A PALAVRA DO PAPA

A PREPARAÇÃO PARA O SACERDÓCIO

 

Durante a Jornada Mundial da Juventude, em Colónia (Alemanha), o Papa Bento XVI quis reunir-se com os seminaristas que tinham vindo de todo o mundo.

O encontro realizou-se na igreja de S. Pantaleão, médico mártir do ano 305 em Nicomédia (actual Turquia), na perseguição do imperador Diocleciano. A igreja tem traça original do séc. XI e foi muito danificada na Segunda Guerra Mundial. Desde 1987 a paróquia está confiada a sacerdotes da Prelatura do Opus Dei.

A igreja foi escolhida para Centro Espiritual dos seminaristas durante a Jornada e, por isso, foi trazida de Ars a relíquia do coração do Santo Cura d’Ars, para que os seminaristas pudessem meditar na vida do padroeiro dos párocos.

Oferecemos aos nossos leitores o discurso do Santo Padre nessa tarde de 19-VIII-05. Título e subtítulos da Redacção da CL.

 

Queridos seminaristas:

A luz da estrela

Saúdo-vos a todos com grande afecto, agradecendo o vosso jovial acolhimento e, sobretudo, que tenhais vindo a este encontro de numerosos países dos cinco continentes. Dirijo-me antes de mais ao Seminarista, ao Sacerdote e ao Bispo que nos ofereceram o seu testemunho pessoal. Obrigado de coração.

Estou feliz de ter este encontro convosco. Quis que, no programa destes dias em Colónia, houvesse um encontro especial com os jovens seminaristas, para ressaltar de maneira mais explícita e vigorosa a dimensão vocacional que têm sempre as Jornadas Mundiais da Juventude.

Certamente, estais a viver esta experiência com uma intensidade muito particular, precisamente porque sois seminaristas, ou seja, jovens que se encontram em um tempo forte de procura de Cristo e de encontro com Ele, em vista de uma missão importante na Igreja.

É isto o seminário: não tanto um lugar, mas precisamente um tempo significativo na vida de um discípulo de Jesus. Imagino o eco que podem ter no vosso interior as palavras do lema desta vigésima Jornada mundial – «Viemos adorá-lo» – e todo o relato evangélico dos Magos, do qual se tomou o lema. Esta passagem tem um valor singular para vós, precisamente porque estais a realizar um processo de discernimento e comprovação da chamada ao sacerdócio. Sobre isto quero deter-me a reflectir convosco.

O chamamento

Por que foram a Belém os Magos, desde países longínquos? A resposta está ligada ao mistério da «estrela» que eles viram «aparecer» e que identificaram como a estrela do «Rei dos Judeus», ou seja, como o sinal do nascimento do Messias (cf. Mt 2, 2). Portanto, a sua viagem foi motivada pela força de uma esperança, que na estrela teve depois a sua confirmação e recebeu a sua guia para «Rei dos Judeus», para a realeza do próprio Deus. Os Magos partiram porque tinham um grande desejo, que os levava a deixar tudo e a pôr-se a caminho. Era como se estivessem sempre à espera daquela estrela. Como se aquela viagem estivesse desde sempre inscrita no seu destino, e que agora finalmente se realizava.

Queridos amigos, é este o mistério da chamada, da vocação; mistério que afecta à vida de todo o cristão, mas que se manifesta com maior evidência naqueles que Cristo convida a deixar tudo para O seguirem mais de perto. O seminarista vive a beleza da chamada no momento que poderíamos definir como «apaixonamento». O seu ânimo está cheio de assombro, que lhe faz dizer na oração: Senhor, por que precisamente a mim? Mas o amor não tem um «porquê», é um dom gratuito, a que se responde com a entrega de si mesmo.

O tempo do seminário

O seminário é um tempo destinado à formação e ao discernimento. A formação, como bem sabeis, tem várias dimensões, que convergem na unidade da pessoa: ela compreende o âmbito humano, espiritual e cultural. O seu objectivo mais profundo é fazer conhecer intimamente aquele Deus que em Jesus Cristo nos mostrou o seu rosto. Para isso é necessário um estudo aprofundado da Sagrada Escritura, como também da fé e da vida da Igreja, na qual a Escritura permanece como palavra viva. Tudo isto deve enlaçar-se com as perguntas da nossa razão e, portanto, com o contexto da vida humana de hoje. Este estudo, às vezes, pode parecer pesado, mas constitui uma parte insubstituível de nosso encontro com Cristo e da nossa chamada a anunciá-lo. Tudo contribui a desenvolver uma personalidade coerente e equilibrada, capaz de assumir validamente a missão sacerdotal e depois levá-la a cabo, responsavelmente.

O papel dos formadores é decisivo: a qualidade do presbitério numa Igreja particular depende em boa parte da do seminário e, portanto, da qualidade dos responsáveis da formação. Queridos seminaristas, precisamente por isso rezamos hoje com viva gratidão por todos os vossos superiores, professores e educadores, que sentimos espiritualmente presentes neste encontro. Peçamos a Deus que possam desempenhar do melhor modo a tarefa tão importante que lhes está  confiada.

O seminário é um tempo de caminho, de procura, mas sobretudo de descoberta de Cristo. Com efeito, só na medida em que se tem uma experiência pessoal de Cristo, o jovem pode compreender de verdade a sua vontade e, portanto, a própria vocação. Quanto mais conheces a Jesus, mais te atrai o seu mistério; quanto mais o encontras, mais forte é o desejo de buscá-lo. É um movimento do espírito que dura toda a vida, e que encontra no seminário uma estação cheia de promessas, a sua «primavera».

A presença de Maria

Ao chegarem a Belém, os Magos «entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe, e prostrando-se adoraram-no» (Mt 2, 11). Eis, por fim, o momento tão esperado: o encontro com Jesus. «Entrando na casa»: esta casa representa em certo modo a Igreja. Para encontrar o Salvador, é necessário entrar na casa que é a Igreja. Durante o tempo do seminário, produz-se na consciência do jovem seminarista um amadurecimento particularmente significativo: já não vê a Igreja «de fora», mas sente-a, por assim dizer, «de dentro» como sua «casa», porque é a casa de Cristo, onde mora «Maria, sua mãe».

E é justamente a Mãe quem lhe mostra Jesus, seu Filho, quem o apresenta; quem de certo modo o faz ver, tocar, tomá-lo nos seus braços. Maria ensina-lhe a contemplá-lo com os olhos do coração e a viver d’Ele. Em todos os momentos da vida do seminário, pode-se experimentar esta afectuosa presença d Nossa Senhora, que leva cada um ao encontro com Cristo, no silêncio da meditação, na oração e na fraternidade. Maria ajuda a encontrar o Senhor sobretudo na Celebração eucarística, quando na Palavra e no Pão consagrado Ele se faz nosso alimento espiritual quotidiano.

A santidade, amizade com Cristo

«E prostrando-se adoraram-no ...; e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra» (Mt 2, 11-12). E este o come de todo o itinerário: o encontro converte-se em adoração, dando lugar a um ato de fé e de amor que reconhece em Jesus, nascido de Maria, o Filho de Deus feito homem. Como não ver prefigurado no gesto dos Magos a fé de Simão Pedro e dos outros Apóstolos, a fé de Paulo e de todos os santos, em particular dos santos seminaristas e sacerdotes que marcaram os dois mil anos de história da Igreja?

O segredo da santidade é a amizade com Cristo e a adesão fiel à sua vontade. «Cristo é tudo para nós», dizia Santo Ambrósio; e São Bento exortava a não antepor nada ao amor de Cristo. Que Cristo seja tudo para vós. Especialmente vós, queridos seminaristas, oferecei a Ele o que tendes de mais precioso, como sugeria o venerado João Paulo II na sua Mensagem para esta Jornada Mundial: o ouro da vossa liberdade, o incenso da vossa oração fervorosa, a mirra do vosso afecto mais profundo (cf. n. 4).

Preparação para a missão sacerdotal

O seminário é um tempo de preparação para a missão. Os Magos «regressaram» à sua terra, e certamente deram testemunho do encontro com o Rei dos Judeus. Também vós, depois do longo e necessário itinerário formativo do seminário, sereis enviados para serdes os ministros de Cristo; cada um de vós voltará para vossa gente como alter Christus.

Na viagem do regresso, os Magos tiveram de enfrentar certamente perigos, sacrifícios, desorientação, dúvidas... Já não tinham a estrela para guiá-los! Agora a luz estava dentro deles. Agora tinham eles que guardá-la e alimentá-la com a memória constante de Cristo, do seu Rosto santo, do seu Amor inefável.

Queridos seminaristas! Se Deus quiser, também vós um dia, consagrados pelo Espírito Santo, iniciareis a vossa missão. Recordai sempre as palavras de Jesus: «Permanecei no meu amor» (Jo 15, 9). Se permanecerdes em Cristo, dareis muito fruto. Não fostes vós que O escolhestes, mas foi Ele que vos escolheu (cfr. Jo 15, 16). Eis aí o segredo da vossa vocação e da vossa missão! Está guardado no coração imaculado de Maria, que vela com amor materno sobre cada um de vós. Recorrei frequentemente a Ela com confiança. Eu vos asseguro o meu afecto e a minha oração quotidiana, e de todo o coração vos abençoo.

 

 


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