A PALAVRA DO PAPA

O VINHO, IMAGEM DO DOM DA EUCARISTIA

 

No passado domingo 2 de Outubro, o Santo Padre Bento XVI presidiu, na Basílica de São Pedro, à solene concelebração eucarística por ocasião da abertura do Sínodo dos Bispos, que terminaria no domingo 23 de Outubro.

«A Eucaristia: fonte e ápice da vida e da missão da Igreja» foi o tema indicado pelo Papa João Paulo II e confirmado por Bento XVI, debatido pelos 256 Padres sinodais, ajudados pelos peritos e auditores nomeados; estiveram presentes também delegados de outras Igrejas e comunidades cristãs.

Oferecemos aos nossos leitores a homilia do Santo Padre.

Título e subtítulos da Redacção da CL.

 

 

Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio!

Queridos Irmãos e Irmãs!

O vinho, imagem do dom do amor

A leitura tirada do profeta Isaías e o Evangelho deste dia põem diante dos nossos olhos uma das grandes imagens da Sagrada Escritura: a imagem da videira. Na Sagrada Escritura, o pão representa tudo aquilo de que o homem tem necessidade para a sua vida quotidiana. A água dá fertilidade à terra: é o dom fundamental, que torna possível a vida. O vinho, pelo seu lado, exprime a excelência da criação, dá-nos o ambiente festivo no qual ultrapassamos os limites do quotidiano: o vinho «alegra o coração», diz o Salmo. Assim, o vinho, e com ele a videira, tornaram-se imagem também do dom do amor, no qual podemos ter alguma experiência do sabor do Divino. E, assim, a leitura do profeta, que acabámos de ouvir, começa como cântico de amor: Deus criou uma vinha para si – esta é uma imagem da sua história de amor pela humanidade, do seu amor por Israel, que Ele escolheu para si. Portanto, o primeiro pensamento das leituras hodiernas é este: no homem, criado à sua imagem, Deus infundiu a capacidade de amar e, por conseguinte, a capacidade de amar também a Ele próprio, o seu Criador. Com o cântico de amor do profeta Isaías, Deus quer falar ao coração do seu povo – e também a cada um de nós. «Criei-te à minha imagem e semelhança», diz-nos. «Eu próprio sou o amor, e tu és a minha imagem, na medida em que em ti brilha o esplendor do amor, na medida em que me respondes com amor». Deus espera-nos. Ele quer ser amado por nós: um apelo semelhante não deveria, porventura, tocar o nosso coração? Precisamente nesta hora em que celebramos a Eucaristia, em que inauguramos o Sínodo sobre a Eucaristia, Ele vem ao nosso encontro, vem ao encontro de mim. Encontrará Ele uma resposta? Ou acontece connosco o que aconteceu com a vinha, da qual Deus diz em Isaías: «Ele esperava que produzisse uva, mas ela produziu uva azeda»? A nossa vida cristã não é, porventura, muitas vezes mais vinagre do que vinho? Autocompaixão, conflito, indiferença?

O homem quer ser dono absoluto da criação

Com isto chegámos, automaticamente, ao segundo pensamento fundamental das leituras hodiernas.

Elas falam, em primeiro lugar, da bondade da criação de Deus e da grandeza da eleição com que Ele nos procura e nos ama. Mas, depois, falam também da história que se seguiu – o fracasso do homem. Deus tinha plantado videiras selectas e, todavia, amadureceu a uva azeda. Em que consiste esta uva azeda? A uva boa que Deus esperava – diz o profeta – consistiria na justiça e na rectidão. A uva azeda é, pelo contrário, a violência, o derramamento de sangue e a opressão, que fazem gemer as pessoas sob o jugo da injustiça.

No Evangelho, a imagem muda: a videira produz uva boa, mas os arrendatários guardam-na para si próprios. Não estão dispostos a entregá-la ao proprietário. Espancam e matam os seus mensageiros e matam o seu Filho. A sua motivação é simples: querem tornar-se eles próprios proprietários; apoderam-se daquilo que não lhes pertence. No Antigo Testamento, em primeiro plano está a acusação pela violação da justiça social, pelo desprezo do homem por parte do homem. Porém, no fundo vê-se que, com o desprezo da Torah, do direito dado por Deus, é o próprio Deus que é desprezado; pretende-se apenas gozar do próprio poder. Este aspecto é salientado plenamente na parábola de Jesus: os arrendatários não querem ter um dono – e estes arrendatários constituem um reflexo também para nós. Nós homens, a quem a criação, por assim dizer, é confiada para ser administrada, usurpamo-la. Queremos ser os seus donos, pessoalmente e sozinhos. Desejamos possuir o mundo e a nossa própria vida de modo ilimitado. Deus é um obstáculo para nós. Ou se faz d’Ele uma simples frase piedosa, ou Ele é totalmente negado, banido da vida pública, a ponto de perder todo o significado. A tolerância, que admite por assim dizer Deus como opinião privada, mas que rejeita o seu domínio público, a realidade do mundo e da nossa vida, não é tolerância mas hipocrisia. E ali onde o homem se torna o único dono do mundo e proprietário de si mesmo, não pode existir a justiça. Ali só pode dominar o arbítrio do poder e dos interesses. Sem dúvida, pode-se expulsar o Filho para fora da vinha e matá-lo, para saborear egoisticamente a sós dos frutos da terra. Mas então a vinha muito cedo se transforma num terreno inculto, devastado pelos javalis, como nos diz o Salmo responsorial (cf. Sl 79,14).

O castigo da vinha infiel

Assim chegamos ao terceiro elemento das leituras hodiernas. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, o Senhor anuncia o juízo à vinha infiel. O juízo que Isaías previa realizou-se nas grandes guerras e exílios, por obra dos Assírios e dos Babilónicos. O juízo anunciado pelo Senhor Jesus refere-se sobretudo à destruição de Jerusalém no ano 70. Mas a ameaça do juízo diz respeito também a nós, à Igreja na Europa, à Europa e ao Ocidente em geral. Com este Evangelho, o Senhor brada também aos nossos ouvidos as palavras que, no Apocalipse, dirigiu à Igreja de Éfeso: «Se não te arrependeres, virei ter contigo e retirarei o teu candelabro da sua posição» (Apoc 2, 5). Também a luz pode ser retirada de nós, e fazemos bem se deixamos ressoar esta advertência em toda a sua seriedade na nossa alma, bradando ao mesmo tempo ao Senhor: «Ajuda-nos a convertermo-nos! Concede-nos a todos a graça de uma verdadeira renovação! Não permitas que se apague a tua luz no meio de nós! Reforça a nossa fé, a nossa esperança e o nosso amor, para podermos produzir bons frutos!»

A promessa evangélica: a nova vida

Neste momento, porém, surge em nós a pergunta: «Mas não há nenhuma promessa, nenhuma palavra de conforto na leitura e na página evangélica de hoje? A última palavra é a ameaça?» Não! Há a promessa, e ela é a última, a essencial palavra. Ouvimo-la no versículo do Aleluia, tirado do Evangelho de João: «Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e Eu nele, esse produz muito fruto» (Jo 15, 5). Com estas palavras do Senhor, João explica-nos o último, o verdadeiro êxito da história da vinha de Deus. Deus não fracassa. No fim Ele vence, vence o amor. Uma alusão velada a isto já se encontra na parábola da vinha, proposta pelo Evangelho de hoje e nas suas palavras conclusivas. Também ali a morte do Filho não é o fim da história, embora não seja directamente narrada. Mas Jesus exprime esta morte mediante uma nova imagem tirada do Salmo: «A pedra que os construtores rejeitaram transformou-se em pedra angular...» (Mt 21, 42; Sl 117, 22). Da morte do Filho surge a vida, forma-se um novo edifício, uma nova vinha. Ele, que em Caná mudou a água em vinho, transformou o seu sangue no vinho do verdadeiro amor e assim transforma o vinho no seu sangue. No cenáculo, antecipou a sua morte e transformou-a no dom de si mesmo, num acto de amor radical. O seu sangue é dom, é amor, e por isso é o verdadeiro vinho que o Criador esperava. Deste modo, o próprio Cristo tornou-se a videira, e esta videira produz sempre bom fruto: a presença do seu amor por nós, que é indestrutível.

O mistério da Eucaristia

Deste modo, estas parábolas levam finalmente ao mistério da Eucaristia, na qual o Senhor nos oferece o pão da vida e o vinho do seu amor, e nos convida para a festa do amor eterno. Nós celebramos a Eucaristia, conscientes de que o seu preço foi a morte do Filho – o sacrifício da sua vida, que nela permanece presente. Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos a morte do Senhor até que Ele venha, diz São Paulo (cf. 1 Cor 11, 26). Mas sabemos também que desta morte surge a vida, porque Jesus a transformou num gesto oblativo, num acto de amor, alterando-a assim no íntimo: o amor venceu a morte.

Na Sagrada Eucaristia, Ele atrai-nos todos a si a partir da Cruz (cf. Jo 12, 32) e torna-nos ramos da videira, que é Ele próprio. Se permanecermos unidos a Ele, então também nós produziremos fruto, então também de nós não sairá mais o vinagre da auto-suficiência, do descontentamento de Deus e da sua criação, mas o vinho bom da alegria de Deus e do amor ao próximo.

Rezemos ao Senhor para que nos conceda a sua graça, para que nas três semanas do Sínodo que estamos a começar não somente digamos belas palavras sobre a Eucaristia, mas sobretudo para que vivamos da sua força. Invoquemos este dom por intermédio de Maria, caros Padres sinodais, a quem saúdo com grande afecto, juntamente com as diversas Comunidades das quais vindes e que aqui representais, para que dóceis à acção do Espírito Santo possamos ajudar o mundo a tornar-se em Cristo e com Cristo a fecunda videira de Deus.

Amém!

 

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial