Cântico: Aleluia – C. Silva, OC (pg 534)

 

Amanhã cessará a malícia na terra

e reinará sobre nós o Salvador do mundo.

 

 

Evangelho *

 

* O texto entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido.

 

Forma longa São Mateus 1, 1-25           Forma breve: São Mateus 1, 18-25

[1Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão: 2Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judá e seus irmãos. 3Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara; Farés gerou Esrom; Esrom gerou Arão; 4Arão gerou Aminadab; Aminadab gerou Naásson; Naásson gerou Sálmon; Sálmon gerou, de Raab, Booz; 5Booz gerou, de Rute, Obed; Obed gerou Jessé; Jessé gerou o rei David. 6David, da mulher de Urias, gerou Salomão; 7Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; 8Asa gerou Josafat; Josafat gerou Jorão; Jorão gerou Ozias; 9Ozias gerou Joatão; Joatão gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; 10Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias; 11Josias gerou Jeconias e seus irmãos, durante o desterro de Babilónia. 12Depois do desterro de Babilónia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; 13Zorobabel gerou Abiud; Abiud gerou Eliacim; Eliacim gerou Azor; 4Azor gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; 15Eliud gerou Eleazar; Eleazar gerou Matã; Matã gerou Jacob; 16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. 17Assim, todas estas gerações são: de Abraão a David, catorze gerações; de David ao desterro de Babilónia, catorze gerações; do desterro de Babilónia até Cristo, catorze gerações].

18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». 22Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do profeta, que diz: 23«A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». 24Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa. 25E não a tinha conhecido, quando Ela deu à luz um filho, a quem ele pôs o nome de Jesus.

 

1-17 S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: «Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David» (v. 1). Como a linha genealógica passava pelo marido, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes, obedecendo a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim o número 14, reforçado pela sua tripla repetição – «catorze gerações» – (no v. 17), sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais), que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+[D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é logo anunciada na genealogia, que precede imediatamente a leitura de hoje, pois, para todos os seus elos, se diz «gerou», quando para o último elo não se diz que «gerou», mas: «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus» (v. 16, à letra «da qual foi gerado – entenda-se, por Deus – Jesus»).

18 «Antes de terem vivido em comum»: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

«Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo»: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (Lc 1,26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se «por virtude do Espírito Santo», não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra «espírito» (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera criaturas, Deus cria-as. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos.

19 «Mas José, seu esposo…». Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. A verdade é que não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois em face dos dados das suas fontes nem sequer disso precisava. Do texto parece depreender-se que Maria nada tinha revelado a José do mistério que nela se passava. José vem a saber da gravidez de Maria por si mesmo ou pelas felicitações do paraninfo (o amigo do esposo»), e o que devia ser para José uma grande alegria tornou-se o mais cruel tormento. Em circunstâncias idênticas, qualquer outro homem teria actuado drasticamente, denunciando a noiva ao tribunal como adúltera. Mas José era um santo, «justo» (v. 19), por isso, não condenava ninguém sem ter as provas evidentes da culpa. E aqui não as tinha e, conhecendo a santidade singular de Maria, não admite a mais leve suspeita, mas pressente que está perante o sobrenatural, já sentido por Isabel… (ou não teria tido alguma iluminação divina acerca da profecia de Isaías 7,14?…). Então só lhe restava deixar Maria, para não se intrometer num mistério em que julgava não lhe competir ter parte alguma. É assim que «resolveu repudiá-la em segredo» (v. 19), evitando, assim, «difamá-la» (colocá-la numa situação infamante) ou simplesmente «tornar público» («deigmatísai») o mistério messiânico. Mas podemos perguntar: porque não interrogava antes Maria para ser ela a esclarecer o assunto? É que pedir uma explicação já seria mostrar dúvida, ofendendo Maria; a sua delicadeza extrema levá-lo-ia a não a humilhar ou deixar embaraçada. E porque razão é que Maria não falou, se José tinha direito de saber do sucedido? Mas como é que Maria podia falar de coisas tão colossalmente extraordinárias e inauditas?! Como podia provar a José a Anunciação do Anjo? Maria calava, sofria e punha nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; e Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da sua concepção, podia igualmente vir a revelá-lo a José. De tudo isto fica para nós o exemplo de Maria e de José: não admitir suspeitas temerárias e confiar sempre em Deus.

20 «Não temas receber Maria, tua esposa». O Anjo não diz: «não desconfies», mas: «não temas». Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julga-se indigno de Maria e decide não se imiscuir num mistério que o transcende. Como explica S. Bernardo, S. José «foi tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, que a quis deixar ocultamente... José tinha-se, por indigno...». Segundo alguns exegetas modernos (Zerwick), o texto sagrado poderia mesmo traduzir-se: «embora o que nela foi gerado seja do Espírito Santo, Ela dar(-te-)á à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus, exercendo assim para Ele a missão de pai». Assim, o Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: «A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade... O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus».

23 «Será chamado Emanuel». No original hebraico de Isaías 7,14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqara’t referido a virgem, que é a que põe o nome = «e ela chamará»). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: «e chamarão»), um plural de generalização, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai «legal» de Jesus (notar que a célebre profecia isaiana, ao dizer que seria a virgem a pôr o nome ao seu filho até parece prestar-se a significar que este não nasceria de germe paterno). Mateus, em face do papel providencial desempenhado por S. José, não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Contudo, esta técnica do Evangelista para «actualizar» um texto antigo (chamada deraxe) não é arbitrária, pois baseia-se na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey («não leias»), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de «não ler» as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular na forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX: weqara’t «e tu chamarás»), mas de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqara’ta «e tu chamarás» – em hebraico há diferentes formas masculina e feminina para as 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, «com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: «e (tu, José) o chamarás».

Eis, a propósito, o maravilhoso comentário de S. João Crisóstomo, apresentando Deus a falar a José: «Não penses que, por ser a concepção de Cristo obra do Espírito Santo, tu és alheio ao serviço desta divina economia; porque, se é certo que não tens nenhuma parte na geração e a Virgem permanece intacta, não obstante, tudo o que pertence ao ofício de pai, sem atentar contra a dignidade da virgindade, tudo to entrego a ti, o pôr o nome ao filho. [...] Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer» (Homil. in Mt, 4).

25 «E não a tinha conhecido...». S. Mateus pretende realçar que Jesus nasceu sem prévias relações conjugais, mas por um milagre de Deus. Quanto à posterior virgindade o Evangelista não só não a nega, como até a parece insinuar no original grego, ao usar o imperfeito de duração («não a conhecia») em vez do chamado aoristo complexivo como seria de esperar, caso quisesse abranger apenas o tempo até ao parto (Zerwick). Uma tradução mais à letra seria «até que Ela deu à luz» (assim na nova tradução da CEP, em preparação), em vez de: «quando Ela deu à luz». De qualquer modo, esta afirmação não significa que depois já não se verificasse o que até este momento acontecera, como é o caso de Jo 9,18.

 

Sugestões para a homilia

 

• Deus vem salvar-nos

• Hoje cumpre a Sua promessa

 

. Deus vem salvar-nos

 

Depois das quatro semanas do Advento a preparar a vinda do Senhor, Isaías anuncia-nos que chegou a hora de Deus, o dia da Salvação.

A Sua vinda ao nosso encontro, revestido da natureza humana, para ser um de nós, deve-se à pura misericórdia do nosso Salvador.

Queremos a Salvação. Para que serviria a vida, se não me salvasse? Tudo ficaria sem sentido, oco e vazio. Quando olhamos a nossa vida à luz da fé, como quem está num tempo de prova a caminho da eternidade feliz; e de que a alternativa é tudo ou ada, a felicidade ou infelicidade para sempre, temos de rever as nossas escolhas e valores.

Deus promete-nos a felicidade perfeita, para sempre, e vem para no-la oferecer com insistência.

«Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação não resplandecer como facho ardente

Abramos o coração ao Menino. Diante do Presépio que inauguramos nesta noite, devemos fazer uma pergunta: O que é que realmente vale a pena? Somente o que é feito por amor de Deus.

E tudo na nossa vida pode ser feito com esta finalidade: o trabalho, a vida de família, as amizades e os momentos de lazer e descanso. Basta que coloquemos antes de tudo o desejo de fazer a vontade de Deus.

Queremos celebrar com alegria o Natal, porque damo valor à Salvação que Deus nos traz. Sem ela, que seria da nossa vida?

É para cada um de nós a promessa que o Senhor nos faz em Isaías: «Os povos hão-de ver a tua justiça e todos os reis da terra a tua glória

Somos a alegria do nosso Deus. Nada podemos dar ao Senhor. Mas Ele quer tornar-nos felizes para sempre.

Isaías recorre a imagens da vida corrente para nos ajudar a intuir a alegria com que o Verbo Incarnado vem ao nosso encontro.

«Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará. Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor, diadema real nas mãos do teu Deus

A Esperança da nossa Salvação há-de alimentar a nossa alegria, sejam quais forem as circunstâncias em que vivermos. Deus ama-nos e não desiste de nos amar!

Ele compara a alegria do nosso regresso aos Seus braços de Pai à de um jovem quando celebra a sua festa de casamento.

Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.

Teresa de Calcutá encontrou um velhinho que estava abandonado na rua, trouxe-o para casa, deu-lhe banho, vestiu-lhe roupa confortável e colocou-o a descansar numa cama.

Depois de tudo isto, aproximou-se dele e segredou-lhe ao ouvido. Deus ama-o porque Ele é o nosso Pai.

Percebeu que o idoso entendeu o que lhe dissera, porque sorriu com felicidade, como quem saboreia uma coisa muito boa. Depois, abrindo os olhos, pediu-lhe: Irmã, pode repetir-me esta coisa tão bela? Eu nunca a tinha ouvido!

Deus, porque nos ama e quer salvar-nos, vem ao nosso encontro feito uma criança.

 

2. Hoje cumpre a Sua promessa

 

Maria e José são as duas pessoas privilegiadas de que Deus quis servir-se para trazer até nós a felicidade da Salvação.

No final desta caminhada do Advento que, para Nossa Senhora e S. José, se prolongou por nove meses, Deus pediu-lhes uma colaboração especial no mistério da Redenção.

Jesus Cristo, um cidadão como nós. O Evangelho começa com uma lista de nomes, assinalando a Genealogia de Jesus Cristo.  Com isto, recordamos algumas verdades:

Jesus Cristo é verdadeiro Homem, sem deixar de ser verdadeiro Deus, porque descende de uma linhagem humana enunciada desde Abraão até Maria e José, passando por David.

Sendo assim, é verdadeiramente nosso irmão, porque assumiu em tudo a nossa condição humana, exceptuando o pecado.

Jesus é o Messias anunciado e prometido aos Patriarcas e lembrado constantemente pelos Profetas, Aquele por Quem suspiraram todos os justos do Antigo Testamento.

Maria, Mãe virginal do Redentor. Na Visitação de Maria a casa da Isabel, esta exclamou em alta voz: «donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?»

Desvendou, assim o grande mistério da maternidade de Maria que Ela recorda nas palavras do Arcanjo em Nazaré: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra. E eis que Aquele que vai nascer de ti será chamado Filho de Deus

E confirma a afirmação de Isabel, cantando o Magnifica, com profunda humildade.

O martírio do santo Patriarca. José debate-se entre várias grandes certezas: Maria vai ser Mãe do Filho de Deus e já O tem dentro de si; tem a certeza física, de que Aquele Menino não é seu filho, porque não o gerou; mas tem a certeza que Maria é fidelíssima e que, portanto, esta maternidade do Senhor é misteriosa.

E logo surge dentro dele uma certeza que o atormenta: acha que é um intruso num lugar que não lhe pertence e do qual se deve retirar quanto antes, para não se opor aos planos de Deus.

Como poderá responder com verdade à interpelação do chefe da Sinagoga de Nazaré, quando for interrogado oficialmente se a criança é seu filho, sem prejudicar o bom nome de Maria?

Mas, como fazê-lo, sem beliscar o bom nome da sua noiva, se disser que o Menino não é seu filho? Jesus é o único a ser concebido pela força do Espírito Santo. Os homens não compreenderiam este mistério.

José e Maria sofrem em silêncio. Que adiantaria Nossa Senhora explicar a José o que se passava? Reza silenciosamente, para que Deus lhes valha.

José, por sua vez, refugia-se na oração, porque está disposto a fazer sempre e em tudo a vontade do Senhor, mas não sabe como há-de fazer e não quer dar um passo errado.

O sacrifício de Abraão. O que José se propõe, convencido de que O Senhor lhe pede isso mesmo – deixar Maria em segredo – faz desabar sobre a sua cabeça todo o odioso dos amigos e conhecidos. Quem diria – pensam e afirmarão – que este jovem iria abandonar a noiva, depois de A ter deixado grávida, quando Ela mais precisa de amparo?

Deus permite que José caminhe até ao limite do sacrifício, mas não o deixa consumá-lo, como fez a Abraão.

A luz brilha na noite. Deus nunca se esquece de nós, nunca se atrasa nem adia a Sua ajuda.

No momento próprio, o Anjo fala em sonhos a José, dissipando todas as sombras e dúvidas.

De repente, a noite faz-se dia. José levanta-se com a felicidade no rosto e prepara tudo para a celebração do matrimónio dentro do qual o redentor do mundo vai nascer.

Maria agradece intimamente ao Senhor a luz comunicada a José e ultima os preparativos para o nascimento de Jesus.

Com Maria e José, preparemos também o nosso Natal.

 

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs em Cristo:

O Evangelho da genealogia de Jesus

lembrou-nos as muitas gerações

que esperaram a vinda d o Salvador.

Como elas, também nós oramos a Deus, (cantando):

 

    Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor.

 

1. Pela Igreja, povo de Deus da Nova Aliança, que recebeu um nome novo,

    para que seja o encanto do Senhor, esposa santa, fecunda e muito amada,

    oremos, irmãos.

 

    Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor.

 

2. Pelos homens e mulheres do mundo inteiro que procuram a Jesus Cristo,

    para que sintam a verdadeira paz, que Ele nos ensinou, ao nascer pobre,

    oremos, irmãos.

 

    Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor.

 

3. Pelo povo de Israel deste tempo, com quem Deus fez aliança irrevogável,

    para que descubra em Jesus, o Salvador prometido que nos veio libertar,

    oremos, irmãos.

 

    Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor.  

 

4. Pelas mães que estão prestes a dar à luz, e pelos bebés recém-nascidos,

    para que sejam a alegria do nosso Deus e o consolo dos pais felizes,

    oremos, irmãos.

 

    Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor.

 

5. Pelas famílias da nossa comunidade que preparam a festa deste Natal,

    para que, n’Aquele que vai nascer, O acolham também nos mais pobres,

    oremos, irmãos.

 

    Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor.

 

6. Pelos que desde o último Natal foram chamados por Deus à eternidade.

    Para que o Senhor misericordioso lhes conceda, neste Natal, o Paraíso,

    oremos, irmãos.

 

    Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor.

 

Atendei, Senhor, a voz do povo

que Vos invoca nesta vigília do Natal

e concedei-lhe generosamente

a graça de ver despontar, como a aurora,

o Menino que a Virgem lhe vai dar.

Ele que vive e reina por todos os séculos dos séculos.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Hoje, a última e definitiva Palavra do Pai vem ao nosso encontro, renovando o mistério do Seu nascimento em Belém.

Hoje vai tornar-Se Alimento Divino na Santíssima Eucaristia, para nos fortalecer nesta caminha para o Céu.

 

Cântico do ofertório: Ó noite, trevas e nuvens – M. Faria, NRMS, 16

 

Oração sobre as oblatas: Concedei, Senhor, ao vosso povo a graça de celebrar com renovado fervor a vigília da grande solenidade, na qual nos revelais o princípio da nossa redenção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio do Natal: p. 457[590-702] ou 458-459

 

No Cânone Romano, diz-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) próprio. Também nas Orações Eucarísticas II e III se faz a comemoração própria: Reunidos na vossa presença.

 

Santo: A. Cartageno – COM, (pg 189)

 

Saudação da Paz

 

A paz pela qual suspiraram tantas gerações vai, felizmente chegar à terra, como dom de Jesus Menino.

Ele fez-Se criança, para nos convencer a não ter medo, pois os pequeninos infundem-nos paz.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

O Senhor do Universo fez-Se Carne, pelo mistério da incarnação, para Se nos poder dar como Pão da Eucaristia.

Recebamo-l’O com profunda gratidão e Amor e peçamos-Lhe que tire do nosso coração toda a sombra de pecado.

 

Cântico da Comunhão: Anjos do Céu a cantarM. Faria, 20 cânticos para a Missa

cf. Is 40, 5

Antífona da comunhão: Brilhará a glória do Senhor e toda a terra verá a salvação de Deus.

 

Cântico de acção de graças: Feliz és Tu porque acreditaste – C. Silva, OC

 

Oração depois da comunhão: Fortalecei, Senhor, os vossos fiéis na celebração do nascimento do vosso Filho Unigénito, que neste divino sacramento Se fez nossa comida e nossa bebida, Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Celebremos com alegria a Ceia de Natal, colocando Jesus Menino no centro da nossa festa de família.

 

Cântico final: Por vós esperamos - M. Faria, 20 cânticos para a Missa

 

 

Nas Missas celebradas no dia do Natal, utilizam-se os formulários a seguir indicados, podendo-se escolher os textos mais aptos de uma das três Missas, conforme for pastoralmente mais oportuno para cada assembleia.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:       Fernando Silva

Nota Exegética:                Geraldo Morujão

Sugestão Musical:            José Carlos Azevedo

 


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