Solenidade de Todos os Santos

1 de Novembro de 2018

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Senhor deu aos Santos a glória eterna, M. Carvalho, NRMS 59

 

Antífona de entrada: Exultemos de alegria no Senhor, celebrando este dia de festa em honra de Todos os Santos. Nesta solenidade alegram-se os Anjos e cantam louvores ao Filho de Deus.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Solenidade de Todos os Santos é um convite da Liturgia da Igreja para que levantemos o nosso olhar, cheios de esperança, contemplando em espírito o prémio que nos aguarda no fim da vida: a felicidade eterna no Paraíso.

«A nossa celebração eucarística inaugurou-se hoje com a exortação "Alegremo-nos todos no Senhor". A liturgia convida-nos a compartilhar o júbilo celeste dos santos, a saborear a sua alegria. Os santos não são uma exígua casta de eleitos, mas uma multidão inumerável, para a qual a liturgia de hoje nos exorta a levantar o olhar. Em tal multidão não estão somente os santos oficialmente reconhecidos, mas os baptizados de todas as épocas e nações, que procuraram cumprir com amor e fidelidade a vontade divina. De uma grande parte deles não conhecemos os rostos e nem sequer os nomes, mas com os olhos da fé vemo-los resplandecer, como astros repletos de glória, no firmamento de Deus.» (Bento XVI, 1 de Nov. de 2006).

Hoje, a fé dá-nos uma resposta à pergunta que tantas vezes fazemos: o que há depois desta vida?

 

Acto penitencial

 

Queremos hoje pedir humildemente perdão ao Senhor, pela nossa indelicadeza. Ele oferece-nos a felicidade, a alegria e a paz; e nós teimamos em nos deixarmos enganar, preferindo o pecado, fonte de tristeza, a infelicidade e o desassossego.

Prometemos ser mais dóceis ao Senhor, a partir de agora, vivendo na graça de Deus e lutando contra as tentações de cada dia.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como sugestão, o esquema A, com a Confissão e o Kyrie)

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que nos concedeis a graça de honrar numa única solenidade os méritos de Todos os Santos, dignai-Vos derramar sobre nós, em atenção a tão numerosos intercessores, a desejada abundância da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O Apocalipse, ultimo livro do Novo Testamento e o único profético do mesmo, convida-nos a contemplar um vislumbre do Céu. «Vi uma multidão imensa, — diz o texto sagrado — que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas»

É como se corresse, por momentos, a Cortina que no-lo oculta, para nos legrar com a visão dos bem aventurados, despertando em nós o desejo de ir para lá.

 

Apocalipse 7, 2-4.9-14

2Eu, João, vi um Anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em alta voz aos quatro Anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: 3«Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus». 4E ouvi o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. 9Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. 10E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro». 11Todos os Anjos formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo: 12«Amen! A bênção e a glória, a sabedoria e a acção de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amen!». 13Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». 14Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro».

 

Numa grandiosa visão, o vidente de Patmos deixa ver que no meio de tantas desgraças e ainda antes que cheguem as piores, as que correspondem à abertura do 7º selo (cap.8), os cristãos, que formam uma imensa multidão, estão sob a protecção de Deus, mesmo quando perseguidos e sujeitos ao martírio.

2-4 «O selo (o sinete de marcar) do Deus vivo». Alusão ao timbre então usado pelos monarcas para imprimir o sinal de propriedade ou autenticidade: por vezes os escravos e soldados eram marcados na pele com um ferro em brasa. O símbolo está tomado destes costumes da época e sobretudo da profecia de Ezequiel (Ez 9, 4-6), por isso alguns Padres viram nesta marca, em forma de cruz (pela alusão ao tav de Ezequiel, a última consoante hebraica), o carácter baptismal. «Cento e quarenta e quatro mil» é um número simbólico; com efeito, os números do Apocalipse são habitualmente simbólicos, o que neste caso é evidente por se tratar de um jogo de números: 12 x 12000 (doze mil por cada uma das doze tribos de Israel). Estes 144.000, segundo uns, «representam toda a Igreja sem restrição» (Santo Agostinho), pois esta é o novo Israel de Deus (cf. Gal 6, 16) e são a mesma «multidão imensa que ninguém podia contar» (v. 9). Segundo outros, estes 144.000 são os cristãos procedentes do judaísmo, muito particularmente os que foram poupados das calamidades que assolaram a Palestina, por ocasião da destruição da nação judaica no ano 70.

11 «Os (24) Anciãos». Há grande variedade de opiniões para decifrar este símbolo, não se podendo sequer estabelecer se se trata de seres angélicos ou humanos. Santo Agostinho diz que «são a Igreja universal; os 24 anciãos são os superiores jerárquicos e o povo: 12 representam os Apóstolos e os bispos, e os outros 12 representam o restante da Igreja». «Os 4 Viventes»(à letra, «animais»), uma tradução preferível a: «os 4 animais», uma vez que o terceiro tem rosto humano (cf. Apoc 4, 7). A quem representam estes seres misteriosos, que reúnem características dos querubins de Ez 1 e dos serafins se Is 6? Podem muito bem simbolizar os quatro pontos cardeais, ou os quatro elementos do mundo (terra, fogo, água e ar), isto é, a totalidade do Universo. Deste modo, a presente «visão» apresenta-nos, unidos numa única adoração e louvor a Deus e a Cristo, os Anjos, a Humanidade resgatada e o próprio Universo material. A interpretação segundo a qual os Quatro Seres simbolizam os Quatro Evangelistas deve-se a Santo Ireneu e é uma acomodação espiritual do texto inspirado.

12 «Amen! Bênção, glória…»: Aqui, como ao longo de todo o Apocalipse, sente-se como a liturgia da Igreja faz eco à liturgia celeste, especialmente nas aclamações a Deus e ao Cordeiro.

14 «A grande tribulação». Tanto se pode tratar duma perseguição aos cristãos mais violenta no fim dos tempos, como das perseguições e das tribulações em geral no curso da história da Igreja. Mas é provável que o vidente de Patmos tenha presente em primeiro plano, as violentas perseguições de Nero e Domiciano, muito embora englobando nestas todas as outras.

«Lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro». «Não se designam só os mártires, mas todo o povo da Igreja – comenta Santo Agostinho –, pois não disse que lavaram as suas túnicas no seu próprio sangue, mas no sangue do Cordeiro, isto é, na graça de Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor, conforme está escrito: e o seu sangue purifica-nos (1 Jo 1, 7)».

 

Salmo Responsorial     Sl 23 (24), 1-2.3-4ab.5-6 (R. cf. 6)

 

Monição: O salmo de meditação que a Liturgia da Solenidade de Todos os Santos nos propõe é um hino de louvor e acção de graças ao nosso Deus, Criador e Senhor de todas as coisas visíveis e invisíveis, que nos chama a participar da Sua felicidade para sempre.

Ao mesmo, tempo, ensina-nos o que devemos fazer para entrar no Céu: conservar as mãos inocentes e o coração puro.

 

Refrão: Esta é a geração dos que procuram o Senhor.

 

 

Refrão:        Esta é a geração dos que procuram o Senhor.

 

Do Senhor é a terra e o que nela existe,

o mundo e quantos nele habitam.

Ele a fundou sobre os mares

e a consolidou sobre as águas.

 

Quem poderá subir à montanha do Senhor?

Quem habitará no seu santuário?

O que tem as mãos inocentes e o coração puro,

o que não invocou o seu nome em vão.

 

Este será abençoado pelo Senhor

e recompensado por Deus, seu Salvador.

Esta é a geração dos que O procuram,

que procuram a face de Deus.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. João Evangelista, na sua Primeira Carta, lembra-nos a razão pela qual alimentamos a esperança de entrar no Paraíso: somos filhos de Deus, e o Céu é casa do nosso Pai, a nossa casa de família para sempre.

 

1 São João 3, 1-3

Caríssimos: 1Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O conheceu a Ele. 2Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. 3Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como Ele é puro.

 

A leitura é um dos textos clássicos da filiação adoptiva divina, uma exigência constante de santidade.

1 «E somo-lo de facto». S. João não se contenta com dizer que somos chamados filhos de Deus, o que bastaria para que um semita entendesse, pois para ele ser chamado (por Deus) equivalia a ser. S. João quer falar para que todos entendamos esta realidade sobrenatural que «o mundo», sem fé, não pode captar nem apreciar.

2 A filiação divina capacita-nos para a glória do Céu, pois não é uma mera adopção legal e extrínseca, como a adopção humana de um filho. A adopção divina implica uma participação da natureza divina (cf. 2 Pe 1, 4) pela graça. «Semelhantes a Deus», desde já; mas só na glória celeste se tornará patente o que já «agora somos». «O veremos tal como Ele é». Esta é a melhor definição da infinda felicidade do Céu, de que gozam todos os Santos que hoje festejamos: contemplar a Deus tal qual Ele é, não apenas as suas obras, mas a Ele próprio, «face a face» (cf. 1 Cor 13, 12).

3 «Purifica-se a si mesmo». A certeza da filiação divina conduz-nos à purificação e à imitação de Cristo, o Filho de Deus por natureza: «como Ele é puro»; efectivamente, os puros de coração hão-de ver a Deus (cf. Evangelho de hoje: Mt 5, 8).

 

Aclamação ao Evangelho          Mt 11, 28

 

Monição: O Divino Mestre dirige-nos um convite para que Lhe entreguemos as nossas preocupações e angústias, para vivermos felizes.

Agradeçamos este convite divino, aclamando jubilosamente o Evangelho que nos anuncia o caminho da felicidade.

 

Aleluia

 

Cântico: J. Duque, NRMS 21

 

Vinde a Mim, vós todos os que andais cansados e oprimidos

e Eu vos aliviarei, diz o Senhor.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 5, 1-12a

Naquele tempo, 1ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos 2e Ele começou a ensiná-los, dizendo: 3«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. 4Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. 5Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. 11Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. 12aAlegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

 

As oito bem-aventuranças, a que se junta uma nona (v. 11) a reforçar a oitava, constituem como o frontispício do Sermão da Montanha (Mt 5 – 7), «a expressão mais perfeita da mensagem evangélica, um dos mais altos cumes do pensamento humano, talvez o mais elevado» (G. Danieli); com razão disse Gandhi: «foi o discurso da montanha que me reconciliou com o cristianismo». As bem-aventuranças, expressas na terceira pessoa do plural, têm em Mateus um carácter solene e universal, dirigidas a todas as pessoas e a todos os tempos, não apenas aos ouvintes imediatos. Elas condensam a grande novidade do Evangelho, em contraste flagrante com o próprio pensamento religioso judaico então vigente, para já não falarmos do espírito mundano e hedonista do paganismo de então e do de agora. Elas não são a expressão de qualquer espécie de «ressentimento» dos pobres e desafortunados em face dos poderosos, dos ricos e satisfeitos, mas são antes um grito de protesto e de provocação lançado ao conceito de felicidade baseada na posse das riquezas, no gozo dos prazeres, na força, no poder e na fama. De modo nenhum elas são uma «ética para uso dos débeis», mas são um ideal de vida para almas fortes e generosas, uma ética que, quando vivida a sério, é capaz de renovar as pessoas e a sociedade; como o demonstra a vida dos santos. Chamamos a atenção para a motivação da felicidade em cada uma das bem-aventuranças: «porque…»: a felicidade não está na pobreza, na aflição, na perseguição, mas no seguimento de Jesus, pobre, aflito, manso, faminto e sedento, misericordioso, puro, pacificador, perseguido, o que dá direito ao gozo das promessas de Cristo. Assim se exprime Bento XVI em Jesus de Nazaré: «As bem-aventuranças são a transposição da Cruz e da Ressurreição para a existência dos discípulos» (p. 110); e ainda: «Quem lê o texto com atenção nota que as bem-aventuranças são como que uma biografia interior oculta de Jesus, um retrato da sua figura […]. Nas bem-aventuranças aparece o mistério do próprio Cristo, chamando-nos à comunhão com Ele» (p. 111).

3 «Bem-aventurados». Esta tradução (em vez de «felizes») vinca a ideia de que o Senhor promete a felicidade na bem-aventurança eterna e, ao mesmo tempo, já nesta vida, ao dizê-la do presente: «deles é» (não diz «deles será»). Mas não se trata de uma felicidade qualquer: é uma felicidade incomparável, interior e profunda, embora ainda não possuída de modo perfeito e completo na vida terrena. As bem-aventuranças têm uma dimensão escatológica e actual: correspondem a um futuro já iniciado.

«Os pobres em espírito». Como bom catequista, Mateus não deixa de especificar «em espírito», para que fique bem claro que não é o caso de uma mera situação económico-social, mas de uma atitude interior de humildade diante de Deus, de reconhecimento da própria carência de méritos e da absoluta necessidade da misericórdia de Deus para ser salvo. O desprendimento dos bens e a austeridade de vida são uma consequência desta atitude de espírito própria de quem se apoia não nos bens criados, mas só em Deus. Ao dizer «em espírito» (tô pneûmati, um dativo de relação), e não, como no v. 8, «de coração» (tê kardía: no seu íntimo, diante de Deus, em contraposição com o exterior), a expressão conota um sentido dinâmico, de acção, e portanto uma pobreza que corresponde a uma opção, isto é, uma «pobreza voluntária». É de notar que a formulação de Mateus é uma expressão religiosa coincidente com a dos textos de Qumrã (cf. 1QM, 14, 7: ‘anawê rûah).

4-5 A ordem destes versículos não é transmitida da mesma maneira em todos os manuscritos, por isso a fórmula que aparecia antes nos catecismos tem outra ordem que corresponde a uns poucos de manuscritos gregos e à Vulgata, diferente da que temos aqui; pensa-se que a ordem original teria sido alterada, a fim de facilitar a memorização e a compreensão, juntando frases semelhantes, dado o paralelismo entre os pobres e os humildes (os mansos) e entre os que choram (os aflitos) e os que têm fome e sede.

«Os que choram», isto é, os aflitos. A consolação dos que estão aflitos é um dos bens messiânicos (Is 61, 1-3; cf. Lc 4, 1ss) que Jesus garante aos seus discípulos (cf. Jo 16, 20-22). A consolação é uma forma emotivamente concreta de designar a salvação esperada e trazida por Cristo (cf. Lc 2, 25; Act 3, 20; 2 Tes 2, 16-17). O verbo na passiva «serão consolados» é uma forma reverente de se referir a Deus como agente, sem ter de o nomear (passivum divinum), equivalente a «Deus os consolará».

«Os mansos», tradução que consideramos preferível à adoptada e proposta por um bom número de exegetas. Com efeito, se bem que a tradução «os humildes» corresponda ao hebraico (‘anawîm: pobres) da passagem paralela do Salmo 37, 10-11 (mas traduzido pelos LXX por praeîs: mansos, e assim também pela Vulgata e Neovulgata: mansueti), a verdade é que a mansidão é uma noção que tem grande relevo em Mateus, pois o próprio Jesus se apresenta como «manso e humilde» (Mt 11, 29), na linha das profecias de Is 42, 1-4 (citada em Mt 12, 18-21) e de Zac 9, 9 (citada em Mt 21, 5). Por isso não nos parece que em Mateus a 1ª e a 3ª bem-aventuranças sejam simplesmente equivalentes; «mansos» são os humildes, mas com um matiz particular: são os que vencem o mal com o bem, não com a violência, mas com o perdão e com a bondade, como se insiste no mesmo sermão da montanha (Mt 5, 21-26.38-42.43-48; 6, 12.14-15). Estes são, não apenas os que são afáveis, ou simplesmente os não violentos, mas especificamente os que sofrem serenamente e sem ira, ódio ou abatimento, as perseguições injustas e as contrariedades. «Possuirão a terra» (prometida como herança), isto é, «a pátria celeste», figurada na terra prometida ao povo eleito (cf. Hebr 4, 2, 11; 11, 10.16; 12, 22; 13, 14).

6 «Fome e sede de justiça», isto é, uma fome mais espiritual do que material, pela especificação: de justiça. Estamos assim diante duma noção de natureza religiosa, central no discurso da montanha (cf. 5, 10.20; 6, 1.31.33): a submissão à vontade de Deus e aos seus desígnios de amor, uma vida justa, inocente, santa e perfeita (cf. 5, 48).

7 «Os misericordiosos»: o tema da misericórdia é central no Evangelho, pois dela o homem é extremamente necessitado e também está muito presente em Mateus; com efeito, Jesus é cheio de misericórdia (cf. 9, 36; 9, 9-13; 12, 1-7) para com os necessitados que a Ele clamam (cf. 9, 27; 15, 22; 17, 15; 20, 30.34); e esta tem de ser a atitude do discípulo para obter a misericórdia divina (cf. 6, 14-15; 18, 23-35); e é pelas obras de misericórdia que todos hão-de ser julgados sem apelo (cf. 25, 31-46).

8 «Os puros de coração», dado o contexto dos ensinamentos de Jesus, não se trata de uma simples pureza ritual que satisfaz uma série de requisitos externos para se estar em condições de realizar actos de culto (recordem-se as prescrições de Lv 11 – 16 relativos a alimentos, nascimento, actividade sexual, doença e morte), mas de uma pureza moral, que não fica hipocritamente em exterioridades farisaicas (cf. Mt 23, 25-26), mas vai, na linha da pregação dos profetas (cf. Is 1, 15-16; 29, 13; Salm 24, 3-4; 51, 12; Prov 22, 11), até ao mais profundo do interior da pessoa, onde nascem os desejos e as intenções (cf. Mt 15, 1-20; 5, 28; 12, 34). A pureza do coração é fundamentalmente a rectidão total dos pensamentos, das palavras e das acções, não apenas as boas intenções, segundo o Salmo 24, 3-4, que parece estar na base desta bem-aventurança (cf. Tg 4, 8; 1 Tim 1, 5; 2 Tim 2, 22; Hebr 10, 22). Não se limita à castidade, mas pressupõe-na e exige-a de modo particular, para se entrar em comunhão com Deus – para «ver a Deus» (cf. Hebr 12, 14; Apoc 22, 3-4; 1 Jo 3, 3; Catecismo da Igreja Católica, nº 2517-2533).

9 «Os que promovem a paz». Alguns exegetas preferem a tradução pacíficos, indicando o espírito conciliador, sereno, tolerante, indulgente e paciente (cf. Tg 3, 3-18), mas a maioria pensa que se trata não só dos pacíficos, mas daqueles que se empenham em activamente promover a paz entre os homens (e também – podíamos acrescentar – a paz dos homens com Deus, fundamento sério de toda a paz no mundo); estes «serão chamados…», uma expressão semítica que corresponde a «serão de verdade filhos de Deus» (cf. Mt 5, 45).

10 «Os que sofrem perseguição por amor da justiça» (cf. 1 Pe 3, 14), isto é, ao fim e ao cabo, por causa de Jesus (cf. Mt 10, 24-28), por viver piamente (cf. 2 Tim 3, 12). Esta «justiça», como na 4ª bem-aventurança, não é a justiça dos homens, mas corresponde à plena adesão à vontade de Deus, numa vida recta e santa.

11-12 Depois das 8 bem-aventuranças anteriores, que formam um bloco (uma inclusão marcada pela fórmula «porque deles é o reino dos Céus»: vv. 3.10), há aqui uma ampliação e uma aplicação directa aos ouvintes da 8ª e última bem-aventurança.

Finalmente quero chamar a atenção para a observação de Bento XVI na sua já citada obra, ao introduzir o tema das bem-aventuranças: «As bem-aventuranças não raramente são apresentadas como a alternativa do Novo Testamento a respeito do Decálogo, por assim dizer a mais elevada ética dos cristãos ante os mandamentos do Antigo Testamento. Com tal concepção distorce-se totalmente o sentido das palavras de Jesus. Jesus sempre pressupôs como evidente a validade do Decálogo (ver, por exemplo, Mc 10, 19; Lc 16, 17); no Sermão da Montanha são assumidos e aprofundados os mandamentos da segunda tábua, mas não são abolidos (Mt 5, 21-48)…» (p-109).

 

Sugestões para a homilia

 

• Um vislumbre do Paraíso

Uma multidão incontável

Celebrando a alegria da vitória

Quem vai para o Céu

• O caminho para chegar ao Céu

Seguir os ensinamentos de Jesus

O caminho das bem aventuranças

Somos filhos de Deus

 

1. Um vislumbre do Paraíso

 

O texto do Apocalipse é como o correr de um véu, permitindo-nos contemplar, por momentos a alegria e o esplendor do Céu, com a multidão imensa dos bem-aventurados.

 

a) Uma multidão incontável. «Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas

O número que o Apocalipse nos refere — 144.000 eleitos — é simbólico. Foi obtido multiplicando o número das 12 tribos de Israel por 12 — outro número simbólico da Bíblia a significar plenitude.

São imensamente mais as pessoas do Céu e aumentam todos os dias, porque estão sempre a entrar para lá.

«Na primeira Leitura, o autor do livro do Apocalipse descreve-os como "uma multidão enorme, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas" (Ap 7, 9). Este povo compreende os santos do Antigo Testamento, a partir do justo Abel e do fiel Patriarca Abraão, os do Novo Testamento, os numerosos mártires do início do cristianismo e também os beatos e os santos dos séculos seguintes, até às testemunhas de Cristo desta nossa época. Todos eles são irmanados pela vontade de encarnar o Evangelho na sua existência, sob o impulso do eterno animador do Povo de Deus, que é o Espírito Santo.» (Bento XVI, 1 de Nov. de 2006).

Ali estão pessoas da nossa família e outras amigas e conhecidas que frequentaram os actos de culto desta igreja e aqui rezaram muitas vezes: que trabalharam ao nosso lado e muitas vezes se encontraram connosco.

Se lhes perguntarmos o que nos gostariam de comunicar, dir-nos-ão que vale a pena amar a Deus nesta vida, fazer a Sua vontade, e não nos descuidarmos de rezar, de frequentar os sacramentos e praticar boas obras; que deixemos tantas bagatelas que não prestam para nada e sós distraem do principal e nos fazem perder tempo.

Ficamos tristes quando chegamos à paragem de um transporte com atraso e o perdemos, porque isso altera mais ou menos os nossos planos.

Imensamente mais triste é perdermos o caminho para a eternidade, enganando-nos no caminho, porque este engano não tem remédio.

Se queremos — e queremos! — fazer parte para sempre desta grande multidão de pessoas felizes, temos de procurar isto com a maior segurança possível.

 

b) Celebrando a alegria da vitória. «Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. E clamavam em alta voz: “A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”.»

Hoje, de modo especial, o Senhor convida-nos a viver a virtude da alegria, a pesar da saudade que sentimos dos nossos familiares e amigos.

Estamos a celebrar atletas nossos amigos que venceram a grande competição e receberam o prémio de serem felizes para sempre.

O nosso Deus é tão bom que não se contenta em que sejamos felizes de qualquer modo, mas senta-nos para sempre à Sua mesa para comungarmos eternamente da Sua própria felicidade.

O Céu possui três características: é a presença de todo o bem com que podemos sonhar, a ausência de qualquer espécie de mal; e para sempre.

A ideia da eternidade do Céu entusiasmou Santa Teresa de Jesus, ainda criança, que resolveu, de manhã cedo, fugir de cada com o seu irmão Rodrigo. Queriam ir para o norte de África, a fim de serem martirizados pelos mouros e deste modo conquistarem o Céu. Pelo caminho iam repetindo: “Para sempre, Rodrigo! - Para sempre, Teresa...”

Um tio que os encontrou, trouxe-os de volta a casa.

“Como é o Céu?”, perguntamos muitas vezes, com desejo de termos notícias da felicidade que nos está prometida.

Jesus Cristo pode ajudar-nos a imaginar como ele é. Compara-o a um banquete festivo de núpcias para o qual é preciso estar preparado e levar a veste própria para a festa.

S. Paulo foi arrebatado ao Céu em vida e diz-nos: «Nem os olhos viram. Nem os ouvidos a ouviram, nem passou pela mente do homem o que Deus tem prometido aos que O amam.» (I Cor 2,9).

S. João, no Apocalipse, depois de várias descrições de cenas no Céu diz-nos que «Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou.» (Apoc 21, 4).

 

c) Quem vai para o Céu. «Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: “Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?”. Eu respondi-lhe: “Meu Senhor, vós é que o sabeis”. Ele disse-me: “São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro”.»

Certo dia perguntaram a Jesus se eram muitas as pessoas que salvavam. Jesus respondeu que isso não tinha interesse em se saber, mas se cada um de nós está no caminho do Céu. «Jesus percorria cidades e aldeias, ensinando e caminhando para Jerusalém. Disse-lhe alguém: «Senhor, são poucos os que se salvam?» Ele respondeu-lhes:

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, ficareis fora e batereis, dizendo: 'Abre-nos, Senhor!' Mas ele há-de responder-vos: 'Não sei de onde sois.' 26Começareis, então, a dizer: 'Comemos e bebemos contigo e Tu ensinaste nas nossas praças.' 27*Responder-vos-á: 'Repito-vos que não sei de onde sois. Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade.»   (S. Lucas 13, 22-27).

De facto, tem todo o interesse saber — e isso agrada ao Senhor — se o modo como estamos a viver nos leva ao Céu ou nos afasta dele.

A fé ensina-nos que, terminada a nossa vida na terra, pela morte, seremos julgados sobre a nossa vida e receberemos o prémio ou o castigo eterno. É Deus, a quem nada podemos esconder, que via julgar a nossa vida

O Céu não é como um jogo do totoloto em que sai ao acaso, sem mérito de quem joga. Vai para o Céu quem se esforça por levar uma vida na amizade de Deus e do próximo e morre na graça de Deus. Quem tem a desgraça de morrer em pecado mortal, condena-se para sempre.

Quando, em 13 de Maio de 1917, Nossa Senhora apareceu aos três Pastorinhos na Cova da Iria, travou-se o seguinte diálogo entre o Céu e a terra:

Então Nossa Senhora disse-nos:– Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.

– De onde é Vossemecê? – lhe perguntei.– Sou do Céu. – E que é que Vossemecê me quer? – Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13 a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez.

– E eu também vou para o Céu? – Sim, vais.– E a Jacinta? – Também.– E o Francisco? – Também, mas tem que rezar muitos terços.”

Façamos-lhe hoje com toda a sinceridade esta mesma pergunta: — Pela vida que levo, vou para o Céu no fim da vida na terra?

E como não queremos ser egoístas, perguntemos o mesmo acerca das pessoas que vivem connosco.

 

2. O caminho para chegar ao Céu

 

a) Seguir os ensinamentos de Jesus. «Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo: [...] »

Jesus Cristo, Redentor do mundo assumiu a nossa condição humana para nos reabrir as portas do Céu — fechadas pelo pecado dos nossos primeiros pais — e nos ensinar o caminho para lá chegar. Temos, pois, de atentar no Seu exemplo e seguir com docilidade os Seus ensinamentos.

Ele continua a ensinar-nos na Igreja, dotando o Santo Padre do carisma da infalibilidade, de tal modo que, me assunto de fé e moral, nunca se pode enganar, porque o Espírito Santo assiste-lhe com o carisma da infalibilidade.

No caminho de Damasco, quando ia em perseguição dos cristãos, para os meter no cárcere e obter a sua condenação à morte, foi derrubado por terra: «aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões. E ele, tremendo e atónito, disse: Senhor, que queres que eu faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer.» (Actos 9:3-6).

Também nós temos necessidade, muitas vezes, de perguntar isto mesmo ao Senhor: « que queres que eu faça?»

Ouvir Jesus Cristo. Paulo ouviu com atenção o que Jesus lhe dizia. Se tivesse tapado os ouvidos para não ouvir, teria continuado sem orientação para a sua vida.

Precisamos de fazer esta pergunta muitas vezes na vida. Jesus Cristo continua a falar-nos na Igreja. Dotou o Santo Padre do carisma da infalibilidade, para que pudéssemos seguir os seus ensinamentos com toda a segurança.

O demónio tenta desorientar-nos com falsidades, porque não quer que cheguemos ao Céu. Estudemos a doutrina da Igreja, sem olhar aos falsos profetas.

Fazer a Sua vontade. A doutrina de Jesus Cristo tem indicações práticas para a nossa vida. Ouvir e não fazer qualquer esforço para nos emendarmos, seguindo as indicações que o Senhor nos dá, de nada nos adiamos.

De vez em quando temos e pegar no mapa da vida para verificar se não nos temos enganado no caminho.

 

b) O caminho das bem aventuranças. «Bem-aventurados os pobres em espírito, [...] os humildes, [...] os que choram, [...] os que têm fome e sede de justiça, [...] os misericordiosos, [...] os puros de coração, [...] os que promovem a paz, [...] os que sofrem perseguição por amor da justiça, [...] Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa

Quando Jesus pronuncia a palavra bem aventurados não está a referir-se apenas a uma felicidade que virá depois da morte. Muitos pensam assim erradamente, como se tivéssemos de escolher entre ser felizes nesta vida ou na outra.

O Mestre refere-Se a uma felicidade nesta vida e na futura. De facto, já na vida presente, as bem aventuranças são o caminho da felicidade Jesus anuncia-nos uma vida plena de Amor e de liberdade.

Pobreza em espírito. Ter espírito de pobreza evangélica é caminho para todos os cristãos. Não está em causa o não ter, mas o estar desprendidos.

Os bens foram-nos dados pelo Senhor para que os administremos bem, fazendo deles bom uso. Acontece, porém, que facilmente nos apegamos a eles, fazendo do dinheiro e seus derivados um ídolo: caímos na tentação de nos julgarmos superiores aos outros; de nos exibirmos com ostentação de riqueza e de poder, de luxo e esbanjamento. Jesus proclama a liberdade sobre os bens. Havemos de usá-los, mas não fazermos deles o nosso ideal.

Mansidão e humildade. Tornamo-nos facilmente arrogantes, dominadores, e até vingativos, quando temos a possibilidade de o fazer.

Jesus ensina-nos que devemos ser humildes, reconhecendo a nossa pequenez e a nossa igualdade a todas as pessoas humanas. A uma pessoa mansa e humilde todas as portas e corações se abrem.

Contrição dos pecados. Quando Jesus proclama felizes os que choram, refere-Se aos que têm contrição dos seus pecados. Reconhecer os nossos erros é um acto de verdade e caminho de amor.

A dureza e insensibilidade do coração diante das ofensas que cometemos, a incapacidade para reconhecermos os nossos pecados, não nos tornam felizes.

Fome de santidade pessoal. Um dos frutos do orgulho é a presunção. Julgamo-nos perfeitos, com direito a criticar os outros, e não sentimos necessidade de nos emendarmos, de sermos melhores, porque estamos convencidos de que já não faz falta.

Jesus alerta-nos contra este perigo e a fomentar desejos de vida mais santa, de maior perfeição nas pequenas coisas de cada dia.

Misericordiosos. A misericórdia é o amor gratuito, sem passar factura, sem esperar qualquer tipo de recompensa.

Ao jovem a quem contara a Parábola do bom Samaritano, Jesus disse: «Vai, e faz como ele.» Indigna-se contra aquele devedor que, tendo sido perdoado de uma grande soma de dinheiro, não foi capaz de perdoar uma pequena quantia a outro que lha devia.

Pureza. Em muitos ambientes, perdeu-se a noção de pureza. Mas, sem ela, não há verdadeiro amor de Deus. Muitos queixam-se de que perderam a fé e, de facto, ninguém lha roubou. Perderam-na porque a alma manchada pela lama deixa de ver, de ter fé.

Promotores da paz. Devemos perguntar-nos se, com as nossas palavras e atitudes, construímos a paz ou fomentamos a guerra, se unimos as pessoas para o bem ou fomentamos a inimizade e a divisão.

Perseguidos por causa da fidelidade a Deus. Encontramos uma oposição grande à nossa vida de acordo com os ensinamentos de Cristo. Há pessoas que, por não cederem à chantagem do pecado, perdem o emprego, não são promovidas ou passam outros maus bocados.

Recordemos que Nossa Senhora foi modelo na vivência de todas as bem aventuranças.

 

c) Somos filhos de Deus. «Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto

Todo o nosso caminho de santidade na terra se concretiza em viver de acordo com a nossa filiação divina.

O que Jesus fez, pelo mistério da Redenção, foi restituir-nos a filiação divina que nos tinha sido roubada pelo pecado e ensinar-nos a viver como bons filhos de Deus, crescendo na comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, até perpetuar esta comunhão no Paraíso.

Há diversas consequências da nossa filiação divina que vale a pena recordar.

•  Cidadãos do Céu. Quando partirmos deste mundo, iremos para a casa do nosso Pai que é o Céu. O normal é que a casa do pai seja também a de todos os filhos.

Se nos portarmos bem nesta vida, como bons filhos de Deus, amanhã estaremos com os bem aventurados que hoje celebramos.

Irmãos de todos os justos. Esta é a grande família a que pertencemos e que nos acompanhará para sempre. Temos um vínculo que nos une a todos: a graça santificante que recebemos no nosso Baptismo.

Filhos da Santíssima Virgem. Maria Santíssima é nossa Mãe, porque é Mãe de Jesus Cristo, Cabeça do Corpo Místico no qual fomos “enxertados” no momento do Baptismo. A sua maternidade universal foi declarada solenemente por Jesus Cristo na Cruz, momentos antes de morrer.

•  A Missa Sacrifício de toda a Igreja. A Santa Missa — renovação do Mistério Pascal de Cristo — reúne-nos a todos, antecipando, de algum modo, a vida do Paraíso.

Nela está presente e operante a Santíssima Trindade e, com Ela e por Ela, a Santíssima Virgem, os Anjos e toda a corte celeste.

O Céu, como nossa morada para sempre, na companhia de todos os eleitos, é o lugar normal para vivermos eternamente, porque é a casa do nosso Pai do Céu, a nossa casa de família.

Alegremo-nos com a felicidade que nos espera no fim da nossa caminhada na terra. Seremos felizes na Santíssima Trindade; com a Santíssima Virgem e S. José; com os Arcanjos e Anjos do Céu; com todos os bem-aventurados, para sempre!

 

Fala o Santo Padre

 

«O Senhor ressuscitado indica-nos, também a nós hoje, a vereda que conduz para o Céu.

Trata-se de um caminho difícil de compreender, porque vai contra a corrente;

mas o Senhor diz-nos que quem o percorre mais cedo ou mais tarde será feliz.»

  

No Evangelho ouvimos Jesus que ensina os seus discípulos e a multidão reunida na colina nos arredores do lago da Galileia (cf. Mt 5, 1-12). A palavra do Senhor ressuscitado e vivo indica-nos, também a nós hoje, o caminho para alcançar a verdadeira felicidade, a vereda que conduz para o Céu. Trata-se de um caminho difícil de compreender, porque vai contra a corrente; contudo, o Senhor diz-nos que quem percorre esta estrada é feliz, mais cedo ou mais tarde será feliz.

«Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus». Podemos perguntar-nos como pode ser feliz uma pessoa pobre de coração, cujo único tesouro é o Reino dos Céus. Mas o motivo é precisamente este: porque, tendo o coração despojado e livre de muitas coisas mundanas, esta pessoa é «esperada» no Reino dos Céus.

«Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados». Como podem ser felizes, aqueles que choram? E no entanto, quantos na vida nunca experimentaram a tristeza, a angústia e o sofrimento, jamais conhecerão a força da consolação. Ao contrário, felizes podem ser aqueles que têm a capacidade de se comover, de sentir no coração a dor que existe na sua própria vida e na existência dos outros. Eles serão felizes, uma vez que a mão terna de Deus Pai os consolará e acariciará.

«Bem-aventurados os mansos». Quanto a nós, ao contrário, quantas vezes somos impacientes, nervosos, sempre prontos para reclamar! Temos tantas pretensões em relação aos outros, mas quando nos tocam, reagimos erguendo a voz, como se fôssemos os senhores do mundo, enquanto na realidade somos todos filhos de Deus. Pensemos sobretudo naquelas mães e naqueles pais que são tão pacientes com os seus filhos, que «os perturbam». Este é o caminho do Senhor: a vereda da mansidão e da paciência. O próprio Jesus percorreu esta senda: quando era criança suportou a perseguição e o exílio; mais tarde, quando era adulto, as calúnias, as ciladas, as falsas acusações no tribunal; e suportou tudo com mansidão. E por amor a nós, chegou a suportar inclusive a cruz.

«Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados». Sim, aqueles que têm um forte sentido da justiça, e não apenas em relação ao próximo, mas antes de tudo no que se lhes refere, serão saciados porque estão prontos para receber a maior justiça, aquela que somente Deus pode proporcionar.

E depois, «bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão a misericórdia». Ditosos aqueles que sabem perdoar, que têm misericórdia pelo próximo, que não julgam tudo e todos, mas procuram colocar-se no lugar dos outros. O perdão é algo de que todos nós temos necessidade, sem excluir ninguém. É por este motivo que, no início da Missa, nos reconhecemos por aquilo que somos, ou seja, pecadores. E não se trata de um modo de dizer, de uma formalidade: é um gesto de verdade. «Senhor, eis-me aqui, tende piedade de mim!». E se soubermos oferecer aos outros o perdão que pedimos para nós mesmos, seremos bem-aventurados. Como rezamos no «Pai-Nosso»: «Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido».

«Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus». Olhemos para o rosto daqueles que saem por aí, a semear o joio: são felizes? Quantos procuram sempre ocasiões para enganar, para se aproveitar dos outros, são felizes? Não, não podem ser felizes! Ao contrário, aqueles que todos os dias, com paciência, procuram semear a paz, são construtores de paz e de reconciliação, são bem-aventurados, porque são verdadeiros filhos do nosso Pai que está no Céu, o qual semeia sempre e unicamente a paz, a tal ponto que chegou a enviar ao mundo o seu Filho como semente de paz para a humanidade.

Estimados irmãos e irmãs, esta é a vereda da santidade, que é o mesmo caminho da felicidade. Foi esta a estrada percorrida por Jesus, aliás, Ele mesmo é este Caminho: quem o percorre com Ele e passa através dele, entra na vida, na vida eterna. Peçamos ao Senhor a graça de ser pessoas simples e humildes, a graça de saber chorar, a graça de ser mansos, a graça de labutar pela justiça e pela paz, mas acima de tudo a graça de nos deixarmos perdoar por Deus, para assim nos tornarmos instrumentos da sua misericórdia.

Foi assim que agiram os santos, que nos precederam na Pátria celestial. Eles acompanham-nos na nossa peregrinação terrena, encorajando-nos a ir em frente. Que a sua intercessão nos ajude a prosseguir pelo caminho de Jesus, alcançando a felicidade eterna para os nossos irmãos e irmãs já falecidos, pelos quais nós oferecemos esta Missa.

 

Papa Francisco, Homilia, Cemitério Verano Roma, 1 de Novembro de 2015

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs, chamados à felicidade do Paraíso:

Elevemos ao Senhor a nossa oração confiada,

pelos que peregrinam nos caminhos do mundo,

para que Ele os guie com segurança à Salvação.

Oremos (cantando) com alegria:

 

    Senhor, guiai-nos ao Paraíso!

 

1.  Pelo Santo Padre, com os Bispos em comunhão com ele,

    para que desperte a esperança do Céu nos que a perderam,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor, guiai-nos ao Paraíso!

 

2. Pelos pais de família preocupados com o futuro dos filhos,

    para que os guiem, desde pequeninos, no amor a Jesus Cristo,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor, guiai-nos ao Paraíso!

 

3. Pelos que se deixaram enredar nos caminhos do pecado,

    para que o Espírito Santo os ilumine e guie à Salvação,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor, guiai-nos ao Paraíso!

 

4. Pelos doentes incuráveis e idosos sem a consolação da fé,

    para que a misericórdia do Pai os atraia ao bom caminho,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor, guiai-nos ao Paraíso!

 

5. Pelos cristãos perseguidos por causa da fé em Jesus Cristo,

    para que recebam a fortaleza prometida do Espírito Santo

    oremos, irmãos.

 

    Senhor, guiai-nos ao Paraíso!

 

6. Por todos os defuntos que, em purificação, estão fora do Céu,

    para que o Senhor da misericórdia os acolha na glória eterna,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor, guiai-nos ao Paraíso!

 

Ó Deus, que nos chamais é felicidade eterna

e por Cristo nos abristes as portas do Céu:

guiai e fortalecei os nossos passos vacilantes,

para nos tornarmos dignos das Vossas promessas.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Todos os eleitos que percorreram os nossos caminhos chegaram à felicidade terna do Paraíso iluminados pela Palavra de Deus e alimentados com o Corpo e Sangue do Senhor.

Em cada Missa participada por nós, somos iluminados na Mesa da Palavra e fortalecidos na Mesa da Eucaristia.

Finda a mesa da Palavra, o sacerdote prepara a gora a Mesa da Eucaristia. Recebeu os dons que levámos ao altar e, pelo Espírito Santo recebido na Ordenação Sacerdotal, vai transubstanciar o pão e o vinho no Corpo e Sangue do Senhor.

 

Cântico do ofertório: Aceitai, Senhor, a nossa alegria, M. Carneiro, NRMS 73-74

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai benignamente, Senhor, os dons que Vos apresentamos em honra de Todos os Santos e fazei-nos sentir a intercessão daqueles que já alcançaram a imortalidade. Por Nosso Senhor...

 

Prefácio

 

A glória da nova Jerusalém, nossa mãe

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte:

Hoje nos dais a alegria de celebrar a cidade santa, a nossa mãe, a Jerusalém celeste, onde a assembleia dos Santos, nossos irmãos, glorificam eternamente o vosso nome. Peregrinos dessa cidade santa, para ela caminhamos na fé e na alegria, ao vermos glorificados os ilustres filhos da Igreja, que nos destes como exemplo e auxílio para a nossa fragilidade.

Por isso, com todos os Anjos e Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Saudação da Paz

 

O Céu é a Pátria onde reina a verdadeira paz, porque aí se vive numa comunhão perfeita de Amor.

Só com este esforço para amarmos a Deus sobre todas a coisas e ao próximo como a nós mesmos, receberemos o dom da paz.

 

Saudai-vos na paz de Cristo.

 

Monição da Comunhão

 

Cantamos, cheios de fé: “Quem comunga o Pão da Vida, / Chega à Terra Prometida.”

Que o Corpo e Sangue do Senhor Jesus Cristo que vamos receber nos guardem para a Vida Eterna.

 

Cântico da Comunhão: Louvai nações do universo, M. Simões, 63

Mt 5, 8-10

Antífona da Comunhão: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus.

 

Cântico de acção de graças: Povos da terra, louvai ao Senhor, M. Simões, NRMS 55

 

Oração depois da Comunhão: Nós Vos adoramos, Senhor nosso Deus, única fonte de santidade, admirável em todos os Santos, e confiadamente Vos pedimos a graça de chegarmos também nós à plenitude do vosso amor e passarmos desta mesa de peregrinos ao banquete da pátria celeste. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Vamos, com Maria, desde o dia do nosso Baptismo, a caminho da felicidade eterna do Paraíso. Não há, pois, lugar na nossa vida para tristezas, pessimismos, dúvidas ou desânimos.

Anunciemos esta Esperança aos nossos companheiros de família, e profissão e de tempos livres.

 

Cântico final: Queremos ser construtores, Az. Oliveira, NRMS 35

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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