aCONTECIMENTOS eclesiais

DA SANTA SÉ

 

 

INSTRUÇÃO ECCLESIAE SPONSAE IMAGO,

SOBRE A ORDEM DAS VIRGENS CONSAGRADAS

 

A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica publicou no passado dia 3 de Julho a Instrução Ecclesiae Sponsae Imago sobre a Ordem das Virgens, o primeiro documento da Santa Sé que aprofunda e disciplina esta forma especial de vida consagrada.

 

O cardeal brasileiro João Braz de Aviz, Prefeito do dicastério, apresenta assim o documento:

“«As virgens consagradas são imagem da Igreja esposa de Cristo», desta forma o decreto da Sagrada Congregação para o Culto Divino, que mandatado pelo Beato Papa Paulo VI promulgou o novo Rito da consagração das virgens, apresentava as mulheres consagradas na Ordo virginum. Era 31 de Maio de 1970. Como acontecia nas comunidades apostólicas e na época patrística, após  séculos era concedida a possibilidade de receber esta consagração também às mulheres que permanecem no seu ordinário contexto de vida, e deixava de ficar reservado às monjas.

“A Instrução Ecclesiae Sponsae Imago, que a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica retoma essa definição. Depois do Rito litúrgico e das normas nela contidas, a Instrução é o primeiro documento da Sé Apostólica que aprofunda a fisionomia e a disciplina desta forma de vida.

“Dentro de dois anos, em 2020, o Rito retomado celebrará o 50º aniversário. No meio século passado, com a resposta da Igreja particular, esta peculiar vocação feminina foi conhecida e amada em todo o mundo.

“As virgens consagradas estão presentes em todos os continentes, em numerosas dioceses, e oferecem o seu próprio testemunho de vida em todos os âmbitos da sociedade e da Igreja. Em 2016, durante o Ano da Vida Consagrada, uma estatística aproximada estimava a presença de mais de cinco mil virgens consagradas no mundo, em contínuo crescimento.

“A Instrução sobre a Ordo virginum pretende responder aos pedidos que numerosos Bispos e virgens consagradas nestes últimos anos têm apresentado à Congregação para a Vida Consagrada sobre a vocação e o testemunho da Ordo virginum, a sua presença na Igreja universal, e – em particular – sobre a formação vocacional e o discernimento.

Ecclesiae Sponsae Imago quer ajudar a descobrir a beleza desta vocação e contribuir para mostrar a beleza do Senhor que transfigura a vida de tantas mulheres que diariamente a experimentam.

“Expresso hoje um desejo, o de organizar e ver reunidas em Roma virgens consagradas de todo o mundo, para um novo encontro internacional em 2020, para celebrar com Pedro, o 50º aniversário do Rito”.

 

 

NOVO PREFEITO DA

SECRETARIA PARA A COMUNICAÇÃO

 

No passado dia 5 de Julho, o Papa Francisco nomeou o jornalista italiano Paolo Ruffini, de 61 anos, casado, como Prefeito do Dicastério para as Comunicações da Santa Sé, organismo criado em 2015 para coordenar os media do Vaticano.

 

Ruffini, até agora director da TV2000, televisão da Conferência Episcopal Italiana, torna-se assim no primeiro leigo a dirigir um dicastério da Cúria Romana.

Jornalista profissional desde 1979, trabalhou em vários jornais, rádio e TV italianos. Recebeu diversos prémios de jornalismo e tomou parte em numerosos congressos de estudo sobre o papel dos cristãos na informação, a ética da comunicação e os novos media.

A Secretaria para a Comunicação tinha sido instituída pelo Papa Francisco a 27 de Junho de 2015 para responder “cada vez melhor às necessidades da missão da Igreja”.

Em Março de 2018, Francisco aceitara a renúncia de Mons. Dario Viganò como prefeito da Secretaria para a Comunicação, por uma falha importante acontecida.

Em Junho passado, o Papa tinha decidido transformar a Secretaria para a Comunicação do Vaticano no novo Dicastério para a Comunicação, reenquadrando o trabalho deste organismo na Cúria Romana com uma maior importância.

 

 

RECONHECIDAS VIRTUDES HERÓICAS

DE FUTUROS SANTOS

 

No passado dia 5 de Julho, o Papa Francisco recebeu em audiência o cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Durante a audiência, o Sumo Pontífice autorizou a Congregação a promulgar os Decretos das virtudes heróicas, entre outros dos Servos de Deus Giorgio La Pira, Carlo Acutis e Alessia González-Barros.

 

Giorgio La Pira nasceu em Pozzallo, Sicília, em 9 de Janeiro de 1904, mas desenvolveu a sua actividade principalmente em Florença, onde foi prefeito de 1951 a 1957 e de 1961 a 1965.

Era fundamental para ele levar “o pão da graça” ao povo, isto é, responder às necessidades de fé e também às necessidades materiais, como casa e trabalho, âmbito em que trabalhou arduamente.

La Pira era também professor universitário, estudioso, deputado pela Democracia Cristã, homem político e de fé, de oração, verdadeiro construtor de paz. Em 1951 interveio junto de Estaline pela paz na Coreia e em 1964 foi aos Estados Unidos para defender a lei sobre os direitos civis das minorias étnicas. Em 1965 foi a Hanói encontrar-se Ho Chi Min, em favor da paz no Vietnam.

Ele tinha um grande amor pelos pobres e era dotado de grande humildade. Faleceu em Florença em 5 de Novembro de 1977.

 

Carlo Acutis morreu com apenas 15 anos. A história deste rapaz é uma daquelas que tocam profundamente pela morte prematura e pela limpidez da sua alma. Carlo nasceu em 3 de Maio de 1991 em Londres, onde a família estava a trabalhar. Mais tarde, em Milão, começou a ter uma relação cada vez mais intensa com a fé, desde o ensino básico. Apaixonado pela Internet, fez dela um meio de evangelização. Testemunha disto, é uma exposição virtual por ele organizada quando tinha 14 anos, sobre os milagres eucarísticos.

Central para ele era a Eucaristia, a sua “auto-estrada para o céu”, o rosário, o amor pelos outros. Um rapaz que vivia como todos, mas apaixonado por Cristo, até chegar uma leucemia fulminante que pôs fim à sua vida em 12 de Outubro de 2006, em Monza.

 

Também Alessia González-Barros morreu muito jovem, com apenas 14 anos de idade, acometida de um tumor maligno, após muitas cirurgias. Nascida em Madrid em 7 de Março de 1971, Alexia oferecia o seu sofrimento pela Igreja, pelo Papa e pelos outros. Ela morreu em Pamplona em 5 de Dezembro de 1985.

 

 

PAULO VI E HUMANAE VITAE

 

No dia do 50º aniversário da Humanae vitae, 25 de Julho passado, redescobrimos as palavras que Paulo VI dedicou à Encíclica durante a Audiência geral realizada uma semana depois da publicação do texto. O Papa Montini fazia um apelo aos esposos cristãos, para que o documento meticulosamente realizado não seja visto como uma série de proibições, mas uma contribuição para a sua vocação.

 

Uma quarta-feira em pleno verão, com a multidão de fiéis e um calor que não vem da meteorologia. Paulo VI está em Castel Gandolfo e preside a Audiência geral na Sala do Palácio Pontifício. A sua primeira frase estimula o fermento. “Hoje as nossas palavras – anuncia – abordarão um tema obrigado acerca da Encíclica, intitulada Humanae vitae…”.

Talvez seja o momento que o Papa mais esperava, há dias. O momento de falar directamente aos fiéis e de falar com o coração aberto de um tema que por muitos anos, e até uma semana antes, o absorveu no esforço de completar um dos documentos mais delicados e complexos do seu Pontificado e da Igreja contemporânea.

Poucas linhas e eis o ponto nevrálgico: “Este documento pontifício (…) não é só a declaração de uma lei moral negativa, isto é, a exclusão de qualquer acção que se proponha tornar impossível a procriação, mas é sobretudo a apresentação positiva da moralidade conjugal para a sua missão de amor e de fecundidade …”.

Paulo VI conhece bem as críticas e as reservas sobre o texto dentro e fora da Igreja. Aconteceu então que o habitual andamento do monólogo, sóbrio e solene ao mesmo tempo, se quebre. Ouvindo a gravação daquela audiência geral, o destaque ao termo “apresentação positiva” praticamente sobressai no microfone.

O adjectivo “positivo” é o ponto forte da emoção que deixa de ser austera e revela o coração do homem, não só do Papa. O coração de quem – além do difícil debate criado sobre a Encíclica – sente a necessidade de se explicar inúmeras vezes. Contar sobre a elaboração da Encíclica que o Papa revisou pessoalmente com escrúpulo, parágrafo por parágrafo, para transformá-la em um acto de magistério não é um tipo de pensamento autocrático insensível, mas a reflexão ditada antes de tudo pelo amor de um pai para com a família, especialmente das famílias que no dia-a-dia medem a vida com a fé.

O próprio Papa Montini declara à multidão presente na audiência que não quer falar na ocasião sobre o conteúdo da Humanae vitae. Para ele, naquele último dia de Julho, interessa dar espaço aos “sentimentos”. Os sentimentos que preencheram o “ânimo” durante os “quatro anos” para o estudo e elaboração da Encíclica. “O primeiro sentimento – confidencia –  foi o da nossa grandíssima responsabilidade, (…) que nos fez também sofrer um pouco espiritualmente. (…) Estudamos, lemos, debatemos o mais que pudemos; e também rezámos muito”. O uso do plural parece aumentar a fadiga de um trabalho que Paulo VI não faz questão de dissimular: ouviu e confrontou todas as vozes competentes na matéria.

Depois, no decorrer da audiência, acrescenta: “outro sentimento que sempre nos guiou no nosso trabalho é o da caridade, da sensibilidade pastoral para aqueles que são chamados a integrar na vida conjugal e na família a própria personalidade”. E um terceiro sentimento, afirma, é o da “esperança”. A “esperança de que sejam os esposos cristãos – disse – a compreender como a Nossa palavra, embora possa parecer severa e árdua, deseja ser intérprete da autenticidade do seu amor, chamado a transfigurar-se a si mesmo na imitação do amor de Cristo para a sua mística esposa, a Igreja” e a “infundir na família moderna a sua espiritualidade própria, fonte de perfeição para os seus membros e de testemunho moral na sociedade”.

 

 

JOVENS ITALIANOS

REUNIRAM-SE COM O PAPA

 

Jovens italianos reuniram-se com o Santo Padre nos dias 11 e 12 de Agosto passado. Um momento para preparar o Sínodo dos Bispos de 2018 dedicado ao tema: “os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

 

Foi no final da tarde de sábado dia 11 de Agosto que o Papa Francisco se encontrou com os jovens italianos vindos das dioceses do país. O cenário foi o Circo Máximo em Roma para um grande momento de proximidade e diálogo do Santo Padre com os jovens.

Estiveram na Cidade Eterna mais de setenta mil jovens numa iniciativa que teve como nome “A Caravana da Esperança” e levou a Roma jovens de 195 dioceses da Itália, preparando, assim, o Sínodo dos Bispos que, precisamente, tratará da problemática dos jovens e que decorrerá no Vaticano de 3 a 28 de Outubro.

O Papa foi acolhido no Circo Máximo com grande alegria e carinho. A interacção dos jovens com o Papa foi feita de modo simples através de perguntas e respostas. Um verdadeiro momento de diálogo. Nessa troca de palavras e de inquietações, Francisco afirmou que “os sonhos não se compram”, e sublinhou que são “um dom de Deus, um dom que Deus semeia” no coração dos jovens.

O Santo Padre exortou os jovens a não terem medo de apostar no amor, não como uma lotaria, mas no amor que é fiel, que “faz crescer o outro”, no “amor fecundo” que é testemunho de vida, pois – disse o Papa – “a Igreja sem testemunho é apenas fumo”.

Depois de longo momento de diálogo com os jovens, teve lugar em Roma uma grande Vigília de Oração e durante toda a noite dezanove igrejas de Roma ficaram abertas para acolher os jovens que quisessem passar momentos de oração, adoração eucarística, cultura e espiritualidade e celebrar o sacramento da Reconciliação.

 

No domingo dia 12 de Agosto o cenário deste encontro dos jovens italianos com o Papa foi a Praça de São Pedro, onde foi celebrada uma Eucaristia presidida pelo Cardeal Gualtiero Basseti, Presidente da Conferência Episcopal Italiana e concelebrada por 120 bispos. O Santo Padre chegou mais tarde para a oração mariana do Angelus.

Destaque para a frase várias vezes repetida pelo Papa na oração do Angelus: “É bom não fazer o mal, mas é mau não fazer o bem”. Uma frase que os jovens foram convidados a repetir e a testemunharem na sua vida, pois – assinalou o Papa – “o cristão não pode ser hipócrita: ele deve viver de maneira coerente. As promessas do Baptismo têm dois aspectos: renúncia do mal e adesão ao bem” – afirmou Francisco.

 

 

O IDEAL DO AMOR E DO MATRIMÓNIO

 

No encontro do Papa com jovens italianos, no Circo Máximo, na tarde do dia 11 de Agosto, o diálogo foi feito através de perguntas e respostas.

 

Martina, de 24 anos, colocou uma questão a que o Papa deu muita importância: “Por que é que o desejo de estabelecer relações autênticas, o sonho de formar uma família, são considerados menos importantes e devem estar subordinados a conseguir primeiro uma realização profissional?”

O Papa começou explicando que “a ideia de escolha que hoje respiramos, é uma ideia de liberdade sem vínculos, sem compromissos e sempre com uma possibilidade de escapar: eu escolho, mas …”

“Tu puseste o dedo na ferida: escolho o amor, mas não agora, quando terminar os estudos. Aquele mas trava, não nos deixa ir para a frente, não nos deixa sonhar, tira-nos a liberdade. Há sempre um mas, que por vezes se torna maior que a escolha e a sufoca”.

“A liberdade é um grande dom que nos é dado e que devemos cuidar, para ir crescendo. A liberdade não admite meias medidas. Tu falavas da maior liberdade, que é a liberdade do amor: por que devo terminar o curso universitário antes de pensar no amor?”

“O amor chega quando quer, o verdadeiro amor. Os jovens sabem bem quando é o verdadeiro amor e quando é o simples entusiasmo tingido de amor”.

“O amor é a vida e se o amor chega hoje, por que devo esperar três, quatro, cinco anos para o fazer crescer e torná-lo estável?”

“É necessário colocar sempre em primeiro lugar o amor, mas o verdadeiro amor, aprendendo a discernir quando é o verdadeiro amor e quando é só o entusiasmo”.

“Há outra coisa muito importante. O maior inimigo do amor é a dupla vida; não é só parar de crescer até terminar o curso, mas levar a dupla vida [viver como casada, sem o estar]”.

“Porque no verdadeiro amor, o homem tem uma tarefa e a mulher tem outra tarefa. Sabeis quais são?

“Qual é a tarefa do homem no amor? Tornar mais mulher a esposa, ou a namorada. E qual é a tarefa da mulher no amor? Tornar mais homem o marido, ou o namorado. É um labor a dois, que crescem juntos. O homem não pode crescer sozinho no matrimónio, se não o ajuda a mulher e a mulher não pode crescer sozinha, se não a ajuda o marido. Esta é a unidade: serão os dois uma só carne. Este é o ideal do amor e do matrimónio”. 

“Que vos parece? Um ideal assim, quando é verdadeiro, maduro, deve adiar-se por outros interesses? Não, é necessário arriscar no amor, mas no verdadeiro amor, não no entusiasmo tingido de amor”.

“ O amor é o meu tesouro, a coisa mais preciosa da minha vida. Por isso, vender tudo para adquirir o tesouro. Daí que o amor é fiel e fecundo”.

 

 

DECLARAÇAO DA SANTA SÉ ANTE

RELATÓRIO DE ABUSOS NA PENSILVÂNIA

 

Ante o relatório sobre abusos sexuais publicado na Pensilvânia (EUA), o Director da Sala de Imprensa da Santa Sé fez no passado dia 16 de Agosto a seguinte declaração:

 

“Perante o relatório tornado público na Pensilvânia nesta semana, duas palavras podem exprimir os sentimentos ante estes crimes horríveis: vergonha e dor.

“A Santa Sé toma muito a sério o trabalho realizado pelo Grande Júri de Investigação da Pensilvânia e o longo Relatório que elaborou. A Santa Sé condena inequivocamente o abuso sexual de menores.

“Os abusos descritos no relatório são criminais e moralmente reprováveis. Esses actos traíram a confiança e roubaram às vítimas a sua dignidade e a sua fé. A Igreja deve aprender duras lições do passado e reconhecer que se devem assumir responsabilidades, por parte quer de quem cometeu abusos, quer de quem permitiu que isso acontecesse.

“A maior parte do que se lê no relatório refere-se aos abusos anteriores aos primeiros anos de 2000. Não tendo quase encontrado casos após 2002, as conclusões do Grande Júri concordam com estudos anteriores, que mostraram como as reformas feitas pela Igreja Católica nos Estados Unidos reduziram drasticamente a incidência dos abusos cometidos pelo clero. A Santa Sé encoraja constantes reformas e vigilância em todos os níveis da Igreja Católica, para garantir a protecção das crianças e dos adultos vulneráveis. Além disso, sublinha a necessidade de obedecer à legislação civil, inclusive a obrigação de denunciar os casos de abusos contra menores.

“O Santo Padre sabe bem quanto estes crimes podem abalar a fé e o espírito dos fiéis e reafirma o apelo a fazer todo o esforço para criar um ambiente seguro para os menores e os adultos vulneráveis na Igreja e em toda a sociedade.

“As vítimas devem saber que o Papa está do lado delas. A sua prioridade são os que sofreram e a Igreja quer ouvi-los para extirpar este trágico horror, que destrói a vida dos inocentes”.

 

 

DECLARAÇÃO DA SANTA SÉ

SOBRE CARTA DO PAPA SOBRE ABUSOS

 

O director da Sala de Imprensa da Santa Sé, Greg Burke, divulgou no passado dia 20 de Agosto uma declaração sobre a Carta do Papa Francisco aos fiéis, em relação aos crimes de abusos contra menores cometidos por expoentes da Igreja.

 

Greg Burke começou afirmando que não se trata de um sentimento dirigido somente à Irlanda, Estados Unidos e Chile:

“O Papa Francisco, de facto, escreveu ao Povo de Deus, e isso significa que escreveu a todos. É significativo que o Papa defina o abuso um crime, não somente um pecado, e que peça perdão; mas reconhece também que nenhum esforço para reparar o mal feito será suficiente nem para as vítimas, nem para os sobreviventes.

“Ao longo dos anos, o Papa ouviu muitas vítimas e isso transparece claramente na carta. Ele enfatiza que as feridas provocadas pelos abusos nunca serão curadas. O Papa Francisco reitera que se faz necessária com urgência uma maior responsabilidade, não somente por parte daqueles que cometeram esses crimes, mas também por parte daqueles que os encobriram, quando, em muitos casos, são bispos.

“Além de solicitar à Igreja Católica que se apliquem as tutelas necessárias (para a protecção das pessoas) nas suas instituições, o Pontífice também pede a todos os fiéis que façam a sua parte, com os meios mais tradicionais para combater o mal: a oração e a penitência”.

 

 

TOLERÂNCIA ZERO

PARA OS ABUSOS

 

A Comissão Pontifícia para a Protecção das Crianças, após a publicação da Carta do Papa ao povo de Deus sobre a questão dos abusos na Igreja, deu a conhecer o seu comunicado.

 

A Comissão Pontifícia para a Protecção das Crianças “sente-se encorajada” pela Carta do Papa Francisco ao Povo de Deus sobre a praga dos abusos. A Comissão agradece ao Santo Padre “pelas suas fortes palavras que reconhecem a dor e o sofrimento das pessoas que sofreram abusos sexuais, abuso de poder e abuso de consciência, perpetrados por alguns membros da Igreja”. “Seremos para sempre devedores – continua o comunicado – à coragem profética e à resistência de muitos homens e mulheres cujo grito foi mais poderoso do que todos os meios que queriam silenciá-lo”.

Os membros da Comissão Pontifícia, lê-se na nota, “sentem-se amparados” pelo apelo do Papa aos líderes da Igreja para que, na luta contra os abusos sexuais, adoptem a “tolerância zero” e implementem “os modos para chamar à responsabilidade todos aqueles que cometem ou encobrem estes crimes”. A Carta do Papa Francisco, continua o comunicado, reforça a mensagem da Comissão Pontifícia para a qual “a tolerância zero e a responsabilidade são um pré-requisito para salvaguardar as pessoas vulneráveis aos abusos, agora e no futuro”.

 

Corolários

 

A nota é acompanhada por uma declaração da Prof.a Myriam Wijlens, membro do organismo presidido pelo Cardeal Sean O'Malley. Para a docente de direito canónico, três aspectos emergem na Carta do Papa. Em primeiro lugar, afirma, “Francisco exprime claramente uma ligação entre abuso sexual, abuso de poder e abuso de consciência” e sublinha assim “o que muitos não querem reconhecer”. Em segundo lugar, afirma a Prof.a Wijlens, o Papa “menciona dois níveis de abuso de poder: há quem usa a sua posição para abusar sexualmente de crianças e adultos vulneráveis e há quem ocupa posições de liderança e abusa do seu poder para encobrir” estes abusos.

Em terceiro lugar, prossegue a canonista holandesa, o Papa admite que “pedir perdão e procurar a reparação nunca será suficiente”. Uma resposta a longo prazo, adverte, requer “uma mudança radical da cultura na qual a segurança das crianças tenha a máxima prioridade”. “Proteger a reputação da Igreja – acrescenta – requer colocar em primeiro lugar a segurança das crianças. O clero por si só não será capaz de implementar uma mudança tão radical”. Portanto, como escreve o Papa Francisco, “com humildade, será necessário pedir e receber ajuda de toda a comunidade”.

 

 

LIVRO SOBRE AMORIS LAETITIA

DE STEPHEN WALFORD

 

O Papa Francisco escreveu uma carta a Stephen Walford, pai de família e teólogo, em agradecimento pela sua publicação dedicada à Amoris laetitia, reafirmando que a Exortação Apostólica deve ser lida integramente.

 

“Pope Francis, the family and divorce. In Defense of Truth and Mercy” (Papa Francisco, a família e o divórcio. Em defesa da verdade e da misericórdia) é o título do livro escrito por Stephen Walford, dedicado à Exortação Apostólica Amoris laetitia, que o Papa saudou numa carta ao autor e da qual a revista La Civiltà Cattolica dá a conhecer o conteúdo completo.

A carta, enviada pelo Papa no dia 1º de agosto do ano passado, inevitavelmente tornou-se o prefácio do livro. Francisco dirige-se claramente não só ao teólogo, ao escritor, ao professor de música, mas também ao pai, sublinhando como os muitos problemas que hoje atingem a família são enfrentados na Exortação com uma hermenêutica que vem de todo o documento.

O Papa recorda com carinho a visita, no ano passado, no Vaticano, da família Walford, definindo-a “uma concreta expressão da Amoris laetitia” e, em seguida, reafirma alguns pontos do documento, nascido na fecundidade da oração que aspira ao serviço.

 

“A exortação pós-sinodal Amoris laetitia – escreve o Papa Bergoglio – é fruto de uma longa caminhada eclesial que envolveu dois Sínodos e uma consulta às Igrejas locais através das Conferências Episcopais. Participaram também dessa consulta os Institutos de vida consagrada e outras instituições, como universidades católicas e associações leigas. Toda a Igreja rezou, reflectiu e, com simplicidade, ofereceu várias contribuições. Ambos os Sínodos apresentaram as suas conclusões. Uma das coisas que mais me impressionou nesse processo foi o desejo de buscar a vontade de Deus para melhor servir a Igreja. Procurar para servir. Isso aconteceu através da reflexão, da troca de pontos de vista, da oração e do discernimento. Houve, é claro, tentações durante essa caminhada, mas o Espírito bom prevaleceu. Ser uma testemunha trouxe alegria espiritual”.

Além disso, Francisco insiste na oportunidade de ler Amoris laetitia na sua totalidade e desde o início, porque ela é um todo e não pode ser fragmentada: “Isso porque – explica – há um desenvolvimento quer de reflexão teológica, quer da maneira como os problemas são enfrentados. Não pode ser considerada um vademecum sobre os vários tópicos abordados. Se a Exortação não for lida na sua totalidade e na ordem dos assuntos em que foi escrita, ela não será entendida ou o entendimento será distorcido”.

O Papa diz estar certo de que o livro de Walford poderá ser útil para muitas famílias, pois ele aborda os problemas que as famílias passam de modo concreto e, sob vários aspectos, exactamente como a Amoris laetitia, que também olha para as situações e para as implicações éticas seguindo a clássica doutrina de São Tomás de Aquino. “Na Exortação – continua o Papa – são enfrentados problemas actuais e concretos: a família no mundo de hoje, a educação das crianças, a preparação para o matrimónio, as famílias em dificuldades e assim por diante. Esses assuntos são tratados com uma hermenêutica que vem de todo o documento, e que é a hermenêutica do magistério da Igreja, sempre em continuidade (e sem fracturas), e sempre amadurecendo”.

 

 

DOCUMENTO POLÉMICO

DE MONS. CARLO VIGANÒ

 

Durante a conferência de imprensa do Papa Francisco no voo de regresso da Irlanda, em 26 de Agosto passado, a correspondente da televisão norte-americana CBS, Anna Matranga, referiu-se ao documento divulgado pelo antigo Núncio nos Estados Unidos, arcebispo Carlo Maria Viganò, em conexão com o caso dos abusos sexuais recentemente divulgados na Pensilvânia.

 

Anna Matranga: Boa noite, Santo Padre! Volto ao tema dos “abusos”, de que já falou. Esta manhã, muito cedo, foi divulgado um documento do arcebispo Carlo Maria Viganò, no qual ele diz que, em 2013, teve uma conversa pessoal com Vossa Santidade no Vaticano e que, nessa conversa, ele teria falado com Vossa Santidade explicitamente sobre o comportamento e sobre os abusos sexuais do ex-cardeal McCarrick. Queria perguntar-lhe se isso era verdade. E queria também perguntar-lhe outra coisa: o arcebispo também disse que o Papa Bento XVI havia imposto sanções a McCarrick, lhe tinha dito que não podia viver no seminário, não podia celebrar Missas em público, não podia viajar; estava sob sanções da Igreja. Posso perguntar-lhe se estas duas coisas são verdadeiras?

Papa Francisco: Uma coisa: eu preferia – embora responda à sua pergunta – eu preferia que antes falássemos da viagem e depois de outros temas..., mas respondo. Eu li esta manhã esse comunicado. Li e sinceramente tenho de dizer-vos isto, a si e a todos vós que estais interessados: lede vós, atentamente, o comunicado e fazei o vosso próprio juízo. Não vou dizer uma palavra sobre isto. Acho que o comunicado fala por si mesmo, e vós tendes a capacidade jornalística suficiente para tirar as conclusões. É um acto de confiança: quando tiver passado um pouco de tempo e vós tiverdes tirado as conclusões, talvez eu fale. Mas gostaria que a vossa maturidade profissional fizesse esse trabalho: realmente far-vos-á bem. Com isto basta.

Anna Matranga: Marie Collins disse, depois de ter estado com Vossa Santidade durante o encontro com as vítimas, que falou directamente consigo precisamente sobre o ex-cardeal McCarrick; disse que Vossa Santidade foi muito duro na sua condenação de McCarrick. Eu queria perguntar-lhe: quando foi a primeira vez que Vossa Santidade ouviu falar dos abusos cometidos pelo ex-cardeal?

Papa Francisco: Isto faz parte do comunicado sobre McCarrick: estudai-o e depois falarei. Mas, como ontem não o tinha lido, permiti-me falar claramente com Marie Collins e o grupo [das vítimas], no encontro que durou realmente uma hora e meia, o que me fez sofrer muito. Mas acho que era necessário escutar essas oito pessoas; e desta reunião surgiu a proposta – que fiz eu, e eles aceitaram e ajudaram-me a realizá-la – de pedir perdão hoje na Missa, mas sobre coisas concretas. Por exemplo, a última, que eu nunca tinha ouvido: aquelas mães... – chamavam a “lavagem das mulheres” – quando uma mulher ficava grávida sem o matrimónio, ia a um hospital ou – não sei como se chamava – um instituto..., mas eram freiras que o dirigiam, e depois davam a criança para adopção. E, naquela época, havia filhos que procuravam encontrar as mães, se estavam vivas, eles não sabiam... e diziam-lhes que era pecado mortal fazer isso; e também às mães que procuravam os seus filhos, diziam que era pecado mortal. Por isso, terminei hoje dizendo que isso não é pecado mortal, mas é o quarto mandamento. E as coisas que eu disse hoje, algumas não sabia, e foi para mim doloroso, mas também com a consolação de poder ajudar a esclarecer essas coisas. E aguardo o seu comentário sobre aquele documento! Gostaria de o ter! Obrigado.

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial