TEMAS LITÚRGICOS

A NOVA INSTRUÇÃO GERAL AO MISSAL ROMANO

 

Por deferência da Revista «Palabra» de Madrid, oferecemos um excerto da entrevista publicada no n.º 497, Junho 2005, com o liturgista José Aldazábal, salesiano. Ele acaba de publicar a tradução castelhana da nova Introdução Geral do Missal Romano – a Institutio Generalis Missali Romani (IGMR) –, com um amplo comentário e o respectivo índice de matérias.

* * *

 

– V. Revª publicou o comentário à IGMR. Poderia resumir a sua intenção fundamental?

 

– Antes de mais, este comentário refere-se apenas à Introdução ao Missal, que tecnicamente se chama Institutio, e que poderia traduzir-se por «Instrução (Ordenação) Geral» ou, então, «Princípios e Normas do Missal Romano».

 

Ainda que em latim já tivesse aparecido em 2002 o novo Missal Romano, ou seja, o «corpo» das suas orações, em castelhano só se publicou a tradução oficial da Institutio, e é dessa que fiz o comentário. *

 

Esta Institutio não é «nova», embora tenha significativas novidades: por exemplo, introduziu-se nela, como números 1-15, o «Proémio» que Paulo VI quis que precedesse a primeira edição do Missal, a edição de 1970. Além disso, acrescentou-se um capítulo, o nono, totalmente novo, sobre «As adaptações que competem aos Bispos e às suas Conferências».

 

O que pretendi no meu comentário a pé de página é ajudar a captar a intenção e o conteúdo dos diversos números e apartados, relacionando às vezes os lugares paralelos e salientando o que neles há de novo.

 

– Que novos aspectos se pode dizer que tem agora esta Instrução ao Missal?

 

– A Institutio que acaba de aparecer, e o próprio Missal, (que esperamos apareça antes de um ano na sua tradução castelhana, não são nem uma «nova Institutio» nem um «novo Missal». O que na verdade foi «Novo Missal» foi o de Paulo VI, em 1970, comparado com o de Pio V, que tinha sido o Missal da Igreja durante os últimos quatro séculos. Deparámos com novidades realmente importantes no Missal de Paulo VI, como foram as línguas vivas, a importância e a abundância da Palavra bíblica, o papel protagonista da comunidade e a sua relação com o ministério do presidente, a introdução das Orações Eucarísticas II, III e IV, o altar face ao povo e a recuperação da Oração Universal e da Comunhão sob as duas espécies.

No novo texto da Institutio, que passou a ter 399 números em vez de 340, notam-se diversos matizes e acrescentos em relação à edição anterior, a segunda, que apareceu em 1975. Muitas destas mudanças devem-se a que havia que ter em consideração documentos eclesiais que se tinham publicado depois desse ano de 1975: por exemplo, o Código de Direito Canónico (1983), o Cerimonial dos Bispos (1984), o Catecismo da Igreja Católica (1992) e várias Instruções da Congregação para o Culto Divino, como as referentes à inculturação, à tradução dos livros litúrgicos ou aos ministérios dos leigos na liturgia.

 

– Quais os aspectos da nova edição da IGMR que o deixaram mais satisfeito como liturgista?

 

– Por um lado creio que tem de se agradecer a esta nova edição um maior «sentido comum pastoral», que se nota, por exemplo, em algumas simplificações, na insistência sobre a necessidade de adaptar-se, de acordo com as possibilidades que o próprio Missal permite, à cultura de cada povo (por parte das Conferências dos Bispos) e de cada comunidade (por parte do sacerdote ou da equipa de liturgia) e na importância que dá à moderação e ao equilíbrio no desenrolar dos vários momentos da celebração.

 

Mas também pareceu-me oportuno que se tenham sublinhado aspectos como o carácter sagrado da Eucaristia, porque procurando-se uma maior proximidade e compreensão, que eram necessárias, corria-se o perigo de se passar a uma excessiva familiaridade, raiando a banalidade, tanto na Palavra de Deus como no modo de celebrar a própria Eucaristia. Também é bom que se tenha sublinhado a importância de determinados momentos de silêncio, evitando a excessiva inflação de palavras. Da mesma forma, parece-me bem a ênfase que na actual edição se põe no papel que cabe à beleza dos diversos elementos da celebração: o local, os livros, os paramentos, as imagens, os cânticos…

 

– Que critérios se adoptaram para a tradução do latim típico para o castelhano?

 

– Eu não fiz parte da equipa de especialistas que fizeram esta tradução, ainda que depois tenha feito as minhas observações, antes da formulação final.

 

Todos sabemos como é difícil traduzir. No caso dos livros litúrgicos, temos que ser fiéis, sobretudo depois da Instrução «Liturgiam authenticam» (2001), por um lado ao texto e à ideia original do latim, mas, por outro, também ao estilo e à expressão da própria língua, sem atraiçoar nenhum dos pontos de referência. Além disso, havia que ter em conta algumas mudanças que se deram no próprio latim entre o texto anterior e o de 2002: por exemplo, falando do material dos vasos sagrados, dizia-se antes que podiam ser de «marfim» («ebure», em latim), mas agora fala-se de «ébano» («ebeno», em latim: cfr. IGMR 329). Algumas traduções que se publicaram não têm isso em consideração.

 

No caso concreto da tradução para castelhano creio que o resultado é muito aceitável no seu conjunto.

 

– Poderia pormenorizar, para os nossos leitores, quais vão ser as novidades que a nova edição do Missal Romano apresentará na sua versão castelhana?

 

– No corpo mesmo do Missal há poucas novidades. Além disso, algumas das que se podem chamar «novidades» na edição típica latina de 2002, não o são na realidade para nós; porque já se incluíam na edição castelhana que usamos desde1988 tais como as Orações Eucarísticas para missas de reconciliação ou de crianças ou por várias necessidades; ou as várias formas de aspersão dominical no início da Missa; ou o Credo breve. Todos estes textos não constavam do texto latino, na edição de 1975, e agora constam.

O que se acrescentou são orações colecta, diferentes para cada féria do Advento e da Páscoa (antes repetiam-se bastantes), e uma «oração para o povo» no fim da Missa para cada dia do tempo de Quaresma. Também se incluem os textos eucológicos dos três Santos que passaram a ser de memória obrigatória para toda a Igreja: Maximiliano Kolbe, A. Kim Taegón (os dois já os tínhamos no Missal castelhano desde 1988) e A. Dung Lac. No comum das Missas da Virgem apresentam-se seis novos formulários.

 

– Segundo parece, no novo Missal já não se fala de «Missas sem povo», mas de «Missas com a participação de um só ministro». Que sentido tem esta alteração?

 

– A celebração mais expressiva é aquela em que toma parte o maior número possível de fiéis. É então quando «se manifesta com toda a clareza a natureza eclesial da acção litúrgica», como diz IGMR 19.

 

Mas também continua a ter sentido a Missa que se celebra sem a assistência de fiéis, embora ou pelo menos com um ministro, – que chamamos acólito ou menino do coro – , ou um fiel que responde aos diálogos e ajuda o sacerdote. Por isso o Missal tem um apartado (IGMR 252-272) que se designa intencionalmente «Missa com a participação de um só ministro».

 

Celebrar sem sequer esse ministro ou esse fiel só é permitido «por causa justa e razoável» (IGMR 254). Na disciplina anterior, estava estabelecido que só «por grave necessidade»: portanto, pode dizer-se que a nova disciplina supõe uma maior facilidade. A razão é que, para além do bem que a celebração produz ao próprio sacerdote, pelo facto de que não haja fiéis «a celebração eucarística tem sempre assegurada a sua eficácia e dignidade, por ser acção de Cristo e da Igreja, em que o sacerdote realiza a sua principal função e actua sempre para a salvação do povo» (IGMR 19).

 

– Estavam preparados e ter-se-ia podido introduzir neste Missal mais alterações do que as que se fizeram?

 

– Sim. A Congregação para o Culto Divino tinha estado a trabalhar afincadamente, já desde 1990, na preparação desta nova edição, por exemplo com uma organização renovada da Institutio e a inclusão de novas orações e prefácios.

 

Mas, na hora da verdade, não se considerou que o tempo estivesse amadurecido para esta mudança. Há que lembrar – e isso vê-se melhor desde Roma – que continuam a existir na Igreja alguns focos de resistência à nova liturgia pós-conciliar e, certamente por isso, não se quis deitar mais lenha na fogueira. O trabalho feito fica para o futuro.

 

Mas, tal como ficou, o Missal Romano é actualmente um óptimo instrumento para melhorar a celebração da Eucaristia, de modo que sirva de maior alimento para a fé e a vida cristã da Igreja.

 



* Em Portugal o «Secretariado Nacional de Liturgia» publicou este mesmo documento em Dezembro de 2003


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