S. José, Esp. da V. Santa Maria

19 de Março de 2019

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Eis o servo fiel e diligente, F da Silva, NRMS 89

Lc 12, 42

Antífona de entrada: Este é o servo fiel e prudente, que o Senhor pôs à frente da sua família.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Celebramos com alegria e gratidão o Nosso Deus que se doa inteiramente a nós na Eucaristia. Deus vivo está connosco. Ele nos interpela como interpelou São José.

Em São José contemplamos uma pessoa bela que soube traduzir como ninguém as maravilhas de Deus. Um discípulo jovem e bem maduro que no silêncio, na discrição, no dinamismo e no compromisso de toda a sua vida soube responder sábia e generosamente à proposta de Deus. Por isso interpela de forma intensa nossa vida e missão.

Percebemos porque é o protetor da Igreja, protetor da família, protetor do verdadeiro amor e modelo do discípulo. É que dele dimana um perfil de autenticidade bíblica, de humanidade integral, de místico do quotidiano, da urgência do amar e do servir. Dele percebemos que evangelização e missão não é algo diferente da vida concreta e quotidiana.

Nesta eucaristia saibamos acolher Deus que se faz presente, acolhamos profundamente a Palavra, sonhemos com Deus, levantemo-nos sempre e percorramos audazes os caminhos que Deus nos indica.

Como Ele percorramos tal caminho na companhia de Maria e de Jesus.

 

Oração colecta: Deus todo-poderoso, que na aurora dos novos tempos confiastes a São José a guarda dos mistérios da salvação dos homens, concedei à vossa Igreja, por sua intercessão, a graça de os conservar fielmente e de os realizar até à sua plenitude. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O coração dos Pobres torna-se o palácio onde Deus quer nascer e morar.

 

2 Samuel  7, 4-5a.12-14a.16

4Naqueles dias, o Senhor falou a Natã, dizendo: 5a«Vai dizer ao meu servo David: Assim fala o Senhor: 12Quando chegares ao termo dos teus dias e fores repousar com os teus pais, estabelecerei em teu lugar um descendente que nascerá de ti e consolidarei a tua realeza. 13Ele construirá um palácio ao meu nome e Eu consolidarei para sempre o seu trono real. 14aSerei para ele um pai e Ele será para Mim um filho. 16A tua casa e o teu reino permanecerão diante de Mim eternamente e o teu trono será firme para sempre».

 

Este texto, respigado da célebre profecia dinástica do profeta Natã, em que se garante a estabilidade da descendência de David à frente do povo de Israel – «o teu trono será firme para sempre» (v. 16) –, irá alimentar a esperança de restauração messiânica, após o desterro de Babilónia e justifica o título de «Filho de David» dado a Jesus ao longo do Novo Testamento (cf. Mt 1, 1; 9, 27; 12, 23; 15, 22; 20, 30-31; 21, 9; 22, 42; Act 2, 30; 13, 22-23; Rom 1, 3; 2 Tim 2, 8; Apoc 5, 5; 22, 16). O texto é escolhido para a solenidade de S. José, por ser ele quem garante a Jesus a sua descendência de David (Mt 1, 1; Lc 1, 31-33: «reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reino não terá fim»); com efeito, segundo a lei, José era pai de Jesus, um dado suficiente para Ele ser considerado descendente de David, embora também Maria devesse ser descendente de David, dado o costume de os casamentos se fazerem dentro da parentela.

4 Naqueles dias, isto é, na mesma noite em que o profeta Natã tinha apoiado a resolução do rei David de vir a construir uma casa digna para a arca da aliança que substituísse o modesto tabernáculo feito de cortinados. A mensagem divina para David é que não vai ser ele a conseguir uma casa (templo) para Deus, mas vai ser o próprio Deus a erguer-lhe uma casa (descendência) que permanecerá eternamente. O profeta joga com o duplo sentido da palavra hebraica «báyit», casa e dinastia (v. 11-12).

 

Salmo Responsorial    Sl 88 (89), 2-3.4-5.27 e 29 (R. 37)

 

Monição: Como São José cantemos as maravilhas da Aliança que Deus opera com todos.

 

Refrão:     A sua descendência permanecerá eternamente.

 

Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor

e para sempre proclamarei a sua fidelidade.

Vós dissestes: «A bondade está estabelecida para sempre»,

no céu permanece firme a vossa fidelidade.

 

Concluí uma aliança com o meu eleito,

fiz um juramento a David meu servo:

Conservarei a tua descendência para sempre,

estabelecerei o teu trono por todas as gerações.

 

Ele Me invocará: «Vós sois meu Pai,

meu Deus, meu Salvador».

Assegurar-lhe-ei para sempre o meu favor,

a minha aliança com ele será irrevogável.

 

Segunda Leitura

 

Monição: São José é o Patriarca da fidelidade a toda a prova, do abandono filial e confiante, do agir pronto e dócil.

 

Romanos 4, 13.16-18.22

Irmãos: 13Não foi por meio da Lei, mas pela justiça da fé, que se fez a Abraão ou à sua descendência a promessa de que receberia o mundo como herança. 16Portanto a herança vem pela fé, para que seja dom gratuito de Deus e a promessa seja válida para toda a descendência, não só para a descendência segundo a Lei, mas também para a descendência segundo a fé de Abraão. 17Ele é o pai de todos nós, como está escrito: «Fiz de ti o pai de muitos povos». Ele é o nosso pai diante d’Aquele em quem acreditou, o Deus que dá vida aos mortos e chama à existência o que não existe. 18Esperando contra toda a esperança, Abraão acreditou, tornando-se pai de muitos povos, como lhe tinha sido dito: 22«Assim será a tua descendência». Por este motivo é que isto «lhe foi atribuído como justiça».

 

A leitura é um extracto do capítulo 4 de Romanos, onde S. Paulo, depois de ter explicado que a obra salvadora de Jesus (a justificação) não procedia das práticas da Lei do A. T., procura mostrar como a nova economia divina não contradiz a antiga; pelo contrário, já Abraão, o pai do antigo povo de Deus se tornou justo, não por ter cumprido a lei da circuncisão (que ainda não lhe tinha sido imposta), mas por ter acreditado nas promessas de Deus.

A atitude de fé de Abraão foi-lhe creditada na conta de justiça: «foi-lhe atribuída como justiça» (v. 22). «E isto foi escrito… também por nossa causa» (v. 24): é que nós não somos justificados por observâncias legais (da Lei de Moisés), mas sim pela fé em Deus, a qual é idêntica à de Abraão, não só pela atitude interior que pressupõe, como também se assemelha à dele quanto ao seu objecto; com efeito, ele acreditou que Deus lhe faria suscitar um filho, a ele já morto para a geração; e nós cremos que Deus fez ressuscitar a Jesus, morto pelos nossos pecados.

O texto presta-se a ser aplicado a S. José. Se na 1.ª leitura se falava de David, ascendente de S. José, nesta fala-se de outro ascendente mais longínquo, Abraão, o primeiro Patriarca do antigo povo de Deus. S. José é o Santo Patriarca do novo Povo de Deus, pois tem sobre Jesus os direitos legais de pai. Assim como Abraão foi pai de muitas nações (v. 17) também o Patriarca S. José é Pai e Patrono da Igreja de Cristo. Por outro lado, ele tornou-se como Abraão um modelo de vida de fé para todos os crentes, com uma fé bem provada em tantas e tão duras circunstâncias.

 

Aclamação ao Evangelho        Sl 83 (84), 5

 

Monição: São José é um verdadeiro discípulo de Cristo. Na comunhão e unidade com Maria: acolheu-O, amou-O e deu a vida por Ele.

 

 

Cântico: F. da Silva, NRMS 1 (I)

 

Felizes os que habitam na vossa casa, Senhor:

eles Vos louvarão pelos tempos sem fim.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 1, 16.18-21.24a

16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. 18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». 24aQuando despertou do sono, José fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor.

 

S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: «Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David» (v. 1). Como a linha genealógica passava pela linha do esposo, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes. Pensa-se que isto obedece a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim, o número 14, ao ser reforçado pela sua tripla repetição – «catorze gerações» – (no v. 17), sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais) que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+[D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é já aludida na genealogia, apresentada na 1ª parte (facultativa) da leitura de hoje, pois para todos os seus elos se diz «gerou», quando para o último elo não se diz que José gerou, mas, pelo contrário: «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus» (v. 16, à letra «da qual Jesus foi gerado» – entenda-se – por Deus).

18 «Antes de terem vivido em comum»: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

«Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo»: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se «por virtude do Espírito Santo», não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra «espírito» (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera criaturas, Deus cria-as. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos.

19 «Mas José, seu esposo…». Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. A verdade é que não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois em face dos dados das suas fontes nem sequer disso precisava. Do texto parece depreender-se que Maria nada tinha revelado a José do mistério que nela se passava. José vem a saber da gravidez de Maria por si mesmo ou pelas felicitações do paraninfo (o «amigo do esposo»), e aquilo que deveria ser para José uma grande alegria tornou-se o mais cruel tormento. Em circunstâncias idênticas, qualquer outro homem teria actuado drasticamente, denunciando a noiva ao tribunal como adúltera. Mas José era um santo, «justo», por isso, não condenava ninguém sem ter as provas evidentes da culpa. E aqui não as tinha e, conhecendo a santidade singular de Maria, não admite a mais leve suspeita, mas pressente que está perante o sobrenatural, já sentido por Isabel… Então só lhe restava deixar Maria, para não se intrometer num mistério em que julga não lhe competir ter parte alguma. É assim que «resolveu repudiá-la em segredo», evitando, assim, «difamá-la» (colocá-la numa situação infamante), ou simplesmente «tornar público» o mistério da sua maternidade. Mas podemos perguntar: porque não interrogava antes Maria para ser ela a esclarecer o assunto? Mas pedir uma explicação já seria mostrar dúvida, ofendendo Maria; a sua delicadeza extrema levá-lo-ia a não a humilhar ou deixar embaraçada. E porque razão é que Maria não falou, se José tinha direito de saber do sucedido? Mas como é que Maria podia falar de coisas tão colossalmente extraordinárias e inauditas?! Como podia provar a José a Anunciação do Anjo? Maria calava, sofria e punha nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; e Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da concepção de Jesus, poderia igualmente vir a revelá-lo a José. De tudo isto fica para nós o exemplo de Maria e de José: não admitir suspeitas temerárias e confiar sempre em Deus.

20 «Não temas receber Maria, tua esposa». O Anjo não diz: «não desconfies», mas: «não temas». Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julga-se indigno de Maria e decide não se imiscuir num mistério que o transcende. Na mesma linha de S- Jerónimo, S. Bernardo diz que S. José «foi tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, que a quis deixar ocultamente... José tinha-se, por indigno...». O texto sagrado poderia mesmo traduzir-se assim, com X. Léon-Dufour e outros: «porque sem dúvida (gar) o que foi gerado nela é obra do Espírito Santo, mas (dè) Ela dará à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus» (exercendo assim para Ele a missão de pai). Assim, o Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: «A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade... O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus».

23 «Será chamado Emanuel». No original hebraico de Isaías 7, 14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqara’t referido a virgem, que é a que põe o nome = «e ela chamará»). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: «e chamarão»), um plural de generalização, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai «legal» de Jesus. Mateus, em face do papel providencial desempenhado por S. José, não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Contudo, esta técnica do Evangelista para «actualizar» um texto antigo (chamada deraxe) não é arbitrária, pois baseia-se na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey («não leias»), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de «não ler» as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular na forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX: weqara’t «e tu chamarás»), mas de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqara’ta «e tu chamarás» – em hebraico há diferentes formas masculina e feminina para as 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, «com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: «e (tu, José) o chamarás».

Eis, a propósito, o maravilhoso comentário de S. João Crisóstomo, apresentando Deus a falar a José: «Não penses que, por ser a concepção de Cristo obra do Espírito Santo, tu és alheio ao serviço desta divina economia; porque, se é certo que não tens nenhuma parte na geração e a Virgem permanece intacta, não obstante, tudo o que pertence ao ofício de pai, sem atentar contra a dignidade da virgindade, tudo to entrego a ti, o pôr o nome ao filho. (...) Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer» (Homil. in Mt, 4).

25 «E não a tinha conhecido...». S. Mateus pretende realçar que Jesus nasceu sem prévias relações conjugais, mas por um milagre de Deus. Quanto à posterior virgindade, o Evangelista não só não a nega, como até a parece insinuar no original grego, ao usar o imperfeito de duração («não a conhecia») em vez do chamado aoristo complexivo como seria de esperar, caso quisesse abranger apenas o tempo até ao parto (Zerwick). De qualquer modo, esta afirmação não significa que depois já não se verificasse o que até este momento acontecera, como é o caso de Jo 9, 18.

 

 

Em vez do Evangelho precedente, pode ler-se o seguinte:

 

São Lucas 2, 41-51a

41Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. 42Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. 43Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. 44Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos. 45Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. 46Passados três dias, encontraram-n’O no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. 47Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. 48Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados e sua Mãe disse-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». 49Jesus respondeu-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?». 50Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso.

 

No nosso comentário julgamos que não há razões suficientes para prescindir da realidade do facto narrado, mas pretendemos valorizar a teologia de Lucas no seu maravilhoso trabalho redaccional. É certo que Lucas não pretende, sem mais, relatar um episódio – curiosamente o único em cerca de três dezenas de anos passados em Nazaré. Ele visa, antes de mais e acima de tudo, por um lado, pôr em foco como toda a vida de Jesus estava radicalmente marcada pelo cumprimento da vontade do Pai, ao sublinhar o contraste – «teu pai e eu» (v. 48) e «meu Pai» –, deixando (como diz o Catecismo da Igreja Católica, nº 534) «entrever o mistério da sua consagração total à missão decorrente da sua filiação divina» (v. 49); por outro lado, deixa ver como o conhecimento do mistério de Jesus nunca é pleno para ninguém, nem sequer para Maria e José: «eles não entenderam…» (v. 50).

Segundo a Mixnáh, (Niddáh, V, 6) depois dos 13 anos, o rapaz israelita começava a ser «bar-hamitswáh», «filho-da-lei», isto é, passava ter os deveres e direitos da Lei mosaica, incluindo o dever de peregrinar a Jerusalém, mas os pais piedosos costumavam antecipar um ano ou dois o cumprimento deste dever. Os judeus costumavam deslocar-se em caravanas e em grupos separados de homens e de mulheres, as crianças podiam fazer viagem em qualquer dos grupos; nas paragens do caminho, as famílias reuniam-se. É neste contexto que se desenrola o relato. A atitude de Jesus de ficar em Jerusalém é deveras surpreendente. Não deveria ter avisado os pais ou outros familiares? O que não faz sentido é buscar a explicação do sucedido numa rebeldia ou na irresponsabilidade dum adolescente – este rapaz é o Filho de Deus –, embora o relato evangélico possa fornecer luzes aos pais que se deparam com situações similares de filhos perdidos.

A teologia de Lucas talvez nos possa dar alguma pista para a compreensão do episódio narrado. «Jerusalém» não é simplesmente o centro da vida religiosa de Israel. Para os evangelistas, e de modo singular para Lucas, Jerusalém representa o culminar de toda a obra salvadora de Jesus, por ocasião da Páscoa da Paixão, Morte e Ressurreição; é por isso que Lucas, ao pôr em evidência a tensão de Jesus para a sua Paixão, apresenta grande parte do seu ensino «a caminho de Jerusalém», onde Jesus tem de padecer para ir para o Pai e entrar na sua glória (cf. Lc 24, 26). A teologia de Lucas não é abstracta e desligada da realidade. Ora a realidade é que Jesus não é apenas «o Mestre», Ele é «o Profeta» – especialmente Lucas gosta de apresentar Jesus como Profeta (cf. 7, 16; 9, 19; 13, 33; 24, 19) –, e, por isso mesmo, Jesus não ensina apenas quando exerce a função de rabi, mas em todos os passos da sua vida actua como Profeta, ensinando através do seu agir, mormente através de acções simbólicas de profundo alcance, por vezes bem chocantes. O «Menino perdido» não aparece como um simples menino, é um Profeta que realiza uma acção simbólica para proclamar quem é e qual é a sua missão: «Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?» (v. 49). Ele é o Filho de Deus, e tem de cumprir a missão que o Pai lhe confiou, em Jerusalém, ainda que isto lhe custe bem e tenha de fazer sofrer aqueles que mais ama – «aflitos à tua procura» (v. 48). O episódio passa-se em Jerusalém, como prenúncio e paralelo de um sofrimento bem maior, também em Jerusalém. A lição é clara: não se pode realizar plenamente a vontade do Pai do Céu e, ao mesmo tempo, evitar todo o sofrimento próprio e dos seres mais queridos; subir a Jerusalém é subir à Cruz, e subir à Cruz é «elevar-se» ao Céu, também em Jerusalém (cf. Lc 24, 50-51).

41 «Os pais de Jesus. Teu pai» (v. 48). Uma vez que Lucas tinha acabado de falar tão explicitamente da concepção virginal de Jesus, não tem agora qualquer receio de nomear S. José como pai (virginal) do Senhor.

49 «Eu devia estar na Casa de Meu Pai». A tradução de tà toû Patrós mou pode significar tanto «a casa de meu Pai», como «as coisas (assuntos, vontade) de meu Pai». A verdade é que o redactor pode ter querido dar à resposta de Jesus uma certa ambiguidade: «Não sabíeis que Eu tenho de estar nas coisas de meu Pai» (e que, por isso, me deveria encontrar aqui no Templo)?

50 «Eles não entenderam». A resposta do Menino envolve um sentido muito profundo que ultrapassa uma simples justificação da sua «independência». Não alcançam ver até onde iria este «estar nas coisas do Pai», mas também não se atrevem a fazer mais perguntas, dada a sua extrema delicadeza e reverência, que uma profunda fé lhes ditava. Estamos postos perante o mistério do ser e da missão de Jesus; é mais um «sinal» e mais uma «espada» (cf. Lc 2, 34-35).

 

Sugestões para a homilia

 

Personagem Bíblica encantadora.

Centro da sua vida: Maria e Jesus.

Missão de José: cada um de nós.

 

Homilia

1- Personagem Bíblica encantadora.

São José é uma das personalidades mais belas e tocantes da Sagrada Escritura. A sua vida e missão tiveram sempre o seu centro em Deus. Em Deus cresceu até aquela maturidade humana e divina própria das grandes personalidades bíblicas.

Um Homem verdadeiramente interessante e sólido na vivência de grandes experiências do divino de uma forma tão serena, sábia, eficaz e dinâmica. Um Justo de timbre fiel, dócil, recto, preciso, amorosamente humilde, místico do quotidiano, sonhador de Deus e da Sua vontade, enérgico e dinâmico executor das ordens divinas, um trabalhador incansável de construções eternas.

Em Abrão há uma proposta e há desculpas. Em Moisés há uma proposta e há desculpas. Em José há uma proposta grande e há silêncio, contemplação, aceitação e compromisso. Não há lamentos, pessimismos, desculpas, compensações.

São José é uma personalidade que Maria amou, que Jesus amou, que todos amamos. É preciso fazer salientar ainda mais esta personalidade para os tempos de hoje, para discípulos sedentos de autenticidade, maturidade, entrega, silêncio, contemplação, ação e dinamismo pronto. Discípulos que não se deixam levar pela competição, pela imagem, por esquemas tão complexos que descentram do essencial.

 

2- Centro da sua vida: Maria e Jesus.

São José foi um menino feliz, um jovem feliz, uma pessoa feliz. O seu silêncio e postura falam muito da sua personalidade encantadora que revela essa alegria profunda, serenidade sábia e capacidade de se doar.

O amor grande da sua vida foi Maria. Como José admirou, se apaixonou e amou intensamente Maria! Foi um amor que o conduziu a Cristo. Maria exerceu em São José o que na Cruz Jesus Lhe dará como tarefa de acompanhar maternalmente os seus discípulos. José deixou-se conduzir por Maria. Com Ela aprendeu a crescer na fé, na confiança, na entrega e no amor. Esse amor tão grande, sólido e divino a Maria foi esclarecido com a aceitação do projecto de Deus. Por isso aceita aquela maternidade como ação surpreendente do Espírito Santo.

José não tem receio de acolher a Jesus Cristo, dom precioso do Pai. Acolhe Jesus no mistério da sua incarnação, contempla-O e ama-O e enceta, como discípulo, um caminho de sólida e profunda compreensão do mistério do Filho de Deus por quem faz tudo numa docilidade incomparável e num compromisso total que exige toda a sua vida em sacrifício agradável silencioso e fecundo.

 

3- Missão de José: cada um de nós.

Há autores famosos que gostamos de citar, de ler e reler suas reflexões. Há vidas que achamos ser “estrelas” tão importantes, até do âmbito religioso. Mas quase nos passa despercebida esta pessoa encantadora que é São José. No edifício de santidade forçosamente temos de saber ler e reler todos os traços magníficos da personalidade de São José, da sua profunda e esclarecida fé, da sua estrutura humana simples, humilde, bela, madura, da sua confiança na Palavra de Deus e nas mensagens que Deus lhe faz chegar na serenidade dos seus sonhos, pelos anjos, seus amigos.

Ele faz-nos um apelo a uma vida vivida com intensidade e profundidade da fé, dentro de toda a discrição, silêncio, que tornam ainda mais eficaz a nossa participação no mistério de Deus.

Ele faz-nos o desafio de acolhermos o Filho de Deus que Maria nos oferece, com toda a doçura do nosso coração, da nossa inteligência e com todas as nossas capacidades. E assim podermos oferece-Lo a todos.

São José desafia-nos a um compromisso com a família no acolhimento da vida. Ele acolheu aquele dom de vida que foi o próprio Filho de Deus, que não estava dentro dos seus pessoais projetos. Assim nos interpela ao mais sagrado da vida que rompe os esquemas das nossas projeções e da nossa contabilidade fria e matemática, para se revelar como surpresa agradável de Deus. Assim também no dom da vocação que é sempre uma surpresa de Deus e não nossa autoria ou construção. Desafia-nos, na humildade, a dar a Deus toda a glória e permanecer como simples servos sem procurar protagonismo ou centralidade. Desafia-nos a um compromisso com o quotidiano da vida de família, do trabalho, da solução das dificuldades, das decisões sábias e das atitudes corretas. Desafia-nos a um espírito constante de oração capaz de estar atento a Deus, mesmo quando dorme.   Desafia-nos à serenidade diante dos obstáculos e dificuldades porque apoiados em Jesus e Maria.

 

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos:

Reunidos para celebrar as maravilhas que Deus realizou em São José, homem justo e humilde,

elevemos ao Pai do Céu as nossas súplicas,

dizendo (ou: cantando), com alegria:

R. Pai nosso, que estais nos céus, ouvi-nos.

Ou: Ouvi-nos, Senhor.

 

1. Pela santa Igreja, dispersa por toda a terra,

para que anuncie a palavra de Deus com alegria

e dê fruto no coração dos seus fiéis,

oremos.

 

2. Pelos que exercem a autoridade neste mundo,

para que sejam humanos nas suas decisões

e pratiquem obras de justiça e de retidão,

oremos.

 

3. Pelos pais e mães de família,

para que a oração em família e os sacramentos

alimentem a sua fé e a de seus filhos,

oremos.

 

4. Pelos jovens dos nossos Seminários

e pelos que trabalham na sua formação,

para que os dons do Espírito Santo os iluminem,

oremos.

 

5. Pelos homens que ganham o pão com o seu trabalho,

para que os seus direitos sejam respeitados

e a sua dignidade humana reconhecida,

oremos.

 

6. Por todos nós aqui reunidos em assembleia,

para que, por intercessão de São José,

tenhamos uma boa morte, na paz de Deus,

oremos.

 

Senhor, nosso Deus, velai por todos os filhos da Igreja,

para que, nas alegrias e provações desta vida,

descubram, como São José, a vossa vontade misteriosa

e colaborem na obra da redenção.

Por Cristo Senhor nosso.

 

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Nós vos louvamos José, M. Carneiro, NRMS 89

 

Oração sobre as oblatas: Concedei-nos, Senhor, a graça de servir ao vosso altar de coração puro, imitando a dedicação e fidelidade com que São José serviu o vosso Filho Unigénito, nascido da Virgem Maria. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio de São José [na solenidade]: p. 492

 

Prefácio

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente,

é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação

dar-Vos graças, sempre e em toda a parte,

e exaltar, bendizer e proclamar a vossa bondade

na solenidade do bem-aventurado São José.

Homem justo, foi por Vós escolhido para Esposo da Mãe de Deus;

servo fiel e prudente,

foi constituído chefe da vossa família,

para guardar com paterna solicitude

o vosso Filho Unigénito,

concebido pelo poder do Espírito Santo,

Jesus Cristo, nosso Senhor.

Por Ele, numa só voz,

os Anjos e os Arcanjos e todos os coros celestes

proclamam alegremente a vossa glória.

Permiti que nos associemos às suas vozes,

cantando humildemente o vosso louvor:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: F. dos Santos, NCT 84

 

Monição da Comunhão

 

São José conviveu de forma única com Jesus Cristo Filho de Deus. Contemplou-O, Amou-O, viveu d’Ele e para Ele. Por isso é proposta para nós que comungamos o mesmo Senhor.

 

Cântico da Comunhão: Ó famintos de Pão divino, J. Santos, NRMS 89

Mt 25, 21

Antífona da comunhão: Servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor.

 

ou

Mt 1, 20-21

Não temas, José: Maria dará à luz um Filho e tu lhe darás o nome de Jesus.

 

Oração depois da comunhão: Senhor, que na solenidade de São José alimentastes a vossa família à mesa deste altar, defendei-a sempre com a vossa protecção e velai pelos dons que lhe concedestes. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Hoje Deus bate ao nosso coração para pedir a mesma atitude que encontrou em São José.

Digamos sim a Deus e procuremos comprometermo-nos seriamente com o seu projeto de amor.

Que o nosso quotidiano esteja cheio de Deus e se revele em nossa maturidade cristã e nos sinais de entrega e serviço.

 

Cântico final: Tu a quem o Senhor quis confiar, A. Cartageno, NRMS 89

 

 

Homilias Feriais

 

4ª Feira, 20-III: Um convite para a Quaresma.

Jer 18, 18-20 / Mt 20, 18-28

Prestai-me ouvidos, Senhor, assim é que se paga o bem com o mal.  Pois abriram uma cova para atentarem contra a minha vida.

Jeremias queixa-se de o quererem maltratar, apesar do bem que tinha feito (LT). O mesmo aconteceu a Jesus (EV). Quando nos maltratarem, recorramos confiadamente ao Senhor: Eu, porém, confio no Senhor (SR), pois tudo é para nosso bem.

Para alcançarmos um lugar no Céu já sabemos que temos que seguir os passos do Senhor: Quem me segue terá a luz da vida (AE). Como a Tiago e a João, convida-nos a beber o cálice que Ele iria beber (EV) Procuremos cumprir bem os nossos deveres, tendo em conta o espírito de serviço aos outros, pois Jesus não veio para ser servido, mas para servir (EV).

 

5ª Feira, 21-III: A confiança no Senhor.

Jer 17, 5-10 / Lc 16, 19-31

Eu sou o Senhor: penetro os corações... para retribuir a cada um segundo o seu caminho, conforme o fruto das suas obras.

O homem rico da parábola, e os seus cinco irmãos, nunca se lembraram de Deus nem dos pobres (EV). Lázaro representa a multidão dos seres humanos sem pão, sem tecto, sem residência.

Maldito o homem que confia no homem e afasta o seu coração de Deus. Pelo contrário, bendito o homem que confia no Senhor (LT). Dará muitos frutos, como a árvore plantada à beira das águas (SR). Para isso, precisamos ouvir a palavra de Deus (com coração nobre e generoso(AE). Procuremos viver melhor a virtude da solidariedade.

 

 

6ª Feira, 22-III: Recordar as maravilhas do Senhor.

Gen 37, 3-4. 12-13. 17-28 / Mt 21, 33-43. 45-46

Mas, ao verem o filho, os agricultores disseram entre si: este é o herdeiro. Vamos matá-lo.

Os irmãos de José venderam-no como escravo (LT) e, mais tarde, o rei fê-lo governador de todos os seus domínios (SR), matando a fome de todos os outros países à sua volta. Do mesmo modo, a morte de Jesus foi o instrumento de salvação para todos.

O proprietário, que preparou a vinha, é a figura de Deus, que amou tanto o mundo e entregou o Filho Unigénito (AE). Recordemos estas maravilhas do Senhor, especialmente na Missa, que renova a Paixão, a Morte e a Ressurreição do Senhor. E procuremos acolhê-lo igualmente bem nas tarefas confiadas por Deus: o trabalho, a família, a oração.

 

Sábado, 23-III: As nossas misérias e a misericórdia de Deus.

Miq , 14-15. 18-20 / Lc 15, 1-3. 11-32

Qual o Deus semelhante a Vós, que tira o pecado e perdoa o delito, o Deus que se compraz em ser compassivo?

Este retrato do profeta Elias (LT) coincide perfeitamente com o traçado na parábola do filho pródigo, ou do pai misericordioso (EV).

Em face dos nossos pecados recorramos muito à misericórdia de Deus: Ele perdoa todos os nossos pecados e cura as nossas enfermidades (SR). Para isso, precisamos reconhecer as nossas faltas e levar a cabo uma conversão: Vou ter com meu Pai e dizer-lhe: Pai pequei contra o Céu e contra ti (AE e EV). Aproveitemos igualmente os actos de contrição: é possível fazer de filho pródigo muitas vezes durante o dia.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:        Armando Rodrigues Dias

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:               Duarte Nuno Rocha

 


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