3º Domingo da Quaresma

24 de Março de 2019

 

Onde se fizerem os escrutínios preparatórios para o Baptismo dos adultos, neste domingo, podem utilizar-se as orações rituais e as intercessões próprias: p. 1063 do Missal Romano.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Ao nosso Deus bondade infinita, M. Faria, NRMS 1 (I)

Salmo 24, 15-16

Antífona de entrada: Os meus olhos estão voltados para o Senhor, porque Ele livra os meus pés da armadilha. Olhai para mim, Senhor, e tende compaixão porque estou só e desamparado.

 

ou

Ez 36, 23-26

Quando Eu manifestar em vós a minha santidade, hei-de reunir-vos de todos os povos, derramarei sobre vós água pura e ficareis limpos de toda a iniquidade. Eu vos darei um espírito novo, diz o Senhor.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Estamos a meio do tempo da Quaresma e a liturgia deste domingo recorda-nos a necessidade da conversão. Jesus chama-nos a mudar o coração, a fazer uma inversão radical no caminho da nossa vida, abandonando o conformismo com o mal e as hipocrisias.

É um longo processo de renovação, em que devemos desfazer-nos de uma porção de coisas, para tornar possível em nós a "libertação". Devemos tirar as cómodas sandálias que calçamos, para pisar com mais segurança os caminhos sagrados do Senhor, como condição para a abertura a Jesus Cristo.

Conscientes de que somos pecadores necessitados de uma constante conversão das nossas atitudes e da nossa mentalidade, peçamos perdão a Deus clemente e compassivo.

 

Oração colecta: Deus, Pai de misericórdia e fonte de toda a bondade, que nos fizestes encontrar no jejum, na oração e no amor fraterno os remédios do pecado, olhai benigno para a confissão da nossa humildade, de modo que, abatidos pela consciência da culpa, sejamos confortados pela vossa misericórdia. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O texto desta primeira leitura apresenta-nos o exemplo de Moisés que, perante o chamamento do Senhor, consegue operar uma mudança radical na sua vida e aceita voltar ao Egipto, de onde havia fugido, a fim de libertar o seu povo.

 

Êxodo 3, 1-8a.13-15

Naqueles dias, 1Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Ao levar o rebanho para além do deserto, chegou ao monte de Deus, o Horeb. 2Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor numa chama ardente, do meio de uma sarça. Moisés olhou para a sarça, que estava a arder, e viu que a sarça não se consumia. 3Então disse Moisés: «Vou aproximar-me, para ver tão assombroso espectáculo: por que motivo não se consome a sarça?» 4O Senhor viu que ele se aproximava para ver. Então Deus chamou-o do meio da sarça: «Moisés, Moisés!» Ele respondeu: «Aqui estou!» 5Continuou o Senhor: «Não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é terra sagrada». 6E acrescentou: «Eu sou o Deus de teu pai, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob». Então Moisés cobriu o rosto, com receio de olhar para Deus. 7Disse-lhe o Senhor: «Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor provocado pelos opressores. Conheço, pois, as suas angústias. 8Desci para o libertar das mãos dos egípcios e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel». Moisés disse a Deus: 13«Vou procurar os filhos de Israel e dizer-lhes: ‘O Deus de vossos pais enviou-me a vós’. Mas se me perguntarem qual é o seu nome, que hei-de responder-lhes?» 14Disse Deus a Moisés: «Eu sou ‘Aquele que sou’». E prosseguiu: «Assim falarás aos filhos de Israel: O que Se chama ‘Eu sou’ enviou-me a vós». 15Deus disse ainda a Moisés: «Assim falarás aos filhos de Israel: ‘O Senhor, Deus de vossos pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob, enviou-me a vós. Este é o meu nome para sempre, assim Me invocareis de geração em geração’».

 

Moisés encontrava-se numa situação de fugitivo do faraó e refugiado junto de Jetro, sacerdote de Madiã, tendo casado com umas das suas filhas, Séfora. «Madiã» era um reduto de tribos nómadas madianitas, situado a sudeste do golfo de Akabá (Eilat), mas parece mais lógico que Jetro vivesse nalgum oásis da península do Sinai.» O Monte de Deus, o Horeb», na tradição javista habitualmente chamado Sinai, é a montanha de Deus, porque Deus aqui se revela (cf. Ex 19). A sua localização é muito discutida, mas a antiga tradição identificou-o com o djebel Musa (montanha de Moisés: 2.224 metros).

2 «O Anjo do Senhor numa chama ardente». É por vezes esta uma forma de designar o próprio Deus, enquanto se manifesta ao homem (cf. Gn 16, 7.13). Estamos perante uma forma de expressão deveras estranha para a nossa mentalidade: designar a Deus com o nome do seu mensageiro! No fundo parece haver uma concepção exacta de que nesta vida a criatura não pode ver a Deus, sendo frequente na Sagrada Escritura anotar que não se pode ver a Deus sem morrer (Gn 16, 13; 32, 31; Ex 33, 20; Jz 6, 22.23; 13, 21-22). Por isso se diz que Moisés cobriu o rosto (v. 6). No entanto, a existência dos anjos consta claramen­te de outras passagens da S. E.. Notar que o fogo, chama ardente, como elemento menos material, tornou-se um símbolo da santidade divina, da sua transcendência.

5 «Tira as sandálias». Atitude de respeito prescrita para os sacerdotes judeus poderem entrar no santuário e que ainda hoje adoptam os árabes para entrar num lugar sagrado.

14 «Eu sou ‘Aquele que sou’... O que se chama ‘Eu sou’ enviou-me». Em hebraico «Eu sou» diz-se’ehyéh. Uma forma muito discutida do verbo, mista e arcaica, na terceira pessoa, dá yahwéh, que é a forma que aparece no v. 15, traduzida habitualmente por «Senhor», segundo a tradução grega (Kyrios) adoptada pelos LXX e também preferida pelas traduções modernas que assim evitam ferir a sensibilidade judaica; de facto, os judeus, por respeito, nunca pronunciam o nome de Yahwéh, mas dizem Adonai (Senhor).

Também se discute qual o sentido do nome com que Deus se auto-designa: 1) Uns entendem: Eu sou Aquele que faz existir (dá o ser), isto é, Eu sou o Criador, uma interpretação pouco provável, pois o verbo hebraico correspondente (hayáh) não se usa na conjugação chamada hifil (a forma causativa). 2) Outros traduzem: «Eu serei o que sou», significando assim a imutabilidade e eternidade divina, mas, ainda que o imperfeito hebraico se possa traduzir tanto pelo presente como pelo futuro, não parece legítimo que na mesma frase se use diversa tradução para a mesma forma verbal. 3) Outros preferem uma tradução: «Eu sou porque sou», isto é, em Mim está toda a razão da minha existência, traduzindo o pronome relativo «que» (’axer) não como pronome, mas como conjunção causal, uma coisa pouco frequente. 4) Finalmente, temos aqueles que traduzem: «Eu sou Aquele que sou» (tradução mais habitual), ainda que haja divergências na interpretação; assim: a) uns entendem: Eu sou um ser inefável, indefinível através de qualquer nome, tendo em conta a mentalidade segundo a qual conhecer o nome duma divindade implicava um domínio mágico sobre ela: Deus, com esta maneira de falar, subtraía-se a dar o seu nome, revelando assim a sua transcendência (esta opinião não se coaduna bem com o contexto: v. 15); b) outros entendem: Eu sou Aquele que sou, em contraste com os deuses pagãos que não são, não têm existência real, pois «Eu sou, e serei contigo» (v. 12) para defender, guiar, proteger e salvar o meu povo. c) e também há quem entenda Eu sou Aquele que sou significando Aquele a quem compete a existência sem quaisquer restrições, realidade que a filosofia e a teologia vêm a explicitar dizendo que Deus é o ser necessário e absoluto, o ser a cuja essência pertence a existência, interpretação esta que, embora se coadune com a tradução grega dos LXX, Eu sou Aquele que existe, corresponde mais à reflexão filosófico-teológica do que à mentalidade semítica.

A pronúncia do nome divino Jeová não é correcta e procede do século XVI, quando os estudiosos leram as consoantes do tetragrama divino, YHWH (4 consoantes) com as vogais do nome Adonai. Com efeito, quando, a partir do séc. VI p. C. os massoretas colocaram os sinais vocálicos no texto hebraico (que se escrevia só com consoantes), tiveram o cuidado de não colocar no nome de Yahwéh as suas vogais próprias, a fim de que um leitor distraído não pronunciasse o inefável nome divino, mas lesse Adonai. Note-se que o nome de Jesus (Yehoxúa) é teofórico, entrando na sua composição o nome Yahwéh: Yahwéh-salva. É por isso que, quando os cristãos invocam a Jesus, estão a utilizar e a santificar o nome de Yahwéh, e também é por isso que só no nome (na pessoa) de Jesus está a salvação (Act 4, 12). Por outro lado, Jesus nunca se dirige Deus com o nome de Yahwéh, ou o seu correspondente Senhor, mas com o nome que indica a distinção pessoal, Pai. Seria absurdo e ridículo pensar que, para alguém se salvar, tenha de usar o nome de Yahwéh no trato com Deus; Jesus, que veio para nos salvar, não impôs a obrigação de usarmos o nome de Yahwéh, como condição de salvação e a Igreja que continua a missão de Jesus nunca urgiu tal tratamento para Deus.

 

Salmo Responsorial    Sl 102 (103), 1-4.6-8.11(R. 8a)

 

Monição: No cântico de meditação que vamos recitar, celebramos a bondade e a misericórdia de Deus, clemente e compassivo, que tem compaixão de nós, nos perdoa, é justo e liberta os oprimidos.

 

Refrão:     O Senhor é clemente e cheio de compaixão.

 

Bendiz, ó minha alma, o Senhor

e todo o meu ser bendiga o seu nome santo.

Bendiz, ó minha alma, o Senhor

e não esqueças nenhum dos seus benefícios.

 

Ele perdoa todos os teus pecados

e cura as tuas enfermidades.

Salva da morte a tua vida

e coroa-te de graça e misericórdia.

 

O Senhor faz justiça

e defende o direito de todos os oprimidos.

Revelou a Moisés os seus caminhos

e aos filhos de Israel os seus prodígios.

 

O Senhor é clemente e compassivo,

paciente e cheio de bondade.

Como a distância da terra aos céus,

assim é grande a sua misericórdia para os que O temem.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Paulo, dirigindo-se à comunidade de Corinto, evoca a figura de Moisés. Recorda-lhes que Deus nunca abandonou o seu povo na travessia do deserto e que os factos ali ocorridos são exemplo para instrução e alimento da nossa fé.

 

1 Coríntios 10, 1-6.10-12

Irmãos: 1Não quero que ignoreis que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, passaram todos através do mar e na nuvem e no mar, 2receberam todos o baptismo de Moisés. 3Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual. 4Bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava: esse rochedo era Cristo. 5Mas a maioria deles não agradou a Deus, pois caíram mortos no deserto. 6Esses factos aconteceram para nos servir de exemplo, a fim de não cobiçarmos o mal, como eles cobiçaram. 10Não murmureis, como alguns deles murmuraram, tendo perecido às mãos do Anjo exterminador. 11Tudo isto lhes sucedia para servir de exemplo e foi escrito para nos advertir, a nós que chegámos ao fim dos tempos. 12Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair.

 

A leitura é tirada daquela parte da carta onde Paulo procura dar resposta a um problema prático que então ali se punha: se era lícito ou não comer as carnes que, depois de terem sido oferecidas num templo pagão a um ídolo, eram vendidas na praça, os chamados idolótitos. O Apóstolo, depois de ter explicado os princípios gerais, a saber, que se podiam comer, pois os ídolos não são nada (8, 1-6), adverte que era preciso ter em conta aqueles irmãos, fracos e timoratos, que se pudessem vir a escandalizar com isso (8, 7-13), e passa a ilustrar a doutrina exposta, primeiro, com o seu exemplo de renunciar a direitos para bem dos fiéis (9, 1-27), depois, com as lições da história de Israel (10, 1-13): apesar de os israelitas na peregrinação do deserto terem sido favorecidos com tantos prodígios, «a maioria dele não agradou a Deus» e pereceu (v.5). E isto é uma lição para todos nós, para que não venhamos a arvorar-nos em fortes, pois também podemos vir a ser infiéis ao Senhor e a «cair» (v. 12). Os exegetas têm posto em relevo a actualidade dos escritos paulinos, pois S. Paulo, mesmo quando trata de assuntos ocasionais, que não nos dizem respeito, como neste caso, sempre apela para princípios válidos para todos os tempos e lugares.

2 «Na nuvem e no mar receberam todos o baptismo de Moisés», isto é, foram vinculados a Moisés aqueles antigos judeus pelo facto de, sob a sua chefia, se terem salvo com travessia das águas do «Mar» Vermelho e com a «nuvem» (sinal da presença protectora Deus). E isto a tal ponto que ficaram a constituir o que Actos 7, 38 chama a «igreja do deserto». Tudo isto era a figura, ou exemplo (vv. 6.11) dos cristãos, baptizados em Cristo e formando o novo e definitivo povo eleito, que é a Igreja.

3 «Alimento espiritual». O maná é chamado espiritual, pelo carácter sobrenatural de que se revestia a sua abundância e por ser também uma figura da SS. Eucaristia. A «bebida espiritual», a água do Êxodo, também é espiritual por milagrosa e pelo seu significado espiritual: uma figura do Espírito que Cristo dá aos crentes (cf. Jo 4, 10; 7, 37-39; 16, 7; 20, 22).

4 «O rochedo espiritual que os acompanhava». Parece que S. Paulo se soube aproveitar duma tradição rabínica que consta da Tosefta, segundo a qual a pedra da qual brotou água (Ex 17, 6) acompanhava os israelitas na sua peregrinação no deserto. Como os mestres rabinos costumavam identificar este rochedo com Yahwéh (cf. Êx 17, 6), a «Rocha de Israel» (Salm 18(17), 3), S. Paulo, para quem «esse rochedo era Cristo», insinua não só a preexistência de Cristo, mas também a sua divindade, a sua identificação com Yahwéh.

5 «Caíram mortos». Cf. Nm 14; 26, 65-65.

 

Aclamação ao Evangelho        Mt 4, 17

 

Monição: Todos nós somos pecadores. O Senhor chama-nos a uma mudança de vida, prevenindo-nos de que este tempo é breve e está próximo o reino dos Céus.

 

Cântico: J. Santos, NRMS 40

 

Arrependei-vos, diz o Senhor;

está próximo o reino dos Céus.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 13, 1-9

1Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. 2Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? 3Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. 4E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante». 6Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. 7Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’ 8Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. 9Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».

 

Jesus contraria a opinião corrente de então e de hoje, que atribui todas as desgraças a um castigo de Deus; Ele antes quer que se vejam como um aviso de Deus, por isso aproveita estes acontecimentos para fazer um forte apelo à conversão.

1 «Pilatos mandara derramar o sangue...» Facto apenas conhecido por S. Lucas, mas que estava de acordo com o carácter violento e repressivo do procurador romano. Um acto semelhante, o mandar matar uns samaritanos por ocasião duma peregrinação ao Monte Garizim, no ano 35, foi a ocasião para os judeus conseguirem do imperador destituição de Pilatos, segundo conta Flávio Josefo (cf. Antiquitates, XVIII).

4 «A torre de Siloé, ao cair...» Facto também só conhecido por este relato. Siloé é o nome duma piscina a Sueste de Jerusalém, na parte interior da muralha que naquele sítio teria provavelmente algum torreão que então caiu.

5 «Eu digo-vos que não». Deus nem sempre castiga nesta vida os mais culpados. As calamidades e os males que nos sobrevêm podem ser uma prova a que Deus nos sujeita, uma ocasião de expiarmos os nossos pecados e uma chamada à conversão: «se não vos converterdes…»

6-9 Com a parábola (exclusiva de S. Lucas) da figueira sem frutos, o Senhor pretende ensinar que é urgente que nos convertamos: Deus é paciente na sua misericórdia (cf. Pe 3, 9; Ez 33, 11; Jl 2, 13; Sab 11, 23), mas não podemos adiar o arrependimento para uma hora que pode já ser tardia. É urgente que dêmos frutos de santidade, pondo de lado a preguiça e o comodismo que tornam a vida inútil e estéril; Deus não deixa impune a falta de correspondência à cava e ao adubo da sua graça: «mandá-la-ás cortar».

 

Sugestões para a homilia

 

O apelo do Senhor à conversão

No seguimento do Seu chamamento 

Em todas as circunstâncias da nossa vida

 

O apelo do Senhor à conversão

 

No trecho evangélico de hoje, Jesus refere dois acontecimentos dignos de nota: uma repressão cruel feita pelos soldados romanos que dentro do Templo, e a mando de Pilatos, massacraram alguns galileus; e o desabamento da torre de Siloé, em Jerusalém, que tinha causado dezoito vítimas.

Vieram contar a Jesus o que acontecera. Jesus, que conhece os seus contemporâneos, sabe que eles interpretam aqueles acontecimentos de modo errado. Eles pensam que se aqueles homens morreram de maneira tão cruel, é sinal de que Deus os castigou por alguma culpa grave que tinham cometido.

Jesus exclui que haja qualquer relação entre a morte daquelas pessoas e as culpas que porventura tenham cometido, em seguida, convida os presentes a extrair uma lição destes acontecimentos. Devem ser antes ser interpretados – diz Ele – como um apelo à conversão, porque todos somos pecadores. Na realidade, dizia a quantos o tinham interpelado: «Se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo».

Também hoje, tomamos conhecimento de más notícias: homicídios, desastres, catástrofes...

Face a certas desgraças e a eventos de luto, podemos ter a tentação de «descarregar» a responsabilidade sobre as suas vítimas, sobre os dirigentes governativos, ou até sobre o próprio Deus.

O Evangelho convida-nos a reflectir: Jesus chama-nos a mudar o coração, a fazer uma inversão radical no caminho da nossa vida. Mas eis de novo a tentação de nos justificarmos: «Mas do que nos devemos converter? Afinal não somos todos boas pessoas?». «Não somos crentes, até bastante praticantes?». E pensamos que deste modo estamos justificados.

Infelizmente, cada um de nós parece-se muito com aquela figueira que, durante anos, deu numerosas provas da sua esterilidade. Mas, Jesus é semelhante àquele camponês que, com uma paciência infinita, obtém mais um prazo para a figueira infecunda: «Senhor, deixa-a ficar ainda este ano. Se não der frutos, no ano que vem mandá-la-ás cortar».

Um «tempo» de graça: o tempo do ministério de Cristo, o tempo da Igreja antes da sua vinda gloriosa, o tempo da nossa vida, ritmado por um certo número de Quaresmas, que nos são oferecidas como ocasiões de arrependimento e de salvação. Deixemo-nos interpelar pelas desgraças diárias a fim de fazermos um sério exame de consciência e nos corrigirmos. Nunca é demasiado tarde para nos convertermos! Mas é urgente, é agora! Comecemos hoje procurando seguir o Seu chamamento.

 

No seguimento do Seu chamamento 

 

Como escutamos na primeira leitura, Deus não se esquece dos Seus filhos e ao decidir libertá-los do Egipto, terra da sua escravidão, revela que no seu coração há um grande amor pelos oprimidos e um grande desejo de ajudar quem quer que seja objecto da injustiça. Escolhe Moisés, a quem se manifesta, revelando-lhe o seu projecto de libertar o povo israelita da sua escravidão. Pede-lhe que descalce as “sandálias”, isto é, que deixe a sua vida pacata e tome a chefia do povo oprimido a fim de o conduzir à terra prometida.

Moisés compreende que o Senhor precisa dele. Descobre que Ele o vai tirar da sua vida simples e calma que levava havia já alguns anos. Não rejeita o chamamento do Senhor, mas levanta, porém, uma objecção: «Se me perguntarem qual é o seu nome, que hei-de responder-lhes?». Deus responde a Moisés: «Dirás aos israelitas que “Eu sou Aquele que sou”. Quer dizer: haveis de descobrir quem Eu sou; e pelo que Eu fizer, vereis quem Eu sou.

Deus ainda não mudou de nome. Continua a ser sensível aos gritos de quem sofre. Também hoje há quem abuse da sua força e do seu poder para oprimir os mais fracos: pessoas que vivem escravas do medo, da miséria, da ignorância, da vergonha. Há mulheres oprimidas pelos usos e costumes perpetuados pelo domínio dos homens, por quem continuam a ser abusadas.

Se as lágrimas e as lamentações dos nossos irmãos e irmãs que sofrem nos deixam insensíveis e não nos levam a agir em favor dos oprimidos, poder-nos-emos chamar filhos de Deus, que se revelou como o «Libertador», e fugir ao Seu chamamento em todas as circunstâncias da nossa vida?

 

Em todas as circunstâncias da nossa vida

 

Não basta acreditar em Cristo, ser baptizado, receber o Espírito e alimentar-se da Eucaristia. É necessário levar uma vida coerente em todos os momentos da nossa vida, para que não nos aconteça «cobiçar o mal», como os israelitas no deserto, que cederam a muitas fraquezas. 

O caminho que leva à liberdade continua a ser difícil de percorrer. Hoje o Senhor convida-nos a mudar o rumo da nossa vida e a aproveitar todos os momentos para corrigir a nossa actuação. A mudarmos o nosso estilo de vida, a nos convertermos. E converter-se não é melhorar um pouco, rezar um pouco mais, mas sim mudar a nossa maneira de pensar e de agir, comprometendo-nos com Jesus e testemunhando com gestos libertadores de acolhimento, de serviço, de promoção das pessoas que nos cercam, na atenção, compreensão, paciência e esperança que fazem parte da missão evangelizadora a que o Senhor nos chama...

Que a Virgem Maria nos ampare, para que possamos abrir o coração à graça de Deus, à sua misericórdia e nos ajude a nunca julgar os outros, mas a deixarmo-nos interpelar pelas desgraças diárias, a fim de fazermos um sério exame de consciência e nos corrigirmos.

 

Fala o Santo Padre

 

«Jesus chama-nos a mudar o coração, a fazer uma inversão radical no caminho da nossa vida,

abandonando o conformismo com o mal.»

 

Infelizmente todos os dias, as crónicas relatam más notícias: homicídios, desastres, catástrofes... No trecho evangélico de hoje, Jesus menciona dois acontecimentos trágicos que naquela época tinham suscitado muito alvoroço: uma repressão cruel feita pelos soldados romanos dentro do templo; e o desabamento da torre de Siloé, em Jerusalém, que tinha causado dezoito vítimas (cf. Lc 13, 1-5).

Jesus conhece a mentalidade supersticiosa dos seus e sabe que eles interpretam aquele tipo de acontecimento de modo errado. Com efeito, pensam que se aqueles homens morreram de maneira tão cruel, é sinal de que Deus os castigou por alguma culpa grave que tinham cometido; seria como dizer: «mereciam-no». E ao contrário o facto de terem sido poupados à desgraça equivalia a sentir-se «justos». Eles «mereciam-no»; eu sou «justo».

Jesus rejeita decididamente esta visão, porque Deus não permite as tragédias para punir as culpas, e afirma que aquelas pobres vítimas não eram minimamente piores que os outros. Antes, Ele convida a ver nestes factos dolorosos uma admoestação que diz respeito a todos, porque todos somos pecadores; com efeito ele dizia a quantos o tinham interpelado: «Se não vos converterdes, morrereis todos do mesmo modo» (v. 3).

Também hoje, face a certas desgraças e a eventos de luto, podemos ter a tentação de «descarregar» a responsabilidade sobre as suas vítimas, ou até sobre o próprio Deus. Mas o Evangelho convida-nos a refletir: que ideia temos de Deus? Temos mesmo a certeza de que Deus é assim, ou não se trata antes de uma nossa projeção, um deus feito «à nossa imagem e semelhança»? Ao contrário, Jesus chama-nos a mudar o coração, a fazer uma inversão radical no caminho da nossa vida, abandonando o conformismo com o mal — e isto todos os fazemos, conformar-se com o mal — as hipocrisias — eu penso que todos temos pelo menos um pouquinho de hipocrisia — para seguir decididamente o caminho do Evangelho. Mas eis de novo a tentação de nos justificarmos: «Mas do que nos devemos converter? Afinal não somos todos boas pessoas?». Quantas vezes pensamos isto: «Mas, afinal não sou eu uma boa pessoa — não é assim? — não somos crentes, até bastante praticantes?». E pensamos que deste modo estamos justificados.

Infelizmente, cada um de nós se parece muito com uma árvore que, durante anos, deu numerosas provas da sua esterilidade. Mas, por sorte, Jesus é semelhante àquele camponês que, com uma paciência infinita, obtém mais um prazo para a figueira infecunda: «Patrão, deixe a figueira ficar mais este ano. Se não der frutos no ano que vem... (v. 9). Um «ano» de graça: o tempo do ministério de Cristo, o tempo da Igreja antes do sua vinda gloriosa, o tempo da nossa vida, ritmado por um certo número de Quaresmas, que nos são oferecidas como ocasiões de arrependimento e de salvação, o tempo de um Ano Jubilar da Misericórdia. A paciência insuperável de Jesus! Vós pensastes na paciência de Deus? Considerastes também a irredutível preocupação pelos pecadores, como nos deveriam provocar à impaciência em relação a nós mesmos! Nunca é demasiado tarde para nos convertermos, nunca! Até ao último momento: a paciência de Deus que nos espera. Recordai-vos desta pequena história de santa Teresa do Menino Jesus, quando rezava por aquele homem condenado à morte, um criminoso, que não queria receber o conforto da Igreja, rejeitava o sacerdote, não aceitava: queria morrer assim. E ela rezava, no convento. E quando aquele homem estava ali, precisamente no momento de ser executado, dirige-se ao sacerdote, pega no Crucifixo e beija-o. A paciência de Deus! E faz o mesmo também connosco, com todos nós! Quantas vezes — nós aqui não o sabemos, só no Céu — quantas vezes nós estamos ali... [a ponto de cair] e o Senhor nos salva: salva-nos porque tem grande paciência connosco. É esta a sua misericórdia. Nunca é tarde para nos convertermos, mas é urgente, é agora! Comecemos hoje.

A Virgem Maria nos ampare, para que possamos abrir o coração à graça de Deus, à sua misericórdia; e nos ajude a nunca julgar os outros, mas a deixar-nos interpelar pelas desgraças diárias a fim de fazermos um sério exame de consciência e nos corrigirmos.

  Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, 28 de Fevereiro de 2016

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Oremos a Deus Pai,

que revelou a Moisés o seu Nome Santo,

e moldemos o nosso coração ao amor para com os irmãos,

suplicando com confiança:

 

Senhor, renovai o nosso coração com a Vossa graça.

 

1.     Pela santa Igreja, presente em todos os continentes,

para que esteja atenta à voz do Senhor,

a fim de proclamar a todos os homens a Boa Nova,

oremos, irmãos.

 

2.     Pelos oprimidos, escravos do medo, da miséria,

da ignorância, da vergonha,

para que o Senhor faça justiça

às suas dificuldades,

oremos, irmãos.

 

3.     Pelos cristãos, para que neste tempo da Quaresma

reconheçam que a verdadeira vivência cristã não é apenas

a participação regular nos sacramentos,

mas uma vida de comunhão com Deus,

testemunhada em gestos de amor e partilha,

oremos, irmãos.

 

4.     Pelos governantes das nações,

para que promulguem leis e acções

que promovam a justiça e a paz entre todos,

oremos, irmãos.

 

5.     Por todos nós aqui reunidos em assembleia litúrgica,

para que amemos, abençoemos e oremos

por todos aqueles que cometem injustiças,

a fim de que nasça neles o amor de Deus,

oremos, irmãos.

 

Senhor,

nosso Deus e Pai de misericórdia,

ensinai-nos a entender e seguir o vosso chamamento,

a fim de cumprirmos a missão evangelizadora

a que nos destinastes.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo...

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Confesso o meu pecado, J. Santos, NRMS 61

 

Oração sobre as oblatas: Concedei, Senhor, por este sacrifício, que, ao pedirmos o perdão dos nossos pecados, perdoemos também aos nossos irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Que o encontro com Cristo Jesus sacramentado, através da recepção da sagrada comunhão, nos purifique e ajude a comprometer com a missão que o Senhor destinou a cada um de nós.

 

Cântico da Comunhão: Bem-aventurados os que têm fome, M. Luís, NRMS 53

Salmo 83, 4-5

Antífona da comunhão: As aves do céu encontram abrigo e as andorinhas um ninho para os seus filhos, junto dos vossos altares, Senhor dos Exércitos, meu Rei e meu Deus. Felizes os que moram em vossa casa e a toda a hora cantam os vossos louvores.

 

Cântico de acção de graças: Deixai-me saborear, F. da Silva, NRMS 17

 

Oração depois da comunhão: Recebemos o penhor da glória eterna e, vivendo ainda na terra, fomos saciados com o pão do Céu. Nós Vos pedimos, Senhor, a graça de manifestarmos na vida o que celebramos neste sacramento. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Depois desta celebração tenhamos a coragem de nos desfazermos de tudo aquilo que impede a nossa própria "libertação". Saibamos tirar as cómodas “sandálias” que calçamos e procuremos pisar com mais segurança os caminhos sagrados do Senhor.

 

Cântico final: Ó Cruz vitoriosa, F. da Silva, NRMS 29

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:        António Elísio Portela

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Sugestão Musical:               Duarte Nuno Rocha

 


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