TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

O SACERDOTE PROLONGA A INCARNAÇÃO DO VERBO

 

 

 

Prof. José Vidamor B. Yu *

Manila (Filipinas)

 

A Carta apostólica de João Paulo II Mane nobiscum, Domine (Fica connosco, Senhor) é dirigida ao episcopado, ao clero e a todos os fiéis para o Ano da Eucaristia (Outubro de 2004 - Outubro de 2005). Este documento ajuda a Igreja a aprofundar o valor e o mistério da Eucaristia, «fonte e cume» de toda a vida cristã (cf. LG, 11). Em inúmeras ocasiões, o Santo Padre tem-nos convidado solenemente a reflectir e meditar na nossa oração sobre a Sagrada Eucaristia, e a vivê-la de modo consciente. Na sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia, ele sublinha que, «na Sagrada Eucaristia, está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa e pão vivo» (EE, 1).

O sacerdote como crente na Palavra

O sacerdote prolonga a Incarnação do Verbo, primeiro porque ele acredita na Palavra. A fé nasce daquilo que se ouve e daquilo que se vê. O sacerdote proclama aquilo em que crê. Ele lê, medita e reza a Palavra de Deus. O Concílio Vaticano II lembra-nos que o ministério da Palavra pode ser exercido de muitíssimos modos, segundo as diversas necessidades dos ouvintes e os carismas dos pregadores (cf. PO, 4).

Apaixonado pela Palavra de Deus, o sacerdote celebra-a e anuncia-a aos homens. Fazendo isto, ele torna presente no mundo o mistério da salvação. Celebrando os sacramentos, e em particular a Sagrada Eucaristia, o sacerdote, como ministro de Cristo pelo poder do Espírito Santo, torna-se participante do sacerdócio de Cristo. Como crente na Palavra, o sacerdote conduz os homens para ela, mediante as suas palavras e o seu testemunho de vida, tornando-se assim um fermento de renovação para o mundo de hoje.

O sacerdote é um crente e um ministro da Palavra in nomine Domini et in nomine Ecclesiae. Como ministro da Palavra, o sacerdote acredita no Reino de Deus, proclama-o, e torna-o presente no meio dos homens. A Palavra de Deus não é uma simples instrução acerca de Deus; é a própria vida para aqueles que crêem nela.

O sacerdote como pregador da Palavra

O sacerdote como pregador da Palavra proclama Cristo. Quando ela é proclamada, a Palavra de Deus não é somente uma mensagem, é uma experiência divina e vivificante para aqueles que acreditam na Palavra, que a escutam, a cumprem e a vivem em plenitude. Incarnando a Palavra de Deus, o sacerdote não se esforça somente por conhecê-la e instruir os homens sobre Deus, ele faz também a experiência do próprio Deus através da Palavra anunciada. É pela Palavra proclamada que Deus actua na Igreja pela força do Espírito Santo. Para o Vaticano II, a pregação é a primeira missão do presbítero. A salvação vem da fé: não há salvação para aquele que não acredita (cf. Mc 16, 16).

Como pregador da Palavra, o sacerdote desperta o coração dos seus ouvintes. Os homens de hoje desejam ter um companheiro de viagem. Muitos aspiram por melhor compreensão e uma fé renovada em Cristo. Na sua Carta apostólica Mane nobiscum, Domine, o Santo Padre lembra-nos que Jesus é o companheiro que caminha connosco para nos introduzir, interpretando as Escrituras, na compreensão dos mistérios de Deus. «Ao longo do caminho das nossas dúvidas, inquietações e, às vezes, amargas desilusões, o divino Viajante continua a fazer-se nosso companheiro» (MND, 2). A celebração do Ano da Eucaristia proporciona-nos a ocasião de aprofundar o mistério da Eucaristia, no qual a presença de Cristo é vivida, a sua Palavra é proclamada, o seu Corpo e o seu Sangue são recebidos, fazendo-nos redescobrir que Cristo está próximo de nós.

O sacerdote como pregador da Palavra torna Jesus presente no coração de cada homem e de cada mulher. Ele permite-lhes fazer a experiência da proximidade de Jesus lendo, meditando, rezando e proclamando a Palavra de Deus. Abrir as Escrituras e ajudar os fiéis a penetrar nos mistérios de Deus é a vocação e a missão do sacerdote. Como Jesus fez com os dois discípulos a caminho de Emaús, ele interpreta as Escrituras e faz-lhes viver a proximidade de Cristo, sempre presente até ao fim dos tempos. A proclamação da Palavra atinge o seu auge na celebração da Sagrada Eucaristia, onde quem acredita na Palavra vive o mistério de «estar com» Cristo. João Paulo II declara a este propósito que «quando o encontro se torna pleno, à luz da Palavra segue-se a luz que brota do ‘Pão da Vida’, pelo qual Cristo cumpre de modo supremo a sua promessa de ‘estar connosco até ao fim do mundo’ (cf. Mt 28,20)» (MND, 2).

O sacerdote preside «in persona Christi capitis»

O sacerdote celebra a Eucaristia in persona Christi capitis. A Eucaristia torna-se, assim, a fonte e o cume do anúncio da Palavra de Deus. Cada vez que celebra a Eucaristia, o sacerdote tem plenamente consciência de que é um instrumento vivo de Cristo. A Igreja tem o dever de tornar presente o mistério de Deus na Sagrada Eucaristia, de o testemunhar e de o proclamar. Actuando in persona Christi capitis, o sacerdote torna Cristo presente no meio dos fiéis: ele alimenta o rebanho, reúne o Povo de Deus e condu-lo para a santidade (cf. Directório para o ministério e a vida dos presbíteros, 7).

Celebrando a Sagrada Eucaristia, o sacerdote actua como ministro de Cristo, pela força do Espírito Santo, para continuar a obra de salvação no seio do Povo de Deus. Fazendo isto, ele torna-se participante do sacerdócio de Cristo, exercendo os três munera Christi, e abrindo o coração dos fiéis para que recebam na fé o Verbo incarnado de Deus. É ao sacerdote que pertence tornar a Eucaristia incarnada e vivida no coração de cada fiel. A Eucaristia está no coração da vida cristã. Está também no coração da vida comunitária. Nas paróquias, as capelas de adoração perpétua dedicadas à devoção eucarística simbolizam a incarnação permanente da Palavra e da Eucaristia no coração daqueles que aí vêm adorá-la.   

O sacerdote descobre a sua verdadeira identidade quando actua «como prolongamento visível e sacramental de Cristo e no seu lugar, perante a Igreja e o mundo, como fonte permanente e sempre nova da salvação» (Directório para o ministério e a vida dos presbíteros, 4). Ele abre caminhos de comunhão entre Deus e o seu povo. Ele irradia na Eucaristia uma atitude de acção de graças que conduz a humanidade para Cristo. Ao mesmo tempo, pela fracção do pão, o sacerdote torna Cristo presente, como centro da vida da Igreja. João Paulo II diz que «a fracção do pão, como era designada a Eucaristia no início, sempre esteve no centro da vida da Igreja. Por ela Cristo torna presente, ao longo do tempo, o seu mistério da morte e ressurreição» (MND, 3).

O sacerdote como novo evangelizador da Palavra

A nova evangelização necessita de novos evangelizadores da Palavra de Deus. Actuando in persona Christi, o sacerdote deverá proclamar a Palavra de Deus com um zelo renovado. A evangelização tem por fim permitir aos homens e às mulheres viverem verdadeiramente a sua fé cristã no meio dos desafios e dos problemas do mundo de hoje. Como novo evangelizador da Palavra e para cumprir fielmente o seu ministério, o sacerdote deverá conversar todos os dias com Cristo na visita e no culto pessoal à Sagrada Eucaristia (cf. PO, 18). Esta experiência pessoal é necessária para tornar o sacerdote capaz em todo o momento de incarnar a Palavra no mundo.

Como novo evangelizador da Palavra, o sacerdote oferece o sacrifício da Missa. Ele está convencido dos frutos abundantes de cada celebração eucarística, porque é o primeiro a experimentar a graça deste Sacramento. O Vaticano II exorta-o a mostrar zelo na promoção e renovação da liturgia, como sinal dos desígnios providenciais de Deus no tempo presente e como passagem do Espírito Santo pela sua Igreja (cf. SC, 43).

A celebração da Sagrada Eucaristia será para ele uma ocasião de aprofundar o seu conhecimento de Cristo, como os dois discípulos de Emaús que O reconheceram quando Ele partiu o pão (cf. Lc 24, 35). «A dimensão mais evidente da Eucaristia é a de banquete» (MND, 15). A recepção frequente da Sagrada Eucaristia é o sinal de que a obra da salvação se realiza. A Eucaristia não é uma celebração privada; é um serviço de toda a Igreja, que torna o Verbo de Deus incarnado e vivo. A incarnação do Verbo na liturgia reconhece-se pelos seus efeitos, tais como a conversão e a renovação dos fiéis.

O sacerdote como evangelizado e renovado

A evangelização e a renovação do clero são os frutos da incarnação do Verbo hoje. O sacerdote como evangelizador deve viver momentos de conversão interior no seu encontro com a Palavra de Deus e no seu ministério. Ele deverá mostrar uma atenção ainda maior pela Sagrada Eucaristia, e proceder de maneira que ela seja celebrada frequentemente nas comunidades cristãs de hoje. João Paulo II diz que «no seu empenho pastoral, os sacerdotes prestem, durante este ano de graça, uma atenção ainda maior à Missa dominical, como celebração onde a comunidade paroquial se encontra toda unida, contando ordinariamente com a participação dos vários grupos, movimentos e associações nela presentes» (MND, 23).

A atitude interior do ministro da Sagrada Eucaristia é essencial durante a celebração da Palavra. A Sagrada Eucaristia deve ser eficaz e visível. Isto exige, da parte do ministro do Sacramento, uma conversão e uma renovação permanentes. Há, com efeito, uma profunda unidade entre a Palavra e o Sacramento, que tem máxima força na Sagrada Eucaristia. O Pão abençoado, oferecido a Deus e consagrado pelo sacerdote, é um dom de Deus. Deve ser pedido e recebido na oração, como alimento quotidiano do homem.

O sacerdote como evangelizador da Palavra tem necessidade de ser evangelizado. A renovação do sacerdote deve ser permanente, à imagem da Palavra de Deus, a Boa Nova, que está viva cada dia. Aos sacerdotes, diz João Paulo II: «Deixai-vos interpelar pela graça deste Ano especial, celebrando cada dia a Santa Missa com a alegria e o fervor da primeira vez e detendo-vos de bom agrado em oração diante do Sacrário» (MND, 30).

O sacerdote como agente da comunhão

A incarnação do Verbo traduz-se na comunhão. A comunhão manifesta-se pela recepção da Sagrada Eucaristia. O sacerdote é um agente da comunhão. «Receber a Eucaristia é entrar em comunhão profunda com Jesus» (MND, 19). Depois de ter escutado a Palavra de Deus, a Igreja reúne-se junto da Mesa da Palavra e da Eucaristia. A Igreja não é apenas uma simples organização: é a comunidade do Espírito Santo, uma comunidade viva. A Igreja, que Cristo formou como seu próprio Corpo, cresce pela graça do Espírito Santo. Como comunidade dos discípulos, a Igreja está presente na Eucaristia, e a Eucaristia edifica a Igreja. O sacerdote prolonga a incarnação do Verbo porque ele continua a realizar a comunhão em cada celebração eucarística.

O fundamento da comunhão na Igreja é a comunhão da Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, cuja união é proclamada pela Igreja. O termo communio, tal como é utilizado no Novo Testamento, tem implicações teológicas e litúrgicas. Como disse São Paulo: «Porventura o cálice de bênção que abençoamos não é comunhão no sangue de Cristo? E o pão que partimos não é comunhão no corpo de Cristo? Visto que há um só pão, nós, embora muitos, formamos um só corpo, nós que participamos do mesmo pão» (1 Cor 10, 16 ss). A Eucaristia é o encontro com o Senhor ressuscitado. Não é apenas uma participação no pão e no vinho no sacrifício eucarístico; é uma participação no próprio Cristo sob a forma das sagradas espécies. Eis o que significam hoje o sacramento da união com Cristo e a vida eucarística: uma vida de esperança. O sacerdote incarna a Palavra, que se manifesta pela comunhão. Aí onde há proclamação da Palavra e celebração da Eucaristia, há comunhão.

O sacerdote como agente da missão

A Palavra de Deus incarnada tem também uma dimensão missionária. Encontrando Cristo na Palavra e no Sacramento, somos conduzidos para a missão. O encontro com Cristo leva à missão. Depois de terem escutado Cristo interpretando as Escrituras e depois de terem partido o pão juntos, «no mesmo instante, [os dois discípulos] ergueram-se» (Lc 24, 33). Foram proclamar e fazer participar a todos das maravilhas vividas com o Senhor.

Como disse João Paulo II, a Eucaristia não só fortalece aqueles que estão em missão, mas ela é o princípio e o projecto da missão. «A Eucaristia não é apenas expressão de comunhão na vida da Igreja; é também projecto de solidariedade em prol da humanidade inteira» (MND, 27). Estas palavras do Santo Padre reflectem bem a concepção do Vaticano II sobre a missão segundo os desígnios de Deus. A missão da Igreja está ligada ao desígnio de Deus. Pregar e celebrar os sacramentos são actividades missionárias que fazem da Eucaristia o centro e o cume da actividade missionária (cf. AG, 9). A actividade missionária torna Cristo presente no mundo. A Palavra de Deus e a Eucaristia libertam os homens do pecado e reconduzem-nos à graça. «O cristão, que participa na Eucaristia, aprende dela a tornar-se promotor de comunhão, de paz, de solidariedade, em todas as circunstâncias da vida» (MND, 27).

 

 

 

 

 

 

 



* Videoconferência mundial organizada pela Congregação para o Clero sobre o tema O Deus da História, em 18-XII-04, tomada da página na Internet da Congregação: www.clerus.org.

 


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