31º Domingo Comum

3 de Novembro de 2019

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Cordeiro de Deus é o nosso pastor, Az. Oliveira, NRMS 90-91

Salmo 37, 22-23

Antífona de entrada: Não me abandoneis, Senhor; meu Deus, não Vos afasteis de mim. Senhor, socorrei-me e salvai-me.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A liturgia deste Domingo convida-nos a meditar sobre o amor de Deus. Diz o autor sagrado, no livro da Sabedoria: “De todos Vos compadeceis e não olhais para os seus pecados. Vós amais tudo o que existe. A todos perdoais porque tudo é vosso, Senhor.” Deus ama todos os seus filhos, sem excluir ninguém. O amor divino gera a vida nova e transforma o homem velho em homem novo.

 

Oração colecta: Deus omnipotente e misericordioso, de quem procede a graça de Vos servirmos fiel e dignamente, fazei-nos caminhar sem obstáculos para os bens por Vós prometidos. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: «De todos Vos compadeceis, porque amais tudo o que existe.» Sab 11, 22 – 12, 2

A palavra de Deus revela-nos o seu amor para com os homens e particularmente para com os pecadores. Deus não quer que ninguém se perca, porque ama a todos. “Se tivesse detestado alguma criatura não a teria formado.”

 

Sabedoria 11, 22 – 12, 2

22Diante de Vós, Senhor, o mundo inteiro é como um grão de areia na balança, como a gota de orvalho que de manhã cai sobre a terra. 23De todos Vos compadeceis, porque sois omnipotente, e não olhais para os seus pecados, para que se arrependam. 24Vós amais tudo o que existe e não odiais nada do que fizestes; porque, se odiásseis alguma coisa, não a teríeis criado. 25E como poderia subsistir, se Vós não a quisésseis? Como poderia durar, se não a tivésseis chamado à existência? 26Mas a todos perdoais, porque tudo é vosso, Senhor, que amais a vida. 1O vosso espírito incorruptível está em todas as coisas. 2Por isso castigais brandamente aqueles que caem e advertis os que pecam, recordando-lhes os seus pecados, para que se afastem do mal e acreditem em Vós, Senhor.

 

O autor do livro da Sabedoria, um sábio judeu helenista, já nos umbrais do Novo Testamento, quer confirmar na fé os seus compatriotas, que, deslumbrados com a cultura grega, corriam o perigo de subestimar a sabedoria que pertencia à revelação de Deus. O texto é tirado da 3ª parte da obra (capítulos 10 a 19), onde se exalta a sabedoria divina ao longo da história da salvação. O trecho da leitura é de notável riqueza doutrinal.

11, 23 Exalta-se a omnipotência, grandeza e transcendência de Deus: todo o mundo, diante dele, não passa de «um grão de poeira», «uma gota de orvalho». Mas o poder de Deus mostra-se aos pagãos na sua misericórdia – «de todos vos compadeceis» –, de um modo inesperado e desconhecido.

24-25 Deus é Criador e ama irrevogavelmente a sua obra, ficando excluído tudo o que possa ser pessimismo dualista ou maniqueu, algo não só estranho, mas também contrário à Revelação divina.

12, 1 «O vosso Espírito… está em tudo». Se, por um lado, está bem vincada a transcendência divina, conforme se acabou de dizer, por outro lado, não se pode deixar esquecido o reverso da medalha: a exacta imanência divina. A omnipresença divina não subordina o Criador à criatura, mas, ao contrário, torna a criatura essencialmente presente ao seu Criador, indissoluvelmente unida e intrinsecamente subordinada ao seu Senhor, que é um Pai providente. Este texto explicita e actualiza Gn 1, 2 e Gn 2, 7, onde se apresenta o Espírito de Deus a pairar sobre o caos das águas primordiais para dali tirar a maravilha da criação e a infundir no barro o sopro da vida.

2 «Corrigis brandamente… para que se afastem do mal». O Deus da Revelação não é cruel e vingativo, como os deuses da mitologia grega: Ele é o Pai que corrige, para o bem dos seus filhos, pois, mesmo quando irado, Ele «lembra-se da sua misericórdia» (cf. Habac 3, 2).

 

Salmo Responsorial     Sl 144 (145), 1-2.8-9.10-11.13cd-14

 

Monição: Deus ama aqueles que O amam, mesmo sendo pecadores. Porque o Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. O Senhor é bom para com todos. “A sua misericórdia estende-se de geração em geração” a todas as criaturas. Façamos subir ao céu o nosso louvor. Quero exaltar-Vos, meu Deus e meu Senhor. Quero bendizer-Vos, dia após dia e louvar o vosso nome com toda alegria.

 

Refrão:        Louvarei para sempre o vosso nome,

                     Senhor, meu Deus e meu Rei.

 

Quero exaltar-Vos, meu Deus e meu Rei,

e bendizer o vosso nome para sempre.

Quero bendizer-Vos, dia após dia,

e louvar o vosso nome para sempre.

 

O Senhor é clemente e compassivo,

paciente e cheio de bondade.

O Senhor é bom para com todos

e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

 

Graças Vos dêem, Senhor, todas as criaturas

e bendigam-Vos os vossos fiéis.

Proclamem a glória do vosso reino

e anunciem os vossos feitos gloriosos.

 

O Senhor é fiel à sua palavra

e perfeito em todas as suas obras.

O Senhor ampara os que vacilam

e levanta todos os oprimidos.

 

Segunda Leitura

 

Monição: «O nome de Nosso Senhor Jesus Cristo será glorificado em vós, e vós n’Ele»

2 Tessalonicenses 1, 11 – 2, 2

São Paulo corrige certos rumores a propósito da última vinda de Jesus. “Não vos deixeis abalar facilmente com os que pretendem ensinar que o dia do Senhor está iminente.” Não nos deixemos alarmar, mas aguardemos em jubilosa esperança a última vinda de Cristo Salvador.

 

2 Tessalonicenses 1, 11 – 2, 2

Irmãos: 11Oramos continuamente por vós, para que Deus vos considere dignos do seu chamamento e, pelo seu poder, se realizem todos os vossos bons propósitos e se confirme o trabalho da vossa fé. 12Assim o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo será glorificado em vós, e vós n’Ele, segundo a graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo. 2,1Nós vos pedimos, irmãos, a propósito da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e do nosso encontro com Ele: 2Não vos deixeis abalar facilmente nem alarmar por qualquer manifestação profética, por palavras ou por cartas, que se digam vir de nós, pretendendo que o dia do Senhor está iminente.

 

Uns perturbadores dos cristãos daquela comunidade de Tessalónica tinham introduzido a desordem, propagando a ideia de que a segunda vinda de Cristo (parusia) estava iminente, o que andava a acarretar trágicas consequências para a vida dos fiéis, que começaram a levar «uma vida ociosa, em vez de trabalhar, dedicando-se apenas a vãs curiosidades» (3, 11). É por isso que Paulo os previne – «não vos deixeis abalar… nem alarmar…» (2, 1) – e, mais adiante, lhes diz seriamente que «trabalhem com paz» (3, 12); e sai-se com aquela sentença plena de sensatez: «se alguém já não quer trabalhar, então que também deixe de comer» (3, 10). Para tranquilizar os fiéis, mais adiante (vv. 3-4) diz que antes da parusia tem de vir a «apostasia» e o «homem da impiedade», com um recurso a imagens do Antigo Testamento, que para nós são muito obscuras, mas que bastariam para fazer calar os agitadores.

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 3, 16

 

Monição: «O Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido» Lucas 19, 10. São Lucas revela-nos o coração misericordioso de Jesus. Zaqueu é um nome hebraico que significa “arrependido.” Certamente tinha ouvido falar do amor de Jesus para com os pecadores e por isso desejava mudar de vida. Honesto é aquele que reconhece e se arrepende dos seus erros, procurando melhorar. Zaqueu também significa “puro, sincero”. A pureza de vida é uma virtude que pode ser construída e cultivada. Jesus viu a sinceridade de coração deste homem que se esforçou por vê-Lo passar. Somos convidados a acolher a Palavra do Senhor, com os sentimentos de Zaqueu, homem novo e sinceramente arrependido. Hoje, Jesus também quer entrar em nossa casa. “Abri as portas a Cristo.” (São João Paulo II)

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação – 4,F. Silva, NRMS 50-51

 

Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito;

quem acredita n’Ele tem a vida eterna.

 

 

Evangelho

 

Lucas 19, 1-10

Naquele tempo, 1Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade. 2Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos. 3Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-l’O, porque era de pequena estatura. 4Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali. 5Quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». 6Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria. 7Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». 8Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». 9Disse-lhe Jesus: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. 10Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido».

 

Este episódio da conversão de Zaqueu é contado apenas por Lucas; é mais um dado que o «secretário da misericórdia de Cristo» (Dante) regista, a fim de pôr em evidência, por um lado, o amor de Cristo aos pecadores e, por outro, a universalidade da salvação que Ele traz à terra. É de notar como o Evangelista, que especialmente exalta a pobreza, deixa ver como também a salvação pode chegar a um homem rico. Há mesmo uma tradição que diz que Zaqueu veio a ser discípulo de Pedro e bispo de Cesareia.

2 «Chefe de publicanos», ou dos cobradores de impostos a favor dos romanos dominadores; seria um homem detestável, não só pelo seu ingrato trabalho, mas sobretudo pela colaboração com o opressor estrangeiro, além de que certamente abusaria da profissão para enriquecer à custa de exigir mais do que seria justo; e, para cúmulo, o seu nome – Zacai –, que em aramaico significa puro, era um verdadeiro sarcasmo. O negócio seria rendoso, pois Jericó era uma grande cidade de comércio, situada no fértil vale inferior da margem direita do rio Jordão, numa encruzilhada de vias que ligavam Jerusalém às cidades do Norte e da Transjordânia. A condição pecadora de Zaqueu fica bem clara nos vv. 7-10.

3 «Esforçava-se por ver quem era Jesus». Podemos pensar que não se tratava de uma mera curiosidade frívola, mas antes de uma insatisfação escondida dentro de quem não se satisfaz só com as coisas materiais, estando aberto ao divino e disposto a rectificar a sua vida. A vontade de seguir a voz interior da consciência leva-o a superar os respeitos humanos e a sujeitar-se ao ridículo de trepar a uma árvore. A narrativa põe em foco o flagrante contraste entre o poder de um homem «pessoalmente rico» e a fraqueza de quem era de «pequena estatura».

4 «Sicómoro»: a própria etimologia grega do nome da árvore deixa ver a sua natureza, uma árvore bastante frondosa, com folhas semelhantes às da amoreira e frutos parecidos com os da figueira.

8 «Zaqueu parou e disse ao Senhor». Fica patente como não foi preciso que Jesus lançasse em rosto os abusos e pecados daquele homem; a bondade e a condescendência de Jesus, que desassombradamente entra em casa de um pecador público, leva-o à conversão e a propósitos bem concretos. Por outro lado, a avareza do «chefe de publicanos» é agora compensada com larga generosidade: «vou dar a metade dos meus bens aos pobres»; e as injustiças são reparadas com uma repartição superabundante, superior ao que ordenava a própria Lei de Moisés (cf. Ex 21, 37-38): «restituirei quatro vezes mais».

 

Sugestões para a homilia

 

Deus ama tudo o que existe.

Zaqueu também é filho de Abraão.

 

Na primeira leitura o autor sagrado explica que Deus “castiga brandamente aqueles que caem.” Usa de moderação para com os que pecam, “para que se afastem do mal” porque ama com amor de Pai todas as criaturas. A Sua benevolência tem a ver com a grandeza e a omnipotência divina: “O mundo inteiro é como uma gota de orvalho sobre a terra.” (cf. Sab 11,22). Daí resulta a tolerância, a misericórdia e o perdão (cf. Sab 11,23). Sabemos pelo profeta Ezequiel que “Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva.” (Ezequiel, 18,23)

“Deus é Amor”[1] e derrama o seu amor sobre todas as criaturas. Deus ama-nos como filhos, mesmo quando nos corrige e admoesta. Perdoando as nossas faltas, faz que nos afastemos do mal e estabelece a comunhão connosco (cf. Sab 12,1-2).

Recordemos esta passagem da Bula de proclamação do Ano santo da misericórdia:

“É próprio de Deus usar de misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua omnipotência. Estas palavras de São Tomás de Aquino mostram como a misericórdia divina não é um sinal de fraqueza, mas antes a qualidade da omnipotência de Deus. É por isso que a liturgia, numa das suas colectas mais antigas, convida a rezar assim: «Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e Vos compadeceis.» (Oração colecta do XXVI Domingo) Deus permanecerá para sempre na história da humanidade como Aquele que está presente, Aquele que é próximo, providente, santo e misericordioso.

Paciente e misericordioso é o binómio que aparece, frequentemente, no Antigo Testamento para descrever a natureza de Deus. O facto de Ele ser misericordioso encontra um reflexo concreto em muitas acções da história da salvação, onde a sua bondade prevalece sobre o castigo e a destruição. Os Salmos fazem sobressair esta grandeza do agir divino: «É Ele quem perdoa as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades. É Ele quem resgata a tua vida do túmulo e te enche de graça e ternura» (Salmo103, 3-4). (Santo Padre, Papa Francisco, Misericordiae Vultus)

 

Zaqueu também é filho de Abraão

Depois da parábola do fariseu e do publicano, que escutámos no Domingo passado, o evangelista São Lucas apresenta-nos, hoje, a conversão de Zaqueu, homem rico, mas que procurava ver Jesus.[2] Jesus veio o seu encontro, porque Ele veio ao mundo “procurar e salvar o que estava perdido.” Zaqueu era um chefe de publicanos, encarregado, pelos romanos, de cobrar os impostos. Os judeus consideravam estes homens como verdadeiros traidores, pois colaboravam com a autoridade inimiga, pagã e opressora. O Evangelho diz que Zaqueu, ao ter conhecimento de que Jesus ia passar por Jericó, sentiu um grande desejo de ver Jesus. São João da Cruz diz que “quando a alma procura a Deus, muito mais a procura o seu Amado a ela.”[3] Este homem tinha subido a uma árvore, agora Jesus recompensa todo o seu esforço, todo o seu desejo: “Zaqueu, desce depressa. Preciso de ficar em tua casa.” Com Jesus tudo renasce: O cobrador de impostos, desprezado pelos seus concidadãos, deixou-se transformar pelo amor de Deus e tornou-se um homem arrependido, sincero, generoso, capaz de partilhar os seus bens: “Vou distribuir pelos pobres metade dos meus bens. Vou restituir quatro vezes mais a quem prejudiquei”. Era chefe de publicanos, agora recuperou a dignidade de filho de Abraão.

 

Somos convidados a agradecer a universalidade do amor de Deus. A história de Zaqueu revela-nos o amor de Deus que provoca a conversão do pecador. O Evangelho diz-nos muitas vezes que Jesus se enchia de compaixão pelas pessoas. Jesus veio “trazer o fogo à terra”[4] para aquecer os nossos corações frios e gelados com o fogo do Amor divino, que ardia no seu Coração.

 Anunciemos com palavras e gestos que só o amor gera “a vida com abundância” e que é o fogo do amor que transforma o mundo. “Vinde Espirito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor. Enviai, Senhor o vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra.”

Queremos ser testemunhas do Amor misericordioso de Jesus, que “come e bebe com os pecadores, porque Ele não veio salvar os justos, mas os pecadores.” ( cf Lc 5,32) Acreditamos que “Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.” (1Tim 2,4) Acreditamos que a sua misericórdia se derrama sobre todos aqueles que O temem, “porque o Senhor é bom, eterna a sua misericórdia, a sua fidelidade estende-se de geração em geração.” (Salmo 99,5)

Nossa Senhora, em Fátima, pediu-nos que nos uníssemos em oração e concórdia, com pena dos pecadores, porque Ela é Mãe de misericórdia: “Rezem, rezem muito pela conversão dos pecadores. Há muitas almas que vão para o inferno porque não há quem se sacrifique e reze por elas.” Não fiquemos indiferentes, mas rezemos uns pelos outros. Nunca devemos desistir: “Deus até das pedras pode fazer filhos de Abraão.” (Luc 3,8) O autor da Carta aos Hebreus pede-nos: “Levantai as vossas mãos fatigadas e dirigi os vossos passos por caminhos direitos.”[5] É pecado desesperar da nossa salvação e da dos outros. O zelo pela glória de Deus, ensinava São Maximiliano Maria Kolbe, “resplandece sobretudo na salvação das almas, que Jesus Cristo resgatou com o seu próprio sangue. O principal e mais profundo empenho da vida apostólica deve ser o de procurar a salvação do maior número de almas.”[6] São Paulo exorta-nos a nós, como outrora aos cristãos de Roma: “Seja a vossa caridade sem fingimento. Detestai o mal e aderi ao bem. Amai-vos uns aos outros com amor fraterno. Não sejais indolentes no zelo, mas fervorosos no espírito. Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação, perseverantes na oração.” (cf Ro 12, 9-12)

 

Fala o Santo Padre

 

«O olhar de Jesus vai além dos pecados e dos preconceitos;

ele vê a pessoa com os olhos de Deus, que não se detém no mal passado, mas entrevê o bem futuro.»

 

O Evangelho de hoje apresenta-nos um episódio acontecido em Jericó, quando Jesus chegou à cidade e foi acolhido pela multidão (cf. Lc 19, 1-10). Em Jericó vivia Zaqueu, o chefe dos «publicanos», ou seja, dos cobradores de impostos. Zaqueu era um rico colaborador dos odiados ocupantes romanos, um explorador do seu povo. Também ele, por curiosidade, queria ver Jesus, mas a sua condição de público pecador não lhe permitia aproximar-se do Mestre; além disso, era de baixa estatura, e por isso resolveu subir numa árvore, um sicómoro, ao longo do caminho onde Jesus ia passar.

Quando Jesus chegou perto daquela árvore levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desça depressa. Quero ficar em sua casa hoje» (v. 5). Podemos imaginar a estupefação de Zaqueu! Mas porque Jesus disse «devo ficar em sua casa»? De qual dever se trata? Sabemos que o seu dever supremo é atuar o desígnio do Pai sobre toda a humanidade, que se cumpre em Jerusalém com a sua condenação à morte, a crucificação e, no terceiro dia, a ressurreição. É o desígnio de salvação da misericórdia do Pai. E neste desígnio há também a salvação de Zaqueu, um homem desonesto e desprezado por todos, e que portanto necessitava de se converter. Com efeito, o Evangelho narra que, quando Jesus o chamou, «todos murmuravam: “Ele hospedou-se na casa de um pecador” (v. 7). O povo considerava-o um ladrão, que se enriqueceu à custa dos outros. E se Jesus tivesse dito: “Desce tu, explorador, traidor do povo! Vem falar comigo para ajustar as contas!”. Certamente o povo teria aplaudido. Ao contrário, começaram a murmurar: “Jesus vai à casa dele, do pecador, do explorador”».

Jesus, guiado pela misericórdia, procurava precisamente por ele. E ao entrar na casa de Zaqueu disse-lhe: «Hoje houve salvação nesta casa, porque este também é filho de Abraão. Pois o filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido» (vv. 9-10). O olhar de Jesus vai para além dos pecados e dos preconceitos. Isto é importante! Devemos aprendê-lo. O olhar de Jesus vai além dos pecados e dos preconceitos; ele vê a pessoa com os olhos de Deus, que não se detém no mal passado, mas entrevê o bem futuro; Jesus não se resigna aos fechamentos, mas sempre abre, sempre abre novos espaços de vida; não se detém nas aparências, mas olha para o coração. E neste caso olhou para o coração ferido deste homem: ferido pelo pecado da cupidez, pelas numerosas coisas más que este Zaqueu tinha cometido. Olha para aquele coração ferido e vai ali.

Por vezes, procuramos corrigir ou converter um pecador repreendendo-o, criticando os seus erros e o seu comportamento injusto. A atitude de Jesus com Zaqueu indica-nos outro caminho: o de mostrar a quem erra o seu valor, aquele valor que Deus continua a ver não obstante tudo, apesar de todas as nossas faltas. Isto pode provocar uma surpresa positiva, que enternece o coração e impele a pessoa a tirar o bem que tem dentro de si. É dando confiança às pessoas que as fazemos crescer e mudar. É assim que Deus se comporta com todos nós: não está bloqueado pelo nosso pecado, mas supera-o com o amor e faz-nos sentir a nostalgia do bem. Todos sentimos esta nostalgia do bem depois de um erro. E assim faz o nosso Deus Pai, assim faz Jesus. Não existe uma pessoa que não tenha algo de bom. E Deus olha para isto, para o tirar do mal.

A Virgem Maria nos ajude a ver o bem que há nas pessoas que encontramos todos os dias, a fim de que todos sejamos encorajados a fazer sobressair a imagem de Deus impressa no seu coração. E assim podemos rejubilar pelas surpresas da misericórdia de Deus! O nosso Deus, que é o Deus das surpresas!

Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 30 de outubro de 2016

 

Oração Universal

 

Caríssimos fiéis: Oremos pela Igreja

e por aqueles que mais precisam,

sabendo que o Pai conhece tudo,

mesmo o que ainda não saiu dos nossos lábios,

e digamos humildemente:

 

Atendei, Senhor, a nossa prece.

Ou:

Pela vossa misericórdia, salvai-nos, Senhor.

 

1. Para que a Igreja de Deus e os que a servem

estejam prontos a acolher os pecadores

e a ajudá-los a converter o coração, oremos.

 

2. Para que os rejeitados e malvistos por alguém

encontrem sempre quem os acolha como irmãos

e os ajude a refazer as suas vidas, oremos.

 

3. Para que todos os que se deixam perturbar

pelo pensamento do fim do mundo ou da morte

reencontrem a serenidade e a paz, oremos.

 

4. Para que as famílias da nossa comunidade

saibam acolher com a alegria de Zaqueu

os estrangeiros, os que estão de passagem e os mais pobres, oremos.

 

5. Para que todos os nossos defuntos,

a quem Deus concedeu o dom da fé,

recebam no Céu a eterna recompensa, oremos.

 

Deus Pai, que em vosso Filho procurastes hospedagem

em casa de um grande pecador,

fazei-Vos convidado de cada homem,

dai a todos a paz do coração

e a graça de Vos acolherem com alegria.

Por nosso Senhor Jesus Cristo

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: No meio da minha vida, F. da Silva, NRMS 1(II)

 

Oração sobre as oblatas: Senhor, fazei que este sacrifício seja para Vós uma oblação pura e para nós o dom generoso da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor...

 

Santo: A. Cartageno, Suplemento CT

 

Monição da Comunhão

 

Somos convidados a comungar com fé, amor e devoção, porque “O Senhor livra os justos de todas as angústias. O Senhor está perto dos que têm um coração atribulado. Ele defende a vida dos seus servos e salva os que n’Ele confiam.” (Salmo 33, 18-19.23)

 

Demos graças, rezando com o salmista:

Como é admirável, ó Deus, a vossa bondade:

à sombra das vossas asas se refugiam os homens.

Podem saciar-se da abundância da vossa casa

e Vós os inebriais com a torrente das vossas delícias.

 

Em Vós está a fonte da vida

e é na vossa luz que vemos a luz.

Conservai a vossa bondade aos que Vos conhecem

e a vossa justiça aos que são humildes de coração. (Salmo 35,8-11)

 

Cântico da Comunhão: Não fostes vós que Me escolhestes, Az. Oliveira, NRMS 59

Salmo 15, 11

Antífona da comunhão: O Senhor me ensinará o caminho da vida, a seu lado viverei na plenitude da alegria.

Ou:    Jo 6. 58

Assim como o Pai que Me enviou é o Deus vivo e Eu vivo pelo Pai, também o que Me come viverá por Mim, diz o Senhor.

 

Cântico de acção de graças: Pelo Pão do teu Amor, H. Faria, NRMS 2 (II)

 

Oração depois da comunhão: Multiplicai em nós, Senhor, os frutos da vossa graça, para que os sacramentos celestes que nos alimentam na vida presente nos preparem para alcançarmos a herança prometida. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

“O mundo procura encontrar a Deus porque d’Ele sente uma dolorosa necessidade; o mundo reclama evangelizadores que lhe falem de um Deus que eles conheçam e lhes seja familiar como se eles vissem o invisível. (Heb 11,27) O mundo reclama e espera de nós simplicidade de vida, espírito de oração, caridade para com todos, especialmente para com os pequeninos e os pobres, obediência e humildade, desapego de nós mesmos e renúncia. Sem esta marca de santidade, dificilmente a nossa palavra atingirá o coração dos homens dos nossos tempos; ela corre o risco de permanecer vã e infecunda.” São Paulo VI, Evangelii Nuntiandi, nº 76

 

Cântico final: O Senhor me apontará o caminho, F. da Silva, NRMS 69

 

 

Homilias Feriais

 

31ª SEMANA

 

2ª Feira, 4-XI: A misericórdia de Deus e o perdão.

Rom 11, 29-36 / Lc 14, 12-14

Como é profunda a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus.

Deus sabe mais e consegue tirar um grande bem de qualquer infelicidade. Assim acontece até com o pecado: Deus permitiu que todos os homens desobedecessem, a fim de usar de misericórdia para com todos (LT). A Sabedoria de Deus ultrapassa os nossos quadros mentais: enche-se de compaixão pelo pecador (ex: o filho pródigo, a ovelha perdida, etc) Eu sou pobre e miserável: defendei-me com a vossa protecção (SR).

Somos todos convidados a exercer a misericórdia com os outros, sem esperarmos recompensa. Deste modo, receberemos a recompensa na vida eterna (EV).

 

3ª Feira, 5-XI: O convite para a vida eterna.

Rom 12, 5-16 /  Lc 14, 15-24

O senhor disse ao criado: Sai aos caminhos e às azinhagas e obriga essa gente a entrar para que a minha casa fique cheia.

 Jesus chama-nos para a entrada no reino dos Céus, através de parábolas. Por meio delas convida para o banquete do reino (EV).

Os convidados da parábola apresentaram muitas desculpas, mas a conversão não é compatível com elas. É preciso que procuremos fazer render os talentos recebidos. Quem tem o dom do ensino, que empregue a ensinar; quem exerce misericórdia, faça-o com alegria; amai-vos uns aos outros com amor fraterno; sede alegres na esperança, pacientes na tribulação, perseverantes na oração (LT). Guardai-me pois na vossa paz, Senhor (SR)

 

4ª Feira, 6-XI: Construir o caminho para a vida eterna.

Rom 13, 8-10 / Lc 14, 25-33

Qual de vós, que deseja construir uma torre, se não senta primeiro a calcular a despesa e a ver se tem com que terminá-la.

Para construirmos esta torre, que é um empreendimento para alcançar a vida eterna, devemos verificar os recursos com que contamos, as ajudas do Senhor, etc. As Leituras de hoje apresentam algumas sugestões.

Da nossa parte, procuremos viver bem caridade, que é o pleno cumprimento da Lei (LT). Ditoso o homem de coração bondoso e compassivo (SR). Também há mais sugestões: Cristo como centro de toda a vida cristã; a união com Ele prevalece sobre todas as outras, quer se trate de laços familiares, quer socais (EV). Jesus pede também que renunciemos a todos os nossos bens (EV).

 

5ª Feira, 7-XI: O caminho do arrependimento.

Rom 14, 7-12 / Lc 15, 1-10

É assim que haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento.

No caminho para a vida eterna podemos desviar-nos (como uma ovelha perdida), mas Jesus continua a olhar-nos com predilecção e vai à nossa procura: Se vivemos, vivemos para o Senhor e, se morremos, morremos para o Senhor (LT).

Ele espera que manifestemos o nosso arrependimento, que voltemos ao bom caminho: Jesus convida os pecadores à conversão, sem a qual não se pode entrar no Reino, mostra-lhes a misericórdia sem limites do seu Pai para com eles e a imensa alegria que haverá no Céu por um só pecador que se arrependa (EV).

 

6ª Feira, 8-XI: As contas da administração dos bens.

Rom 15, 14-21 / Lc 16, 1-8

Chamou-o então e disse-lhe: Que é isto que oiço dizer de ti? Presta contas da tua gerência.

Todos somos chamados pelo Senhor a prestar contas dos bens que recebemos. Tudo o que o verdadeiro cristão possui, deve olhá-lo como um bem que lhe é comum com os demais. O cristão é um administrador dos bens do Senhor (EV).

S. Paulo descreve o bom uso das graças que Deus lhe confiou: Eu não ousaria falar senão do que foi realizado por Cristo por meu intermédio, para levar os gentios a aderirem à fé; e tanto é assim que dei plena expansão ao Evangelho (LT). Os confins da terra puderam ver a salvação do nosso Deus. Aclamai o Senhor, terra inteira (SR).

 

Sábado, 9-XI: Dedicação da Basílica de S. João de Latrão.

1 Cor 3, 9-11. 16-17 / Jo 2, 13-22

Tirai isto daqui: não façais da casa de meu Pai casa de comércio.

A Basílica de S, João de Latrão foi um dos primeiros templos a ser construído logo que acabaram as perseguições no século IV. Representa um sinal de unidade com Papa, pois é a catedral do Bispo de Roma.

Cada templo há-de ser uma casa de oração (EV), um lugar onde damos culto a Deus. Por isso, devemos estar com o respeito e a compostura adequadas, cumprir os ritos da Missa, evitar conversas inúteis, rezar mais, etc. Deste modo viremos a ser um edifício que Deus está a construir (LT). O Senhor dos exércitos está connosco. O Deus de Jacob é a nossa fortaleza (SR).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:        José Roque

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:               Duarte Nuno Rocha

 



[1] I João 4,8

[2] Lucas 13, 22-30

[3] São João da Cruz, Chama Viva de Amor, III,28

[4] Lucas 12,49

[5] Hebreus 12,12-13

[6] S. Maximiliano Maria Kolbe, Cartas. Ofício de Leituras, 14 Agosto


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