Comemoração de todos os fiéis Defuntos

1.ª Missa

2 de Novembro de 2020

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Felizes os mortos, F. dos Santos, NRMS 19-20

cf. 1 Tess 4, 14; 1 Cor 15, 22

Antífona de entrada: Assim como Jesus morreu e ressuscitou, também aos que morrem em Jesus, Deus os levará com Ele à sua glória. Se em Adão todos morreram, em Cristo todos voltarão à vida.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Hoje a Santa Igreja convida-nos a recordar os nossos irmãos defuntos e a meditar sobre a nossa finitude, sobre a precariedade da nossa vida terrena.

 

Oração colecta: Deus, Pai de misericórdia, escutai benignamente as nossas orações, para que, ao confessarmos a fé na ressurreição do vosso Filho, se confirme em nós a esperança da ressurreição dos vossos servos. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Job manifesta, no meio de tremenda tribulação, uma confiança absoluta no seu redentor e uma firme esperança na sua própria libertação, através da futura ressurreição.

 

Job 19, 1.23-27a

1Job tomou a palavra e disse: 23«Quem dera que as minhas palavras fossem escritas num livro, ou gravadas em bronze 24com estilete de ferro, ou esculpidas em pedra para sempre! 25Eu sei que o meu Redentor está vivo e no último dia Se levantará sobre a terra. 26Revestido da minha pele, estarei de pé na minha carne verei a Deus. 27aEu próprio O verei, meus olhos O hão-de contemplar».

 

Este pequeno trecho, de irregular transmissão textual, é um dos mais citados pela tradição cristã; corresponde à resposta de Job às acusações dos seus amigos; é um hino de esperança e confiança em Deus no meio do seu atroz sofrimento, um hino que fica bem realçado, ao dizer: «palavras escritas… esculpidas em pedra para sempre».

25 «E no último dia Se levantará sobre a terra». Esta última reformulação da tradução litúrgica – que antes já tinha abandonado o texto latino da Vulgata para se cingir ao texto hebraico massorético – parece ter querido recuperar um sentido escatológico (o da ressurreição final), ao não referir o adjectivo «último» a Deus, mas sim a «dia» (substantivo que não aparece no hebraico, mas que S. Jerónimo subentendeu). No entanto, o verbo «Se levantará» (que S. Jerónimo traduziu na 1ª pessoa, referindo-o a Job) segue o texto hebraico.

26 «Na minha carne verei a Deus». O texto massorético tem o seguinte sentido: ainda nesta vida (com a minha carne já curada) hei-de sentir a protecção de Deus, o seu amor e bondade (é este o sentido corrente no A. T. de «ver a Deus»). A verdade é que a nova tradução litúrgica, baseada na pauta da Neovulgata, quis manter o sentido escatológico do texto, de acordo com o antigo uso do texto na Liturgia dos defuntos. De facto, quando o justo que sofre (Job), haverá de ver plenamente a Deus com a sua carne, será na Ressurreição (ainda que a doutrina da ressurreição não apareça no livro de Job e seja algo ao arrepio desta obra). A Vulgata de S. Jerónimo tinha uma tradução que hoje nenhum crítico segue: «Eu sei que o meu Redentor vive e que no último dia eu hei-de ressuscitar da terra e serei novamente revestido da minha pele e com a minha própria carne verei o meu Deus». A verdade, porém, é que estamos diante duma passagem que oferece bastantes dificuldades para a reconstituição do texto original e a Neovulgata optou por um texto aberto a um sentido escatológico, semelhante ao da tradução litúrgica que aqui temos.

 

Salmo Responsorial     Sl 26 (27), 1.4.7 e 8b e 9a.13-14 (R. 1a ou 13)

 

Monição: Este Salmo canta a nossa esperança. Na casa do Senhor, para onde caminhamos, contemplaremos a face do mesmo Senhor e gozaremos da suavidade de Sua amorosíssima presença.

 

Refrão:         Espero contemplar a bondade do Senhor

                      na terra dos vivos.

 

Ou:                O Senhor é a minha luz e a minha salvação.

 

O Senhor é minha luz e salvação:

a quem hei-de temer?

O Senhor é o protector da minha vida:

de quem hei-de ter medo?

 

Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio:

habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida,

para gozar da suavidade do Senhor

e visitar o seu santuário.

 

Ouvi, Senhor, a voz da minha súplica,

tende compaixão de mim e atendei-me.

A vossa face, Senhor, eu procuro:

não escondais de mim o vosso rosto.

 

Espero vir a contemplar a bondade do Senhor

na terra dos vivos.

Confia no Senhor, sê forte.

Tem coragem e confia no Senhor.

 

Segunda Leitura

 

Monição: São Paulo apresenta-nos a brevidade e provisoriedade desta vida, que nos deverá impelir para nos prepararmos bem para a vida verdadeira e definitiva que esperamos com a nossa ressurreição em Cristo.

 

2 Coríntios 4, 14-18 – 5, 1

14Como sabemos, irmãos, Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele. 15Tudo isto é por vossa causa, para que uma graça mais abundante multiplique as acções de graças de um maior número de cristãos para glória de Deus. 16Por isso, não desanimamos. Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia. 17Porque a ligeira aflição dum momento prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória. 18Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. 5, 1Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens.

 

A leitura é duma grande riqueza doutrinal e projecta a luz da fé sobre o mistério da morte, um mistério a que ninguém pode fechar os olhos, sobretudo na comemoração do dia de hoje. A esperança da ressurreição e da glória do Céu, que animava o Apóstolo Paulo, é a mesma que nos anima a nós.

16 «Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia». A antítese «homem exterior» «homem interior» visa a oposta dualidade da antropologia teológica paulina, mais do que a dualidade da antropologia filosófica grega, embora sem prescindir dela. O homem exterior é o ser humano considerado na sua mortalidade, votado à ruína e decomposição física (cf. v. 7: um frágil «vaso de barro»), em contraste com o homem interior, que aqui, mais do que a imortalidade da filosofia grega (a athanasía: cf. 1Cor 15,53-54; 1Tim 6,16), parece indicar a vitalidade sobrenatural imperecível infundida no Baptismo, um princípio de santificação que possibilita que o homem regenerado se vá renovando de dia para dia, identificando-se cada vez mais com Cristo ressuscitado. A vida dos santos demonstra esta afirmação paulina: à medida que os seus corpos se vão consumindo por sofrimentos e penitências corporais, renova-se a sua juventude de alma, a sua alegria. A propósito destas noções, temos que reconhecer que Paulo não utiliza nos seus escritos um modelo antropológico único; com efeito, embora a sua formação seja radicalmente hebraica, ele, ao dirigir-se ao mundo helenístico, também se serve de categorias do pensamento filosófico grego corrente. Daqui provém, às vezes, alguma dificuldade de interpretação dos seus textos, cuja antropologia não se pode absolutizar.

5,1 «Tenda... morada terrestre...» Tenda (skênos), designa no mundo grego o corpo, como invólucro da alma, uma alusão ao carácter provisório da nossa morada terrestre, em contraposição com o corpo já ressuscitado e glorioso, à maneiro do de Cristo. Que Paulo admite uma escatologia individual e intermédia, distinta da ressurreição final, é uma coisa que fica bem clara neste mesmo capítulo 5 da 2ª aos Coríntios «preferimos exilar-nos do corpo para ir morar junto de Cristo» (cf. Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé em 17-5-79; ver texto em CL, ano C (1979-80), n.º 11/12, pp. 1698-1700).

 

Aclamação ao Evangelho        cf. Mt 11, 25

 

Monição: Em Cristo, a morte torna-se descanso na esperança da ressurreição!

 

Aleluia

 

Cântico: C. Silva/A. Cartageno, COM, (pg 113)

 

Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra,

porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 11, 25-30

25Naquele tempo, Jesus exclamou: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. 26Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado. 27Tudo Me foi dado por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. 30Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

 

A leitura é uma das mais belas orações de Jesus que aparecem nos Evangelhos, um hino de louvor e de acção de graças, que também aparece em Lc 10,21-24.

25-27 «Sábios e inteligentes» (prudentes) são os sábios orgulhosos, que confiam apenas na sua sabedoria; autossuficientes, julgam poder salvar-se com os seus próprios recursos de inteligência e poder. Os «pequeninos» são os humildes, abertos à fé, capazes de visão sobrenatural. A revelação divina só pode ser aceite e captada pela fé. Uma ciência soberba impede de aceitar a loucura divina da Cruz (cf. 1Cor 1,19-31). Jesus reivindica para Si um conhecimento do Pai (Deus) perfeitamente idêntico ao conhecimento que o Pai tem do Filho (Jesus), e isto porque Ele, e só Ele, é o Filho, igual ao Pai, Deus com o Pai.

28-30 Palavras estas maravilhosas, que nos patenteiam os sentimentos do Coração de Cristo. O povo andava «cansado e oprimido» com as minuciosas exigências da lei antiga e das tradições que os fariseus e doutores da lei impunham com todo o rigorismo do seu frio e insuportável legalismo que oprimia a liberdade interior e roubava a paz ao coração. Jesus não nos dispensa de levar o seu «jugo» e a sua «carga», mas não quer que nos oprima, pois quer que O sigamos por amor, e «para quem ama é suave; pesado, só para quem não ama» (Santo Agostinho, Sermão 30, 10). O mesmo Santo Agostinho comenta esta passagem: «qualquer outra carga te oprime e te incomoda, mas a carga de Cristo alivia-te do peso. Qualquer outra carga tem peso, mas a de Cristo tem asas. Se a uma ave lhe tirares as asas, parece que a alivias do peso, mas, quanto mais lhas tirares, mais esta pesa; restitui-lhe o peso das suas asas, e verás como voa» (Sermão 126, 12).

 

(N. B. — Há outras possibilidades de leituras para a 2ª e a 3ª Missa)

 

Sugestões para a homilia

 

As verdades reveladas por Cristo só são captáveis por quem tem um coração manso e humilde, por quem aprende com Jesus. Pois Ele fez-Se pequeno, inclinou-Se à nossa condição mortal, para nos elevar até Deus. É este o sentido da sua morte e ressurreição, da nossa morte e ressurreição n’Ele. São Leão Magno expressa bem esta realidade:

«O Filho de Deus... uniu-Se a nós e vinculou-nos a Si de tal modo que a humilhação de Deus até à condição humana se tornasse uma elevação do homem até às alturas de Deus. (…)

A nossa participação no Corpo e Sangue de Cristo age de tal forma que nos transformamos n'Aquele que recebemos.

O Corpo que foi deitado sem vida no túmulo é o nosso. O Corpo que ressuscitou no terceiro dia é o nosso. O Corpo que subiu acima de todas as alturas do Céu para a direita da Glória do Pai é o nosso. Se, então, andarmos no caminho dos Seus Mandamentos, e não nos envergonharmos de reconhecer o preço que Ele pagou pela nossa Salvação num humilde Corpo, também nós ressuscitaremos para participar da Sua Glória. A promessa que Ele fez será cumprida aos olhos de todos: 'Quem Me reconhecer diante dos homens, também Eu o reconhecerei diante do Meu Pai, que está nos Céus.'» (S. Leão Magno, Sermões).

 

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs,

oremos a Deus, nosso Pai, Senhor da vida e da morte,

pedindo-Lhe que dê o descanso eterno a todos os Fieis Defuntos,

e a consolação aos que os choram, dizendo:

 

R. Senhor dos vivos e dos mortos, escutai-nos!

 

1.     Pela Santa Igreja, Mãe e Mestra da verdade

para que ampare sempre os seus filhos neste mundo,

e interceda por aqueles que já partiram,

oremos, irmãos,

 

R. Senhor dos vivos e dos mortos, escutai-nos!

 

2.     Para que os nossos familiares defuntos,

e todos aqueles de quem já ninguém os recorda,

para que possam já contemplar o rosto de Cristo glorioso,

oremos irmãos,

 

R. Senhor dos vivos e dos mortos, escutai-nos!

 

3.     Para que todas as famílias que estão tristes,

Recordem os seus defuntos com amor,

e com esperança peçam por eles ao Pai do Céu,

oremos, irmãos,

 

R. Senhor dos vivos e dos mortos, escutai-nos!

 

 

4.     Para que todos nós, fieis de Jesus Cristo,

recebamos d’Ele o sentido cristão da vida

e nos empenhemos em viver como Ele nos ensinou,

oremos, irmãos,

 

R. Senhor dos vivos e dos mortos, escutai-nos!

 

5.     Para que os membros da nossa comunidade

possam contemplar com alegria no Céu,

o rosto de Cristo ressuscitado,

oremos irmãos,

 

R. Senhor dos vivos e dos mortos, escutai-nos!

 

 

Deus eterno e todo poderoso

Senhor dos vivos e dos mortos,

pela vossa misericórdia e com a intercessão de Todos os Santos,

concedei àqueles por quem oramos, vivos e defuntos,

o perdão dos seus pecados e a vida eterna.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso – A. Oliveira, NRMS, 42

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai com bondade, Senhor, as nossas ofertas e fazei que os vossos fiéis defuntos sejam recebidos na glória do vosso Filho, a quem nos unimos neste sacramento de amor. Por Nosso Senhor...

 

Santo: C. Silva – COM, (pg 193)

 

Monição da Comunhão

 

Que a comunhão do Corpo e Sangue de Cristo nos prepare para alcançarmos a herança eterna!

 

Cântico da Comunhão: Eu sou a ressurreição e a vida – M. Faria, NRMS, 19-20

Jo 11, 25-26

Antífona da comunhão: Eu sou a ressurreição e a vida, diz o Senhor. Quem crê em Mim, ainda que tenha morrido, viverá. Quem vive e crê em Mim viverá para sempre.

 

Cântico de acção de graças: Deus nos visitou – M. Simões, NRMS, 2 (I)

 

Oração depois da comunhão: Concedei, Senhor, que os vossos servos defuntos por quem celebrámos o mistério pascal sejam conduzidos à vossa morada de luz e de paz. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Tendo participado no sacrifício do calvário e no banquete das núpcias do Cordeiro, em que Cristo, morto e ressuscitado, Se torna nosso alimento e garantia da nossa ressurreição, anunciemos pelo mundo esta esperança e que Ele seja o conforto e a esperança de quantos perderam os seus entes queridos!

 

Cântico final: Eu sei que o meu redentor vive – M. Faria, NRMS, 19-20

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         José Tiago Varanda

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                José Carlos Azevedo

 


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