24º Domingo Comum

15 de Setembro de 2019

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Dai a paz, Senhor, M. Faria, NRMS 23

cf. Sir 36, 18

Antífona de entrada: Dai a paz, Senhor, aos que em Vós esperam e confirmai a verdade dos vossos profetas. Escutai a prece dos vossos servos e abençoai o vosso povo.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Na liturgia deste domingo o Senhor dirige-nos palavras de confiança, chama-nos à conversão, promete o perdão, fala da alegria na casa do Pai, porque o pecador se arrependeu e voltou ao convívio familiar.

Esta mensagem deve despertar em nós o desejo de nos pormos em paz connosco próprios, com os outros e sobretudo de nos aproximarmos mais de Deus.

Cientes desta realidade e tendo consciência de que somos pecadores, arrependamo-nos dos nossos pecados e peçamos perdão ao Senhor.

 

Oração colecta: Deus, Criador e Senhor de todas as coisas, lançai sobre nós o Vosso olhar; e para sentirmos em nós os efeitos do Vosso amor, dai-nos a graça de Vos servirmos com todo o coração. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Moisés intercede junto de Deus pelos seus irmãos que se desviaram do recto caminho e praticam a idolatria. Se o pecado dos judeus é grande, maior é o perdão do Senhor.

 

Êxodo 32, 7-11.13-14

 

Naqueles dias, 7o Senhor falou a Moisés, dizendo: «Desce depressa, porque o teu povo, que tiraste da terra do Egipto, corrompeu-se. 8Não tardaram em desviar-se do caminho que lhes tracei. Fizeram um bezerro de metal fundido, prostraram-se diante dele, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: ‘Este é o teu Deus, Israel, que te fez sair da terra do Egipto’». 9O Senhor disse ainda a Moisés: «Tenho observado este povo: é um povo de dura cerviz. 10Agora deixa que a minha indignação se inflame contra eles e os destrua. De ti farei uma grande nação». 11Então Moisés procurou aplacar o Senhor seu Deus, dizendo: «Por que razão, Senhor, se há-de inflamar a vossa indignação contra o vosso povo, que libertastes da terra do Egipto com tão grande força e mão tão poderosa? 13Lembrai-Vos dos vossos servos Abraão, Isaac e Israel, a quem jurastes pelo vosso nome, dizendo: ‘Farei a vossa descendência tão numerosa como as estrelas do céu e dar-lhe-ei para sempre em herança toda a terra que vos prometi’». 14Então o Senhor desistiu do mal com que tinha ameaçado o seu povo.

 

Este impressionante diálogo entre Deus e Moisés põe em evidência os elementos fundamentais da história da salvação, a saber, a aliança, o pecado, a fidelidade divina e a sua misericórdia. O texto foi escolhido em função do Evangelho: as parábolas da misericórdia.

11 «Moisés procurou aplacar o Senhor». É uma figura de Cristo Mediador, que também subia frequentemente ao monte para orar: Moisés intercede muitas vezes em favor do povo pecador: Ex 5, 22-23; 8, 4; 9, 28; 10, 17; Nm 11, 2; 14, 13-19; 18, 22; 21, 7. E Deus aceita esta oração, que faz apelo à sua fidelidade à aliança e à sua misericórdia (v. 14).

 

Salmo Responsorial    Sl 50 (51), 3-4.12-13.17.19 (R. Lc 15, 18)

 

Monição: O salmo que iremos recitar é utilizado pela Igreja como expressão de humildade e arrependimento. Nele se exalta também a bondade de Deus que perdoa.

 

Refrão:     Vou partir e vou ter com meu pai.

 

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.

Lavai-me de toda a iniquidade

e purificai-me de todas as faltas.

 

Criai em mim, ó Deus, um coração puro

e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.

Não queirais repelir-me da vossa presença

e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

 

Abri, Senhor, os meus lábios

e a minha boca anunciará o vosso louvor.

Sacrifício agradável a Deus é um espírito arrependido:

não desprezeis, Senhor, um espírito humilhado e contrito.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Paulo contrapõe à sua condição de pecador e perseguidor dos cristãos, a escolha que Jesus fez dele para servir o Evangelho. Este trecho é, ao mesmo tempo, uma humilde confissão e um acto de confiança.

 

1 Timóteo 1, 12-17

 

Caríssimo: 12Dou graças Àquele que me deu força, Jesus Cristo, Nosso Senhor, que me julgou digno de confiança e me chamou ao seu serviço, 13a mim que tinha sido blasfemo, perseguidor e violento. Mas alcancei misericórdia, porque agi por ignorância, quando ainda era descrente. 14A graça de Nosso Senhor superabundou em mim, com a fé e a caridade que temos em Cristo Jesus. 15É digna de fé esta palavra e merecedora de toda a aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores e eu sou o primeiro deles. 16Mas alcancei misericórdia, para que, em mim primeiramente, Jesus Cristo manifestasse toda a sua magnanimidade, como exemplo para os que hão-de acreditar n’Ele, para a vida eterna. 17Ao Rei dos séculos, Deus imortal, invisível e único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amen.

 

Iniciamos hoje a leitura de textos respigados das chamadas Cartas Pastorais, escritos paulinos dirigidas a pessoas singulares, pastores da Igreja, com normas para a organização das comunidades de Éfeso (1 e 2 Tim) e de Creta (Tit). O texto desta leitura é um maravilhoso hino de acção de graças de Paulo pela sua vocação de Apóstolo, bem consciente da sua indignidade – «blasfemo, perseguidor, violento», embora de boa fé, «por ignorância» (v. 13) – e da grandeza do dom de Deus, uma «graça que superabundou» (v. 14). Esta acção de graças culmina numa doxologia final, de sabor litúrgico (v. 17).

15 «É digna de fé…» Esta fórmula solene, própria das Cartas Pastorais (cf. 1 Tim 3, 1; 4, 9; 2 Tim 2, 11; Tit 3, 8), põe em relevo a importância doutrinal do que se diz neste versículo, um dos pontos centrais da fé cristã: a obra redentora de Cristo, que «por nós homens e pela nossa salvação desceu dos Céus…» (Credo de Niceia). A misericórdia que Deus mostrou para com Paulo é suficiente para inspirar confiança a qualquer pecador que queira arrepiar caminho.

 

Aclamação ao Evangelho        2 Cor 5, 19

 

Monição: A cruz de Jesus anuncia o fim da inimizade com Deus e inaugura uma nova era de reconciliação universal, enquanto esperamos o dia da ressurreição.

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS 16

 

Em Cristo, Deus reconcilia o mundo consigo

e confiou-nos a palavra da reconciliação.  

 

 

Evangelho

 

Forma longa: São Lucas 15, 1-32;        forma breve: São Lucas 15, 1-10

 

Naquele tempo, 1os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. 2Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». 3Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: 4«Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? 5Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros 6e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Eu vos digo: 7Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento. 8Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar? 9Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’. 10Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa».

[Jesus disse-lhes ainda: 11«Um homem tinha dois filhos. 12O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. 13Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. 14Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. 15Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. 16Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! 18Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. 19Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. 20Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. 21Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. 22Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. 23Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejamos, 24porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. 25Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. 26Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. 27O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. 28Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. 29Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. 30E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. 31Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. 32Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».]

 

A leitura de hoje, na sua forma longa, engloba todo o cap. 15 de S. Lucas, com as três parábolas da misericórdia divina; todas as três põem em evidência a alegria que Deus sente com o reencontro com o pecador, representado na ovelha perdida (vv. 4-7), na dracma perdida (8-10) e no filho perdido (11-32). Nas duas primeiras Deus é representado à procura do pecador; na terceira, no impressionante acolhimento que lhe presta. Estas parábolas são exclusivas do Evangelho de S. Lucas; a parábola da ovelha perdida também aparece em Mt 18, 10-14, mas num outro sentido: visa o cuidado que os chefes da Igreja devem pôr em não deixar que se perca nenhum dos pequeninos, isto é, aqueles fiéis que pela sua fragilidade correm mais risco de se perderem.  

Alguém considerou a parábola do filho pródigo «o evangelho dos evangelhos». É a mais bela e a mais longa das parábolas de Jesus, impregnada duma finíssima psicologia própria de quem no-la contou, Jesus, que conhece a infinita misericórdia do coração de Deus, que é o seu próprio coração, e que penetra na profundidade da alma humana (cf. Jo 2, 25), onde se desenrola o tremendo drama do pecado. «Aquele filho, que recebe do pai a parte do património que lhe corresponde, e abandona a casa para o desbaratar num país longínquo, vivendo uma vida libertina, é, em certo sentido, o homem de todos os tempos, começando por aquele que em primeiro lugar perdeu a herança da graça e da justiça original. A analogia neste ponto é muito ampla. A parábola aborda indirectamente todo o tipo de rupturas da aliança de amor, todas as perdas da graça, todo o pecado» (Encíclica Dives in misericordia, nº 5; ver tb. Catecismo da Igreja Católica, nº 1439).

12 «Dá-me a parte da herança»: segundo Dt 21, 17 pertencia-lhe um terço, havendo só dois filhos. O pai podia fazer as partilhas em vida (cf. Sir 30, 28ss).

13 «Partiu…»: o pecado do filho foi abandonar o pai, esbanjar os seus bens e levar uma vida dissoluta.

14-16 «Uma grande fome: é a imagem do vazio e insatisfação que sente o homem quando está longe de Deus, em pecado. «Guardar porcos» era uma humilhação abominável para um judeu, a quem estava proibido criar e comer estes animais impuros. Esta situação para um filho duma boa família era absolutamente incrível, o cúmulo da baixeza e da servidão. As «alfarrobas»: o rapaz já se contentaria com uma tão indigesta e indigna comida, mas, na hora de se dar uma ração dessas aos porcos, ninguém se lembrava daquele miserável guardador! Aqui fica bem retratada a vileza do pecado e a escravidão a que se submete o homem pecador (cf. Rom 1, 25; 6, 6; Gal 5, 1). O filho pretendia ser livre da tutela do pai, mas acaba por perder a liberdade própria da sua condição: imagem do pecador que perde a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rom 8, 21; Gal 4, 31; 5, 13) e se sujeita à tirania do demónio, das paixões.

17 «Então, caindo em si…» A degradação a que a loucura do seu pecado o tinha levado fê-lo reflectir (é o começo da conversão) e enveredar pela única saída digna e válida.

18-19 «Vou-me embora»: A tradução latina (surgam = levantar-me-ei) do particípio gráfico (mas não ocioso) do original grego – «levantando-me, vou ter...» – é muito mais expressiva do que a tradução litúrgica, pois, duma forma viva, indica a atitude de quem começa a erguer-se da sua profunda miséria.

«Pequei contra o Céu e contra ti»: nesta expressão retrata-se a dimensão transcendente do pecado; não é uma simples ofensa a um homem, é ofender a Deus, uma ofensa de algum modo infinita! O filho não busca desculpas, reconhece sinceramente a enormidade da sua culpa.

«Trata-me como um dos teus trabalhadores». É maravilhoso considerar como naquele filho arrependido começa a brotar o amor ao pai; o que ele ambiciona é ir para junto do pai, estar junto a ele é o que o pode fazer feliz! Melhorar a sua situação material não é o que mais o preocupa, pois, para isso, qualquer proprietário da sua pátria o podia admitir como jornaleiro; assim a parábola não descreve uma atitude interesseira do filho, mas a humildade e a contrição de quem se reconhece pecador. Por outro lado, ele não se atreve a pedir ao pai que o admita no gozo da sua antiga condição de filho, porque reconhece a sua indignidade: «já não mereço ser chamado teu filho».

20 «Ainda ele estava longe, quanto o pai o viu». Este pormenor faz pensar que o pai não só desejava ansiosamente o regresso do filho, mas também, muitas vezes, observava ao longe os caminhos, impaciente de ver o filho chegar quanto antes, uma enternecedora imagem de como Deus aguarda a conversão do pecador. «Encheu-se de compaixão»: o verbo grego é muito expressivo e difícil de traduzir com toda a sua força, esplankhnístê: «comoveram-se-lhe as entranhas» (tà splánkhna). «E correu…»: é impressionante o contraste entre o pai que corre para o filho e o filho que simplesmente caminha para o filho – «a misericórdia corre» (comenta Sto. Agostinho); «cobrindo-o de beijos», numa boa tradução que tem em conta a forma iterativa do verbo grego, é uma belíssima e expressiva imagem do amor de Deus para com um pecador arrependido!

21 «Pai, pequei». Apesar de se ver assim recebido pelo pai, o filho não se escusa de confessar o seu pecado e de manifestar a atitude interior que o move a regressar.

22 «A melhor túnica, o anel, o calçado», são uma imagem da graça, o traje nupcial (cf. Mt 22, 11-13); assim nos espera o Senhor no Sacramento da Reconciliação, não para nos ralhar, recriminar, mas para nos admitir na sua antiga intimidade, restituindo-nos, cheio de misericórdia, a graça perdida.

23 «Comamos e festejemos», a imagem da Sagrada Eucaristia, segundo um sentido espiritual corrente.

25-32 «O filho mais velho»: esta segunda parte da parábola não se pode limitar a uma censura dos fariseus e escribas (v. 2), cumpridores, mas insensíveis ao amor – o mais velho é que é, no fim de contas, o filho mau –; a parábola é também uma lição para todos, a fim de que imitem a misericórdia de Deus para com um irmão que pecou (cf. Lc 6, 36); ele é sempre «o teu irmão» (v. 33), e não há direito de que não se tome a sério a misericórdia de Deus, com aquela despeitada ironia: «esse teu filho» (v 30). A misericórdia de Deus é tão grande, que ultrapassa uma lógica meramente humana; esta segunda parte da parábola põe em evidência a misericórdia de Deus a partir do contraste com a mesquinhez do filho mais velho.

 

Sugestões para a homilia

 

A infidelidade dos israelitas libertados do Egipto

O perdão, amor gratuito de Deus

E da Sua profunda misericórdia

 

A infidelidade dos israelitas libertados do Egipto

O povo hebreu, depois da sua saída da escravidão do faraó no Egipto, percorreu o deserto numa marcha lenta e muito penosa. As dificuldades dessa vida errante depressa levaram ao esquecimento de todos os prodígios que o Senhor havia realizado em seu favor.

Assim, enquanto Moisés se encontra no monte a falar com o Senhor, os israelitas dão a Aarão as suas jóias e, com o ouro reunido e fundido, fazem um touro e adoram-no.  Desviado do recto caminho o povo depressa pratica a idolatria. A ideia de um Deus único e indivisível é substituído por um ídolo de fabrico humano. Moisés, alertado para o facto pela indignação de Deus, ora ao Senhor lembrando a Sua grande bondade: quanto fizera pelo seu povo e quanto lhe havia prometido. Se o pecado dos homens é grande, maior é o perdão de Deus.

 

O perdão, amor gratuito de Deus

O comportamento dos israelitas é a imagem do que fazemos também nós. Quando escutamos a palavra de Deus, sentimo-nos impelidos a segui-la com entusiasmo. Mas, passados alguns dias ou até mesmo algumas horas, tudo volta a ser com dantes.

O homem nunca deixa de ser pecador, repete sempre os mesmos pecados, não se arrepende. Mas não deve desesperar. A única maneira de obter a salvação é confiar na infinita bondade de Deus, pois o Seu amor nunca será vencido por nenhuma infidelidade, por maior que esta seja.

A oração de Moisés em favor dos seus irmãos israelitas leva o Senhor a desistir do castigo com que tinha ameaçado o seu povo.

Assim também nós, não devemos confiar apenas nas nossas forças, na nossa capacidade de realizar gestos virtuosos, pois teríamos motivos suficientes para desesperar. Ponhamos então a nossa confiança no amor gratuito de Deus e na sua misericórdia.

 

E da sua profunda misericórdia

No Evangelho deste domingo escutamos o relato de três parábolas denominadas «parábolas da misericórdia». Os destinatários destas parábolas são os fariseus e os escribas que se consideram “justos” perante Deus e são chamados, por Jesus, à conversão. Estes não compreendem o facto de Jesus acompanhar e comer com aqueles que eles consideram como pecadores.

Os pecadores, para eles, eram essa “gente perdida”, as moedas, as ovelhas perdidas, o filho esbanjador e dissoluto que regressa a casa. Agora estão todos à volta de Jesus. Vivem em casa com Ele, estão a fazer festa, comem alegremente.

Quem agora necessita de um apelo à conversão não são eles, mas os “justos”. As noventa e nove ovelhas são os “justos”, são as nove dracmas, o filho mais velho, que se arriscam a perder a festa. Não compreendendo o que está a acontecer, são apanhados de surpresa pela nova realidade.

O que Jesus quer fazer compreender é que começou uma festa organizada para gente indigna, que causa problemas aos “justos”. O comportamento de Jesus, que acolhe os pecadores e come com eles, revela o rosto de Deus que os fariseus não podem aceitar: é escandaloso.

O Deus de Jesus é Alguém que salva gratuitamente a todos, é Alguém que raciocina com o coração; é Alguém que organiza a festa não para quem a julga merecer, mas para quem está triste, para quem tem fome; é Alguém que «não quer que se perca nenhum destes pequenos».

Quem é que se deve converter? Os pecadores? Evidentemente. Mas devem converter-se sobretudo os “justos”. Estes, para além de terem de corrigir a sua vida (porque todos somos pecadores, sendo difícil definir quem é mais ou menos pecador), devem corrigir principalmente as suas falsas ideias acerca de Deus, pois inventam uma “religião dos méritos”. Deus alegra-Se em sentar-Se à mesa com o pecador.

As duas primeiras parábolas põem em relevo a iniciativa da conversão, que não parte do homem, mas de Deus. É Ele que vai à procura do que se perdera. A parábola do chamado “filho pródigo”, que Jesus conta logo a seguir, põe em relevo o respeito de Deus pela liberdade do homem, pelo que deveríamos antes chamar-lhe a parábola do “pai misericordioso e compreensivo”. Este pai misericordioso não força o filho a ficar em casa, mas também não o obriga a voltar: mas sabe esperar.

S. Paulo, na segunda leitura, sublinha que Deus usou de misericórdia para com ele que era um blasfemador, um perseguidor e um violento. Se alguém como ele, inimigo da fé, “o primeiro entre os pecadores” como afirma, obteve misericórdia, poderá ainda alguém ter medo de que Deus o trate com severidade?

Saibamos, pois, agradecer este amor que o Senhor nos tem, sem merecimento nosso, e consideremos seriamente este apelo contínuo à conversão.

 

Fala o Santo Padre

 

«Alguma vez pensastes que todas as vezes que nos aproximamos do confessionário há alegria e festa no céu?

A liturgia de hoje propõe-nos o capítulo 15 do Evangelho de Lucas, considerado o capítulo da misericórdia, que reúne três parábolas com as quais Jesus responde aos murmúrios dos escribas e dos fariseus. Eles criticam o seu comportamento e dizem: «Este homem recebe e come com pessoas de má vida» (v. 2). Com estas três narrações, Jesus deseja fazer compreender que Deus Pai é o primeiro a ter uma atitude acolhedora e misericordiosa com os pecadores. Deus tem esta atitude. Na primeira parábola Deus é apresentado como um pastor que deixa as noventa e nove ovelhas para ir à procura da tresmalhada. Na segunda é comparado com uma mulher que perdeu uma moeda e a procura até a encontrar. Na terceira parábola Deus é imaginado como um pai que acolhe o filho que se tinha afastado; a figura do pai revela o coração de Deus, de Deus misericordioso, manifestado em Jesus.

Um elemento comum a estas parábolas é aquele expresso pelos verbos que significam alegrar-se juntos, fazer festa. O pastor chama amigos e vizinhos e diz-lhes: «Regozijai-vos comigo, achei a minha ovelha que se havia perdido» (v. 6); a mulher chama as amigas e as vizinhas e diz-lhes: «Regozijai-vos comigo, achei a dracma que tinha perdido» (v. 9); o pai diz ao outro filho: «Convinha, porém, fazermos festa, pois este teu irmão estava morto, e reviveu; estava perdido, e foi achado» (v. 32). Nas duas primeiras parábolas é ressaltada a alegria tão grande que era necessário partilhá-la com «amigos e vizinhos». Na terceira parábola é realçada a festa que parte do coração do pai misericordioso e se expande a toda a sua casa. […]

Com estas três parábolas, Jesus apresenta-nos o rosto verdadeiro de Deus: um Pai de braços abertos, que trata os pecadores com ternura e compaixão. A parábola que mais comove — comove todos — porque manifesta o amor infinito de Deus, é a do pai que vai ao encontro e abraça o filho reencontrado. E o que admira não é tanto a história triste de um jovem que precipita na degradação, mas as suas palavras decisivas: «Levantar-me-ei e irei a meu pai» (v. 18). O caminho do regresso para casa é o da esperança e da vida nova. Deus espera sempre que recomecemos a viagem, espera por nós com paciência, vê-nos quando ainda estamos longe, vem ao nosso encontro, abraça-nos, beija-nos, perdoa-nos. Deus é assim! O nosso Pai é assim! E o seu perdão cancela o passado e regenera-nos no amor. Esquece o passado: esta é a debilidade de Deus. Quando nos abraça e nos perdoa, perde a memória, não tem memória! Esquece o passado. Quando nós pecadores nos convertemos e nos deixamos reencontrar por Deus não nos esperam reprovações e insensibilidades, porque Deus salva, volta a receber em casa com alegria e faz festa. O próprio Jesus, no Evangelho de hoje, diz assim: «Digo-vos que assim haverá maior júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento» (Lc 15, 7). Faço-vos uma pergunta: alguma vez pensastes que todas as vezes que nos aproximamos do confessionário há alegria e festa no céu? Pensastes nisto? É bom!

Isto infunde-nos grande esperança porque não há pecado em que tenhamos caído do qual, com a graça de Deus, não possamos ressurgir; não há uma pessoa irrecuperável, ninguém é irrecuperável! Porque Deus nunca deixa de querer o nosso bem, até quando pecamos! E que a Virgem Maria, Refúgio dos pecadores, faça brotar nos nossos corações a confiança que se acendeu no coração do filho pródigo: «Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei» (v. 18). Por esta vereda, podemos dar alegria a Deus, e a sua alegria pode tornar-se a sua e a nossa festa.

    Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, 11 de Setembro de 2016

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Assim como Moisés intercedeu pelo povo de Deus,

como Paulo, que deu graças por ter alcançado misericórdia

e como Jesus, que procurou a ovelha perdida,

oremos, dizendo:

 

Ouvi, Senhor, a nossa oração.

 

1.     Pelas comunidades cristãs,

para que não se rendam a falsos ídolos,

mas caminhem sempre nos caminhos de Deus,

oremos ao Senhor.

 

2.     Pelos fiéis de todo o mundo,

para que não se apoiem apenas nas suas forças ou capacidades,

mas ponham toda a confiança no amor gratuito de Deus,

e na sua misericórdia,

oremos ao Senhor.

 

3.     Por nós aqui presentes nesta celebração,

para que, à semelhança de Jesus,

cuidemos de quem está triste, quem é marginalizado,

quem tem fome, quem é incompreendido,

e por todos aqueles que regressam à casa do Pai,

oremos ao Senhor.

 

4.     Por todos os cristãos,

para que saibam ser fiéis à sua fé

e a manifestem em todas as circunstâncias,

oremos ao Senhor.

 

5.     Por todos nós, que somos pecadores,

para que não tenhamos medo de Deus,

mas, arrependidos, confiemos na sua misericórdia,

oremos ao Senhor.

 

6.     Por todos aqueles que se julgam merecedores

das graças do Senhor pelos seus “méritos”,

para que corrijam estas suas falsas ideias acerca de Deus,

oremos ao Senhor.

  

Senhor Jesus,

que sempre nos procurais e chamais,

esperais pacientemente por nós

e nos sentais à vossa mesa,

ensinai-nos a superar os nossos pecados.

Vós que sois Deus com o Pai,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Que bom Senhor estar ao pé de Ti, M. Carneiro, NRMS 36

 

Oração sobre as oblatas: Ouvi, Senhor, com bondade as nossas súplicas e recebei estas ofertas dos vossos fiéis, para que os dons oferecidos por cada um de nós para glória do vosso nome sirvam para a salvação de todos. Por Nosso Senhor...

 

Santo: A. Cartageno, Suplemento CT

 

Monição da Comunhão

 

Na sagrada comunhão, iremos receber o Corpo e o Sangue de Jesus, que é para nós penhor de salvação. Que a Sua presença em nós seja tão viva, que se manifeste em todos os nossos actos.

 

Cântico da Comunhão: Não fostes vós que me escolhestes, Az. Oliveira, NRMS 59

Sl 35, 8

Antífona da comunhão: Como é admirável, Senhor, a vossa bondade! Na sombra das vossas asas se refugiam os homens.

Ou:    Sl 35, 8

O cálice de bênção é comunhão no Sangue de Cristo; e o pão que partimos é comunhão no Corpo do Senhor.

 

Cântico de acção de graças: Louvai ao Senhor, com tudo, M. Simões, NRMS 2 (I)

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, concedei que este sacramento celeste nos santifique totalmente a alma e o corpo, para que não sejamos conduzidos pelos nossos sentimentos mas pela virtude vivificante do vosso Espírito. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

A Missa não deve ficar limitada aos momentos da celebração a que assistimos, mas deve prolongar-se na nossa vida. A mensagem que escutamos deve despertar em nós o desejo de nos pormos em paz connosco próprios, com os outros e sobretudo de nos aproximarmos mais de Deus.

Procuremos viver unidos pelo amor, na fidelidade e renovação da nossa fé, a fim de que possamos levar o Evangelho a todos aqueles que connosco contactarem.

 

Cântico final: Vou cantar o vosso nome, S. Marques, NRMS 107

 

 

Homilias Feriais

 

24ª SEMANA

 

2ª Feira, 16-IX: O desejo salvífico de Deus

1 Tim 2, 1-8 / Lc 7, 1-10

O centurião: Não mereço que entres debaixo do meu tecto, nem digno me achei para ir ter contigo.

S. Paulo: Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.  Para isso, Cristo entregou-se à morte, para nos resgatar a todos (LT). Essa entrega é renovada sacramentalmente em cada Missa, em que o Filho de Deus se imola por nós.

Para edificarmos a nossa vida sobre a Eucaristia, melhoremos as nossas disposições para participar dignamente em cada Missa. A Igreja recorda as virtudes do centurião, especialmente a humildade (não sou digno), a fé louvada por Jesus (diz uma só palavra), e as virtudes humanas de comando.

 

3ª Feira, 17-IX: A misericórdia de Jesus.

1 Tim 3, 1-3 / Lc 7, 11-17

E vinha com a viúva bastante gente da cidade. Ao vê-la, o Senhor compadeceu-se e disse-lhe: Não chores.

A compaixão de Jesus para com os doentes, e as numerosas curas de enfermos (EV), leva Jesus a identificar-se com eles: Estive doente e visitaste-me. Quando visitarmos alguma pessoa doente, procuremos ver Cristo nela, com os olhos da fé.

S. Paulo pede a todos os que têm alguma tarefa, relacionada com as coisas da Igreja, que a cumpram com as melhores disposições, porque estão ao serviço do Senhor e dos seus representantes. Deste modo manifestam a presença de Deus e ajudam as pessoas a viverem com piedade essas acções.

 

4ª Feira, 18-IX: Relação fé-realidades humanas

1 Tim 3, 4-16 / Lc 7, 31-36

Mas é para saberes como se deve proceder na casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo.

A Igreja, coluna e apoio da verdade (LT), recebeu dos Apóstolos o mandato de Cristo de anunciar a verdade da salvação. Deste modo, compete à Igreja anunciar, sempre e em toda a parte, os princípios gerais de ordem social, e os juízos acerca de quaisquer realidades humanas, sempre que estiverem em jogo os direitos fundamentais da pessoa humana ou a salvação das almas como, por exemplo, o direito à vida desde o início e também no fim, etc.

Jesus pede também que se evitem as críticas: Veio João Baptista e vós dizeis...Veio o Filho do Homem e vós dizeis: É um glutão e um ébrio (EV).

 

5ª Feira, 19-IX: O arrependimento e o perdão dos pecados.

1 Tim 4, 12-16 / Lc 7, 36-50

Depois disse à mulher: Os teus pecados estão perdoados. Foi a tua fé que te salvou. Vai em paz,

A oração desta mulher foi escutada por Jesus, mesmo sem ter dito nada: as lágrimas e o perfume foram suficientes, pois Jesus atende a oração de fé, quer expressa em palavras ou feita em silêncio (as lágrimas e o perfume da pecadora) (EV). Os nossos defeitos, mesmo frequentes, não devem desanimar-nos, enquanto formos humildes e nos arrependermos. E, assim, poderemos começar de novo

S. Paulo dá um conselho a Timóteo para que melhore: Cuidado contigo e com o ensino; salvar-te-ás a ti e àqueles que te escutam (LT).

 

6ª Feira, 20-IX: O contributo específico da mulher.

1 Tim 6, 2-12 / Lc 8, 1-3

Andavam com Ele os doze, bem como algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades.

A Igreja mostra como as mulheres seguem e servem o Senhor, como estão ao pé da Cruz e vão em primeiro lugar ao sepulcro vazio, etc. Como estas santas mulheres (EV), todos temos que pôr os nossos talentos ao serviço do Senhor, que não veio para ser servido, mas para servir. E também o exemplo de Nossa Senhora.

S. Paulo pede ao seu discípulo que esclareça os fiéis sobre o amor desordenado aos bens materiais (LT). São bens que o Senhor pôs à nossa disposição para servirmos melhor os outros e para alcançarmos a vida eterna.

 

Sábado, 21-IX: S. Mateus: Uma biografia de Jesus.

Ef 4, 1-7. 11-13 / Mt 9, 9-13

Jesus ia a passar quando viu um homem, chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: Segue-me.

Quando foi chamado pelo Senhor, S. Mateus deixou logo tudo para se dedicar ao seu serviço (EV). A partir de então, acompanhou Jesus e foi testemunha da sua vida e ensinamentos, dos milagres, da participação na Última Ceia, etc. Deixou uma pequena, mas importante, biografia do Senhor e da sua Boa Nova.

A todos nos é pedido este maior conhecimento do Senhor. No fim chegaremos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado do homem adulto, à medida da estatura de Cristo na sua plenitude (LT).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:        António E. Portela

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilia Ferial:                      Nuno Romão

Sugestão Musical:               Duarte Nuno Rocha

 

 


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