TEMAS LITÚRGICOS

BALANÇO DA REFORMA LITÚRGICA,

40 ANOS DEPOIS DO CONCÍLIO



Mons. Julián López

Bispo de Léon (Espanha)


Por amável deferência da Agência Veritas (Espanha), publicamos quase toda a entrevista feita ao Presidente da Comissão Episcopal da Liturgia, da Conferência Episcopal Espanhola, Mons. Julián López, Bispo de Léon, por ocasião das Jornadas de Liturgia, em Madrid, de 22 a 24 de Outubro passado, sobre os Cem anos de Renovação Litúrgica (de S. Pio X a João Paulo II).


(Agência Veritas) Após um certo imobilismo durante séculos, o Concílio Vaticano II propicia, directa ou indirectamente, uma série de mudanças na liturgia para chegar melhor ao homem contemporâneo. Acha que o conseguiu? Acha que estas mudanças eram necessárias?


(Mons. Julián López) Em primeiro lugar, o Concílio Vaticano II não é um fenómeno isolado que surgiu de maneira espontânea, é um acontecimento preparado, e não só pelo Espírito Santo. Fala-se de que o Papa Pio XII pensou em convocar um Concílio, João XXIII certamente parece que teve essa inspiração. Em todo o caso, o Concílio Vaticano II pretende concluir o Vaticano I.

No tema específico da liturgia, o Vaticano II inscreve-se num movimento litúrgico que, embora tenha os seus começos no século XIX com a restauração monástica na França, foi assumido e pela primeira vez orientado pelo magistério universal da Igreja do supremo pastor, o Papa São Pio X.

Estamos a celebrar precisamente 100 anos de um documento deste Papa que pretende, concretamente, o que quis colocar no primeiro dos seus documentos o Vaticano II: a renovação da vida cristã, entre outras finalidades. Isto é o que pretendeu há 100 anos São Pio X no documento Tra le sollecitudini, que quer dizer «Entre as principais preocupações» do Sumo Pontífice, fala de si mesmo. O que pretende São Pio X? Renovar a vida cristã mediante o que ele chama a participação activa dos fiéis na Sagrada Liturgia.

Nesse sentido, o Vaticano II cita expressamente estas palavras de São Pio X, como cita também as de Pio XII: que esse movimento litúrgico é uma passagem do Espírito Santo pela Igreja. É uma reforma geral, não somente sobre a música sagrada, ou sobre os salmos ou sobre o domingo. Pio X sabe que é um edifício cuja construção requererá muitíssimo tempo.

O tema está maduro quando se promulga a Constituição Sacrosanctum Concilium, mas tampouco está a obra terminada; nem sequer agora, 40 anos depois do Vaticano II, está terminado o edifício, nem muito menos.

Os Concílios projectam-se com uma visão longa; não é casualidade, é providência que se promulgasse a Constituição Sacrosanctum Concilium em 4 de Dezembro de 1963, exactamente quatro séculos depois do encerramento do Concílio de Trento. Aquele Concílio alimentou a vida cristã sob todos os seus aspectos durante quatro séculos. Que são 40 anos? Muito pouco, ainda. João Paulo II disse-nos uma e outra vez que o Concílio Vaticano II é o grande acontecimento ocorrido no século XX, do qual a Igreja tem de continuar a viver ainda, também no campo litúrgico.

Não estão desenvolvidas, nem foram totalmente recebidas as grandes linhas que vão além da mera reforma dos ritos ou dos textos querida pelo Concílio Vaticano II, e realizada, com um sentido profundo da sua consciência de pastor, por Paulo VI, e continuada em grande medida, na mesma linha, pelo Santo Padre João Paulo II.


Isto é, as reformas foram em parte realizadas, mas é preciso continuar a trabalhar…


É preciso continuar a trabalhar. Há quinze anos João Paulo II publicou um documento que se chama Vicesimus quintus annus, que faz um balanço da reforma litúrgica do Vaticano II e diz uma coisa importantíssima, há quinze anos, que tem plena actualidade também hoje, porque de alguma maneira voltou a dizer-nos na Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Europa e outra vez na Pastores gregis, quando fala da função santificadora do bispo. O que nos veio dizer é isto: é necessário entrar no sentido profundo do Mistério que celebramos, e esta é a tarefa, como diz na Vicesimus quintus annus, da renovação litúrgica, que é uma tarefa permanente.

Enquanto haja fiéis cristãos haverá que haver renovação neste sentido, e renovação não quer dizer mudança, mas penetração maior, quer dizer que a cada geração devemos introduzir no Mistério, e o Mistério é o Mistério de Jesus Cristo, que nos abre ao Mistério de Deus. E João Paulo II diz também uma coisa muito importante naquele documento de há quinze anos: a reforma litúrgica no que tem a ver com a mudança de ritos e de textos já está terminada, os livros litúrgicos já foram publicados.

Hoje (diz o Papa há quinze anos, quanto mais hoje) estão já incorporados na acção pastoral da Igreja muitos cristãos e sacerdotes que não conheceram a situação da liturgia anterior ao Concílio, portanto não é questão de voltar atrás nesse sentido; mas, visto que esta reforma litúrgica (outra coisa é como se executou e se realizou em cada lugar) se fez em chave de autêntica tradição cristã, isto não se pode duvidar, e essa tradição cristã empalma com o que recebemos desde o Novo Testamento no fundamental, na natureza do facto litúrgico cristão, nos sacramentos, na Eucaristia, no ministério sacerdotal, etc.

Outra coisa é se foi mais depressa ou mais devagar, com mais fidelidade a este aspecto ou a outro, se houve uma catequese litúrgica suficiente ou não; outra coisa é, em última análise, se procurámos formar, educar, primeiro os pastores a nós próprios e depois ao povo de Deus.

O Concílio Vaticano adverte claramente isto: o fruto da reforma litúrgica dependerá de que os pastores estejam imbuídos do autêntico sentido da liturgia; mas o que são 40 anos na história da Igreja? Por isso, estas Jornadas procuraram dirigir um olhar agradecido ao passado imediato: São Pio X, Pio XI, Pio XII, Paulo VI, João Paulo II, ainda hoje graças a Deus. Uma memória agradecida, mas para ver, em última análise, como a liturgia tem desafios ainda por realizar, naturalmente.


É possível que o cristão de hoje tenha perdido ou relativizado o sentido do sagrado na liturgia e na vida?


Não se nota este facto da mesma maneira ou com a mesma intensidade em todos os lugares. Há já muitos anos, desde o começo do seu ministério, em 1980, o Papa João Paulo II vem advertindo dessa perda do sentido do sagrado; por exemplo, a Carta Dominicae Cenae fala de que o sagrado cristão autêntico não é coisa dos homens, mas da vontade de Cristo.

Perdeu-se em grande medida em muitos fiéis e em algumas comunidades, mas olhando para a totalidade das Igrejas e para a totalidade na Igreja universal, acho que, se se tivesse produzido este facto, já não existiria a Igreja. Digamos que nos envolve o mundo secularizado neopagão, agnóstico, que hoje até regressa ao religioso, não ao cristão, mas a esta forma sincretista do fenómeno da Nova Era. Passou-se inclusive da religiosidade popular (que Paulo VI queria que se chamasse «piedade popular»), a uma espécie de religião popular ou «popularizada», confusa, sentimental, pouco ou nada racional, e nesse sentido com grandes déficits de valores fundamentais.

Isso sim, o Papa convida uma e outra vez, em Ecclesia in Europa e em Pastores gregis, a voltar outra vez ao sentido do Mistério, que é o mesmo que dizer «insistir»; e, onde se tenha debilitado, a recuperar a consciência do Mistério.

A liturgia é, na verdade, uma festa, mas primeiro é aquilo que o Senhor nos dá nela. Antes de se estar ao redor da Mesa do altar, existe o Evangelho e existe a acção do Espírito que nos congrega.

Mas, em muitas comunidades fixaram-se mais no que está ao redor do altar do que no que está no centro dessa Mesa. No centro dessa Mesa, como no famoso ícone de Rublev, está o cálice eucarístico, está o Cordeiro, está o Senhor.

Por isso, mais importante do que aquilo que nós façamos no canto, na participação, na acção, está o que Deus faz em nós por meio de seu Espírito. Talvez com a pressa, talvez com o desejo de chegar ao povo queimaram-se etapas; ou a catequese, ou a pregação, centrou-se em aspectos sócioculturais, políticos, antropológicos, meramente humanos, que é necessário iluminar a partir do Evangelho, evidentemente, mas sem perder nunca o olhar sobre aquilo que está no centro da Mesa. No centro da Mesa eucarística está o corpo do Senhor, e a partir daí já podemos falar de mesa da fraternidade, e do que queiramos.

Por isso, não se pode diluir nunca o núcleo da liturgia cristã, que é a presença de Jesus Cristo por meio do seu Espírito, na assembleia, no ministro, na palavra, nos sinais sacramentais, mas sobretudo nas espécies sacramentais, no Mistério eucarístico, «presença verdadeira, real e substancial». Não podemos perder essa linguagem, será preciso continuar a explicá-la, porque o coração da liturgia é a Eucaristia, e Cristo, como diz o Papa em Ecclesia et Eucharistia, temos que procurá-lo ali onde se encontra.

Também se encontra nos pobres, evidentemente, mas dificilmente a Madre Teresa de Calcutá o teria encontrado nos mais pobres dos pobres se antes não o tivesse reconhecido na Eucaristia e, ao contrário, também é verdade que a partir dos pobres se pode chegar ao altar. Isto é certo.


Naquilo que alguns consideram um ressurgimento religioso do século XXI, há dois sintomas preocupantes: uma contaminação do gnóstico-sincrético por um lado e a proliferação de seitas por outro. Acha que os adeptos das seitas saciaram o seu sentimento religioso em umas liturgias «coloridas» que, como eles próprios afirmam, não encontraram na Igreja Católica? Acha que a vida do homem será verdadeiramente mais religiosa?


Não há liturgia nas seitas, isso não é liturgia, são ritos. Já há muito tempo, desde a época dos padres apologistas, eles falam de que o diabo imita os ritos cristãos.

O fenómeno é mais complexo, a realidade é que o substrato antropológico, sócio-cultural, da liturgia cristã vem de longe, porque empalma em última análise no fenómeno humano da ritualidade, da cerimónia, da festa; e, de alguma maneira, o mundo actual, especialmente as seitas, sobretudo as de corte neopagã, satânica inclusive, estão aí numa espécie de desforra, como que dizendo «temos que recuperar outra vez um domínio que é nosso».

A própria ecologia, o culto à natureza que hoje se dá, algumas vezes esconde intenções deste tipo; na imensa maioria das pessoas não, mas nas seitas sim. As seitas são um fenómeno extremamente perigoso, que encontram um caldo de cultivo precisamente na sede de transcendência das pessoas de hoje, mas oferecem um terrível sucedâneo, que no fundo é um veneno, porque se apropriam da pessoa; enfim, o tema levar-nos-ia longe.

O fenómeno do sincretismo está mais diluído, não é fácil diagnosticá-lo, não se dá em estado quimicamente puro senão em determinadas seitas. Na Europa e na Espanha temos menos conhecimento disto, mas os missionários, sobretudo os que trabalham na América Latina, são muito sensíveis a isso, e dizem-no-lo uma e outra vez. E não falemos da África.


Quer dizer: a liturgia na Igreja Católica não tem que tornar-se mais atractiva, não se trata de mudar, mas de aprofundar…


Evidentemente, talvez a única coisa que se deve mudar sempre são as atitudes pessoais, a chamada permanente à conversão. O que temos que fazer é tomar os livros na mão, lê-los, estudá-los, meditá-los, fazê-los objecto de oração, especialmente a Palavra de Deus e as orações da Igreja, e depois celebrar de acordo com eles. E já não estaríamos tão preocupados seguramente com muitas coisas como estamos agora, porque elas nos seria dado por acréscimo.



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