Quinta-Feira Santa

18 de Abril de 2019

 

 

Missa Vespertina da Ceia do Senhor

 

Segundo uma antiquíssima tradição da Igreja, são proibidas neste dia todas as Missas sem participação do povo.

De tarde, à hora mais conveniente, celebra-se a Missa da Ceia do Senhor, com plena participação de toda a comunidade local; nela, todos os sacerdotes e ministros exercem o seu ofício próprio.

Os sacerdotes que tiverem concelebrado na Missa crismal, ou tiverem celebrado para utilidade dos fiéis, podem novamente concelebrar nesta Missa vespertina.

Onde o exigir o interesse pastoral, o Ordinário do lugar pode permitir a celebração de outra Missa nas igrejas, oratórios públicos ou semipúblicos nas horas vespertinas e, em casos de verdadeira necessidade, até da parte da manhã, mas só para os fiéis que de nenhum modo podem tomar parte na Missa vespertina. Deve evitar-se, no entanto, que tais celebrações se façam em proveito de pessoas particulares ou possam prejudicar a Missa vespertina principal.

A sagrada comunhão só pode ser distribuída aos fiéis dentro da Missa. Aos doentes, porém, pode levar-se a comunhão a qualquer hora do dia.

O sacrário deve estar completamente vazio. Para a comunhão do clero e dos fiéis, consagre-se nesta Missa pão suficiente para hoje e amanhã.

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Toda a minha glória está na cruz, S. Marques, NRMS 61

cf. Gal 6, 14

Antífona de entrada: Toda a nossa glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. N'Ele está a nossa salvação, vida e ressurreição. Por Ele fomos salvos e livres.

 

Diz-se o Glória. Enquanto se canta este hino, tocam-se os sinos, que não voltarão a tocar-se até à Vigília Pascal, a não ser que a Conferência Episcopal ou o Ordinário do lugar julguem oportuno estabelecer outra coisa.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Nesta Quinta Feira Santa vimos encontrar-nos com Jesus, celebrar com Ele a renovação da Última Ceia em que instituiu a Eucaristia e nos deixou o mandamento novo do amor.

Mostremos-Lhe o nosso amor agradecido, com o desejo de O receber em nosso coração com uma fé grande e profunda humildade.

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que nos reunistes para celebrar a Ceia santíssima em que o vosso Filho Unigénito, antes de Se entregar à morte, confiou à Igreja o sacrifício da nova e eterna aliança, fazei que recebamos, neste sagrado banquete do Seu amor, a plenitude da caridade e da vida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O Livro do Êxodo fala da libertação do povo de Israel. A saída do Egipto ficará marcada pelo cordeiro que lhes servirá de alimento e cujo sangue os livrará da morte. Ele é um símbolo de Cristo, que é o novo Cordeiro pascal, que livra da escravidão do pecado e alimenta para a vida eterna.

 

Êxodo 12, 1-8.11-14

1Naqueles dias, o Senhor disse a Moisés e a Aarão na terra do Egipto: 2«Este mês será para vós o princípio dos meses; fareis dele o primeiro mês do ano. 3Falai a toda a comunidade de Israel e dizei-lhe: No dia dez deste mês, procure cada qual um cordeiro por família, uma rês por cada casa. 4Se a família for pequena demais para comer um cordeiro, junte-se ao vizinho mais próximo, segundo o número de pessoas, tendo em conta o que cada um pode comer. 5Tomareis um animal sem defeito, macho e de um ano de idade. Podeis escolher um cordeiro ou um cabrito. 6Deveis conservá-lo até ao dia catorze desse mês. Então, toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao cair da tarde. 7Recolherão depois o seu sangue, que será espalhado nos dois umbrais e na padieira da porta das casas em que o comerem. 8E comerão a carne nessa mesma noite; comê-la-ão assada ao fogo, com pães ázimos e ervas amargas. 11Quando o comerdes, tereis os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. Comereis a toda a pressa: é a Páscoa do Senhor. 12Nessa mesma noite, passarei pela terra do Egipto e hei-de ferir de morte, na terra do Egipto, todos os primogénitos, desde os homens até aos animais. Assim exercerei a minha justiça contra os deuses do Egipto, Eu, o Senhor. 13O sangue será para vós um sinal, nas casas em que estiverdes: ao ver o sangue, passarei adiante e não sereis atingidos pelo flagelo exterminador, quando Eu ferir a terra do Egipto. 14Esse dia será para vós uma data memorável, que haveis de celebrar com uma festa em honra do Senhor. Festejá-lo-eis de geração em geração, como instituição perpétua».

 

Temos aqui, num texto de tipo catequético-litúrgico, a promulgação da lei da Páscoa judaica como «instituição perpétua», a ser festejada por todas as gerações (v. 14). Na origem desta festa da «Páscoa» – dum étimo semítico: salto festivo – parece estar uma antiga festa de pastores nómadas, própria da Primavera, a época em que nascem os cordeiros; então sacrificavam um cordeiro recém-nascido e com o seu sangue faziam ritos a implorar protecção e a fecundidade. Também pela época da Primavera parece que havia outra festa, a dos «Ázimos», com o sentido de novidade e rotura com o passado (o fermento). As duas festas vieram a fundir-se numa só. A Torá terá assumido estas duas festas, dando-lhes o novo e profundo significado que neste texto legal fica bem assinalado, para celebrar a libertação do Egipto.

A ceia pascal é celebrada na noite de 14 para 15 do mês de Nisan (Março/Abril), a noite da lua cheia que se seguia ao equinócio da primavera, pois o 1° dia do mês era o 1º dia da lua nova; então se comiam os pães ázimos, isto é, sem fermento (do grego a-zymê, em hebraico, os matsôth) durante os sete dias da festa, de 15 a 21 de Nisan. O cordeiro imolado recordava aquele outro cordeiro com cujo sangue os israelitas marcaram as suas portas para que o «o flagelo exterminador» ali não atingisse ninguém. A própria palavra «Páscoa», com uma etimologia muito discutida, pode provir do étimo psh, que significa saltar, passar por cima de, prestando-se a significar o flagelo mortal que passou ao largo das casas dos israelitas (cf. Ex 12, 27) na região de Guéssen ou Góxen. Neste texto a palavra é entendida como a passagem do Senhor, a fim de libertar o seu povo. O pão sem fermento lembrava a pressa com que os israelitas saíram do Egipto, tendo de levar consigo a massa do pão antes de ter fermentado (Ex 12, 34.39).

No entanto, a celebração da Páscoa não era para os israelitas uma mera recordação agradecida da libertação duma escravidão passada, mas era algo que os orientava para uma libertação futura completa e definitiva, que se haveria de dar com a vinda do Messias. Havia mesmo uma crença judaica em que o Messias viria numa noite de Páscoa: «nesta noite foram libertados, e nela também serão libertos». Esta alegre esperança manifestava-se no costume, que ainda hoje se mantém, de deixar um lugar vazio à mesa, para alguém que chegue na última hora, que afortunadamente poderia ser o profeta Elias, precursor do Messias. De facto, um dia o próprio Messias havia de se pôr à mesa da ceia pascal, rodeado dos seus discípulos, para então inaugurar a era da autêntica e definitiva libertação. Jesus é o verdadeiro cordeiro pascal (1 Cor 5, 7; Jo 19, 36) que se oferece em sacrifício, com cujo sangue somos redimidos e com cuja carne somos alimentados no banquete eucarístico, prelúdio do banquete celeste (cf. Mc 14, 25). Os samaritanos ainda hoje celebram a Páscoa como se descreve neste texto do Êxodo, sem refeição solene, sem vinho e à pressa. Os judeus celebram-na como refeição solene; já era assim no tempo de Jesus, em razão de já terem saído da escravidão para a liberdade; mas, em vez de comerem sentados como habitualmente, comiam recostados sobre esteiras ou divãs, apoiando-se sobre o braço esquerdo, a partir da época helenística (cf. Lc 22, 14).

 

Salmo Responsorial    Sl 115 (116), 12-13.15-16bc.17-18 (R. cf. 1 Cor 10, 16)

 

Monição: O salmo é um cântico de ação de graças, que lembra as maravilhas que Deus fez em favor do Seu povo e continua a fazer por nós.

 

Refrão:     O cálice de bênção é comunhão do Sangue de Cristo.

 

Como agradecerei ao Senhor

tudo quanto Ele me deu?

Elevarei o cálice da salvação,

invocando o nome do Senhor.

 

É preciosa aos olhos do Senhor

a morte dos seus fiéis.

Senhor, sou vosso servo, filho da vossa serva:

quebrastes as minhas cadeias.

 

Oferecer-Vos-ei um sacrifício de louvor,

invocando, Senhor, o vosso nome.

Cumprirei as minhas promessas ao Senhor,

na presença de todo o povo.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S.Paulo na Carta aos Coríntios fala da última Ceia e da instituição da Eucaristia na noite em que Jesus ia ser entregue à morte. É o relato mais antigo da sua instituição.

 

1 Coríntios 11, 23-26

Irmãos: 23Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, 24partiu-o e disse: «Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim». 25Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim». 26Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.

 

Temos aqui o relato da última Ceia, o mais antigo dos quatro que aparecem no N. T., escrito apenas uns 25 anos após o acontecimento. São Paulo diz que isto mesmo já o tinha pregado aos cristãos (v. 23) uns quatro anos atrás, durante os 18 meses em que evangelizou a cidade de Corinto, por ocasião da sua segunda viagem.

23 «Recebi do Senhor»: O original grego (com o uso da preposição apó e não pará) deixa ver que S. Paulo recebeu esta doutrina pela tradição que remonta ao Senhor e não directamente dele, por meio de alguma revelação, como alguém poderia pensar. «Na noite em que ia ser entregue»: Celebramos hoje uma dupla entrega do Senhor, a sua entrega às mãos dos seus inimigos, para a morrer pelos nossos pecados e nos ganhar a vida divina, e a entrega no Sacramento da SS. Eucaristia, como alimento desta mesma vida divina. Para o seu amor infinito, é pouco dar-se todo uma só vez por todos; quer dar-se todo a cada um de nós todas as vezes que nos disponhamos a recebê-lo!

24 «Isto é o Meu Corpo»: A expressão de Jesus é categórica e terminante, sem deixar lugar a mal entendidos. Não diz «aqui está o meu corpo», nem «isto simboliza o meu corpo», mas sim: «isto é o meu corpo», como se dissesse: este pão já não é pão, mas é o meu corpo, isto é, sou Eu mesmo. Todas as tentativas heréticas de entender estas palavras num sentido meramente simbólico, fazem violência ao texto e não têm seriedade. É certo que o verbo «ser» também pode ter o sentido de «ser como», «significar», mas isto é só quando do contexto se possa depreender que se trata duma comparação, o que não se dá aqui, pois não se vê como o pão seja como o Corpo de Jesus, ou como é que o pode significar. Atenda-se a que Jesus, com a palavra isto não se refere à acção de partir o pão, pois não pronuncia estas palavras enquanto parte o pão, mas depois de o ter partido; portanto não tem sentido dizer que, com a fracção do pão, o Senhor queria representar o despedaçar do seu corpo por uma morte violenta (o corpo entregue). Jesus não podia querer dizer uma tal coisa, pois, se o quisesse dizer, havia de o explicitar, uma vez que o gesto de partir o pão era um gesto usual do chefe da mesa em todas as refeições, não sendo possível ver um outro sentido; por outro lado, o beber do cálice de modo nenhum se podia prestar a um tal sentido.

Os Apóstolos vieram a entender as palavras de Jesus no seu verdadeiro realismo, como aparecem no discurso do Pão da Vida (Jo 6, 51-58). Se Jesus não quisesse dar este sentido realista às suas palavras, também os seus discípulos e a primitiva Igreja não lho podiam dar, porque beber o sangue era algo sumamente escandaloso para gente criada no judaísmo, que ia ao ponto de proibir a comida de animais não sangrados. Se S. Paulo não entendesse estas palavras de Jesus num sentido realista, não teria podido afirmar no v. 27 (omitido na leitura de hoje): «quem comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor»; e no v. 29 fala de «distinguir o corpo do Senhor».

Paulo VI, na encíclica Misterium fidei, rejeitou as explicações teológicas (como a da transignificação e a da transfinalização) que não respeitem suficientemente o realismo da presença real: «Mas para que, ninguém entenda erroneamente este modo de presença, que supera leis da natureza e constitui o maior dos milagres no seu género, é preciso seguir com docilidade a voz da Igreja docente e orante. Pois bem, esta voz, que é um eco perene da voz de Cristo, assegura-nos que Cristo se torna presente neste Sacramento pela conversão de toda a substância do pão no seu corpo e de toda a substância no vinho no seu sangue; conversão admirável e singular à qual a Igreja justamente e com propriedade chama transubstanciação» (atenda-se a que aqui a noção de substância não é a da Física ou da Química, mas a da Metafísica).

24-25 «Fazei isto em memória de Mim». Com estas palavras, Jesus entrega aos Apóstolos (e aos seus sucessores) o poder ministerial de celebrar o Mistério Eucarístico; por isso, Quinta-Feira Santa é o dia do sacerdócio e dos sacerdotes.

25 «A Nova Aliança com o meu Sangue»: Jesus compara o seu sangue, que vai derramar na cruz, ao sangue do sacrifício da Aliança do Sinai (cf. Ex 24, 8), como sendo o novo sacrifício com que se ratifica a Nova Aliança de Deus com a Humanidade, aliança anunciada pelos profetas (Jer 31, 31-33). Na Ceia temos o mesmo sacrifício do Calvário antecipado sacramentalmente através das palavras do próprio Jesus. Na Missa temos igualmente o mesmo sacrifício da Cruz renovado e representado sacramentalmente através da dupla consagração feita pelo sacerdote que actua na pessoa e em nome de Cristo, sendo Ele o mesmo oferente principal, a mesma vítima e sendo os merecimentos os mesmos do único Sacrifício redentor a serem aplicados, Sacrifício oferecido de uma vez para sempre (efápax: cf. Hebr 9, 25-28; 10, 10.18).

26 «Anunciareis a Morte do Senhor»: No altar já não se derrama o sangue de Cristo, como na Cruz, mas oferece-se, de modo incruento, o mesmo sacrifício, renovando e representando sacramentalmente o mistério da mesma Morte que se deu no Calvário.

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 13, 34

 

Monição: S.João no Evangelho relata como Jesus lavou os pés aos Apóstolos na Quinta feira Santa, deixando-lhes o mandamento novo do amor. A Eucaristia seria a fonte desse amor fraterno e da união entre os discípulos de Jesus.

 

Cântico: Dou-vos um mandamento novo, F dos Santos, NCT 126

 

Dou-vos um mandamento novo, diz o Senhor:

amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.

 

 

Evangelho

 

São João 13, 1-15

1Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. 2No decorrer da ceia, tendo já o Demónio metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O entregar, 3Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, 4levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha que pôs à cintura. 5Depois, deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura. 6Quando chegou a Simão Pedro, este disse-Lhe: «Senhor, Tu vais lavar-me os pés?» 7Jesus respondeu: «O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde». 8Pedro insistiu: «Nunca consentirei que me laves os pés». Jesus respondeu-lhe: «Se não tos lavar, não terás parte comigo». 9Simão Pedro replicou: «Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça». 10Jesus respondeu-lhe: «Aquele que já tomou banho está limpo e não precisa de lavar senão os pés. Vós estais limpos, mas não todos». 11Jesus bem sabia quem O havia de entregar. Foi por isso que acrescentou: «Nem todos estais limpos». 12Depois de lhes lavar os pés, Jesus tomou o manto e pôs-Se de novo à mesa. Então disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? 13Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. 14Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. 15Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também».

 

1. «Antes da festa da Páscoa». A ceia de que aqui se fala (v. 2) não é descrita como sendo a Ceia Pascal dos Sinópticos (Mt 26, 17-35; Mc 14, 12-31; Lc 22, 7-39), mas não pode ser outra, por se tratar da mesma da noite em que Jesus foi preso. Se S. João se limita a dizer «antes da festa da Páscoa», sem precisar que era a véspera (a Preparação), é porque ele quer que se entenda a morte de Jesus como a imolação do cordeiro pascal, ao colocá-la no mesmo dia (a Preparação: 19, 31.42) em que no templo eram imolados os cordeiros para a festa; sendo assim, evita intencionalmente o dar à Última Ceia qualquer carácter pascal; e pensamos que esta pode ser uma séria razão para não falar da instituição da Eucaristia, aliás referida no discurso do Pão da Vida (cf. Jo 6, 51-58). «Amou-os até ao fim», isto é, até à consumação (19, 30), indicando o seu amor de total entrega, até à morte (cf. 15, 13; 1 Jo 3, 16; Gal 2, 20), embora com esta não termine o seu amor, pois «não só até aqui nos amou quem nos ama sempre e sem fim» (Santo Agostinho); a expressão poderia aludir também ao amor posto na realização da Eucaristia de que S. João não conta a instituição, naturalmente por já lhe ter dedicado todo o capítulo VI e, como já se disse, para evitar dar a esta ceia um carácter pascal. Outra tradução possível: «levou o seu amor por eles até ao extremo». Jesus não só amou os seus até ao último momento da sua vida terrena, mas não podia amá-los mais: amou-nos até à loucura da Cruz e da Eucaristia.

3 «Jesus, sabendo...». Lavar os pés era um ofício exclusivo de escravos (1 Sam 25, 41) e os rabinos chegavam a explicitar que só se devia impor esse humilhante serviço a escravos que não fossem da raça hebraica, baseando-se em Lv 25, 39. Jesus, ao sujeitar-se a esse trabalho aviltante, tem bem presente o seu poder e a sua dignidade de Filho de Deus. A oposição decidida de Pedro mostra o profundo choque causado pela atitude do Senhor. Não se pode estabelecer o momento exacto do lava-pés, pois não estavam previstas lavagens dos pés na Ceia, mas apenas o lavar das mãos; o que Jesus realiza é antes de mais uma acção simbólica, à maneira dos profetas. Talvez a discussão travada na Ceia sobre quem seria o maior dos Apóstolos (cf. Lc 22, 24) tenha levado Jesus a dar-lhes uma lição com o seu gesto: é maior aquele que mais serve. Aparecem dois significados no gesto de Jesus: um simbólico e outro de exemplo a imitar. Nos vv. 6-11, sobressai mais o valor simbólico: Jesus é quem purifica os seus dos seus pecados e sem isso não se pode ter parte com Ele (v. 8), purificação que é um efeito da sua Morte redentora. Nos vv. 14-15, Jesus propõe o seu exemplo para ser imitado: «Eu vos lavei os pés, sendo Mestre e Senhor, também vós deveis lavar os pés uns aos outros», isto é, prestar aos outros todos os serviços, mesmo os mais humildes e humilhantes. Ter autoridade na Igreja (e também na sociedade civil) não é ter à disposição os outros para ser servido, mas é estar à disposição de todos para os servir eficazmente. A vida cristã consiste em imitar o exemplo de Jesus Cristo: 1 Pe 2, 21; 1 Jo 2, 6; Fil 2, 5; 1 Cor 11, 1; Ef 5, 1; 1 Tes 1, 6...

 

Sugestões para a homilia

 

Amou-os até ao fim

Isto é o Meu Corpo

Fazei isto em memória de Mim

 

Amou-os até ao fim

 A Quinta Feira Santa é para nós um dia cheio de emoções. Recordamos o amor infinito de Jesus que vai começar a Sua Paixão, que vai dar a Sua vida por nós. Antes disso quis deixar-nos outra prova do Seu Amor. “Tendo amado os Seus amou-os até ao fim”. Ficou para ser o nosso alimento, deixou o memorial da Sua Morte, que tornará presente até ao fim dos tempos a oferta do Seu Sacrifício no Calvário.

Hoje é dia para avivar a nossa fé. Jesus podia fazer esse prodígio. Ele tem todo o poder. Nas bodas de Caná, ao fazer o primeiro milagre, estava já a manifestar esse poder e a preparar o milagre deste dia em que iria mudar o pão no Seu Corpo e o vinho em Seu Sangue, como transformou a água em vinho.

Hoje é dia para agradecer este amor inaudito de Jesus, que Se dá a nós como alimento de vida eterna e quer ficar presente em nossos sacrários ao longo dos tempos, para ser o Amigo sempre ao nosso alcance. Façamos hoje muitos atos de amor e de ação de graças. Digamos muitas vezes a Jesus: Senhor, amo-Te na Santíssima Eucaristia. Aumenta-nos a fé a esperança e a caridade e a piedade.

Na Eucaristia encontramos a força para vivermos o mandamento do amor que nos deixou na última Ceia: amar-nos de verdade, sabendo servir os outros, amá-los à maneira de Jesus.

 

Isto é o Meu Corpo

Jesus toma o pão em Suas mãos, depois de terem comido o cordeiro pascal como os outros israelitas naquela noite e diz-lhes: isto é o Meu Corpo entregue por vós. Naquele momento o pão deixou de ser pão, transformou-se no Corpo de Jesus, o vinho deixou de ser vinho para ser o Sangue de Jesus.

A Igreja chama a esta mudança transubstanciação. Muda a substância, aquilo que faz com que o pão seja pão. Muda-se em Jesus, que está ali à maneira da substância, escondido sob as aparências do pão, que continuam a existir: a cor, o sabor, a aparência de pão. Elas são parte do sinal sacramental, que nos fala aos sentidos a dizer-nos que Jesus é alimento divino para nós.

Ele é o pão da vida eterna, como tinha prometido antes em Cafarnaum: Eu sou o pão vivo descido do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente (Jo 6,51).

Manifestar a nossa gratidão a Jesus neste dia é fazer o propósito decidido de alimentar-nos dEle com frequência e com a alma bem preparada. Como o centurião, em Cafarnaum, dizermos a Jesus: Senhor eu não sou digno de que entres em minha casa mas diz uma só palavra e serei salvo.

Recebamos a Jesus com amor, com a alma bem limpa do pecado e com uma grande fé e humildade.

 

Fazei isto em memória de Mim

Jesus quis que este prodígio de amor se renovasse até ao fim dos tempos. Deu aos Seus Apóstolos o poder de fazerem o que Ele fez: Fazei isto em memória de Mim. Jesus ordena-os sacerdotes para poderem celebrar a Santa Missa.

Eucaristia e Sacerdócio andam estreitamente unidos. Hoje é para nós oportunidade para rezar mais pelos sacerdotes. Pedir ao Senhor que sejam santos e celebrem piedosamente a Eucaristia.

E pedir também para que todos os cristãos saibam apreciar a santa Missa, participando nela com fé, com o desejo de estar com Jesus, de escutar as Suas palavras de se alimentarem deste pão divino que Ele nos dá.

A Santa Missa é memorial da morte de Jesus. Recorda a sua oferta ao Pai no Calvário e torna-a presente sobe o altar. As duas consagrações significam a morte de Jesus, como se o Seu Corpo e o Seu Sangue estivessem separados. As palavras da consagração referem a Sua morte: corpo entregue, Sangue derramado.

É um verdadeiro sacrifício, oferta a Deus para O adorar, para agradecer, para pedir perdão e para pedir novos favores para a Humanidade. Nela somos chamados a participar unindo-nos à oferta de Cristo, pondo sobre o altar a nossa vida, as nossas penas, os nossos trabalhos, as nossas alegrias.

A Eucaristia é um mistério de fé e de amor, que nunca meditaremos suficientemente.

“Não ama a Cristo quem não ama a Santa Missa, quem não se esforça por vivê-la com serenidade e sossego, com devoção e carinho. O amor converte os enamorados em pessoas de sensibilidade fina e delicada; leva-os a descobrir, para que se esmerem em vivê-los, pormenores às vezes insignificantes, mas que trazem a marca de um coração apaixonado. É assim que devemos assistir à Santa Missa.” (JOSEMARIA ESCRIVÁ, Cristo que passa, 92 ).

Visitemos muitas vezes a Jesus escondido nos sacrários das nossas igrejas, procurando fazer-Lhe companhia e encher-nos das Suas graças. S.João Paulo II gostava de estudar e escrever na capela, junto do seu gabinete de trabalho. E algumas vezes passava noites inteiras ajoelhado ou prostrado junto do sacrário.

O rei Balduíno da Bélgica visitava a Jesus e participava em horas de adoração eucarística. Dizia que ia bronzear a sua alma ao calor da Eucaristia.

Peçamos a Nossa Senhora que nos ajude a tratar bem a Jesus na comunhão, a viver bem o encontro com Ele na Santa Missa, a procurá-Lo no Sacrário, a recebê-Lo como Ela O recebeu.

 

Na homilia comentam-se os grandes mistérios que neste dia se comemoram: a instituição da sagrada Eucaristia e do sacramento da Ordem e o mandato do Senhor sobre a caridade.

 

Lava-pés

 

 

Oração Universal

 

Na Eucaristia Deus quer encher-nos da Sua graça e da Sua fortaleza por meio de Seu Filho.

Unidos a Ele , peçamos cheios de confiança:

 Senhor, fazei-nos crescer na fé e no amor

 

1-Pela Santa Igreja de Deus,

para que difunda a verdadeira sabedoria e o amor que vem de Cristo

e todos se deixem atrair pela Sua luz, oremos ao Senhor.

 Senhor, fazei-nos crescer na fé e no amor

 

2-Pelo Santo Padre, para que a sua palavra seja escutada

por todos os cristãos e por todos os homens , oremos ao Senhor.

 Senhor, fazei-nos crescer na fé e no amor

 

3-Pelos bispos e sacerdotes,

para que proclamem com clareza a doutrina de Cristo,

animando a todos a amar a Jesus presente na Eucaristia, oremos ao Senhor.

 Senhor, fazei-nos crescer na fé e no amor

 

4-Pelos cristãos do mundo inteiro,

para que sejam testemunho de vida nova em Cristo,

cumprindo fielmente o mandamento do amor, oremos ao Senhor.

 Senhor, fazei-nos crescer na fé e no amor

 

5-Por todos nós, para que manifestemos com entusiasmo a nossa fé

e a nossa devoção à Eucaristia, na Santa Missa,

na comunhão, e na visita a Jesus no sacrário, oremos ao Senhor.

 Senhor, fazei-nos crescer na fé e no amor

 

6-Por todos os que se encontram no Purgatório, purificando-se dos pecados,

para que o Senhor lhes abra as portas do Céu, oremos ao Senhor.

 Senhor, fazei-nos crescer na fé e no amor

 

 

Senhor, que nos chamastes à santidade em Cristo, Vosso Filho, e através da Eucaristia nos encheis da Sua graça, ajudai-nos a amá-Lo sempre mais.

Pelo mesmo N.S.J.C.Vosso Filho que conVosco vive e reina na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Ao iniciar-se a liturgia eucarística, pode organizar-se uma procissão dos fiéis com oferta para os pobres.

Entretanto, canta-se a antífona Ubi caritas ou outro cântico apropriado.

 

Cântico do ofertório: Cantemos ao Senhor que nos salvou, M. Faria, NRMS 1 (I)

 

Oração sobre as oblatas: Concedei-nos, Senhor, a graça de participar dignamente nestes mistérios, pois todas as vezes que celebramos o memorial deste sacrifício realiza-se a obra da nossa redenção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio da Santíssima Eucaristia: p. 1254 [658-770]

 

Santo: Santo I, H. Faria, NRMS 103-104

 

Monição da Comunhão

 

Jesus vem até nós em cada comunhão para nos encher do Seu amor para que que o comuniquemos a todos à nossa volta

 

Cântico da Comunhão: Tomai e bebei, diz o Senhor, F. da Silva, NRMS 25

1 Cor 11, 24.25

Antífona da comunhão: Isto é o meu Corpo, entregue por vós; este é o cálice da nova aliança no meu Sangue, diz o Senhor. Fazei isto em memória de Mim.

 

Terminada a distribuição da comunhão, deixa-se sobre o altar a píxide com as partículas para a comunhão do dia seguinte. A Missa conclui com a oração depois da comunhão:

 

Cântico de acção de graças: O cálice de benção, F. da Silva, NRMS 21

 

Oração depois da comunhão: Deus eterno e omnipotente, que hoje nos alimentastes na Ceia do vosso Filho, saciai-nos um dia na ceia do reino eterno. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Trasladação do Santíssimo Sacramento

 

Terminada a oração, o sacerdote, de pé, diante do altar, põe incenso no turíbulo e, de joelhos, incensa por três vezes o Santíssimo Sacramento. Em seguida, toma o véu de ombros, pega na píxide e cobre-a com as extremidades do véu.

Organiza-se a procissão, com círios e incenso, indo à frente o cruciferário com a cruz, e leva-se o Santíssimo Sacramento, através da igreja, para o lugar da reserva, preparado numa capela convenientemente ornamentada. Entretanto canta-se o hino Pange, lingua (Canta, Igreja, o Rei do mundo) – excepto as duas últimas estrofes – ou outro cântico apropriado.

Chegada a procissão ao lugar da reserva, o sacerdote depõe a píxide. Seguidamente, põe incenso no turíbulo e, de joelhos, incensa o Santíssimo Sacramento. Entretanto canta-se o Tantum ergo sacramentum. Depois fecha-se o tabernáculo ou urna da reserva.

Depois de algum tempo de oração em silêncio, o sacerdote e os ministros fazem a genuflexão e retiram-se para a sacristia.

Segue-se a desnudação do altar e, se possível, retiram-se as cruzes da igreja. Se algumas ficam na igreja, é conveniente cobri-las.

Os que tomaram parte na Missa vespertina não são obrigados à celebração das Vésperas.

Exortem-se os fiéis, tendo em conta as circunstâncias e as diversas situações locais, a dedicar algum tempo da noite à adoração do Santíssimo Sacramento. A partir da meia noite, porém, esta adoração faz-se sem solenidade.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Vamos partir com o desejo de agradecer a Jesus o presente magnífico de Quinta feira Santa, unindo-nos Ele na Sua Paixão e morte e vivendo com Ele uma vida nova de santidade e de amor aos outros.

 

Cântico final: Celebremos o mistério, F. da Silva, NRMS 77-79

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:        Celestino Ferreira R. Correia

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Sugestão Musical:               Duarte Nuno Rocha

 


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