5º Domingo da Quaresma

7 de Abril de 2019

 

Onde se fizerem os escrutínios preparatórios do Baptismo dos adultos, neste Domingo, podem utilizar-se as orações rituais e as intercessões próprias: p. 1063 do Missal Romano.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Defendei-me Senhor, J. Santos, NRMS 105

Salmo 42, 1-2

Antífona de entrada: Fazei-me justiça, meu Deus, defendei a minha causa contra a gente sem piedade, livrai-me do homem desleal e perverso. Vós sois o meu refúgio.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Hoje, numa espécie de parábola ao vivo, Jesus desafia-nos ao perdão, em vez da fria crueza da nossa condenação! Eis, portanto, três palavras, três atitudes, para uma quaresma de compaixão: conversão, misericórdia, perdão. Vamos, primeiramente, ouvir a Palavra de Deus e depois iremos também nós pedir a Deus, que transforme as pedras do coração em mãos abertas para o perdão!

 

 

Ato Penitencial

 

Porque a história de perdão da mulher do Evangelho se repete hoje também, convido-vos a um verdadeiro acto penitencial, a um público pedido de perdão! A começar por mim, a começar pelos mais velhos, para que o Senhor nos parta toda a pedra dura do nosso coração:

 

1. Senhor, às vezes, julgamos mal os outros. Só vemos o passado! Perdoai-nos, Senhor, e ajudai-nos a abrir nas nossas vidas, um caminho de futuro! Em vez de pedras, dai-nos perdão, Senhor!

 

Refrão: Perdão, Senhor! Perdão, Senhor!

 

2. Senhor, usamos palavras duras, que são como pedras no coração! Olhamos muito de cima, e olhamos pouco para o chão da nossa miséria! Perdoai-nos, Senhor e ajudai-nos a perdoar! Em vez de pedras, dêmos pão!

 

Refrão: Perdão, Senhor! Perdão, Senhor!

 

 

3. Senhor, coloco no chão a pedra da intolerância e da crueldade do coração! Senhor, perdoai-nos e ensinai-nos a escrever a vossa Palavra no coração! Em vez de pedras, dai-nos o vosso coração!

 

Refrão: Perdão, Senhor! Perdão, Senhor!

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, concedei-nos a graça de viver com alegria o mesmo espírito de caridade que levou o vosso Filho a entregar-Se à morte pela salvação dos homens. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A primeira leitura apresenta-nos o Deus libertador, que acompanha com solicitude e amor a caminhada do seu Povo para a liberdade. Esse “caminho” é o paradigma dessa outra libertação que Deus nos convida a fazer neste tempo de Quaresma e que nos levará à Terra Prometida onde corre a vida nova.

 

Isaías 43, 16-21

16O Senhor abriu outrora caminhos através do mar, veredas por entre as torrentes das águas. 17Pôs em campanha carros e cavalos, um exército de valentes guerreiros; e todos caíram para não mais se levantarem, extinguiram-se como um pavio que se apaga. 18Eis o que diz o Senhor: «Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas. 19Olhai: vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não a vedes? Vou abrir um caminho no deserto, fazer brotar rios na terra árida. 20Os animais selvagens – chacais e avestruzes – proclamarão a minha glória, porque farei brotar água no deserto, rios na terra árida, para matar a sede ao meu povo escolhido, 21o povo que formei para Mim e que proclamará os meus louvores».

 

A leitura é tirada do II Isaías, que tem por centro o regresso dos judeus deportados na Babilónia, após a queda desta cidade em 539, com a invasão de Ciro, rei persa, que decretou a libertação dos judeus. Era urgente animar este povo a regressar, pois ao cabo de mais de 60 anos, já aclimatados àquela situação de degredo e escravidão, não estariam motivados para a aventura do regresso – haveria mesmo gente instalada numa situação sofrível. O Profeta apresenta o regresso de Babilónia como um novo Êxodo, em que os antigos prodígios não só se renovarão, mas os deixarão a perder de vista: «Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados» (v. 18). Vale a pena tomar parte em tão maravilhosa aventura! É também um apelo válido para a conversão quaresmal, que a Igreja espera dos seus filhos.

 

Salmo Responsorial    Sl 125 (126), 1-6 (R. 3)

 

Monição: Libertados e perdoados dos nossos pecados, cantemos as maravilhas que o Senhor fez sobre o seu povo.

 

Refrão:     Grandes maravilhas fez por nós o Senhor.

Ou:           O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo.

 

Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião,

parecia-nos viver um sonho.

Da nossa boca brotavam expressões de alegria

e de nossos lábios cânticos de júbilo.

 

Diziam então os pagãos:

«O Senhor fez por eles grandes coisas».

Sim, grandes coisas fez por nós o Senhor,

estamos exultantes de alegria.

 

Fazei regressar, Senhor, os nossos cativos,

como as torrentes do deserto.

Os que semeiam em lágrimas

recolhem com alegria.

 

À ida, vão a chorar,

levando as sementes;

à volta, vêm a cantar,

trazendo os molhos de espigas.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A segunda leitura é um desafio a libertar-nos do “lixo” que impede a descoberta do fundamental: a comunhão com Cristo, a identificação com Cristo, princípio da nossa ressurreição.

 

Filipenses 3, 8-14

Irmãos: 8Considero todas as coisas como prejuízo, comparando-as com o bem supremo, que é conhecer Jesus Cristo, meu Senhor. Por Ele renunciei a todas as coisas e considerei tudo como lixo, para ganhar a Cristo 9e n’Ele me encontrar, não com a minha justiça que vem da Lei, mas com a que se recebe pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus e se funda na fé. 10Assim poderei conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, configurando-me à sua morte, 11para ver se posso chegar à ressurreição dos mortos. 12Não que eu tenha já chegado à meta, ou já tenha atingido a perfeição. Mas continuo a correr, para ver se a alcanço, uma vez que também fui alcançado por Cristo Jesus. 13Não penso, irmãos, que já o tenha conseguido. Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, 14continuar a correr para a meta, em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus.

 

O texto desta leitura constitui uma das mais belas jóias dos escritos paulinos. Há mesmo exegetas pensam que esta carta é um conjunto de dois ou três pequenos escritos de S. Paulo. O contexto da passagem é a parte polémica desta carta do cativeiro (3, 1b – 4, 1), em que o Apóstolo põe os seus fiéis de sobreaviso contra os cristãos judaizantes, que queriam impor aos cristãos vindos dos gentios as práticas da lei de judaica, nomeadamente a circuncisão, vendo nelas uma forma de alcançar a justiça, a conformidade com Deus e com a sua vontade de modo a ser-Lhe agradável e a alcançar a salvação. A reacção de Paulo é extremamente enérgica e dura; confidencia que também ele tinha posto a sua confiança na carne (v. 4), sendo «irrepreensível quanto à justiça que deriva da observância da Lei» (v. 6); mas tinha-se dado nele uma viragem completa: em face do valor absoluto, o bem supremo, que é conhecer Cristo, tudo tinha mudado: «tudo quanto para mim era um ganho, isso mesmo considerei uma perda» (v. 7).

8 «Conhecer Jesus Cristo» não é um mero conhecimento teórico, mas experimental, vivencial, de Cristo; por Ele, insiste o Apóstolo, eu deixei perder todas estas coisas: os pergaminhos judaicos – vv. 4-6 – em suma, a justiça que vem da Lei (v. 9); tudo isso é lixo, uma porcaria (v. 8: o termo grego – skybala – é mesmo muito duro, «excrementos»), em face da justiça que vem de Deus e da condição de estar em Cristo.

9 «A justiça que vem da Lei» não vai muito além da simples observância de prescrições, em que, de modo mais ou menos oculto, se aninha a afirmação do eu e das próprias capacidades para cumprir, e em que se reclama o mérito próprio perante Deus (como se o homem fosse o credor e Deus o devedor: lembre-se a parábola do fariseu e do publicano). «A justiça que vem de Deus» é um dom gratuito que eleva o ser humano, tirando-o da sua radical incapacidade para se identificar com o projecto salvador de Deus; funda-se na fé, isto é, no acolhimento e aceitação de Cristo como dom de Deus, nomeadamente do valor salvador do que Ele padeceu por nós.

10 «A participação nos seus sofrimentos» é um dos aspectos essenciais de quem faz a experiência da fé em Cristo (o referido conhecimento de Cristo); mas esta experiência de morte não desemboca no vazio, pois tem como força motriz (dynamis) a Ressurreição de Cristo, e tem como meta a participação neste mistério, que não deixa de aparecer também como prémio para quem corre para a meta (v. 14).

12 «Uma vez que também fui alcançado». Paulo recorre com frequência às imagens das competições desportivas (cf. 2, 16; 1 Cor 9, 24-27; Gal 2, 2; 2 Tim 4, 6-8) para falar da vida cristã como uma luta. Apanhado por Cristo a caminho de Damasco (cf. Act 9, 3 ss), não deixa de correr, apenas muda o sentido da sua corrida.

 

Aclamação ao Evangelho        Jl 2, 12-13

 

Monição: O Evangelho diz-nos que, na perspectiva de Deus, não são o castigo e a intolerância que resolvem o problema do mal e do pecado; só o amor e a misericórdia geram activamente vida e fazem nascer o homem novo. É esta a lógica de Deus que somos convidados a assumir na nossa relação com os irmãos.

 

 

Cântico: J. Santos, NRMS 40

 

Convertei-vos a Mim de todo o coração, diz o Senhor;

porque sou benigno e misericordioso.

 

 

Evangelho

 

São João 8, 1-11

Naquele tempo, 1Jesus foi para o Monte das Oliveiras. 2Mas de manhã cedo, apareceu outra vez no templo e todo o povo se aproximou d’Ele. Então sentou-Se e começou a ensinar. 3Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério, colocaram-na no meio dos presentes 4e disseram a Jesus: «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. 5Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?». 6Falavam assim para Lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O acusar. Mas Jesus inclinou-Se e começou a escrever com o dedo no chão. 7Como persistiam em interrogá-lo, ergueu-Se e disse-lhes: «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra». 8Inclinou-Se novamente e continuou a escrever no chão. 9Eles, porém, quando ouviram tais palavras, foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio. 10Jesus ergueu-Se e disse-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». 11Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Disse então Jesus: «Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar».

 

Esta passagem de sabor lucano é omitida nos manuscritos mais antigos do IV Evangelho, por isso é uma das passagens deutrocanónicas do Novo Testamento; também há manuscritos que colocam este relato no final deste Evangelho, ou então em Lc 21, 38. De qualquer modo, está fora de dúvida o seu valor canónico.

5-6 «Tu que dizes?» Tratava-se duma cilada à pessoa de Jesus. Se Ele dissesse que se devia apedrejar a adúltera, os seus inimigos conseguiriam denegrir a sua misericórdia para com os pecadores, que chegava a ser motivo de duras críticas (cf. Lc 5, 30; 15, 2; 19, 7), e poderiam denunciá-lo à autoridade romana por mandar executar uma pena capital, que lhe estava reservada. Se dissesse que se lhe devia perdoar, podia vir a ser acusado ao Sinédrio como advogado da desobediência à Lei (cf. Lv 20, 10; Dt 17, 5-7; 22, 20-24). Mas Jesus põe a questão noutros termos: não se trata de escolher entre a observância da Lei e a misericórdia, entre a justiça e a caridade, mas sim entre a mentira e a verdade, entre a hipocrisia dos acusadores e a sinceridade de quem se reconhece pecador e chora o seu pecado. A Lei não determinava o género de morte, a não ser para a virgem que depois dos esponsais aguardava o início da vida conjugal (Dt 22, 23-24). Talvez se tivesse vindo a generalizar a lapidação, ou então tratava-se duma noiva após os esponsais e antes das bodas. Note-se que os rabinos da época cristã, por razão de benignidade, comutaram o apedrejamento pelo estrangulamento, pena menos selvagem.

6 «Começou a escrever com o dedo no chão». S. Jerónimo, baseado em Jer 17, 13, comenta curiosamente que se pôs a escrever os pecados dos acusadores.

7-9 «Atire a primeira pedra»: isto pertencia pela Lei (Dt 13, 10; 17, 7) à principal testemunha de acusação. Com esta sentença, Jesus pretende confundir a malícia de falso zelo pela Lei, da parte dos seus inimigos, hipocritamente arvorados em defensores duma Lei que não observavam. A sentença de Jesus transforma os acusadores em acusados; e o receio de virem a ser desmascarados por Cristo fá-los debandar. 

11 «Nem Eu não te condeno. Vai e não tornes a pecar». O Senhor mostra-se tolerante e compassivo para com a pessoa que peca e ao mesmo tempo intransigente para com o pecado, ofensa a Deus, e, neste caso, um absoluto moral, que em nenhuma circunstância se poderia justificar.

 

Sugestões para a homilia

 

1. «Não presteis atenção às coisas antigas. Vou realizar uma coisa nova» (Is 43, 18-19)

2. Em vez da pedra o perdão.

3. «Esquecer o que fica para trás, lançar-me para a frente» (Jo 16, 33).

 

 

1. «Não presteis atenção às coisas antigas. Vou realizar uma coisa nova» (Is 43, 18-19)

 

Há uma frase na primeira leitura que nos traz a mensagem principal da Palavra de Deus para este Domingo. O profeta Isaías vai anunciar ao povo eleito, que vivia preso no cativeiro, que Deus irá conduzi-los com solicitude e amor para a liberdade. E é neste contexto que o profeta diz: «Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas. Olhai: vou realizar uma coisa nova» (Is 43, 18-19)

Nestas palavras se resume aquilo que Deus hoje nos quer dizer. Neste tempo da Quaresma, somos convidados a pôr do lado o passado, a esquecer o nosso pecado e, fazendo a experiência do perdão de Deus nas nossas vidas, deixar que o Senhor realize coisas novas em cada um de nós.

Dizem-nos claramente os textos bíblicos de hoje que, na perspectiva de Deus, não são o castigo e a intolerância que resolvem o problema do mal e do pecado; só o amor e a misericórdia geram activamente vida e fazem nascer o homem novo. É esta lógica – a lógica de Deus – que somos convidados a assumir na nossa relação com os irmãos.

 

 

2. Em vez da pedra o perdão.

 

Mas voltemos ao Evangelho para que possamos perceber bem a força desta mensagem. E se na semana passada ouvíamos Cristo a ensinar-nos acerca da misericórdia de Deus, contando-nos a parábola do filho pródigo, hoje Ele vai muito mais longe porque nos falará desse perdão misericordioso já não com belas histórias e palavras encantadoras, mas com gestos e com a sua própria vida.

Escribas e fariseus queriam sepultar a pecadora com a pedra de um passado de pecado. Um coração tão duro como a pedra. Um olhar tão sujo como o chão. As mãos tão apertadas como a Lei. E com a pedra da cegueira, escribas e fariseus queriam atingir de um só tiro a autoridade do Mestre e a dignidade de uma Mulher.

Jesus escreve no chão e coloca sobre o passado a pedra de uma ruína, a vida de uma Mulher, com direito a reconstrução. Eles armam-se com a certeza das suas públicas virtudes. Jesus desarma-os com a verdade dos seus vícios privados. E caem uma e outra pedra... E ficou só Jesus e a mulher. A mísera e a misericórdia. Em vez da pedra o perdão.

E que coisa é este «perdão»? Um simples cancelar da culpa? Não. Uma pura suspensão do castigo? Também não! A indiferença diante do pecador? Muito menos ainda. Bem diferente disso, o perdão é um acto de «criação», de «nova geração». Perdoando, Deus esquece os acontecimentos do passado, deixa de prestar atenção às coisas antigas, para abrir um «caminho novo», para fazer do homem pecador uma «nova criatura». O perdão de Deus recria e regenera o homem na sua condição. Transforma-o por dentro, fá-lo um «outro ser». Por isso, o perdão não é um sentimento, uma emoção. Mas uma decisão, um acto criador. Perdoar é acolher a existência do outro, não porque esteja bem como está, mas para a fazer renascer para a sua verdade, para a recriar no amor.

 

3. «Esquecer o que fica para trás, lançar-me para a frente» (Jo 16, 33).

 

No nosso mundo, o fundamentalismo e a intransigência falam frequentemente mais alto do que o amor: mata-se, oprime-se, escraviza-se em nome de Deus; desacredita-se, calunia-se, em razão de preconceitos; marginaliza-se em nome da moral e dos bons costumes… Esta lógica (bem longe da misericórdia e do amor de Deus) leva-nos a algum lado? A intolerância alguma vez gerou alguma coisa além de violência, de morte, de lágrimas, de sofrimento?

Quantas vezes nas nossas comunidades cristãs a absolutização da lei causa marginalização e sofrimento… Quantas vezes se atiram pedras aos outros, esquecendo os nossos próprios telhados de vidro… Quantas vezes marcamos os outros com o estigma da culpa e queimamos a pessoa em “julgamentos sumários” sem direito a defesa… É esta a lógica de Deus? O que nos interessa: a libertação do nosso irmão, ou o seu afundamento?

De resto, «águas passadas não movem moinhos». Porque, no dizer de S. Paulo, um passado de luxo não é mais do que um puro monte de lixo! E, ao olhar de Deus, é até possível abrir num passado de luxúria, um caudal de águas puras!

Acima de tudo, hoje é-nos dito que Deus não amarra homem algum ao seu passado nem ao seu fracasso. Deus não olha ao que nós fomos. Olha para quem somos. Ama-nos e por isso nos perdoa e, com o seu perdão, nos liberta da culpa e nos dá alma nova para um novo recomeço.

S. Paulo fez experimentou este Deus e por isso pôde dizer: «Só penso numa coisa - dizia o Apóstolo - esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta, em vista do prémio a que Deus, lá no alto, me chama em Cristo Jesus». «Para mim viver é Cristo e o resto é lixo!!» (Jo 16, 33).

 

Fala o Santo Padre

 

«Aquela mulher representa todos nós, que somos pecadores,

ou seja, adúlteros diante de Deus, traidores da sua fidelidade.

E a sua experiência representa a vontade de Deus por cada um de nós:

não a nossa condenação, mas a nossa salvação através de Jesus.»

 

O Evangelho deste Quinto Domingo de Quaresma (cf. Jo 8, 1-11) é tão bonito, eu gosto muito de o ler e reler. Apresenta o episódio da mulher adúltera, frisando o tema da misericórdia de Deus, que nunca deseja a morte do pecador, mas que se converta e viva. O episódio tem lugar na esplanada do templo. Imaginai-a ali, no adro [da basílica de São Pedro]. Jesus está a ensinar à multidão, e eis que chegam alguns escribas e fariseus que arrastam diante dele uma mulher surpreendida em adultério. Assim, aquela mulher encontra-se no meio entre Jesus e a multidão (cf. v. 3), entre a misericórdia do Filho de Deus e a violência, a raiva dos seus acusadores. Na realidade, eles não vieram ter com o Mestre para lhe pedir o seu parecer — eram pessoas maldosas — mas para lhe armar uma cilada. De facto, se Jesus seguir a rigidez da lei, aprovando a lapidação da mulher, perderá a sua fama de mansidão e de bondade que tanto fascina o povo; ao contrário, se quiser ser misericordioso, terá que ir contra a lei, que Ele mesmo disse que não queria abolir mas cumprir (cf. Mt 5, 17). E Jesus é posto nesta situação.

Esta má intenção esconde-se sob a pergunta que fazem a Jesus: «Tu o que dizes?» (v. 5). Jesus não responde, fica em silêncio e faz um gesto misterioso: «Inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo» (v. 7). Talvez fizesse desenhos, alguns dizem que escrevia os pecados dos fariseus... contudo, escrevia, era como se estivesse noutra parte. Desta forma convida todos à calma, a não agir levados pela impulsividade, e a procurar a justiça de Deus. Mas eles, os maus, insistem e esperam d’Ele uma resposta. Parecia que tinham sede de sangue. Então Jesus levanta o olhar e diz: «Aquele que dentre vós estiver sem pecado atire a pedra contra ela» (v. 7). Esta resposta surpreende os acusadores, desarmando-os todos no verdadeiro sentido da palavra: todos abandonaram as «armas», ou seja, pedras prontas para serem lançadas, quer as visíveis contra a mulher, quer as escondidas contra Jesus. E enquanto o Senhor continua a escrever no chão com o dedo, a fazer desenhos, não sei..., os acusadores vão-se embora um depois do outro, de cabeça baixa, começando pelos mais idosos, mais cientes de não estarem sem pecado. Como nos faz bem estar cientes de que também nós somos pecadores! Quando falamos mal dos outros — estas são coisas que conhecemos bem — como nos fará bem ter a coragem de deixar cair no chão as pedras que temos para atirar contra os outros, e pensar um pouco nos nossos pecados!

Permaneceram ali só a mulher e Jesus: a miséria e a misericórdia, uma diante da outra. E quantas vezes isto acontece a nós quando nos ajoelhamos no confessionário, com vergonha, para mostrar a nossa miséria e pedir perdão! «Mulher, onde estão» (v. 10), diz-lhe Jesus. E é suficiente esta constatação, e o seu olhar cheio de misericórdia, cheio de amor, para fazer sentir àquela pessoa — talvez pela primeira vez — que tem uma dignidade, que ela não é o seu pecado, ela tem uma dignidade de pessoa; que pode mudar de vida, pode sair das suas escravidões e caminhar por uma via nova.

Queridos irmãos e irmãs, aquela mulher representa todos nós, que somos pecadores, ou seja, adúlteros diante de Deus, traidores da sua fidelidade. E a sua experiência representa a vontade de Deus por cada um de nós: não a nossa condenação, mas a nossa salvação através de Jesus. Ele é a graça, que salva do pecado e da morte. Ele escreveu na terra, no pó com o qual é feito cada ser humano (cf. Gn 2, 7), a sentença de Deus: «Não quero que morras, mas que vivas». Deus não nos deixa amarrados ao nosso pecado, não nos identifica com o mal que cometemos. Temos um nome, e Deus não identifica este nome com o pecado que cometemos. Quer libertar-nos, e pretende que também nós o queiramos juntamente com Ele. Deseja que a nossa liberdade se converta do mal em bem, e isto é possível — é possível! — com a sua graça.

A Virgem Maria nos ajude a confiar-nos completamente à misericórdia de Deus, para nos tornarmos criaturas novas.

   Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, 13 de Março de 2016

 

Oração Universal

 

Ao Senhor, benigno e misericordioso, que abre sempre um caminho novo no deserto das nossas vidas, confiemos as nossas preces, dizendo a cada invocação:

 

R. Pela vossa misericórdia, Senhor, libertai-nos do pecado.

 

1.     Pela Santa Igreja: para que se fixe mais no sofrimento do que no pecado,

de modo a usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade. Invoquemos:

 

2.     Pelos governantes: para que favoreçam políticas de apoio a pessoas em risco

e desenvolvam uma política penal e penitenciária, mais apostada na cura, na reinserção e na reabilitação dos reclusos, do que na punição. Invoquemos:

 

3.     Pelos reclusos, que já cumpriram a sua pena e que,

no máximo da sua amargura experimentaram o inferno:

para que se convertam em profetas da dignidade humana,

numa sociedade, que usa e joga fora as pessoas. Invoquemos:

 

4.     Pelos doentes, idosos e pessoas sós, que se sentam prisioneiras,

em espaços desconhecidos: para que encontrem um lugar familiar,

a assistência necessária e a visita dos seus parentes e amigos. Invoquemos:

 

5.     Por todos nós, para que não tenhamos medo do confessionário,

onde somos libertados da prisão do pecado,

a fim de encetar o caminho de uma vida nova. Invoquemos:

 

P- Senhor, nosso Deus, fonte inesgotável de misericórdia, aumentai a fé do povo,

para que todos compreendam o mistério admirável do amor com que foram criados,

do sangue com que foram redimidos e do Espírito com que foram renovados.

Por Cristo Senhor Nosso.

 

 

 

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Escutai a minha prece, A. Cartageno, NRMS 105

 

Oração sobre as oblatas: Ouvi-nos, Senhor Deus omnipotente, e, pela virtude deste sacrifício, purificai os vossos servos que iluminastes com os ensinamentos da fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio da Oração da Reconciliação I

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Santo: F. da Silva, NRMS 38

 

Monição da Comunhão

 

A dinâmica de Deus é uma dinâmica de misericórdia, pois só o amor transforma e permite a superação dos limites humanos. É essa a realidade do Reino de Deus que somos convidados a experimentar a partir da comunhão.

 

Cântico da Comunhão: Já não sou eu que vivo, Az. Oliveira, NRMS 48

Jo 8, 10-11

Antífona da comunhão: Mulher, ninguém te condenou? Ninguém, Senhor. Nem Eu te condeno. Vai em paz e não tornes a pecar.

 

Cântico de acção de graças: O Senhor salvou-me, Az. Oliveira, NRMS 60

 

Oração depois da comunhão: Deus omnipotente, concedei-nos a graça de sermos sempre contados entre os membros de Cristo, nós que comungámos o seu Corpo e Sangue. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Vai e não voltes a pecar! Ide em paz...

 

Cântico final: Ficai connosco, Senhor, M. Borda, NRMS 43

 

 

Homilias Feriais

 

5ª SEMANA

 

2ª Feira, 8-IV: O perdão de Deus e a conversão.

Dan 13, 41.62 / Jo 8, 12-20 (Ano C)

Ninguém te condenou? Ela respondeu: ninguém, Senhor. Vai e, doravante, não tornes a pecar.

Susana foi acusada injustamente de um pecado de adultério e foi salva da morte por intervenção do profeta Daniel (LT). Mas nunca perdeu a confiança no Senhor: Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos nada temerei, pois Vós estais comigo (SR).

Para todos aqueles que passam momentos difíceis, Deus não lhes nega a sua luz, que servirá para ver os acontecimentos com os olhos de Deus: Eu sou a Luz do mundo. Quem me seguir não andará nas trevas, mas terá a luz da vida (EV). Esta luz pode encontrar-se nos ensinamentos do Senhor, que Ele nos deixou no Evangelho.

 

3ª Feira, 9-IV: Avé, ó Cruz, esperança única

Num 21, 4-9 / Jo 8, 21-30

Faz uma serpente de bronze e prende-a num poste. Todo aquele que, depois de mordido, olhar para ela, terá a vida salva.

Esta serpente é uma imagem da Cruz de Cristo no Calvário. Já no Antigo Testamento Deus permitiu a instituição de imagens que conduziam simbolicamente à salvação pelo Verbo Incarnado como, por exemplo, a serpente de bronze (LT). Verifica-se no momento em que Deus se debruçou lá do Céu e olhou para a terra, para libertar os condenados à morte (SR).

Olhemos para a Cruz durante a celebração da Missa, que sublinha o carácter do sacrifício de Cristo. Então, quando levantarmos o Filho do homem, saberemos que Ele nos diz: Eu sou (EV). Também pode ser útil termos um crucifixo de bolso para as dificuldades.

 

4ª Feira, 10-IV:  A Verdade que nos libertará

Dan 3, 14-20 / Jo 8, 31-42

Bendito seja o Deus de Sidrach. Mandou o seu Anjo, para livrar os seus servidores, que tiveram confiança nEle.

Embora sendo escravos do rei da Babilónia, os três jovens foram salvos e libertados pela sua confiança em Deus (LT).

Jesus recorda-nos que seremos libertados pela Verdade, que se obtém, permanecendo na sua Palavra (EV). Procuremos recebê-la com um coração sincero e generoso (AE). Cristo liberta-nos do pecado, que nos mantém na escravidão. Aproveitemos para ver neste momento aquelas coisas e acontecimentos, dos quais temos dificuldades em nos afastarmos. Não desistamos, pois obteremos muitos frutos pela nossa perseverança (AE).

 

5ª Feira, 11-IV: Fidelidade à Aliança.

Gen 17, 3-9 / Jo 8, 51-59

Vou estabelecer a minha Aliança contigo e, depois de ti com a tua descendência de geração em geração.

Deus chamou Abraão para estabelecer com Ele uma Aliança (LT). Ele confiou em Deus, que recorda sempre a sua Aliança, o pacto estabelecido com Abraão (SR), venceu todas as provações, tornando-se um exemplo de fidelidade. Se confiarmos na Palavra de Deus, seremos igualmente salvos (EV e AE).

A Aliança estabelecida com Abraão foi renovada de uma vez para sempre por Cristo na Cruz: a Nova Aliança no meu Sangue que será derramado por vós. Sejamos fieis aos nossos compromissos assumidos no Baptismo.

 

6ª Feira, 12-IV: A vitória de Cristo sobre o demónio.

Jer 20, 10-13 / Jo 10, 31-42

Mas o Senhor está comigo como herói poderoso e os meus perseguidores cairão vencidos.

Este herói poderoso (LT) representa Cristo, que veio à terra para vencer o demónio. No entanto, os judeus querem matá-lo, apedrejando-o (EV).

Não há dúvida que o demónio continua a dispor de algum poder sobre o mundo. A nossa vida é por isso um combate contínuo, que se vence graças à oração: Invoquei o Senhor e fiquei salvo dos meus inimigos. O meu clamor chegou aos seus ouvidos (SR).A Cruz é outro auxílio poderoso: Pelo sinal da santa Cruz livre-nos Deus dos nossos inimigos. Nos momentos de tentação, se tivermos oportunidade, utilizemos também a água benta.

 

Sábado, 13-IV: Meios para obter a unidade.

Ez 37, 21-28 / Jo 11, 45-56

Vou reuni-los de toda a parte. Farei deles um só povo.

Segundo esta profecia, Deus promete reunir os filhos de Israel, dispersos por toda a parte (LT). E Caifás chega a dizer que esta unidade só se obterá se Cristo morrer (EV). No entanto, esta vai ser uma tarefa do próprio Deus, aquele que dispersou Israel vai reuni-lo (SR). Será o Espírito Santo, no dia de Pentecostes, que reuniu uma multidão de diferentes línguas.

A unidade dos cristãos é indispensável para que a Igreja seja um sinal visível cada vez mais luminoso de esperança e conforto para toda a humanidade (Paulo VI). Para isso é necessário pedirmos ao Senhor que crie um coração novo e um espírito novo (AE).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:        Nuno Miguel Westwood

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:               Duarte Nuno Rocha

 


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