3.º Domingo Comum

27 de Janeiro de 2019

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Cantai ao Senhor um cântico novo, Az. Oliveira, NRMS 48

 

Salmo 95, 1.6

Antífona de entrada: Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor, terra inteira. Glória e poder na sua presença, esplendor e majestade no seu templo.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A antífona de entrada deste 3ª Domingo do tempo comum, convida-nos a celebrar os louvores de Deus: «Cantai ao Senhor um cântico novo…!», e na oração inicial (ou colecta) pedimos ao Pai duas graças: que oriente a nossa vida segundo o Seu desígnio e que produzamos bons frutos de boas obras.

A liturgia da Palavra coloca-nos no ambiente do Antigo Testamento e na vida de Jesus. Tanto num caso como no outro, a Palavra de Deus é proclamada e explicada à comunidade, no contexto de um acto de culto.

Hoje, estamos aqui reunidos numa outra celebração, a Missa, onde iremos ouvir a Palavra de Deus nessa mesma tradição, que faz parte do ensinamento divino.

Todavia, ao fazermos os nossos planos, talvez não tenhamos levado em atenção que Deus também tem um plano a nosso respeito. Será que os frutos que produzimos estão de harmonia com esse plano? Decerto que não temos pensado nisso e apenas olhamos para os nossos próprios projectos, olvidando os de Deus a nosso respeito.

Peçamos, pois, a Sua misericórdia para com as nossas falhas, reconhecendo que somos pecadores.

 

Oração colecta: Deus todo-poderoso e eterno, dirigi a nossa vida segundo a vossa vontade, para que mereçamos produzir abundantes frutos de boas obras, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Após o regresso dos israelitas do exílio, a sua nova existência inaugura-se com uma assembleia santa convocada para ouvir a Palavra de Deus. O sacerdote Esdras lê, interpreta e promulga a Palavra. O povo, prostrando o rosto por terra, adorava o Senhor. Tudo terminou com uma refeição, partilhada em festa e repleta de alegria.

 

Neemias 8, 2-4a.5-6.8-10

Naqueles dias, 2o sacerdote Esdras trouxe o Livro da Lei perante a assembleia de homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês. 3Desde a aurora até ao meio dia, fez a Leitura do Livro, no largo situado diante da Porta das Águas, diante dos homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Todo o povo ouvia atentamente a Leitura do Livro da Lei. 4aO escriba Esdras estava de pé num estrado de madeira feito de propósito. Estando assim em plano superior a todo o povo, 5Esdras abriu o Livro à vista de todos; e quando o abriu, todos se levantaram. 6Então Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todos responderam, erguendo as mãos: «Amen! Amen!». E prostrando-se de rosto por terra, adoraram o Senhor. 8Os levitas liam, clara e distintamente, o Livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura. 9Então o governador Neemias, o sacerdote e escriba Esdras, bem como os levitas, que ensinavam o povo, disseram a todo o povo: «Hoje é um dia consagrado ao Senhor vosso Deus. Não vos entristeçais nem choreis». – Porque todo o povo chorava, ao escutar as palavras da Lei –. 10Depois Neemias acrescentou: «Ide para vossas casas, comei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que não têm nada preparado. Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza».

 

Estamos num dos momentos mais expressivos da vida do povo eleito, após o desterro de Babilónia, uma das pedras miliárias da sua história: marca a reconstrução da vida da nação, a instauração oficial do judaísmo propriamente dito, em que o acento já não se põe tanto no Templo, mas na Lei, por isso a sua leitura não aparece feita no lugar sagrado, mas «no largo situado diante da Porta das Águas» (v. 3).

2 «Esdras», o grande organizador do Povo de Deus após o desterro, em pleno séc. V a. C., como comunidade judaica, uma fraternidade religiosa, uma verdadeira «igreja» estruturada na Lei de Moisés. «O primeiro dia sétimo mês, isto é, do mês correspondente a Setembro-Outubro, chamado «Tisri»; este dia correspondia ao início dos sete dias da festa dos Tabernáculos (parece que coincidia com a festa do Ano Novo), que o capítulo 9 deixa ver como anterior à festa da Expiação, um artifício para mostrar como a leitura da Lei levou à penitência, ligada ao Yôm Kippur (cf. Lv 23, 26-32).

9 «Todo o povo chorava», naturalmente, ao tomar consciência bem clara de que tinha quebrantado a Lei, merecendo os castigos nela cominados. De qualquer modo, a contrição não devia impedir a alegria, antes pelo contrário, pois era a ocasião asada para uma solene renovação da aliança (cf. capítulo 10).

 

Salmo Responsorial     Sl 18 B (19), 8.9.10.15 (R. Jo 6, 63c)  

 

Monição: O salmo que iremos recitar faz-nos evocar também a Palavra de Deus. Ela é para nós «espírito e vida». Ao proclamá-lo louvamos a Lei de Deus. Pensemos no que essa Lei significa para nós.

 

Refrão:        As vossas palavras, Senhor,

                     são espírito e vida.

 

A lei do Senhor é perfeita,

ela reconforta a alma;

as ordens do Senhor são firmes,

dão sabedoria aos simples.

 

Os preceitos do Senhor são rectos

e alegram o coração;

Os mandamentos do Senhor são claros

e iluminam os olhos.

 

O temor do Senhor é puro

e permanece eternamente;

os juízos do Senhor são verdadeiros,

todos eles são rectos.

 

Aceitai as palavras da minha boca

e os pensamentos do meu coração

estejam na vossa presença:

Vós, Senhor, sois o meu amparo e redentor.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Nesta segunda leitura, o apóstolo S. Paulo, servindo-se da imagem do corpo humano aborda a diversidade na unidade, para concluir que cada um de nós tem uma função a realizar, mas todos actuando para o mesmo fim comum.

 

Forma longa: 1 Coríntios 12, 12-30;    forma breve: 1 Coríntios 12, 12-14.27

Irmãos: 12Assim como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim sucede também em Cristo. 13Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito para constituirmos um só corpo e a todos nos foi dado a beber um só Espírito. 14De facto, o corpo não é constituído por um só membro, mas por muitos.

 [15Se o pé dissesse: «Uma vez que não sou mão, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. 16E se a orelha dissesse: «Uma vez que não sou olho, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. 17Se o corpo inteiro fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo ele fosse ouvido, onde estaria o olfacto? 18Mas Deus dispôs no corpo cada um dos membros, segundo a sua vontade. 19Se todo ele fosse um só membro, que seria do corpo? 20Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo. 21O olho não pode dizer à mão: «Não preciso de ti»; nem a cabeça dizer aos pés: «Não preciso de vós». 22Pelo contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários; 23os que nos parecem menos honrosos cuidamo-los com maior consideração; e os nossos membros menos decorosos são tratados com maior decência: 24os que são mais decorosos não precisam de tais cuidados. Deus organizou o corpo, dispensando maior consideração ao que dela precisa, 25para que não haja divisão no corpo e os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros. 26Deste modo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele.]

27Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte.

[28Assim, Deus estabeleceu na Igreja em primeiro lugar apóstolos, em segundo profetas, em terceiro doutores. Vêm a seguir os dons dos milagres, das curas, da assistência, de governar, de falar diversas línguas. 29Serão todos apóstolos? Todos profetas? Todos doutores? Todos farão milagres? 30Todos terão o poder de curar? Todos falarão línguas? Terão todos o dom de as interpretar?]

 

Continuamos hoje a leitura do domingo anterior, fazendo a apologia da unidade da Igreja dentro da legítima diversidade: «Assim como o corpo...». A comparação não é original, mas da literatura profana. S. Paulo adapta-a maravilhosamente à Igreja, concebida como um corpo onde não pode haver rivalidades e divisão: «Vós sois Corpo de Cristo» (v. 27). Já está aqui latente a doutrina do Corpo Místico explanada em Colossenses e Efésios. No entanto, ainda não se considera de facto a Igreja universal, o Corpo de Cristo (com artigo); apenas se considera que os cristãos de Corinto são um organismo – «corpo» (sem artigo!) – dependente de Cristo e com a mesma vida de Cristo (v. 27).

13 «E a todos nos foi dado beber um único Espírito». Os exegetas, tendo em conta que no v. anterior já se tinha falado do Baptismo, pensam que pode haver aqui uma referência ao Sacramento da Confirmação, pois que então estes Sacramentos se costumavam receber juntos (cf. Act 19, 5-61).

27 «Seus membros, cada um por sua parte». A Vulgata diz: «membros uns dos outros», devido a uma confusão de palavras gregas: «melos» (membro) por «meros» (parte).

 

Aclamação ao Evangelho          Lc 4, 18

 

Monição: A missão de Jesus foi anunciar a Boa Nova aos pobres e proclamar a redenção aos cativos. Assim se manifesta e confirma a missão de cada um de nós e a de todas as comunidades cristãs.

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação-2, F. da Silva, NRMS 50-51

 

O Senhor enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres,

a proclamar aos cativos a redenção.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1, 1-4; 4, 14-21

1Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, 2como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, 3também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, 4para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado.

14Naquele tempo, Jesus voltou da Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. 15Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos. 16Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. 17Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: 18«O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos 19e a proclamar o ano da graça do Senhor». 20Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. 21Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».

 

A leitura faz preceder o início da pregação de Jesus (4, 14) do célebre prólogo do III Evangelho (1, 1-4) da autoria de Lucas, que se mostra como um historiador sério e um bom cultor da língua grega de cunho clássico.

1 «Muitos». Referência à grande diversidade de escritores, em que se devem incluir os escritos inspirados: um primitivo Evangelho de Mateus e o Evangelho de S. Marcos, fontes que utilizou abundantemente. Sobre outros escritos prévios nada de certo sabemos, mas a crítica interna dos Evangelhos faz-nos entrever nos Sinópticos a preexistência de pequenos fragmentos que deixaram rastos na falta de conexão entre muitas perícopes e no agrupamento artificial de vários episódios sobre um mesmo tema. É natural que tais documentos parciais e provisórios se tenham perdido, ao aparecerem os Evangelhos canónicos.

«Factos que se realizaram entre nós». O Evangelho transmite-nos factos realmente acontecidos e muito próximos, daquela mesma época, por isso diz: «entre nós».

2 «Como no-los transmitiram...». S. Lucas não é um discípulo directo de Cristo, mas conhece com verdade os acontecimentos que vai referir através de testemunhas do máximo valor, por um lado, «testemunhas oculares» e, por outro, «ministros da palavra», isto é, do Evangelho; os mesmos que tinham a missão de pregar tinham sido antes testemunhas oculares. Entre as testemunhas oculares, como fonte de informação de Lucas, devem-se pôr os Apóstolos e, com toda a probabilidade, a SSª Virgem, as Santas Mulheres, os «irmãos de Jesus» e outras pessoas que conviveram com Ele.

3 «Também eu resolvi… escrevê-las». Isto em nada contradiz a acção de Deus ao inspirar S. Lucas, uma vez que Ele pode influir na inteligência e na vontade do homem, mesmo sem que este dê conta desse influxo. «Por ordem» (temos no original grego kathexês, que a tradução litúrgica omitiu, talvez uma errata a corrigir). Embora o seu Evangelho não seja primariamente uma biografia sistemática – uma crónica – com todos os dados possíveis sobre a vida de Jesus, também não se limita a um mero ensinamento doutrinal sobre a mensagem de Jesus. S. Lucas pretende transmitir-nos esta mensagem dentro dum vasto quadro histórico de acontecimentos, mas sem a preocupação duma minúcia cronológica maior do que aquela que as suas fontes lhe forneciam. Há, porém, como faz ver, o cuidado de uma certa ordem lógica.

3-4 «Depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens». S. Lucas não é um, mero «evangelista» que se preocupe só com transmitir uma mensagem, ele tem uma preocupação cuidadosa de tudo investigar desde o início e com um fim muito concreto, a saber, que o leitor possa «ter um conhecimento seguro do que lhe foi ensinado». É sabido que Lucas tem uma visão teológica própria; é um teólogo da história, com mentalidade de historiador; de modo nenhum um criador estórias. O pregador do Evangelho avança de mãos dadas com o historiador e o apologista.

«Ilustre Teófilo». O adjectivo faz supor que se trata de um cristão de elevada condição (um mecenas?), a pessoa a quem Lucas dedica os seus dois livros. O título de «ilustre» ou «excelentíssi­mo» usava-se para a nobreza romana e para pessoas com altos cargos na administração do Estado.

4, 14 É aqui que começa S. Lucas a narrar o ministério de Jesus com a pregação na Galileia. «Com a força do Espírito», o mesmo é dizer que com a força e poder divino que estavam em Jesus, dada a sua natureza divina. Há em S. Lucas, uma constante referência ao Espírito Santo, que é um «leitmotiv» desta obra e de Actos. Com efeito, estamos nos tempos messiânicos, e Jesus é o Messias e, como tal, portador do «Espírito do Senhor» (v. 18).

16-21 «Foi então a Nazaré». Não se sabe se S. Lucas, nesta passagem, narra a mesma visita à sua terra natal contada pelos outros evangelistas (cf. Mt 13, 54-58; Mc 6, 1-6), ou se outra, ou se funde duas visitas num único relato. De qualquer modo, ao apresentá-la logo no início da vida pública, não teve em vista uma simples ordem cronológica, mas sim uma ordem lógica, melhor dito, teológica, com o intuito de começar por fazer ver que Jesus é o Messias, aqui o «Pregoeiro (mebasser) de boas notícias (besorá, evangelho), sobre quem repousa o Espírito Santo, segundo o oráculo de Isaías (Is 61, 1-2). «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura» (v. 21) equivale a dizer «Eu sou esse pregoeiro de boas notícias aos pobres».  J. Dupont diz que, com este relato inicial, Lucas pretende, logo de entrada, sugerir a resposta a três questões fundamentais: quem é Jesus, qual a sua missão, e a quem se destina esta sua missão.

18 «O Espírito… me ungiu». A unção no A. T. era para pessoas que tinham uma missão especial dada por Deus: o rei (1 Sam 9, 16; 2 Sam 5, 1-13), o sacerdote (Ex 29, 7; 40, 15), o profeta (para este, pode ser em sentido simbólico: Is 61, 1; Ez 16, 9), sendo assim o messias davídico o ungido por excelência. A Teologia explicita o símbolo da unção recebida por Jesus no momento da Incarnação: designa em especial a chamada «união hipostática», em que a natureza humana é assumida pela Pessoa do Verbo. Note-se que de Jesus não se diz, como dos Santos, que recebeu graças e dons do Espírito Santo, mas diz-se que foi ungido, para indicar a plenitude de graça recebida com a união hipostática, de cuja plenitude todos nós recebemos (cf. Jo 1, 16).

«Os pobres», aparecem explicitados pelo paralelismo da segunda parte do v. 18: «os cativos, os cegos, os oprimidos». Trata-se duma noção desenhada na pregação dos profetas (cf. Sam 2, 3), fortemente espiritualizada – a dos anawim (pobres) – que é retomada por Jesus (cf. Mt 5, 3; 18, 9-14). Jesus não se dirige a uma determinada classe ou condição social, mas sobretudo àqueles que têm uma determinada atitude religiosa de indigência, humildade e abertura perante Deus, própria de quem confia na sua misericórdia, e não nos méritos ou recursos pessoais. Com efeito, o sentido desta passagem não se esgota na preocupação de Jesus pelos «pobres», que são os «presos», os «cegos», os «oprimidos», no sentido de miséria física, pois Jesus, podendo fazê-lo, não curou todos os doentes, nem resolveu todos os problemas de miséria. Jesus e a sua Igreja (cf. Lumen Gentium, n.° 8) preocupam-se pelos necessitados, mas a sua missão não se reduz à beneficência e promoção humana, nem sequer se pode centrar nela; o seu objectivo é a redenção da miséria do pecado, causa de todos os males, é a libertação da escravidão do demónio e da morte eterna.

19 «Um ano favorável». Alusão clara ao ano jubilar judaico de 50 em 50 anos (Lv 25, 8-10), em que ficavam libertos os homens e as terras que por necessidade tinham sido vendidos. Esta libertação material era uma espécie de utopia – não está suficientemente documentada a sua prática na história de Israel – que simboliza e prefigura a libertação espiritual e redenção trazida pelo Messias.

 

Sugestões para a homilia

 

A celebração da Palavra ocorrida no Antigo Testamento

A Boa Nova anunciada por testemunhas dos factos realmente ocorridos

Transmitida como missão nos nossos dias

 

A celebração da Palavra ocorrida no Antigo Testamento

 

Como escutamos na primeira leitura, Neemias, governador de Jerusalém, após o exílio dos israelitas do cativeiro da Babilónia, e o sacerdote Esdras procuram restaurar o culto e a vida religiosa do povo, numa atitude de fé e confiança em Deus.

Ouvimos a narração da convocação do povo para uma grande assembleia celebrativa. A comunidade acolheu com todo o respeito esta convocação. Seguiu-se a leitura da Palavra de Deus, proclamada e explicada no meio da comoção dos fiéis, que manifestaram o seu assentimento através do Amen. Vimos depois como a festa, começada na celebração litúrgica, se prolongou na alegria duma refeição partilhada e abundante. Finalmente ouvimos o Autor sublinhar que a razão de ser da festa estava no dia consagrado ao Senhor.

Se estivermos atentos aos diferentes passos dessa celebração, facilmente descobriremos a semelhança que tem com a celebração eucarística, a Missa. A Palavra assume papel relevante na vida da comunidade convocada para a escutar; a sua proclamação é feita num lugar de relevo; o seu acolhimento faz-se de pé, de forma solene e em atitude de respeito; segue-se a sua explicação ou homilia com a interpelação à conversão e ao compromisso dos fiéis que a escutam; e culmina a celebração com a grande e alegre festa da comunhão do próprio Corpo e Sangue de Jesus.

A Palavra, a Boa Nova de Jesus Cristo é anunciada pelos «ministros sagrados» tendo por base o relato das testemunhas dos factos realmente ocorridos naquela altura da vida de Jesus.

 

A Boa Nova anunciada por testemunhas dos factos realmente ocorridos

 

A parte principal desta passagem do Evangelho de S. Lucas é precedida pelo início duma introdução, onde o evangelista explica o método seguido na composição do texto.

Lucas diz que todos podem falar de Jesus, mesmo que não tenham sido testemunhas directas dos factos; basta que sejam fiéis à tradição. Ele acentua que procedeu a investigação cuidadosa sobre todas as circunstâncias em que aconteceram os factos; não foram sonhos, nem doutrinas filosóficas, tampouco revelações misteriosas, mas acontecimentos reais, que tiveram como protagonista um homem: Jesus de Nazaré. Acrescenta Lucas que se deixou guiar por uma única preocupação na escrita do seu Evangelho: transmitir fielmente o que lhe foi confiado pelos «ministros da Palavra». Ele não inventa nada, mas o seu objectivo, escreve, é conferir bases sólidas à fé dos cristãos das suas comunidades.

As verdades de fé podem ser confirmadas e demonstradas com provas evidentes? Não! Ninguém pode ser obrigado, por meio de raciocínios, a acreditar que Jesus é o Senhor. Todavia, a fé não é uma opção inocente feita por pessoas ignorantes e sem conhecimentos científicos. Há motivos que levam a aderir a Cristo. Para os aprender, responde Lucas, é necessário ler com atenção o seu Evangelho. É isso que somos convidados a fazer durante todo este ano litúrgico. 

Depois deste prólogo, Lucas quer dizer que Jesus se tornou o nosso mestre. Então, ele recorda o ambiente normal da liturgia do sábado na sinagoga de Nazaré, em que Jesus participava. É o próprio Jesus quem proclama e explica a Palavra de Deus. Jesus afirma que as profecias messiânicas estão a cumprir-se n’Ele: é o anúncio da Boa Nova da Salvação.

Jesus resumiu, naquela ocasião, o seu projecto em poucas palavras: libertação das pessoas de toda a espécie de escravidão. Agora é n’Ele e em mais ninguém que deve fixar-se o nosso olhar.

Nas nossas celebrações continuamos a ler o Antigo Testamento, porque é indispensável que nos ele nos prepare para escutar Jesus Cristo. Essas leituras têm a finalidade de nos conduzir a Ele, como missão a ser transmitida nos nossos dias a todos os homens.

 

Transmitida como missão nos nossos dias

 

Devemos continuar a levar por diante o anúncio da Boa Nova de esperança com alegria e com o mesmo tipo de acção de Cristo. A nossa missão é abrir os olhos aos cegos e iluminar os que nem sequer têm condições para ver o estado de miséria em que vivem; ser compassivos, como o Mestre, com todas as formas de opressão; ajudar os mais pobres e desprotegidos a recuperar a sua dignidade, tantas vezes ofendida; ajudar os discriminados a conseguir reintegrar-se na comunidade…

S. Paulo lembrava, na segunda leitura, que a comunidade, à semelhança do corpo humano, é composta por muitos membros, cada um dos quais com a sua função. Ora, os membros duma comunidade devem comportar-se do mesmo modo. Cada um de nós desempenha o seu serviço para bem dos irmãos, consoante a sua capacidade, em unidade com toda a Igreja à volta do seu Pastor, sem competições ou invejas, nem tentando que o seu ministério lhes confira o direito de se sentirem superiores aos demais.

Estaremos conscientes da responsabilidade que corresponde a cada um no testemunho da missão que o Senhor nos confiou? Decerto que não temos pensado nisso e apenas olhamos para os nossos próprios projectos, olvidando os de Deus a nosso respeito.

Assumamos seriamente o compromisso pelo projecto de Deus e daquele que o Espírito nos vai sugerindo, como missão na nossa caminhada de difusão da Boa Nova de Jesus Cristo.

 

Fala o Santo Padre

 

«Evangelizar os pobres: esta é a missão de Jesus, segundo quanto Ele diz;

esta é inclusive a missão da Igreja, e de cada baptizado na Igreja.»

No evangelho de hoje, o evangelista Lucas antes de apresentar o discurso programático de Jesus em Nazaré, sintetiza brevemente a sua actividade evangelizadora. É uma actividade que Ele cumpre com a potência do Espírito Santo: a sua palavra é original, porque revela o sentido das Escrituras; é uma palavra influente, porque comanda até aos espíritos impuros e eles obedecem (cf. Mc 1, 27). Jesus é diferente dos mestres do seu tempo: por exemplo, não abriu uma escola para o estudo da Lei, mas andava por toda parte pregando e ensinando: nas sinagogas, pelas estradas, nas casas, sempre a caminho! Jesus é diferente também em comparação com João Baptista, o qual proclama o julgamento iminente de Deus, ao passo que Jesus anuncia o seu perdão de Pai.

E agora imaginemos que entramos também nós na sinagoga de Nazaré, a aldeia onde Jesus cresceu até cerca de trinta anos. O que ali acontece é um evento importante, que delineia a missão de Jesus. Ele levanta-se para ler a Sagrada Escritura. Abre o rolo do profeta Isaías e lê o trecho onde está escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres» (Lc 4, 18). Em seguida, após um momento de silêncio cheio de expectativa por parte de todos, diz, entre a estupefacção geral: «Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir» (v. 21).

Evangelizar os pobres: esta é a missão de Jesus, segundo quanto Ele diz; esta é inclusive a missão da Igreja, e de cada baptizado na Igreja. Ser cristão e ser missionário é a mesma coisa. Anunciar o Evangelho, com a palavra e, antes ainda, com a vida, é a finalidade principal da comunidade cristã e de cada seu membro. Observa-se aqui que Jesus dirige a Boa Nova a todos, sem excluir ninguém, aliás privilegiando os mais distantes, os sofredores, os doentes, os descartados da sociedade.

Questionamo-nos: o que significa evangelizar os pobres? Significa em primeiro lugar aproximar-nos deles, significa ter a alegria de os servir, de os libertar da opressão, e tudo isto em nome e com o Espírito de Cristo, porque é Ele o Evangelho de Deus, é Ele a Misericórdia de Deus, é Ele a libertação de Deus, é Ele quem se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza. O texto de Isaías, enriquecido com pequenos ajustes introduzidos por Jesus, indica que o anúncio messiânico do Reino de Deus que veio entre nós se destina de maneira preferencial aos marginalizados, aos prisioneiros, aos oprimidos.

Provavelmente no tempo de Jesus estas pessoas não estavam no centro da comunidade de fé. Podemos perguntar-nos: hoje, nas nossas comunidades paroquiais, nas associações, nos movimentos, somos fiéis ao programa de Cristo? A evangelização dos pobres, levar-lhes a boa nova, é a prioridade? Atenção: não se trata só de fazer assistência social, tão-pouco actividade política. Trata-se de oferecer a força do Evangelho de Deus, que converte o coração, sara as feridas, transforma as relações humanas e sociais segundo a lógica do amor. Com efeito, os pobres estão no centro do Evangelho.

A Virgem Maria, Mãe dos evangelizadores, nos ajude a sentir fortemente a fome e a sede do Evangelho que existe no mundo, especialmente no coração e na carne dos pobres. E conceda a cada um de nós e a cada comunidade cristã de testemunhar concretamente a misericórdia, a grande misericórdia que Cristo nos doou.

 Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 24 de Janeiro de 2016

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos:

Em união com toda a Igreja

oremos a Deus Pai todo-poderoso

pela unidade dos cristãos,

e por todos os homens, para que acolham

a Palavra revelada como fonte de salvação, dizendo:

 

Ouvi, Senhor, a nossa oração

 

1.     Pelo Santo Padre, o Papa (N..), os Bispos,

Presbíteros e Diáconos,

para que sejam fiéis transmissores da Palavra

revelada pelos Apóstolos,

oremos ao Senhor.

 

2.     Pela Santa Igreja católica e todas as comunidades separadas,

para que em verdadeiro respeito e entendimento

possam proclamar a Palavra recebida de Jesus,

oremos ao Senhor.

 

3.     Por  todos nós aqui reunidos em assembleia santa,

para que saibamos acolher a Palavra proclamada

com toda a atenção e respeito,

a fim de a celebrarmos em festa de esperança e alegria,

oremos ao Senhor.

 

4.     Por todos os cristãos,

para que sigam Jesus, tomando-O como modelo,

para anunciar com esperança a Sua Palavra,

oremos ao Senhor.

 

5.     Por cada um de nós,

para que, consoante a sua capacidade,

desempenhe o seu serviço para bem dos irmãos,

em unidade com toda a Igreja à volta do seu Pastor,

oremos ao Senhor.

 

Pai Santo e todo-poderoso,

concedei à vossa Igreja

a graça de anunciar com toda a fidelidade

a Boa Nova de vosso Filho Jesus Cristo.

Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: O Amor de Deus Repousa em Mim, M. Luis, NCT 388

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai benignamente, Senhor, e santificai os nossos dons, a fim de que se tornem para nós fonte de salvação. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: F. dos Santos, NCT 201

 

Monição da Comunhão

 

Que a comunhão do Corpo e Sangue de Jesus, nos fortifique e nos ajude a sermos verdadeiros missionários transmissores da Boa Nova da Salvação, em unidade com toda a Igreja e o seu Pastor.

 

Cântico da Comunhão: Cantemos um Salmo de Glória, Az. Oliveira, NRMS 84

 

Salmo 33, 6

Antífona da comunhão: Voltai-vos para o Senhor e sereis iluminados, o vosso rosto não será confundido.

 

Ou

Jo 8, 12

Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor. Quem Me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida.

 

Oração depois da comunhão: Deus omnipotente, nós Vos pedimos que, tendo sido vivificados pela vossa graça, nos alegremos sempre nestes dons sagrados. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Na conclusão desta celebração eucarística e interpelados pela escuta da Palavra, façamos o compromisso de anunciar testemunhalmente a alegre esperança da Boa Nova, à semelhança do agir de Jesus Cristo e levando a Boa Nova da Libertação de esperança e alegria: aos pobres, para que sejam mais abertos a Deus; aos presos pelas suas dependências, a fim de os libertar da miséria, vícios, injustiças, do pecado; aos cegos pela riqueza, exploração e estruturas anticristãs; aos oprimidos para a conquista dos seus direitos.

 

Cântico final: Somos Testemunhas, Az. Oliveira, NRMS 35

 

 

 

Homilias Feriais

 

3ª SEMANA

 

2ª Feira, 28-I: Vitória sobre o demónio.

Heb 9, 15-24 / Mc 3, 22-30

Mas, foi agora, que Ele se manifestou, de uma vez para sempre, para destruir o pecado pelo seu sacrifício.

Jesus enfrentou o demónio quando foi tentado no deserto. «Jesus vence o diabo: 'amarrou o homem forte para lhe tirar os despojos' (Ev.). A vitória de Jesus sobre o tentador, antecipa a vitória da Paixão» (CIC, 539).

A morte redentora de Cristo destruiu o pecado (Leit.). Quando formos tentados, olhemos para a Cruz ou, pelo menos, para um crucifixo; invoquemos os nomes de Jesus e de Maria, o nosso Anjo da guarda, que nos faz companhia de noite e de dia. E assim venceremos o demónio, causador de tantas divisões na Igreja.

 

3ª Feira, 29-I: Uma nova Família.

Heb 10, 1-10 / Mc 3,  31-35

Quem fizer a vontade de Deus é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.

Jesus revela a existência de uma 'nova família', que tem como fonte de união o cumprimento da vontade de Deus (Ev.). E que figura na oração própria dos filhos de Deus, o Pai-nosso.

Jesus deu-nos o exemplo. Ao entrar neste mundo Jesus disse: «Eu venho, ó Pai, para fazer a tua vontade» (Leit.). E, no Jardim das Oliveiras, conformou-se totalmente com esta vontade: 'Não se faça a minha vontade, mas a tua', aceitando todos os sofrimentos, esquecendo-se de si mesmo e pensando na salvação de todos.

 

4ª Feira, 30-I: Quando Deus nos fala.

Heb 10, 11-18 / Mc 4, 1-20

Não entendeis esta parábola? O que o semeador semeia é a palavra.

Na Sagrada Escritura, a Igreja encontra igualmente o seu alimento e a sua força, porque não recebe nela uma palavra humana, mas o que é na realidade: a palavra de Deus (Ev.). Nos Livros sagrados, com efeito, o Pai que está nos Céus vem amorosamente ao encontro dos seus filhos, para conversar com eles.

Além deste modo, Deus quis também deixar escrito nas nossas almas as suas Leis: «hei-de pôr-lhes as minhas Leis no coração e gravar-lhas na inteligência, Seus pecados e transgressões não mais os recordarei» (Leit.).

 

5ª Feira, 31-I: Colheitas abundantes.

Heb 10, 19-25 / Mc 4, 21-25

O semeador saiu para semear. Quando semeava, parte da semente caiu à beira do caminho.

Uma boa parte das sementes não deu fruto e outra parte rendeu bastante (Ev.).

Os sacerdotes da Antiga Aliança ofereciam inúmero sacrifícios, «que nunca podem destruir os pecados» (Leit.). Mas Cristo destruiu os pecados com um só sacrifício (Leit.). Para obtermos frutos mais abundantes procuremos unir as nossas acções ao sacrifício de Cristo, deixando sobre o altar as nossas pequenas renúncias, que pouco valem. Devemos igualmente meditar e rezar com regularidade. De outro modo, não haverá tantos frutos como os primeiros terrenos da parábola.

 

 

6ª Feira, 1-II: Crescimento e perseverança.

Heb 10, 32-39 / Mc 4, 26-34

O reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado no terreno, é a menor de todas as sementes. Mas, depois de semeada, começa a crescer.

Como o grão de mostarda (Ev.), tudo o que é grande começa por ser pequenino. Assim acontece com a correspondência à graça que Deus lança nas nossas almas, com o amadurecimento de cada um de nós, com a consistência das virtudes.

Para que este crescimento produza os seus frutos é preciso rezarmos e sermos perseverantes. «É pela oração que podemos discernir qual é a vontade de Deus e obter perseverança para a cumprir (a Lei)» (CIC, 2826). Procuremos nunca abandonar o que começámos, mesmo que nos pareça que não dá resultado.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         António Elísio Portela

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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