ENTREVISTA

 

A CRISE DE VALORES

 

Cardeal José Saraiva Martins

 

A crise de Portugal e da Europa, a canonização do Papa João Paulo II e as expectativas para a primeira encíclica de Bento XVI – são alguns temas tratados pelo Cardeal José Saraiva Martins, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, numa entrevista para a Agência Ecclesia, por ocasião do Doutoramento «honoris causa» pela Universidade Lusíada, em Julho passado.

 

 

Agência Ecclesia - O que significa, para si, o Doutoramento «honoris causa» que a Universidade Lusíada lhe atribuiu?

Cardeal Saraiva Martins - Recebi este Doutoramento honoris causa em direito corno uma grande honra para mim. Na origem está a homenagem imerecida que querem render a um português pelo trabalho que tem feito ao logo dos anos, tanto corno catedrático e reitor de uma universidade romana, como também, julgo eu, pelo serviço que eu tenho prestado à Igreja Universal como primeiro Prefeito português na Cúria Romana.

 

- «Santo, súbito» [Santo, já], foi a aclamação ouvida no dia do funeral do Papa João Paulo II. Ela cumpriu-se?

- Não é que se tenha cumprido. Essa aclamação coral foi uma coisa maravilhosa e mostrou como João Paulo II era considerado santo, não por um reduzido número de fiéis, mas praticamente por todo o mundo. Isso não quer dizer que a santidade de João Paulo II deva ser reconhecida simplesmente em atenção a esta proclamação coral. O Santo Padre Bento XVI dispensou dos 5 anos que o Direito Canónico requer para começar a causa de canonização, a nível diocesano. Mas não dispensou do processo de canonização.

 

-Poderemos esperar mais alguma dispensa, por iniciativa de Bento XVI?

- Bento XVI poderá responder. É evidente que ele pode fazer o que julgar mais oportuno para o bem da Igreja, para o bem da fé do povo de Deus. Mas eu não tenho nenhum dado para responder à sua pergunta.

 

- Aguarda alguma novidade... ?

- Agora, aguardamos o fim do processo na sua fase diocesana: que termine a fase diocesana, que toda a documentação recolhida seja transmitida à Congregação que tenho a honra de presidir. Então é que se podem fazer certos cálculos.

 

- Em que fase se encontra o processo de canonização dos pastorinhos?

- Sim. Foi apresentada à minha Congregação uma cura considerada miraculosa. Nós recebemos essa documentação e será submetida aos exames médicos depois das férias, em Setembro, para que nos digam se essa cura, atribuída aos pastorinhos, à Jacinta e ao Francisco, é realmente inexplicável à luz da ciência médica actual ou não. Ou seja, se tem alguma explicação científica.

 

- Que significado terá o facto de Bento XVI presidir só as canonizações e delegar a presidência das beatificações?

- Acho que é uma medida muito oportuna, porque sublinha a diferença que existe entre uma beatificação e uma canonização. A beatificação tem uma dimensão local. Nela o Papa permite o culto ao beato, mas no âmbito da Igreja local. Na canonização, o Papa não permite, mas prescreve o culto ao novo santo no âmbito da Igreja universal.

 

- Que expectativas guarda para a primeira encíclica de Bento XVI?

- Deveria perguntar-lhe... Certamente que uma encíclica programática de um pontificado tem que abordar os problemas do tempo em que foi chamado a ser papa. Tem que responder aos desafios de hoje. E os desafios de hoje são, como sabemos, entre outros, o do ecumenismo.

Estou convencido que o ecumenismo é um problema prioritário, fundamental. É um escândalo que, na sociedade de hoje, os cristãos que crêem no mesmo Cristo estejam divididos. Num mundo globalizado, o escândalo é ainda maior. Por isso, é cada vez mais urgente que os cristãos se unam fraternalmente, para formar um só povo de Deus.

Este é um dos pontos que o Papa poderá abordar na sua primeira encíclica. Depois há outros problemas: o problema da liberdade, da paz, da justiça...

 

- Como comenta a crise europeia, que não consegue unir-se ao redor de um Tratado Constitucional?

- Na base desta crise está o facto de que a Europa em que vivemos perdeu de vista a sua identidade. Esqueceu-se que as raízes cristãs, queira-se ou não, fazem parte do código genético da Europa. Esquecendo-se disto, é evidente que a Europa tinha de entrar em crise. E entrou. Agora, põe-se o problema de fazer com que a Europa se dê conta disto. É uma pausa de reflexão, que pode ser muito útil. Pode ser providencial. O não da França e da Holanda à Constituição da Europa não foi um não à Europa. Foi um não ao texto que lhe foi apresentado. Não foi um não por motivos financeiros, mas por motivos políticos. Talvez não tenham visto na Constituição aquilo que nós todos dizemos que falta: uma referência aos valores.

 

- A França laicista terá pensado na ausência às raízes cristãs quando votou no não?

- Certamente haverá várias razões, pelas quais o povo francês votou não. Mas estou quase certo que entre essas está não ver no preâmbulo da Constituição uma referência às raízes cristãs. Schumann, um dos pais da Europa, pensava na Europa como uma sociedade cristã, baseada nos valores humanos e cristãos.

 

- Que importância atribuir então a sinais, como a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em Espanha, que estão ao arrepio desses valores fundadores da Europa?

- Na minha opinião, essa tendência vai contra a natureza da Europa. A Europa nunca teve tais valores. É evidente que a Europa funda-se também no matrimónio monogâmico, entre homem e mulher. E também é evidente que uma criança precisa de um pai e de uma mãe, não de dois pais ou de duas mães. A natureza exige isto.

 

- E como comenta a crise que Portugal atravessa?

- Não é portuguesa, é europeia, e mundial. Acho que os portugueses não devem ser pessimistas, porque a crise é de toda a Europa e, por isso, é também portuguesa.

 

– E uma crise de valores sobretudo…

- Sim. A crise da Europa é uma crise de valores. Na medida em que nos afastamos de valores que pertencem ao nosso código genético, nós renunciamos à construção da Europa que queriam os fundadores da Europa, e que nós também queremos: uma Europa baseada em valores. Não só na economia, mas também e sobretudo nos valores. Porque o mundo económico-financeiro sem valores esta condenado à morte, não pode continuar.


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