Solenidade de todos os santos

1 de Novembro de 2020

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Eu vi a cidade santa – A. F. Santos, CNPL, 460

 

Antífona de entrada: Exultemos de alegria no Senhor, celebrando este dia de festa em honra de Todos os Santos. Nesta solenidade alegram-se os Anjos e cantam louvores ao Filho de Deus.

 

Diz-se o Glória

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Muitas pessoas interrogam-se hoje sobre o sentido da vida e mesmo até se vale a pena viver. Esta pergunta é mais dolorosa quando se trata de uma pessoa doente, humanamente sem futuro, ou mesmo diminuída a tal ponto que a comunidade humana rejeita-a, como acontece com algumas crianças que nascem com incapacidades graves.

A solenidade de Todos os Santos, quase ao terminar o Ano Litúrgico, vem recordar-nos que a vida humana é um dom de Deus e tem sentido e valor. Estamos de passagem na terra, em tempo de prova, mas a nossa verdadeira Pátria, na comunhão da Verdade e do Amor, é o Céu para sempre.

 

Acto penitencial

 

Vivemos demasiado voltados para a terra, como se não houvesse horizontes mais altos. Passamos sem sonhos, nem altas aspirações e faltas de esperança e de alegria.

Peçamos humildemente perdão desta prática falta de fé e peçamos ao Senhor ajuda para levantarmos o olhar para Ele.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos como sugestão, o esquema A)

 

Confessemos os nossos pecados...

Senhor, tende piedade de nós...

Glória a Deus nas alturas...

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que nos concedeis a graça de honrar numa única solenidade os méritos de Todos os Santos, dignai-Vos derramar sobre nós, em atenção a tão numerosos intercessores, a desejada abundância da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: S. João, no Apocalipse, apresenta-nos um vislumbre dos bem-aventurados no Paraíso.

A Igreja convida-nos hoje a pensar que também nós um dia, se nos portarmos como bons filhos de Deus, faremos parte da corte celeste.

 

Apocalipse 7, 2-4.9-14

2Eu, João, vi um Anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em alta voz aos quatro Anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: 3«Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus». 4E ouvi o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. 9Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. 10E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro». 11Todos os Anjos formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo: 12«Amen! A bênção e a glória, a sabedoria e a acção de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amen!». 13Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». 14Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro».

 

Numa grandiosa visão, o vidente de Patmos deixa ver que no meio de tantas desgraças e ainda antes que cheguem as piores, as que correspondem à abertura do 7º selo (cap.8), os cristãos, que formam uma imensa multidão, estão sob a protecção de Deus, mesmo quando perseguidos e sujeitos ao martírio.

2-4 «O selo (o sinete de marcar) do Deus vivo». Alusão ao timbre então usado pelos monarcas para imprimir o sinal de propriedade ou autenticidade; por vezes os escravos e soldados eram marcados na pele com um ferro em brasa. O símbolo está tomado destes costumes da época e sobretudo da profecia de Ezequiel (Ez 9,4-6), por isso alguns Padres viram nesta marca, em forma de cruz (pela alusão ao tav de Ezequiel, a última consoante hebraica), o carácter baptismal. «Cento e quarenta e quatro mil» é um número simbólico; com efeito, os números do Apocalipse são habitualmente simbólicos, o que neste caso é evidente por se tratar de um jogo de números: 12 x 12000 (doze mil por cada uma das doze tribos de Israel). Estes 144.000, segundo uns, «representam toda a Igreja sem restrição» (Santo Agostinho), pois esta é o novo Israel de Deus (cf. Gal 6,16) e são a mesma «multidão imensa que ninguém podia contar» (v. 9). Segundo outros, estes 144.000 são os cristãos procedentes do judaísmo, muito particularmente os que foram poupados das calamidades que assolaram a Palestina, por ocasião da destruição da nação judaica no ano 70.

11 «Os (24) Anciãos». Há grande variedade de opiniões para decifrar este símbolo, não se podendo sequer estabelecer se se trata de seres angélicos ou humanos. Santo Agostinho diz que «são a Igreja universal; os 24 anciãos são os superiores jerárquicos e o povo: 12 representam os Apóstolos e os bispos, e os outros 12 representam o restante povo da Igreja». «Os 4 Viventes» (à letra, «animais»), uma tradução preferível a: «os 4 animais», uma vez que o terceiro tem rosto humano (cf. Apoc 4,7). A quem representam estes seres misteriosos, que reúnem características dos querubins de Ez 1 e dos serafins se Is 6? Podem muito bem simbolizar os quatro pontos cardeais, ou os quatro elementos do mundo (terra, fogo, água e ar), isto é, a totalidade do Universo. Deste modo, a presente «visão» apresenta-nos, unidos numa única adoração e louvor a Deus e a Cristo, os Anjos, a Humanidade resgatada e o próprio Universo material. A interpretação segundo a qual os Quatro Seres simbolizam os Quatro Evangelistas deve-se a Santo Ireneu e é uma acomodação espiritual do texto inspirado.

12 «Amen! Bênção, glória…»: Aqui, como ao longo de todo o Apocalipse, sente-se como a liturgia da Igreja faz eco à liturgia celeste, especialmente nas aclamações a Deus e ao Cordeiro.

14 «A grande tribulação». Tanto se pode tratar duma perseguição aos cristãos mais violenta no fim dos tempos, como das perseguições e das tribulações em geral no curso da história da Igreja. Mas é provável que o vidente de Patmos tenha presente em primeiro plano, as violentas perseguições de Nero e Domiciano, muito embora englobando nestas todas as outras.

«Lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro». «Não se designam só os mártires, mas todo o povo da Igreja – comenta Santo Agostinho –, pois não disse que lavaram as suas túnicas no seu próprio sangue, mas no sangue do Cordeiro, isto é, na graça de Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor, conforme está escrito: e o seu sangue purifica-nos (1Jo 1,7)».

 

Salmo Responsorial     Sl 23 (24), 1-2.3-4ab.5-6 (R. cf. 6)

 

Monição: O salmo responsorial convida-nos a aclamar os que, pela fidelidade ao Senhor, alcançaram a vitória final.

Façamos o propósito de viver de tal modo na terra, que um dia possamos pertencer a esta geração de bem-aventurados.

 

Refrão:         Esta é a geração dos que procuram o Senhor.

 

Do Senhor é a terra e o que nela existe,

o mundo e quantos nele habitam.

Ele a fundou sobre os mares

e a consolidou sobre as águas.

 

Quem poderá subir à montanha do Senhor?

Quem habitará no seu santuário?

O que tem as mãos inocentes e o coração puro,

o que não invocou o seu nome em vão.

 

Este será abençoado pelo Senhor

e recompensado por Deus, seu Salvador.

Esta é a geração dos que O procuram,

que procuram a face de Deus.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. João, na sua primeira Carta, dá-nos a razão fundamental da nossa esperança da felicidade do Céu: somos filhos de Deus.

Mais ainda: agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é.

 

1 São João 3, 1-3

Caríssimos: 1Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O conheceu a Ele. 2Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. 3Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como Ele é puro.

 

A leitura é um dos textos clássicos da filiação adoptiva divina, uma exigência constante de santidade.

1 «E somo-lo de facto». S. João não se contenta com dizer que somos chamados filhos de Deus, o que bastaria para que um semita entendesse, pois para ele ser chamado (por Deus) equivalia a ser. S. João quer falar para que todos entendamos esta realidade sobrenatural que «o mundo», sem fé, não pode captar nem apreciar.

2 A filiação divina capacita-nos para a glória do Céu, pois não é uma mera adopção legal e extrínseca, como a adopção humana de um filho. A adopção divina implica uma participação da natureza divina (cf. 2Pe 1,4) pela graça. «Semelhantes a Deus», desde já; mas só na glória celeste se tornará patente o que já «agora somos». «O veremos tal como Ele é», esta é a melhor definição da infinda felicidade do Céu, de que gozam todos os Santos que hoje festejamos: contemplar a Deus tal qual Ele é, não apenas as suas obras, mas a Ele próprio, «face a face» (cf. 1Cor 13,12).

3 «Purifica-se a si mesmo». A certeza da filiação divina conduz-nos à purificação e à imitação de Cristo, o Filho de Deus por natureza: «como Ele é puro»; efectivamente, os puros de coração hão-de ver a Deus (cf. Evangelho de hoje: Mt 5,8).

 

Aclamação ao Evangelho        Mt 11, 28

 

Monição: O Senhor Jesus preocupa-Se com cada um de nós e deseja ver-nos felizes e contentes, mesmo já nesta vida.

Para isso, convida-nos a procurar refúgio no Seu Coração Divino. Acolhamos o Seu convite e aclamemos o Evangelho da Salvação.

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS, 87

 

Vinde a Mim, vós todos os que andais cansados

e oprimidos e Eu vos aliviarei, diz o Senhor.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 5, 1-12a

Naquele tempo, 1ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos 2e Ele começou a ensiná-los, dizendo: 3«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. 4Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. 5Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. 11Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. 12aAlegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

 

As 8 bem-aventuranças, expressas na terceira pessoa do plural, têm em Mateus um carácter solene e universal, para todas as pessoas e para todos os tempos. Elas condensam a grande novidade do Evangelho, em contraste flagrante com o próprio pensamento religioso judaico então vigente, para já não falarmos do espírito mundano, hedonista do paganismo de então e do de agora. Elas não são expressão de uma «ética dos débeis», mas, pelo contrário, dum ideal de vida para almas fortes e generosas. As bem-aventuranças correspondem a uma ética que, quando vivida a sério, é capaz de renovar as pessoas e a sociedade, como o demonstra a vida de todos os santos.

3 «Bem-aventurados». Esta tradução (em vez de «felizes», cf. Nova Bíblia da CEP) vinca a ideia de que o Senhor promete a felicidade na bem-aventurança eterna e, ao mesmo tempo, já nesta vida, ao dizê-la do presente: «deles é» (não diz «deles será»). As bem-aventuranças são o mais surpreendente código de felicidade, e não se trata de uma felicidade qualquer: é uma felicidade incomparável, interior e profunda, embora ainda não possuída de modo perfeito e completo na vida terrena.

«Os pobres em espírito». Apraz-me citar o comentário de J. M. Casciaro em Jesus de Nazaré: «No Antigo Testamento, o pobre está já delineado não só como uma situação económico-social, mas como um valor religioso muito elaborado: é pobre quem se apresenta diante de Deus com uma atitude humilde, sem méritos pessoais, considerando a sua realidade de homem pecador, necessitado do perdão divino, da misericórdia de Deus para ser salvo. Daí que, além de viver com uma sobriedade e uma austeridade de vida reais, efectivas, ele aceita e quer tais condições de pobreza não como algo imposto pela necessidade, mas voluntariamente, com afecto (…). A ‘explicação’ de Mateus, em espírito, sublinha a exigência dessa mesma pobreza: não é pobre em espírito quem só o é obrigado pela sua situação económico-social, mas sim quem, além disso, é pobre querendo essa pobreza de modo voluntário (…). Esta atitude religiosa de pobreza está muito relacionada com a chamada infância espiritual. O cristão considera-se diante de Deus como um filho pequeno que não tem nada como propriedade; tudo é de Deus, o seu Pai, e a Ele lho deve. De qualquer modo, a pobreza em espírito, isto é, a pobreza cristã, exige o desprendimento dos bens materiais e uma austeridade no uso deles». Pode-se ver o belo comentário de São Leão Magno no ofício de leitura da 6ª feira da semana XXII do tempo comum.

4 «Os humildes». A tradução (imperfeita e abandonada pala Bíblia da CEP) preferiu um termo mais genérico e suave do que «os mansos», que são os que sofrem serenamente e sem ira, ódio ou abatimento, as perseguições injustas e as contrariedades. De facto só os humildes são capazes da virtude da mansidão, pois não dão demasiada importância a si próprios. A «terra» é a nova terra prometida, isto é, o Céu.

5 «Os que choram», isto é, os aflitos, e muito particularmente os que têm o coração cheio de mágoa por terem ofendido a Deus e que, com vontade de reparação, choram e deploram os seus pecados.

6 «Fome e sede de justiça». A ideia de justiça na Sagrada Escritura é uma ideia de natureza religiosa: justo é aquele que cumpre a vontade de Deus, e justiça corresponde a santidade, vocação a que todos são chamados.

8 «Os puros de coração» são, em geral, os que têm uma intenção recta, os que são capazes de um amor puro, limpo e nobre, os que têm um olhar recto e são; está, portanto, englobada a castidade, mas não é só ela a ser referida aqui.

9 «Os que promovem a paz» (uma tradução mais expressiva do que os pacíficos) são os que promovem a paz entre os homens e dos homens com Deus, fundamento sério de toda a paz no mundo.

11-12 Depois das 8 bem-aventuranças anteriores, que formam um bloco (uma inclusão marcada pela fórmula «porque deles é o reino dos Céus»: vv. 3 e 10), há uma ampliação e uma aplicação directa aos ouvintes da 8ª e última bem-aventurança.

 

Sugestões para a homilia

 

• A nossa Esperança é Deus

• O caminho da Esperança

 

1. A nossa Esperança é Deus

 

A esperança é, com frequência, uma palavra banalizada e, muitas vezes, sem qualquer conteúdo. As pessoas têm esperança de tudo: de que um doente recupere a saúde, o clube preferido de futebol ganhe, a as dificuldades acabem.

No fim, é como quem passa a vida a beber e sempre com sede. As pequenas esperanças, mesmo quando se realizam, não nos tornam felizes.

Só há uma esperança que vale apena alimentar: a esperança de crescer na amizade com Deus, até chegarmos a uma comunhão perfeita com Ele. E, para esta felicidade ser perfeita, deve durar para sempre.  Quando vivemos uns momentos felizes, mas sabemos que são muito breves, aquela felicidade já não nos diz nada.

Marcados na fronte. O texto do Apocalipse proclamado como primeira leitura foi escrito em tempo de perseguição dos cristãos. Perante um mundo que se desmorona e deixa as pessoas desconcertadas, S. João levanta o braço a apontar-lhes o Céu.

Hoje, diante do falhanço de todos os projetos humanos de uma vida sem dor, com a doença definitivamente vencida, sem inimizades, com amor pleno, temos necessidade de olhar para o Céu. Deste modo acertaremos o passo e reencontraremos o sentido da vida.

O selo do Deus vivo que temos na fronte é o indelével caráter batismal, o sinal permanente de que somos filhos de Deus chamados a habitar na felicidade do Céu para sempre.

«Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus».

A multidão dos eleitos. Ao falar dos eleitos do Céu, S. João fala-nos de uma multidão de bem-aventurados.

O número de 144.000 eleitos é simbólico. Foi obtido multiplicando as doze tribos de Israel por doze mil, um dos números da plenitude na linguagem bíblica.

«Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas».

Quando as pessoas, por falta de fé, comentam que a Igreja está a diminuir, desconhecem a realidade. A Igreja está sempre a crescer, desde a sua fundação, com as pessoas que vão chegando ao Céu e ali ficam para sempre. É a meta dos desportistas que triunfam.

Se passearmos pelo meio destes eleitos, iremos encontrar muitas pessoas conhecidas que estiveram neste templo, trabalharam ao nosso lado, sentaram-se à mesma mesa das refeições.

A felicidade dos eleitos. Muitas vezes damos connosco a imaginar como será a felicidade dos eleitos. A nossa tentativa falha porque só podemos imaginar o que conhecemos.

Santo Afonso Maria de Ligório explicava que, se prometêssemos a um cavalo uma refeição melhorada, ele ficaria a imaginar que seria um feno mais saboroso, ou outro manjar do seu conhecimento. Não seria capaz de sonhar com os bons pratos que os homens preparam.

Assim somos nós, quando tentamos imaginar a felicidade dos bem-aventurados no Céu, apenas com o que conhecemos na terra. S. João tenta ajudar-nos: «Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. E clamavam em alta voz: “A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”. Todos os Anjos formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos.»

Andemos um pouco, em espírito, pelo meio destes felizes eleitos do Senhor, e perguntemos-lhes se valeu a pena a vida que levaram na terra, a oração ao Senhor e a Nossa Senhora, a fidelidade aos Mandamentos a Lei de Deus, a preocupação de ajudar os outros no caminho da salvação. Dir-nos-ão com um sorriso de alegria que valeu a pena.

 

2. O caminho da Esperança

 

Ao contemplar a felicidade dos eleitos do Céu, é natural que façamos uma pergunta: como havemos, nós também de chegar até lá, para comungarmos na glória e felicidade de todos estes bem aventurados do Senhor?

Jesus, Caminho, Verdade e Vida. Na simplicidade e majestade da montanha, rodeado dos Doze Apóstolos que acabou de eleger e sobre os quais fundará a Sua Igreja, e rodeado por uma multidão faminta de verdade e de amor, Jesus traça o perfil dos verdadeiros discípulos a caminho do Céu.

Não é pelos muitos sinais religiosos pendurados nas paredes da casa, na roupa ou no carro, nem pelos discursos entusiásticos que nós conhecemos os verdadeiros cidadãos do Reino de Cristo, mas pela vida que levam.

Ao proclamar as bem-aventuranças, Jesus revela-nos a Sua intimidade e convida-nos a segui-l’O no dia a dia.

O Seu convite é muito oportuno, porque o ambiente em que vivemos é totalmente contrário ao espírito das oito bem-aventuranças e correríamos o risco de nos deixarmos enganar.

 • O desprendimento. Enquanto à nossa volta muitos procuram a felicidade no ter, Jesus convida-nos a usar dos bens deste mundo como emprestados por Deus para nosso uso e a contentarmo-nos com o que basta para passar a vida com sobriedade e temperança. «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus

A pobreza evangélica é uma atitude do coração, e não uma circunstância externa. Pode-se viver desprendido no meio de todas as coisas e estar ridiculamente apegado a uma ninharia, vivendo quase sem nada.

A mansidão e humildade. Muitos pensam em conquistar um lugar na vida e nos corações usando a arma da violência.

Jesus ensina-nos que a única arma eficaz para o conseguir é a mansidão, um coração benévolo que se recusa a responder à violência com a violência. «Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra

Encontra-se nesta bem-aventurança um desmentido claro do engodo que é marxismo que se propõe instaurar um mundo novo de justiça pela violenta luta de classes.

A contrição dos pecados. Com muita frequência parecem pessoas nos meios de comunicação social a proclamar que têm a consciência tranquila, quando sabemos que não a podem ter.

Vivemos numa civilização do faz-de-conta, em que o importante não é ser santo, mas parecer bom.

Jesus ensina-nos que o verdadeiro caminho para nos sentirmos felizes no caminho do Céu e fomentar a contrição dos nossos pecados, e não recalcar a consciência, para não sentir o seu aguilhão. «Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados

Desejos de santidade. A soberba leva-nos a viver enganados sobre o que realmente somos diante de Deus. Comparamo-nos com os outros e achamo-nos sempre melhores.

Esta cegueira leva-nos a viver num falso contentamento com a nossa virtude, sem desejos de progredir, porque achamos que já somos suficientemente bons.

Jesus convida-nos a fomentar um descontentamento interior sobre o que somos e a desejar converter-nos. Emendar os nossos defeitos e pecados. «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados

A misericórdia. Por natural tendência, somos propensos à crueldade, à dureza de coração, à vingança das ofensas reais ou imaginárias que recebemos. Custa-nos a perdoar uma segunda vez. Achamos que já é demais, que o nosso irmão ou irmã está a abusar.

Ao mesmo tempo, sabemos que temos necessidade de que Deus tenha paciência connosco e nos perdoe uma e outra vez. Só o alcançaremos, se usarmos de misericórdia para com os nossos irmãos. «Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia

A pureza e a castidade. Vivemos num ambiente hedonista em certos meios de comunicação social, nos ambientes de trabalho e de convívio social, ao mesmo tempo que o veneno de uma sensualidade fora de toda a lei é explorada como meio de lucro fácil.

Precisamos de pedir ao Senhor a fortaleza para implantar à nossa volta um ambiente limpo e saudável onde possamos viver com dignidade e respirar à vontade.

Não é na podridão moral que encontramos a felicidade, mas na luta generosa por uma vida limpa, diz-nos Jesus. «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus

Fomentar a paz. O nosso ambiente está cheio de guerrilheiros que ateiam as chamas da guerra por todos os lados. Também nós nos deixamos envolver facilmente pela murmuração, pelo dar ouvido à maledicência, fomentando descrenças ódios e separações, destruindo a imagem das outras pessoas.

Jesus convida-nos a sermos construtores da paz no meio em que vivemos. «Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus

A fortaleza cristã. Há muitas formas de perseguição aos filhos de Deus, no mundo de hoje. Tidas as vezes que as leis, a pressão social ou o ambiente tentam a desviar-nos da Lei de Deus, da fidelidade à Aliança batismal, aí temos a perseguição.

Para que não caiamos na tentação de nos julgarmos uns desgraçados, uns incompreendidos, Jesus proclama bem alto que também este caminho de perseguição é um caminho de felicidade. «Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós

A causa da verdadeira alegria. Não somos felizes porque temos muitas riquezas, muitos amigos, ou impomos a nossa vontade pela força. Jesus ensina-nos o segredo da verdadeira alegria. «Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

Foi esta a alegria que Nossa Senhora, depois de ter atravessado apressadamente as montanhas, levou a casa de Zacarias e de Isabel.

 

Fala o Santo Padre

 

«Os santos não são pequenos modelos perfeitos, mas pessoas atravessadas por Deus.

Podemos compará-los com os vitrais das igrejas. Os santos receberam a luz de Deus no seu coração

e a transmitiram ao mundo, cada qual segundo a sua “tonalidade”.»

 

A solenidade de Todos os Santos é a “nossa” festa: não porque somos bons, mas porque a santidade de Deus tocou a nossa vida. Os santos não são pequenos modelos perfeitos, mas pessoas atravessadas por Deus. Podemos compará-los com os vitrais das igrejas, que fazem entrar a luz em várias tonalidades de cor. Os santos são nossos irmãos e irmãs que receberam a luz de Deus no seu coração e a transmitiram ao mundo, cada qual segundo a sua “tonalidade”. Mas todos foram transparentes, lutaram para tirar as manchas e as obscuridades do pecado, de modo a fazer passar a luz gentil de Deus. Eis a finalidade da vida: fazer passar a luz de Deus; e também o objetivo da nossa vida.

Com efeito, no Evangelho de hoje Jesus dirige-se aos seus, a todos nós, dizendo-nos «Bem-aventurados» (Mt 5, 3). É a palavra com que começa a sua pregação, que é “Evangelho”, boa nova porque é o caminho da felicidade. Quem está com Jesus é bem-aventurado, feliz. A felicidade não consiste em possuir algo, nem em tornar-se alguém, não, a felicidade autêntica consiste em estar com o Senhor e viver por amor. Queres crer nisto? A verdadeira felicidade não consiste em possuir algo, nem em tornar-se alguém; a felicidade autêntica consiste em estar com o Senhor e viver por amor. Acreditais nisto? Devemos ir em frente para crer nisto. Então, os ingredientes para a vida feliz chama-se bem-aventuranças: são bem-aventurados os simples, os humildes que deixam espaço a Deus, que sabem chorar pelo próximo e pelos próprios erros, permanecem mansos, lutam pela justiça, são misericordiosos para com todos, preservam a pureza do coração, trabalham sempre pela paz e vivem na alegria, não odeiam e até quando sofrem respondem ao mal com o bem.

Eis as bem-aventuranças. Non exigem gestos sensacionais, não são para super-homens, mas para quem vive as provações e as dificuldades de todos os dias, para nós. Assim são os santos: respiram como todos o ar poluído do mal que há no mundo, mas ao longo do caminho nunca perdem de vista o caminho de Jesus, indicado nas bem-aventuranças, que são como o mapa da vida cristã. Hoje é a festa daqueles que alcançaram a meta indicada por este mapa: não só os santos do calendário, mas muitos irmãos e irmãs “da porta ao lado”, que talvez encontramos e conhecemos. Hoje é uma festa de família, de muitas pessoas simples e escondidas que na realidade ajudam Deus a fazer progredir o mundo. E hoje há tantas, muitas! Obrigado a estes irmãos e irmãs desconhecidos que ajudam Deus a fazer progredir o mundo, que vivem entre nós; saudemo-los todos com um caloroso aplauso!

Em primeiro lugar — reza a primeira bem-aventurança — estão os «pobres de espírito» (Mt 5, 3). Que significa? Que não vivem para o sucesso, o poder ou o dinheiro; sabem que quem acumula tesouros para si não enriquece diante de Deus (cf. Lc 12, 21). Ao contrário, julgam que o Senhor é o tesouro da vida, e o amor ao próximo a única fonte verdadeira de lucro. Às vezes ficamos descontentes por algo que nos falta ou preocupados se não somos considerados como gostaríamos; recordemos que a nossa bem-aventurança não consiste nisto, mas no Senhor e no amor: só com Ele, só amando vivemos felizes.

Por fim, gostaria de citar mais uma bem-aventurança, que não se encontra no Evangelho, mas na conclusão da Bíblia e fala do final da vida: «Felizes os mortos que morrem no Senhor» (Ap 14, 13). Amanhã seremos chamados a acompanhar com a oração os nossos defuntos, para que rejubilem para sempre no Senhor. Recordemos com gratidão os nossos queridos e oremos por eles.

A Mãe de Deus, Rainha dos Santos e Porta do Céu, interceda pelo nosso caminho de santidade e pelos nossos queridos que nos precederam e já partiram para a Pátria celeste.

 Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, 1 de novembro de 2017

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos caríssimos:

Na solenidade que nos une a todos os Santos,

peçamos Àquele que pode saciar

a nossa fome de santidade e de vida.

Oremos (cantando), com alegria:

 

     Por intercessão dos vossos Santos, salvai-nos, Senhor.

 

1. Pela santa Igreja de Deus, no Céu, em purificação e ainda na terra,

para que, no dia da manifestação de Jesus Cristo, apareça gloriosa,

oremos, irmãos.

 

     Por intercessão dos vossos Santos, salvai-nos, Senhor.

 

2. Pelo Santo Padre, pelos bispos, presbíteros, diáconos e ministérios,

para que um dia contemplem no Céu, Jesus que os chamou a servir,

oremos, irmãos.

 

     Por intercessão dos vossos Santos, salvai-nos, Senhor.

 

3. Pelos que assumiram generosamente governar as nações do mundo, 

para que o Senhor lhes conceda a sabedoria, a prudência, o desapego,

oremos, irmãos.

 

      Por intercessão dos vossos Santos, salvai-nos, Senhor.

 

4. Pelos que choram e pelos que sofrem perseguição por amor verdade,

para que se alegrem para sempre com os bem aventurados no Céu,

oremos, irmãos.

 

     Por intercessão dos vossos Santos, salvai-nos, Senhor.

 

5. Pelos que andam cansados e oprimidos e tristes, com as dificuldades,

para que sintam a presença de Jesus e n’Ele encontrem o seu descanso,

oremos, irmãos.

 

     Por intercessão dos vossos Santos, salvai-nos, Senhor.

 

6. Por todos nós que celebramos hoje solenidade de Todos os Santos,

para que Deus nos mostre, um dia o rosto de Cristo glorioso,

oremos, irmãos.

 

     Por intercessão dos vossos Santos, salvai-nos, Senhor.

 

7. Pelos nossos parentes, amigos e conhecidos que são purificados,

para que neste dia de festa sejam acolhidos na glória do Paraíso

oremos, irmãos.

 

     Por intercessão dos vossos Santos, salvai-nos, Senhor.

 

Deus eterno e omnipotente,

dignai-Vos ouvir as nossas súplicas

e conduzir-nos, pelo vosso Espírito,

para a bem-aventurança que nos prometeis.

Por Cristo Senhor nosso.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Como é bom andar na terra com a certeza confiança de que vamos a caminho de céu!

Depois de nos ter confiado esta maravilhosa certeza na Liturgia da Palavra, o Senhor vai alimentar-nos com o Seu Corpo e Sangue, para que não desfaleçamos pelo caminho.

 

Cântico do ofertório: Santos, amigos de Deus – J. Santos, NRMS, 8

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai benignamente, Senhor, os dons que Vos apresentamos em honra de Todos os Santos e fazei-nos sentir a intercessão daqueles que já alcançaram a imortalidade. Por Nosso Senhor...

 

Prefácio

 

A glória da nova Jerusalém, nossa mãe

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte:

Hoje nos dais a alegria de celebrar a cidade santa, a nossa mãe, a Jerusalém celeste onde a assembleia dos Santos, nossos irmãos, glorificam eternamente o vosso nome. Peregrinos dessa cidade santa, para ela caminhamos na fé e na alegria, ao vermos glorificados os ilustres filhos da Igreja, que nos destes como exemplo e auxílio para a nossa fragilidade.

Por isso, com todos os Anjos e Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: C. Silva/A. Cartageno – COM, (pg 194)

 

Saudação da Paz

 

Procuremos ser construtores da paz, tornando a vida na terra uma imagem do Céu.

Lembra-nos este dever a solenidade de todos os santos que estamos a celebrar.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Nós gostamos de cantar, cheio de fé, esperança e amor: Quem comunga o Pão da Vida, chega à verdadeira Terra do promissão, que é o Céu para sempre.

Comunguemos, pois, com as disposições que Jesus estabeleceu, para que possamos caminhar alegremente até ao Paraíso.

 

Cântico da Comunhão: Os santos resplandecem como a luz – J. Santos, NRMS, 63 

Mt 5, 8-10

Antífona da comunhão: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus.

 

Cântico de acção de graças: Os justos viverão eternamente – M. Faria, NRMS, 36

 

Oração depois da comunhão: Nós Vos adoramos, Senhor nosso Deus, única fonte de santidade, admirável em todos os Santos, e confiadamente Vos pedimos a graça de chegarmos também nós à plenitude do vosso amor e passarmos desta mesa de peregrinos ao banquete da pátria celeste. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Lembremo-nos muitas vezes desta verdade: Vamos a caminho do Céu, ao encontro de todos os santos!

 

Cântico final: Alegrem-se no Céu – J. F. Silva, NRMS, 54

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                José Carlos Azevedo

 


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