4º Domingo da Quaresma

31 de Março de 2019

 

Onde se fizerem os escrutínios preparatórios para o Baptismo dos adultos, neste domingo, podem utilizar-se as orações rituais e as intercessões próprias: p. 1063 do Missal Romano.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Senhor, são muitos os nossos pecados, J. Santos, NRMS 53

cf. Is 66, 10-11

Antífona de entrada: Alegra-te, Jerusalém; rejubilai, todos os seus amigos. Exultai de alegria, todos vós que participastes no seu luto e podereis beber e saciar-vos na abundância das suas consolações.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Qualquer pessoa, com alguma inteligência, se interroga sobre o sentido da nossa vida presente.

Testemunha todos os dias que nascem e morrem pessoas; as que vivem não chegam a realizar aqui na terra os sonhos de felicidade; aparentemente, os que atropelam as leis e os seus semelhantes alcançam sucesso, ao passo que os que tratam a vida com seriedade são marginalizados.

Perante estas realidades desconcertantes, perguntam a si mesmas, no íntimo: a vida presente é definitiva, de modo que tudo acabe aqui? Ou caminhamos para outra?

É precisamente esta interrogação que a Quaresma nos propõe constantemente na Liturgia da Palavra de cada Domingo.

Hoje, 4.º Domingo da Quaresma, volta a perguntar-nos: como conduzir bem a vida presente até ao futuro para onde caminhamos.

 

Acto penitencial

 

Reconheçamos humildemente na presença de Deus que vivemos, muitas vezes, como pessoas que não têm fé, como se a nossa vida acabasse com a morte e não tivéssemos uma recompensa ou castigo pela nossa conduta na vida que levamos agora na terra.

Peçamos ao Senhor coragem para mudar de comportamento, fazendo da vida presente uma preparação para a eternidade feliz.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C)

 

•   Senhor Jesus: Vivemos distraídos, como se, depois da vida mortal da terra,

    não esperássemos uma eternidade feliz ou infeliz, como prémio ou castigo.

    Senhor, misericórdia!

 

    Senhor, misericórdia!

 

•   Cristo: Transgredimos com frequência os Mandamentos da Lei de Deus,

    como se fossem meras proibições da polícia à qual procuramos escapar.

    Cristo, misericórdia!

 

    Cristo, misericórdia!

 

•   Senhor Jesus: Deixamos que os amigos passem a vida com banalidades,

    em vez de os ajudarmos, como irmãos, a preparar uma eternidade feliz.

    Senhor, misericórdia!

 

    Senhor, misericórdia!

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Oração colecta: Deus de misericórdia, que, pelo vosso Filho, realizais admiravelmente a reconciliação do género humano, concedei ao povo cristão fé viva e espírito generoso, a fim de caminhar alegremente para as próximas solenidades pascais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Depois da tomada de Jericó, os hebreus, chefiados por Josué, entraram finalmente na Terra da Promissão e começaram uma vida normal, alimentando-se com os frutos da terra.

Esta chegada à Terra Prometida é uma imagem da nossa chegada ao Céu, onde não haverá luto nem dor, porque teremos uma vida perfeitamente feliz.

 

Josué 5, 9a.10-12

Naqueles dias, 9adisse o Senhor a Josué: «Hoje tirei de vós o opróbrio do Egipto». 10Os filhos de Israel acamparam em Gálgala e celebraram a Páscoa, no dia catorze do mês, à tarde, na planície de Jericó. 11No dia seguinte à Páscoa, comeram dos frutos da terra: pães ázimos e espigas assadas nesse mesmo dia. 12Quando começaram a comer dos frutos da terra, no dia seguinte à Páscoa, cessou o maná. Os filhos de Israel não voltaram a ter o maná, mas, naquele ano, já se alimentaram dos frutos da terra de Canaã.

 

A leitura fala-nos do início de uma nova vida do povo eleito, após a longa e dura travessia do deserto. O facto de ter sido escolhida para este tempo, em que o deserto da Quaresma caminha para o seu fim, pode ter um significado simbólico, ligado ao Evangelho do filho pródigo: o regresso à casa paterna, a conversão, o começo de uma vida nova.

9 «Vexame do Egipto». Este pode ser a incircuncisão, de acordo com o contexto (notar que foram aqui suprimidos os vv. 6-8), em que se fala de que Josué procedeu então à circuncisão dos filhos daqueles que tinham saído do Egipto, embora também os egípcios a tivessem praticado. Outros autores pensam que o vexame do Egipto seria a escravidão lá sofrida e as consequentes privações do deserto.

10 «Guilgal». A localização desta Guilgal é incerta, mas supõe-se que ficasse nas proximidades de Jericó. No texto hebraico há um jogo de palavras que podíamos transpor para português da seguinte maneira: «Em Guigal eu fiz o povo galgar o vexame do Egipto». Com efeito, em hebraico gálgal significa roda, e o verbo aqui usado (gallóthi) significa pus a rodar, isto é, «afastei» ou «tirei».

11 «No dia seguinte à Páscoa», isto é, a 16 do mês de Nisan, de acordo com a Lei (cf. Lev 23, 4-14); após a oferta a Deus do primeiro feixe de trigo, já o povo podia começar a comer o trigo novo, ainda quase todo verde. Ainda hoje a gente do campo na Síria e no Egipto gosta de comer, quando ainda verde, o grão de trigo assado.

 

Salmo Responsorial    Sl 33 (34), 2-3.4-5.6-7 (R. 9a)

 

Monição: Este salmo é um convite para que estejamos mais atentos aos dons que o Senhor nos concede e exercitemos a nossa gratidão pelas graças recebidas.

Também nós podemos e devemos cantar a bondade do Senhor que nos ampara, defende e nos mima com todas as delícias sobrenaturais da Sua Igreja.

 

Refrão:        Saboreai e vede como o Senhor é bom.

 

A toda a hora bendirei o Senhor,

o seu louvor estará sempre na minha boca.

A minha alma gloria-se no Senhor:

escutem e alegrem-se os humildes.

 

Enaltecei comigo ao Senhor

e exaltemos juntos o seu nome.

Procurei o Senhor e Ele atendeu-me,

libertou-me de toda a ansiedade.

 

Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes,

o vosso rosto não se cobrirá de vergonha.

Este pobre clamou e o Senhor o ouviu,

salvou-o de todas as angústias.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Paulo, na Segunda Carta aos fiéis da Igreja de Corinto, lança-lhes o convite a que se reconciliem com Deus e comecem uma vida nova.

Este mesmo convite é dirigido pelo Senhor a cada um de nós, especialmente nesta Quaresma que estamos a celebrar.

 

2 Coríntios 5, 17-21

Irmãos: 17Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; tudo foi renovado. 18Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação. 19Na verdade, é Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo, não levando em conta as faltas dos homens e confiando-nos a palavra da reconciliação. 20Nós somos, portanto, embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. 21A Cristo, que não conhecera o pecado, Deus identificou-O com o pecado por causa de nós, para que em Cristo nos tornemos justiça de Deus.

 

Já nas Cinzas, tivemos parte desta leitura. S. Paulo ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e Ressurreição de Cristo (5, 14-15).

17 «Nova criatura». Pelo Baptismo dá-se uma transformação radical – regeneração interior (cf. Jo 3, 5) – do homem velho (cf. Rom 6, 6; Gal 6, 15; Col 3, 9; Ef 2, 15; Tit 3, 5). Dá-se como que uma nova criação, no plano da graça, pois passa-se do não ser, do nada e menos que nada (o pecado: «as coisas antigas») para «estar em Cristo», participando da sua vida divina.

18 «Ministério da reconciliação». O contexto não permite que se interprete este ministério no sentido estrito do ministério do perdão exercido no Sacramento da Penitência, embora este se possa ver englobado no conjunto (boa ocasião para rever o motu proprio Misericordia Dei de João Paulo II, sobre alguns aspectos do Sacramento da Penitência, de 7 de Abril de 2002, que quase passou despercebido).

20 «Reconciliai-vos com Deus». É este o insistente convite que a Igreja nos faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S Paulo, com a plena consciência de que era Deus que exortava por seu intermédio, pois os Apóstolos, como os demais ministros de Cristo, são «embaixadores ao serviço de Cristo», e não apenas ao seu serviço, mas actuando em vez de Cristo e por autoridade de Cristo, como o texto original parece dar a entender com o uso da preposição grega ypér (em favor de, usada no sentido da preposição antí, em vez de; cf. Jo 11, 50; Gal 3, 13; etc.), como já referimos na Quarta-feira de Cinzas.

21 «Deus identificou-o com o pecado», à letra, Deus fê-lo pecado, uma expressão extraordinariamente forte e chocante. Note-se, no entanto, que não se diz que Deus O tenha feito pecador; o que se pretende significar é que Deus permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui duma identificação jurídica, não moral: Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (de toda a Humanidade), para os expiar, sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3, 13). O texto torna-se menos duro, se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício pelo pecado; isto, que pode parecer uma escapatória para evitar a dificuldade de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra ’axam tem este duplo sentido de «violação da justiça» e de «sacrifício de reparação pelo pecado»; com efeito, pelo sacrifício de Cristo tornamo-nos «justiça de Deus», isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois substantivos abstractos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo antitético, tão do gosto paulino).

 

Aclamação ao Evangelho        Lc 15, 18

 

Monição: O Evangelho convida-nos a seguir o caminho de regresso empreendido pelo filho pródigo para a casa do pai.

Manifestemos o nosso propósito de seguir este exemplo, aclamando com alegria o Evangelho que para nós vai ser proclamado.

 

Refrão 1: Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo Senhor.

Refrão 2: Glória a Vós, Jesus Cristo, Sabedoria do Pai.

Refrão 3: Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai.

Refrão 4: Glória a Vós, Senhor, Filho do Deus vivo.

Refrão 4: Louvor a Vós, Jesus Cristo, rei da eterna glória.

Refrão 6: Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor.

Refrão 7: A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.

 

Vou partir, vou ter com meu pai e dizer-lhe:

Pai, pequei contra o Céu e contra ti.

 

 

Cântico: F. da Silva, NRMS 1 (I)

 

 

 

Evangelho

 

São Lucas 15, 1-3.11-32

Naquele tempo, 1os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. 2Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». 3Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: 11«Um homem tinha dois filhos. 12O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. 13Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. 14Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. 15Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. 16Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! 18Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. 19Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. 20Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. 21Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. 22Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. 23Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejamos, 24porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. 25Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. 26Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. 27O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. 28Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. 29Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. 30E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. 31Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. 32Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».

 

Alguém considerou a parábola do filho pródigo «o evangelho dos evangelhos». É a mais bela e a mais longa das parábolas de Jesus, impregnada duma finíssima psicologia própria de quem no-la contou, Jesus, que conhece a infinita misericórdia do coração de Deus, que é o seu próprio coração, e que penetra na profundidade da alma humana (cf. Jo 2, 25), onde se desenrola o tremendo drama do pecado. «Aquele filho, que recebe do pai a parte do património que lhe corresponde, e abandona a casa para o desbaratar num país longínquo, vivendo uma vida libertina, é, em certo sentido, o homem de todos os tempos, começando por aquele que em primeiro lugar perdeu a herança da graça e da justiça original. A analogia neste ponto é muito ampla. A parábola aborda indirectamente todo o tipo de rupturas da aliança de amor, todas as perdas da graça, todo o pecado» (Encíclica Dives in misericordia, nº 5; ver tb. Catecismo da Igreja Católica, nº 1439).

12 «Dá-me a parte da herança»: segundo Dt 21, 17 pertencia-lhe um terço, havendo só dois filhos. O pai podia fazer as partilhas em vida (cf. Sir 30, 28ss).

13 «Partiu…»: o pecado do filho foi abandonar o pai, esbanjar os seus bens e levar uma vida dissoluta.

14-16 «Uma grande fome: é a imagem do vazio e insatisfação que sente o homem quando está longe de Deus, em pecado. «Guardar porcos» era uma humilhação abominável para um judeu, a quem estava proibido criar e comer estes animais impuros. Esta situação para um filho duma boa família era absolutamente incrível, o cúmulo da baixeza e da servidão. As «alfarrobas»: o rapaz já se contentaria com uma tão indigesta e indigna comida, mas, na hora de se dar uma ração dessas aos porcos, ninguém se lembrava daquele miserável guardador! Aqui fica bem retratada a vileza do pecado e a escravidão a que se submete o homem pecador (cf. Rom 1, 25; 6, 6; Gal 5, 1). O filho pretendia ser livre da tutela do pai, mas acaba por perder a liberdade própria da sua condição: imagem do pecador que perde a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rom 8, 21; Gal 4, 31; 5, 13) e se sujeita à tirania do demónio, das paixões.

17 «Então, caindo em si…» A degradação a que a loucura do seu pecado o tinha levado fê-lo reflectir (é o começo da conversão) e enveredar pela única saída digna e válida.

18-19 «Vou-me embora»: A tradução latina (surgam) do particípio gráfico (mas não ocioso) do original grego – «levantar-me-ei» – é muito mais expressiva, pois, duma forma viva, indica a atitude de quem começa a erguer-se da sua profunda miséria.

«Pequei contra o Céu e contra ti»: nesta expressão retrata-se a dimensão transcendente do pecado; não é uma simples ofensa a um homem, é ofender a Deus, uma ofensa de algum modo infinita! O filho não busca desculpas, reconhece sinceramente a enormidade da sua culpa.

«Trata-me como um dos teus trabalhadores». É maravilhoso considerar como naquele filho arrependido começa a brotar o amar ao pai; o que ele ambiciona é ir para junto do pai, estar junto a ele é o que o pode fazer feliz! Melhorar a sua situação material não é o que mais o preocupa, pois, para isso, qualquer proprietário da sua pátria o podia admitir como jornaleiro. Por outro lado, não se atreve a pedir ao pai que o admita no gozo da sua antiga condição de filho, porque reconhece a sua indignidade: «já não mereço ser chamado teu filho».

20 «Ainda ele estava longe, quanto o pai o viu». Este pormenor faz pensar que o pai não só desejava ansiosamente o regresso do filho, mas também, muitas vezes, observava ao longe os caminhos, impaciente de ver o filho chegar quanto antes, uma enternecedora imagem de como Deus aguarda a conversão do pecador. «Encheu-se de compaixão»: o verbo grego é muito expressivo e difícil de traduzir com toda a sua força, esplankhnístê: «comoveram-se-lhe as entranhas» (tà splánkhna). «E correu…»: é impressionante o contraste entre o pai que corre para o filho e o filho que simplesmente caminha para o filho – «a misericórdia corre» (comenta Sto. Agostinho); «cobrindo-o de beijos», numa boa tradução que tem em conta a forma iterativa do verbo grego, é uma belíssima e expressiva imagem do amor de Deus para com um pecador arrependido!

21 «Pai, pequei». Apesar de se ver assim recebido pelo pai, o filho não se escusa de confessar o seu pecado e de manifestar a atitude interior que o move a regressar.

22 «A melhor túnica, o anel, o calçado», são uma imagem da graça, o traje nupcial (cf. Mt 22, 11-13); assim nos espera o Senhor no Sacramento da Reconciliação, não para nos ralhar, recriminar, mas para nos admitir na sua antiga intimidade, restituindo-nos, cheio de misericórdia, a graça perdida.

23 «Comamos e festejemos», a imagem da Sagrada Eucaristia, segundo um sentido espiritual corrente.

25-32 «O filho mais velho»: esta segunda parte da parábola não se pode limitar a uma censura dos fariseus e escribas (v. 2), cumpridores, mas insensíveis ao amor – o mais velho é que é, no fim de contas, o filho mau –; a parábola é também uma lição para todos, a fim de que imitem a misericórdia de Deus para com um irmão que pecou (cf. Lc 6, 36); ele é sempre «o teu irmão» (v. 33), e não há direito de que não se tome a sério a misericórdia de Deus, com aquela despeitada ironia: «esse teu filho» (v 30). A misericórdia de Deus é tão grande, que ultrapassa uma lógica meramente humana; esta segunda parte da parábola põe em evidência a misericórdia de Deus a partir do contraste com a mesquinhez do filho mais velho.

 

Sugestões para a homilia

 

• A nossa Terra da Promissão

O Baptismo, libertação do opróbrio

Vida normal de filhos de Deus

Novas criaturas

• O Banquete da Salvação

Somos os preferidos de Deus

O pecado, passo em falso

A festa do regresso

 

1. A nossa Terra da Promissão

 

a) O Baptismo, libertação do opróbrio. «Naqueles dias, disse o Senhor a Josué: «Hoje tirei de vós o opróbrio do Egipto». Os filhos de Israel acamparam em Gálgala e celebraram a Páscoa, no dia catorze do mês, à tarde, na planície de Jericó

A história do Povo de Deus é uma figura da nossa caminhada pelo mundo até à Pátria definitiva.

Saímos da escravidão do pecado e passamos através das águas do Baptismo para a longa caminhada que nos há-de levar ao Céu.  Nela encontramos tentações contra a confiança em Deus, fome, sede e muitas outras dificuldades.

Entraremos um dia na Terra Prometida, no Céu, onde viveremos para sempre na mesma felicidade do nosso Deus.

Finalmente, Deus cumpriu a promessa feita aos Patriarcas e aos Profetas da Antiga Lei. Prometera a Abraão que daria aquela terra aos seus descendentes. Jacob partiu para o Egipto com as 70 pessoas da sua família, com fé no regresso à sua terra.

No coração da Aliança de Amor que fizemos com Deus, pelo nosso Baptismo, está esta mesma promessa: somos filhos de Deus e iremos viver eternamente para a Casa do Pai que é o Paraíso.

Fazemos parte de uma grande família, em crescimento contínuo: a Igreja, novo Povo de Deus que está na terra a militar, a purificar-se no Purgatório e na felicidade do Paraíso, contemplando a Deus face a face.

Nascemos, porém, marcados pela mancha original e privação da graça santificante e da filiação divina. Não tínhamos possibilidade de entrar manchados no Céu. Estávamos marcados com o selo da morte. Era o nosso opróbrio.

Deus libertou-nos dele, lavando na fonte baptismal a mancha do pecado original e infundindo em nós a graça santificante, a vida divina de Cristo ressuscitado.

Nesta Quaresma, convida-nos a renovar a graça baptismal por uma confissão profunda e contrita, fugindo da rotina que é inimiga do verdadeiro amor.

 

b) Vida normal de filhos de Deus. «No dia seguinte à Páscoa, comeram dos frutos da terra: pães ázimos e espigas assadas nesse mesmo dia. Quando começaram a comer dos frutos da terra, no dia seguinte à Páscoa, cessou o maná

Com a entrada dos Hebreus na Terra de Israel, terminou o nomadismo do Povo de Deus que se prolongara por quarenta anos de travessia do deserto.

Acabou também a colheita do maná para cada família, de manhã cedo, logo que o orvalho se evaporava e deixava a descoberto o precioso alimento.

Poderiam agora começar a organizar a vida de modo estável, embora fosse necessário estar em alerta permanente contra os inimigos que se encontravam à volta do seu território. Finalmente, eram uma nação com território e mar.

A longa caminhada pelo deserto é uma figura da nossa vida na terra, a caminho da nossa verdadeira e definitiva pátria.

Também para a nossa vida na Igreja Deus preparou tudo, para que pudéssemos crescer espiritualmente. Deixou-nos luz da Sua Palavra e os Sacramentos como alimento.

Celebramos em cada Domingo a Páscoa semanal, a reunião magna da família dos filhos de Deus.

Como não é possível reunir toda a Igreja numa única celebração, o Povo de Deus está dividido em comunidades — as Dioceses que, por sua vez, se estruturam em paróquias, cada uma destas famílias organiza a mesma festa semanal na qual se põe a mesa com todas as iguarias espirituais, para nossa alimentação.

Quem não participa nesta celebração do primeiro Dia da semana, condena-se a si própria à greve de fome, pondo em perigo o seu futuro numa eternidade feliz.

Mesa da Palavra. Em cada missa dominical são proclamados, pelo menos, 4 textos da Sagrada Escritura: Primeira Leitura, Salmo de meditação, Segunda Leitura e Evangelho. Ao fim de três anos litúrgicos, temos ouvido proclamar uma parte importante da Bíblia.

Mesa da Eucaristia. Se estivermos na graça de Deus, podemos receber o Corpo e o Sangue do Senhor, Alimento da nossa vida de Deus

Sacramentos da nova Lei. A Igreja disponibiliza ainda para nós os Sacramentos. Em cada um deles, Jesus Cristo toca-nos, acarinha-nos e cura-nos.

Na prática, só podemos repetir quantas vezes quisermos dois deles: a Eucaristia e a Confissão. Dois deles são destinados a ajudar os fieis em vocações concretas: o Matrimónio e a Ordem.

Edificação mútua. Tomamos consciência de que somos uma família solidária e animamo-nos mutuamente na profissão da mesma fé.

 

c) Novas criaturas. «Irmãos: Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; tudo foi renovado. Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação

Renascidos pelo Baptismo. O Baptismo, pelo qual entramos na Igreja de Jesus Cristo, é um verdadeiro e novo nascimento para uma vida imensamente superior à vida natural.

Por isso, Jesus dizia a Nicodemos: «Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer do Alto não pode ver o Reino de Deus.»  (S. João 3, 3).

Tínhamos pedido, pelo pecado dos nossos primeiros pais, a vida divina, a graça santificante. O Baptismo faz-nos renascer, isto é recuperamos a graça santificante e estamos, de novo a caminho do Céu.

Temos em nós a vida de Cristo Ressuscitado que nos possibilita e garante, no fim dos tempos, com Ele ressuscitar também.

Chamados à vida do espírito. A vida corporal que vivemos na terra tem um arco relativamente pequeno. Depois de um tempo de prova na terra, o nosso corpo voltará ao pó de que foi formado, enquanto a alma irá receber imediatamente o prémio ou o castigo eterno.

A vida sobrenatural que recebemos no Baptismo deve crescer sempre, aperfeiçoar-se, até ao momento em que o Senhor nos chame para junto d’Ele.

Crescemos pela oração, frequência dos sacramentos e prática das boas obras, de acordo com os Mandamentos da Lei de Deus.

A nossa vida sobrenatural teve um princípio — na Fonte baptismal — mas nunca mais terá fim.

Vida nova. Significa, na prática, que nos havemos de esforçar por cumprir os Mandamentos da Lei de Deus, por fidelidade à Aliança baptismal; crescer no conhecimento de Deus pela formação doutrinal e na intimidade com Ele pela oração; renunciar a tornarmo-nos escravos dos sentidos e das paixões desordenadas.

Para isto, não podemos viver de primeiras impressões, fazendo o que os sentidos nos pedem, em qualquer momento da vida.

Prontos a recomeçar. O nosso caminho do Céu é uma prova de Amor de Deus. Pode haver retrocessos e quedas, hesitações e dúvidas.

O que o Senhor nos pede é que estejamos prontos a recomeçar, todas as vezes que for preciso. Este recomeçar exige de nós humildade.

 

2. O Banquete da Salvação

 

A Parábola do filho pródigo ajuda-nos a tomar consciências dos passos que temos dado na vida espiritual.

A Confissão custa-nos, porque somos soberbos — não gostamos de tomar consciência de que falhamos — e falta-nos o amor de Deus.

Para nos ajudar a compreender o tesouro da confissão sacramental que nos faz recomeçar, Jesus conta-nos a Parábola do filho pródigo.

 

a) Somos os preferidos de Deus. «Naquele tempo, os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: “Este homem acolhe os pecadores e come com eles”.»

A nossa experiência pessoal diz-nos que temos dificuldade em perdoar e, mesmo depois de o fazermos com os lábios, conservamos dentro de nós uma ferida que volta a sangrar com toda a facilidade.

A partir deste nosso modo de ser, formamos de Deus uma ideia semelhante. Achamos que os nossos pecados nos dificultam cada vez mais o regresso à Sua amizade.

Talvez por causa da dificuldade que sentimos, Jesus insiste muito na alegria de Deus em perdoar e no convite a que experimentemos também esta alegria de dar o perdão aos outros.

Acolhermo-nos à misericórdia de Deus. O Mestre divino conta as três parábolas da Misericórdia — da dracma perdida, da ovelha extraviada e do filho pródigo — e conclui: «tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’»

Como se explica esta alegria de Deus quando as pessoas se reconciliam com Ele, se nós somos precisamente o contrário e entendemos a reconciliação com quem nos ofendeu como um favor difícil?

Deus quer dilatar o nosso pobre coração para que se pareça com o Seu.

Aproximemo-nos da misericórdia de Deus com confiança. Não existe motivo para ter medo d’Ele ou estar de pé atrás, como quem desconfia sempre à espera do pior.

Deus não quer que tenhamos medo d’Ele, mas que o amemos. Só o amor leva à comunhão e esta é a nossa vocação eterna.

Rostos do Deus misericordioso. Usemos nós também de misericórdia para com os outros. Jesus conta-nos a Parábola do Bom Samaritano e diz, a concluir: “Vai e faz o mesmo.”

Censura o credor que é perdoado de uma grande soma e se recusa a perdoar uma insignificância que lhe deve um outro.

 

b) O pecado, passo em falso. «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta

Sonho ilusório de felicidade longe de Deus. O jovem pródigo começou por sentado a procurar uma felicidade ilusória. «Pai, dá-me a parte da herança que me toca’»

Afastamento de Deus. A segunda tentação foi procurar ser feliz longe do pai. O pecado nunca nos traz a felicidade. «Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante.»

Esbanjamento. Todo o pecado é uma perda inglória da nossa fortuna sobrenatural. Por um pecado mortal sacrificamos a vida divina e a consequente herança do Céu. «por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta

Desilusão dolorosa. Por mais que uma pessoa procure a felicidade na sensualidade, na gula ou na soberba, não a encontrará. Pelo contrário: sente-se de cada vez mais distante dela. «Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações

A fome insaciável. Longe de Deus, não podemos saciar a fome e sede de felicidade que nasceu connosco.

A primeira privação é a dos sacramentos; depois vem a privação da oração, porque não há disposição para orar. E assim, passo a passo, uma pessoa vai descartando todas as ajudas de que precisava.

A saudade de Deus. Este jovem recorda a via abundante que tinha na casa do pai. Não é propriamente o amor filial que o desperta, mas a fome. A atrição —o arrependimento dos pecados por causa fealdade do pecado, temor das penas do inferno e perda do Céu — basta para fazer uma confissão bem feita, embora seja desejável a contrição perfeita, o arrependimento por amor de Deus. «Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome!» A lembrança da Primeira Comunhão, da Profissão de fé ou de outro momento de vivência de fé do passado pode ajudar-nos a dar um passo decisivo no caminho da conversão.

O sonho salvador do regresso. Este jovem tem uma inspiração salvadora: regressar à casa do pai. «Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’

Parece difícil, mas é fácil. A imagem do pai tinha-se deformado na memória. Espera ser maltratado pelo seu descaminho e nunca mais ser integrado na família. Será um dos mais humildes jornaleiros da casa. Acontece sempre assim. À medida que uma pessoa se afasta de Deus deforma a Sua imagem e começa a ter medo de se aproximar.  deste rapaz. Mas a conduta inesperada do pai desconcerta-o.

 

c) A festa do regresso. «Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’.»

Todas as ordens deste pai de família em relação ao filho mais novo que acaba de chegar têm um profundo significado.

Um vestido novo. A roupa que levara quando saiu de casa — a graça santificante — ficou impossível de usar, suja e feita em trapos. «A primeira coisa que Deus faz é restituir-nos a veste branca recebida no momento do Baptismo. Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha.»

Disse o ministro do Baptismo, nos ritos explicativos, depois de nos ter administrado este sacramento: “Agora sois nova criatura e estais revestidos de Cristo. Esta veste branca seja para vós símbolo da dignidade cristã. Ajudados pela palavra e pelo exemplo das vossas famílias, conservai-a imaculada até à vida eterna.”

Um anel no dedo. O anel, segundo a linguagem humana, é um sinal que nos diz o estado assumido pela pessoa que o traz — casado ou solteiro —  a missão que a pessoa desempenha — Bispo ou mesmo rei — e a família a que pertence — havia os anéis com brasão familiar —. Para nós, o anel recorda a Aliança feita com Deus no Baptismo. Quando o pai diz «Ponde-lhe um anel no dedo» quer dizer que o filho volta a ser integrado na família e que a aliança foi restaurada.

Sandálias nos pés. O calçado está unido á dignidade da pessoa. As pessoas que, por mortificação e penitência se descalçam, querem mostrar, por este sinal, a sua pequenez e insignificância diante de Deus. «Ponde-lhe [...] sandálias nos pés.»

Banquete festivo. O banquete esteve sempre inseparavelmente unido aos grandes momentos de festa: aniversários natalícios, baptizados, casamentos, ordenações sacerdotais e missas novas, etc.

Exprime a alegria e a comunhão de sentimentos de todos os que nele tomam parte.

Jesus quis que ficasse mais este sinal da alegria que se vive na Igreja por cada pessoa que se volta para Deus. Por isso, o pai ordenou: «Trazei o vitelo gordo e matai-o.»

Somos a causa da alegria no Céu, porque, quando nos reconciliamos, nos deixamos reencontrar.

Sentimos também esta mesma alegria quando uma pessoa da nossa comunidade deixou o seu descaminho e se volta para Deus?

 

Fala o Santo Padre

 

«A figura do pai da parábola revela o coração de Deus.

Ele é o Pai misericordioso que em Jesus nos ama além de qualquer medida,

espera sempre a nossa conversão todas as vezes que erramos.»

 

No capítulo 15 do Evangelho de Lucas encontramos três parábolas da misericórdia: a da ovelha reencontrada (vv. 4-7), a da moeda reencontrada (vv. 8-10), e a grande parábola do filho pródigo, ou melhor, do pai misericordioso (vv. 11-32). Hoje, seria bom que cada um de nós pegasse no Evangelho, este capítulo 15 do Evangelho segundo Lucas, e lesse as três parábolas. Dentro do percurso quaresmal, o Evangelho apresenta-nos precisamente esta última parábola do pai misericordioso, que tem por protagonista um pai com os seus dois filhos. A narração faz-nos compreender algumas caraterísticas deste pai: é um homem sempre disposto a perdoar e que espera contra qualquer esperança. Antes de tudo faz admirar a sua tolerância face à decisão do filho mais jovem de ir embora de casa: teria podido opor-se, sabendo que era muito imaturo, um jovem, ou procurar algum advogado para não lhe dar a herança, estando ainda vivo. Ao contrário, permite que ele parta, mesmo prevendo os riscos possíveis. Assim age Deus connosco: deixa-nos livres, até de errar, porque ao criar-nos concedeu-nos o grande dom da liberdade. Compete a nós fazer dela um bom uso. Este dom da liberdade que Deus nos concede surpreende-me sempre.

Mas o afastamento daquele filho é só físico; o pai leva-o sempre no coração; espera confiante o seu regresso; perscruta a estrada na esperança de o ver. E um dia o vê comparecer ao longe (cf. v. 20). Mas isto significa que este pai, todos os dias, subia ao terraço para ver se o filho voltava! Então comove-se ao vê-lo, corre ao seu encontro, abraça-o e beija-o. Quanta ternura! E este filho tinha-se comportado muito mal. Mas o pai recebe-o assim.

O pai tem para com o filho maior, que ficou sempre em casa, a mesma atitude, o qual agora está indignado e contesta porque não compreende e não partilha toda aquela bondade em relação ao irmão que tinha errado. O pai vai ao encontro também deste filho e recorda-lhe que eles estiveram sempre juntos, têm tudo em comum (v. 31), mas é preciso receber com alegria o irmão que finalmente voltou para casa. E isto faz-me pensar numa coisa: quando alguém se sente pecador, se sente deveras insignificante, ou como ouvi alguém dizer — tantos: «Padre, eu sou uma imundície!», então chegou o momento de ir ter com o Pai. Ao contrário, quando alguém se sente justo — «Eu fiz sempre tudo bem...» —, o Pai vem de igual modo procurar-nos, porque aquela atitude de se sentir justo não é boa: é a soberba! Vem do diabo. O Pai espera aqueles que se reconhecem pecadores e vai procurar os que se sentem justos. É assim o nosso Pai!

Pode-se divisar nesta parábola também um terceiro filho. Um terceiro filho? E onde? Está escondido! É aquele que «não considera privilégio ser igual a Deus... aniquilou-se a si mesmo, tomando a condição de servo» (Fl 2, 6-7). Este Filho-Servo é Jesus! É a extensão dos braços e do coração do Pai: Ele acolheu o pródigo e lavou os seus pés sujos; Ele preparou o banquete para a festa do perdão. Ele, Jesus, ensina-nos a ser «misericordiosos como o Pai».

A figura do pai da parábola revela o coração de Deus. Ele é o Pai misericordioso que em Jesus nos ama além de qualquer medida, espera sempre a nossa conversão todas as vezes que erramos; aguarda a nossa volta quando nos afastamos d’Ele pensando que O podemos dispensar; está sempre pronto a abrir-nos os seus braços independentemente do que tiver acontecido. Como o pai do Evangelho, também Deus continua a considerar-nos seus filhos quando nos perdemos, e vem ao nosso encontro com ternura quando voltamos para Ele. E fala-nos com tanta bondade quando nós pensamos que somos justos. Os erros que cometemos, mesmo se forem grandes, não afetam a fidelidade do seu amor. Que no sacramento da Reconciliação possamos voltar a partir sempre de novo: Ele acolhe-nos, restitui-nos a dignidade de seus filhos e diz-nos: «Vai em frente! Fica em paz! Levanta-te, vai em frente!».

Neste espaço de Quaresma que ainda nos separa da Páscoa, somos chamados a intensificar o caminho interior de conversão. Deixemo-nos alcançar pelo olhar cheio de amor do nosso Pai, e voltemos para Ele com todo o coração, rejeitando qualquer compromisso com o pecado. A Virgem Maria nos acompanhe até ao abraço regenerador com a Misericórdia Divina.

   Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, 6 de Março de 2016

 

Oração Universal

 

Oremos, irmãos e irmãs, ao Pai celeste,

que espera e perdoa sempre aos filhos

que regressam dos caminhos do pecado,

E invoquemos para eles a Sua misericórdia.

Oremos (cantando) com filial confiança:

 

    Renovai-nos, Senhor, no vosso Espírito.

 

1. Pelo Papa, pelos Bispos e Presbíteros, ministros do perdão,

    para que acolham os pecadores que se desejam converter,

    oremos, irmãos.

 

    Renovai-nos, Senhor, no vosso Espírito.

 

2. Pelos fiéis que se afastaram de Deus, nos caminhos do pecado,

    para que, caindo em si, sintam o desejo de voltar à Casa do Pai,

    oremos, irmãos.

 

    Renovai-nos, Senhor, no vosso Espírito.

 

3. Pelas pessoas que não querem perdoar as ofensas recebidas,

    para que aprendam a alegrar-se, pelos pecadores que voltam,

    oremos, irmãos.

 

    Renovai-nos, Senhor, no vosso Espírito.

 

4. Pelas famílias que sofrem por causa dos seus, filhos pródigos,

    para que recebam do Cristo a paz e alegria da conversão deles,

    oremos, irmãos.

 

    Renovai-nos, Senhor, no vosso Espírito.

 

5. Por todos nós aqui reunidos nesta Celebração da Santa Missa,

    para que, pela celebração da Penitência, preparemos a Páscoa,

    oremos, irmãos.

 

    Renovai-nos, Senhor, no vosso Espírito.

 

6. Por todos os irmãos defuntos desta nossa comunidade eclesial,

    para que o Senhor os faça participar na Páscoa sem fim do Céu,

    oremos, irmãos.

 

    Renovai-nos, Senhor, no vosso Espírito.

 

Senhor, nosso Deus, rico em misericórdia,

que abraçais todos os filhos que regressam

e para eles preparais uma grande festa,

fazei que todos os fiéis que Vos suplicam

experimentem o vosso perdão libertador.

Por Cristo, Nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Nos primeiros séculos da história da Igreja, os que não estavam baptizados não tomavam parte na Mesa da Eucaristia. Eram despedidos depois da Liturgia da Palavra, para evitar o risco de interpretarem mal o mistério eucarístico.

Nós somos imensamente mais felizes, porque o Senhor, depois de nos ter iluminado com a Sua Palavra, nos convida para que nos sentemos à Sua Mesa.

 

Saudação da Paz

 

O Sacramento da Reconciliação e Penitência restitui-nos a verdadeira paz, quando o recebemos com as disposições que o Senhor estabeleceu.

Procuremos melhorar cada vez mais as nossas confissões e ajudemos as outras pessoas a fazer isto mesmo.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Cântico do ofertório: Corri, Senhor, M. Carneiro, NRMS 13

 

Oração sobre as oblatas: Ao apresentarmos com alegria estes dons de vida eterna, humildemente Vos pedimos, Senhor, a graça de os celebrar com verdadeira fé e de os oferecer dignamente pela salvação do mundo. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: «Da Missa de festa», Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Se alguém tiver consciência de haver cometido um pecado mortal, não se pode aproximar da Sagrada Mesa, para receber o Corpo e Sangue do Senhor. Poderá fazer, nesta situação, uma comunhão espiritual.

Além disso, a confissão frequente, mesmo só de faltas veniais, dá-nos como fruto uma grande delicadeza de consciência, para podermos comungar cada vez melhor.

Esforcemo-nos para que as nossas comunhões sejam feitas cada vez com mais fé, amor e devoção.

 

Cântico da Comunhão: Bendiz, minha alma, M. Carneiro, NRMS 105

Lc 15, 32

Antífona da comunhão: Alegra-te, meu filho, porque o teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado.

 

Cântico de acção de graças: Proclamai em toda a terra, M. Faria, NRMS 27-28

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, luz de todo o homem que vem a este mundo, iluminai os nossos corações com o esplendor da vossa graça, para que pensemos sempre no que Vos é agradável e Vos amemos de todo o coração. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Recordemos com frequência a Parábola do filho pródigo e procuremos percorrer com frequência o seu caminho de regresso, fazendo muitos actos de contrição.

 

Cântico final: O Senhor me apontará o caminho, F. da Silva, NRMS 69

 

 

Homilias Feriais

 

4ª SEMANA

 

2ª Feira, 1-IV: A renovação da face da terra.

Is 65, 17-21 / Jo 4, 43-54

Olhai que vou criar novos céus e nova terra. Vai haver alegria e júbilo sem fim.

A renovação da face da terra é uma grande promessa (LT), na qual também somos chamados a colaborar. No seu tempo, Jesus ia passando por várias regiões e cidades: Samaria, Jerusalém, Galileia (EV), realizando muitos milagres do corpo e da alma.

Esta renovação consiste em sair do pecado e das suas consequências, em que se encontra a humanidade: tiraste a minha alma da mansão dos mortos, vivificaste-me (SR); em abandonar as coisas, feitas de lágrimas, etc (LT). Pediremos ao Espírito Santo que venha e renove a face da terra. Cada um de nós contribuirá com a sua renovação pessoal.

 

3ª Feira. 2-IV: A água e o rio da vida.

Ez 47, 1-9. 12 / Jo 5, 1-3. 5-16

É que, aonde chegar, a água tornará tudo são, e haverá vida em todo o lugar que o rio atingir.

A água que sai do santuário (LT), do trono de Deus e do Cordeiro, dá origem ao rio da vida, que cura as nossas enfermidades espirituais. Com a vinda de Jesus, a água adquire um poder medicinal, como aconteceu na piscina de Betsatá (EV).

A água passa a ser uma nova criatura no Baptismo de Jesus: o Espírito desce então sobre Cristo, como prelúdio de uma nova criação. E passa a ser água viva, com a paixão e morte de Jesus: o sangue e a água, que brotaram do lado aberto de Jesus. São os tipos do Baptismo e da Eucaristia, sacramentos da vida nova.

 

4ª Feira, 3-IV: Meios para receber a vida sobrenatural.

Is 49, 8-15 / Jo 5, 17-30

Tal como o Pai ressuscita os mortos e os faz viver, assim o Filho faz viver aqueles que entende.

Deus está sempre disposto a ajudar-nos: No dia da salvação vou ajudar-te (LT). E diz que nunca nos abandonará, nem esquecerá, porque o seu amor é mais forte do que uma mãe para com os seus filhos (LT).

Para conceder esta vida sobrenatural dá-nos os alimentos adequados (LT), como por exemplo, a Palavra de Deus, pois quem ouve a sua Palavra tem a vida eterna e não será condenado (EV). E através dos Sacramentos, obras primas de Deus, que são alimentos para todos os caminhos, encontrados em todas as encostas (LT).

 

5ª Feira, 4-IV: Moisés e Cristo, poderosos intercessores.

Ex 32, 7-14 / Jo 6, 31-47

Moisés: Deixai cair a vossa ardente indignação, renunciai ao castigo que quereis dar ao vosso povo.

Depois do terrível acto de adoração do bezerro de ouro (LT), Moisés tornou-se um poderoso intercessor diante de Deus, para salvar o povo que O Senhor lhe confiara. Deus pensava já em exterminá-los, se Moisés não intercedesse junto dEle (SR).

Agora o intercessor é Jesus, enviado pelo Pai: Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito (AE), Na santa Missa, temos um sacrifício visível que, nos traz à memória, até ao fim dos tempos, a sua entrega redentora. Jesus queixa-se que nos falta o amor de Deus, mas tranquiliza-nos dizendo que não pensemos que Ele nos acusará ao Pai (EV).

 

6ª Feira, 5-IV: Associados à paixão de Cristo.

Sab 2, 1. 12-22 / Jo 7, 1-2. 10. 25-30

Se esse justo é filho de Deus, condenemo-lo a morte infamante, pois Ele diz que será socorrido.

Este pensamento dos ímpios: as ciladas ao justo (LT), repete-se no tempo de Cristo, quando os judeus procuravam dar-lhe a morte (EV). Também nós podemos passar por momentos difíceis, mas não podemos esquecer que o Senhor está perto dos corações atribulados, e que nos livrará das tribulações (SR).

Jesus aceitou livremente a sua paixão e morte, para cumprir a vontade do Pai (EV) e por nosso amor. A nossa vida sobrenatural ajudar-nos-á a combater os momentos de desânimo, confiando no Senhor, especialmente de toda a palavra que sai da boca de Deus (AE).

 

Sábado, 6-IV: O Cordeiro Pascal,

Jer 11, 18- 20 / Jo 7, 40-53

Eu era como dócil Cordeiro levado ao matadouro, sem saber de conjura contra mim.

Esta profecia do Cordeiro (LT) veio a ser retomada por João Baptista, quando indicou aos primeiros discípulos a passagem de Jesus. Deste modo, Jesus é ao mesmo tempo o servo sofredor, que se deixa levar ao matadouro, carregando os nossos pecados, e o Cordeiro pascal que, era o símbolo da redenção de Israel. E também para nós é o refugio e a salvação (SR).

A morte de Cristo é, ao mesmo tempo, o sacrifício pascal, por meio do Cordeiro que tira o pecado do mundo (Oração da missa antes da Comunhão), e o sacrifício da nova Aliança, que restabelece a comunhão entre Deus e o homem.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:        Fernando Silva

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:               Duarte Nuno Rocha

 


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