Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

1ª Missa

2 de Novembro de 2005

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Felizes os mortos, F. dos Santos, NRMS 19-20

cf. 1 Tess 4, 14; 1 Cor 15, 22

Antífona de entrada: Assim como Jesus morreu e ressuscitou, também aos que morrem em Jesus, Deus os levará com Ele à sua glória. Se em Adão todos morreram, em Cristo todos voltarão à vida.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A condição do ser criado é aparecer e desaparecer, mudar de morada.

Instruído ou ignorante, nobre ou plebeu, rico ou pobre, grande senhor ou vassalo, têm essa sorte.

As almas têm uma eternidade, o corpo a transformação em pó.

Felizes os que morrem na fidelidade ao seu Senhor.

 

Oração colecta: Deus, Pai de misericórdia, escutai benignamente as nossas orações, para que, ao confessarmos a fé na ressurreição do vosso Filho, se confirme em nós a esperança da ressurreição dos vossos servos. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Job afirma-se um crente completo em fé, esperança e fortaleza perante as adversidades que sofre nos seus haveres e na sua saúde. Deus acima de tudo.

 

Job 19, 1.23-27a

1Job tomou a palavra e disse: 23«Quem dera que as minhas palavras fossem escritas num livro, ou gravadas em bronze 24com estilete de ferro, ou esculpidas em pedra para sempre! 25Eu sei que o meu Redentor está vivo e no último dia Se levantará sobre a terra. 26Revestido da minha pele, estarei de pé na minha carne verei a Deus. 27aEu próprio O verei, meus olhos O hão-de contemplar».

 

Este pequeno trecho é um dos mais citados pela tradição cristã; corresponde à resposta de Job às acusações dos seus amigos; é um hino de esperança e confiança em Deus no meio do seu atroz sofrimento, um hino que fica bem realçado, ao dizer: «palavras escritas… esculpidas em pedra para sempre».

25 «E no último dia Se levantará sobre a terra». Esta última reformulação da tradução litúrgica – que antes já tinha abandonado o texto latino da Vulgata para se cingir ao texto hebraico massorético – parece ter querido recuperar um sentido escatológico (o da ressurreição final), ao não referir o adjectivo «último» a Deus, mas sim a «dia» (substantivo que não aparece no hebraico, mas que S. Jerónimo subentendeu). No entanto, o verbo «Se levantará» (que S. Jerónimo traduziu na 1ª pessoa, referindo-o a Job) segue o texto hebraico.

26 «Na minha carne verei a Deus». O texto massorético significa que, ainda nesta vida (com a minha carne já curada) hei-de sentir a sua protecção, o seu amor e bondade (é este o sentido corrente no A. T. de «ver a Deus»). A verdade é que a nova tradução litúrgica, baseada na pauta da Neovulgata, quis manter o sentido escatológico do texto, de acordo com o antigo uso do texto na Liturgia dos defuntos. De facto, quando o justo que sofre (Job) haverá de ver plenamente a Deus com a sua carne, será na Ressurreição (ainda que a doutrina da ressurreição não apareça no livro de Job e seja algo ao arrepio desta obra). A Vulgata de S. Jerónimo tinha uma tradução que hoje nenhum crítico segue: «Eu sei que o meu Redentor vive e que no último dia eu hei-de ressuscitar da terra e serei novamente revestido da minha pele e com a minha própria carne verei o meu Deus». A verdade é que estamos diante duma passagem que oferece bastantes dificuldades para a reconstituição do texto original e a Neovulgata optou por um texto aberto a um sentido escatológico, semelhante ao da tradução litúrgica que temos.

 

Salmo Responsorial    Sl 26 (27), 1.4.7 e 8b e 9a.13-14 (R. 1a ou 13)

 

Monição: O Senhor tudo pode por isso aguardo a sua misericórdia, recorrendo a Ele; tenhamos confiança total e sem quebras.

 

Refrão:        Espero contemplar a bondade do Senhor

                     na terra dos vivos.

 

Ou:               O Senhor é a minha luz e a minha salvação.

 

O Senhor é minha luz e salvação:

a quem hei-de temer?

O Senhor é o protector da minha vida:

de quem hei-de ter medo?

 

Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio:

habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida,

para gozar da suavidade do Senhor

e visitar o seu santuário.

 

Ouvi, Senhor, a voz da minha súplica,

tende compaixão de mim e atendei-me.

A vossa face, Senhor, eu procuro:

não escondais de mim o vosso rosto.

 

Espero vir a contemplar a bondade do Senhor

na terra dos vivos.

Confia no Senhor, sê forte.

Tem coragem e confia no Senhor.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Os altos e inspirados ensinamentos de S. Paulo afirma-nos a superioridade do espírito em relação à matéria; por mais que a matéria grite e o espírito se cale, este renovando-se dia-a-dia aproxima sempre mais o homem a Cristo ressuscitado.

 

2 Coríntios 4, 14-18 – 5, 1

14Como sabemos, irmãos, Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele. 15Tudo isto é por vossa causa, para que uma graça mais abundante multiplique as acções de graças de um maior número de cristãos para glória de Deus. 16Por isso, não desanimamos. Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia. 17Porque a ligeira aflição dum momento prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória. 18Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. 5, 1Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens.

 

A leitura é de uma grande riqueza doutrinal e projecta a luz da fé sobre o mistério da morte, um mistério a que ninguém pode fechar os olhos, sobretudo na comemoração do dia de hoje. A esperança da ressurreição e da glória do Céu, que animava o Apóstolo Paulo, é a mesma que nos anima a nós:

16 «Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia». A antítese «homem exterior» «homem interior» visa a oposta dualidade da antropologia teológica paulina, mais do que a dualidade da antropologia filosófica grega, embora sem prescindir dela. O homem exterior é o ser humano considerado na sua mortalidade, votado à ruína e decomposição física (cf. v. 7: um frágil «vaso de barro»), em contraste com o homem interior, que aqui, mais do que a imortalidade da filosofia grega (a athanasía: cf. 1 Cor 15, 53-54; 1 Tim 6, 16), parece indicar a vitalidade sobrenatural imperecível infundida no Baptismo, um princípio de santificação que possibilita que o homem regenerado se vá renovando de dia para dia, identificando-se cada vez mais com Cristo ressuscitado. A vida dos santos demonstra esta afirmação paulina: à medida que os seus corpos se vão consumindo por sofrimentos e penitências corporais, renova-se a sua juventude de alma, a sua alegria. A propósito destas noções, temos que reconhecer que Paulo não utiliza nos seus escritos um modelo antropológico único; com efeito, embora a sua formação seja radicalmente hebraica, ele, ao dirigir-se ao mundo helenístico, também se serve de categorias do pensamento filosófico grego corrente. Daqui provém, às vezes, alguma dificuldade de interpretação dos seus textos, cuja antropologia não se pode absolutizar.

5, 1 «Tenda... morada terrestre...» Tenda (skênos), designa no mundo grego o corpo, como invólucro da alma, uma alusão ao carácter provisório da nossa morada terrestre, em contraposição com o corpo já ressuscitado e glorioso, à maneiro do de Cristo. Que Paulo admite uma escatologia individual e intermédia, distinta da ressurreição final, é uma coisa que fica bem clara neste mesmo capítulo 5 da 2ª aos Coríntios «preferimos exilar-nos do corpo para ir morar junto de Cristo» (cf. Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé em 17-5-79; ver texto em CL, ano C (1979-80), n.º 11/12, pp. 1698-1700).

 

Aclamação ao Evangelho       cf. Mt 11, 25

 

Monição: Jesus agradece ao Pai os benefícios que nos concede e incita-nos a que depositemos n’Ele a nossa confiança.

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação- 2, F da Silva, NRMS 50-51

 

Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra,

porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 11, 25-30

25Naquele tempo, Jesus exclamou: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. 26Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado. 27Tudo Me foi dado por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. 30Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

 

A leitura é uma das mais belas orações de Jesus que aparecem nos Evangelhos, um hino de louvor e de acção de graças, que também aparece em Lc 10, 21-24.

25-27 «Sábios e inteligentes» (prudentes) são os sábios orgulhosos, que confiam apenas na sua sabedoria; auto-suficientes, julgam poder salvar-se com os seus próprios recursos de inteligência e poder. Os «pequeninos» são os humildes, abertos à fé, capazes de visão sobrenatural. A revelação divina só pode ser aceite e captada pela fé: uma ciência soberba impede de aceitar a loucura divina da Cruz (cf. 1 Cor 1, 19-31). Jesus reivindica para si um conhecimento do Pai (Deus) perfeitamente idêntico ao conhecimento que o Pai tem do Filho (Jesus), e isto porque Ele, e só Ele, é o Filho, igual ao Pai, Deus com o Pai.

28-30 Palavras estas maravilhosas, que nos patenteiam os sentimentos do Coração de Cristo. O povo andava «cansado e oprimido» com as minuciosas exigências da lei antiga e das tradições que os fariseus e doutores da lei impunham com todo o rigorismo do seu frio e insuportável legalismo que oprimia a liberdade interior e roubava a paz ao coração. Jesus não nos dispensa de levar o seu «jugo» e a sua «carga», mas não quer que nos oprima, pois quer que O sigamos por amor, e «para quem ama é suave; pesado, só para quem não ama» (Santo Agostinho, Sermão 30, 10). O mesmo Santo Agostinho comenta esta passagem: «qualquer outra carga te oprime e te incomoda, mas a carga de Cristo alivia-te do peso. Qualquer outra carga tem peso, mas a de Cristo tem asas. Se a uma ave lhe tirares as asas, parece que a alivias do peso, mas, quanto mais lhas tirares, mais esta pesa; restitui-lhe o peso das suas asas, e verás como voa» (Sermão 126, 12).

 

Sugestões para a homilia

 

1.  A morte e tida como um desastre, tragédia familiar e fim definitivo da vida na terra.

É a privação da animação dos corpos pela alma, o termo de um círculo de trabalhos, acções e movimentos, sofrimentos e alegrias;

Todavia a vida não acaba com a morte para o ser humano, «transforma-se»;

deixamos a tenda do nosso corpo em direcção às paragens da eternidade.

Construimos na terra a boa ou a má morada na eternidade, não desanimando na renovação diária, com sofrimentos, penitências, prática das virtudes e total amor a Deus.

 

2.       Toda a vida sensitiva teme a morte, os danos;

muitos santos a desejavam, muitos mártires a procuraram, muitos a provocaram contra o 5.º mandamento ou desesperos incontidos.

 

3.  A vida verdadeira é a eterna, a sua beleza depende da qualidade da alma, das comidas que preparou neste mundo para viver no além. Não arrisquemos, não joguemos, não postemos no pecado, no veneno, mas nas belas acções e orações.

A Igreja do céu, a triunfante, ajuda-nos; nós vivos queremos imitá-la; os fiéis defuntos esperam a nossa ajuda.

Hoje é o dia, dá a esmola da tua oração, da tua penitência; decide-te!

 

 

Fala o Santo Padre

 

«A oração cristã pelos defuntos só se pode verificar à luz da Ressurreição de Cristo.»

 

1. Recordámos hoje a Comemoração litúrgica anual de todos os fiéis defuntos. Da Igreja, espalhada pelo mundo, elevou-se uma invocação coral ao Deus da vida e da paz, para que acolha no seu Reino de luz infinita todas as almas, sobretudo as mais abandonadas e necessitadas da sua misericórdia.

A oração cristã pelos defuntos que caracteriza todo o mês de Novembro só se pode verificar à luz da Ressurreição de Cristo. De facto, o apóstolo diz: «Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé... Se esperamos em Cristo somente nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram» (1 Cor 15, 17.19-20).

O mundo de hoje precisa como nunca de redescobrir o sentido da vida e da morte na perspectiva da vida eterna. Fora dela, a cultura moderna, que nasceu para exaltar o homem e a sua dignidade, transforma-se paradoxalmente em cultura de morte, porque, tendo perdido o horizonte de Deus, acaba por ser aprisionada pelo mundo, amedronta-se e, infelizmente, causa numerosas patologias pessoais e colectivas.

2. É-me grato citar, a este propósito, um texto de São Carlos Borromeu, do qual celebramos esta semana a memória litúrgica. «A minha alma jamais deixe de louvar o Senhor que concede sempre dons. É dom de Deus se, de pecador, és chamado à justiça; é dom de Deus se és apoiado para que não caias; é dom de Deus quando te é concedida a força para perseverar até ao fim; será dom de Deus também a ressurreição do teu corpo morto, de maneira que, nem sequer um dos cabelos da tua cabeça seja perdido; é dom de Deus a glorificação depois da ressurreição; e, por fim, ainda é dom de Deus poder louvá-lo continuamente na eternidade» (Homilia, 5 de Setembro de 1583). […]

3. Ao dirigirmo-nos agora a Maria Santíssima, pedimos-lhe que apoie de maneira particular a nossa oração de sufrágio pelos defuntos. Neste Ano do Rosário, ponhamo-nos assiduamente na escola da Virgem, para contemplar com ela o mistério de Cristo morto e ressuscitado, esperança de vida eterna para cada homem.

 

João Paulo II, Angelus, 3 de Novembro de 2004

 

Oração Universal

 

Conhecedores de que o Senhor além de ser justo é misericordioso,

estamos interessados em solicitar-lhe que atenda as nossas preces

pelos nossos irmãos que morreram piedosamente.

 

1.  Pelos nossos irmãos da igreja padecente

que trabalharam na sua santificação

e aguardam a entrada na Jerusalém celeste,

oremos irmãos.

 

2.  Para que o Senhor aceite,

com benevolência as boas obras

que praticaram na terra,

oremos irmãos.

 

3.  Para que o Senhor os livre

do poder das trevas e do lugar do sofrimento,

admitindo-os na vida eterna,

oremos irmãos.

 

4.  Pelos nossos parentes e benfeitores falecidos

para que lhes conceda a participação na Sua glória,

oremos irmãos.

 

 

Deus eterno e omnipotente, Senhor dos vivos e dos mortos, pela vossa clemência

e por intercessão de todos os santos, concedei àqueles por quem oramos, o perdão de seus pecados.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo...

 

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Queremos ver transformados, Az. Oliveira, NRMS 17

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai com bondade, Senhor, as nossas ofertas e fazei que os vossos fiéis defuntos sejam recebidos na glória do vosso Filho, a quem nos unimos neste sacramento de amor. Por Nosso Senhor...

 

Prefácio dos Defuntos: p. 509 [652-764] e pp. 510-513

 

Santo: F. dos Santos, NTC 201

 

Monição da Comunhão

 

Jesus na Eucaristia é o mesmo que está no Céu;

Unámo-nos a Ele, em comunhão, Ele é o Sacramento da vida eterna.

 

Cântico da Comunhão: Felizes os convidados, M. Luís, NRMS 4

Jo 11, 25-26

Antífona da comunhão: Eu sou a ressurreição e a vida, diz o Senhor. Quem crê em Mim, ainda que tenha morrido, viverá. Quem vive e crê em Mim viverá para sempre.

 

Cântico de acção de graças: Os justos viverão eternamente, M. Faria, NRMS 36

 

Oração depois da comunhão: Concedei, Senhor, que os vossos servos defuntos por quem celebrámos o mistério pascal sejam conduzidos à vossa morada de luz e de paz. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Procuramos dialogar com Jesus, intercedendo pelos mortos; durante o mês continuemos o diálogo, de oração e vida virtuosa.

 

Cântico final: Jerusalém do alto, M. Faria, NRMS 3 (I)

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:             Ferreira de Sousa

Nota Exegética:      Geraldo Morujão

Sugestão Musical:  Duarte Nuno Rocha


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