30º Domingo Comum

28 de Outubro de 2018

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Senhor que nos dais guarida, F. da Silva, NRMS 90-91

Sl 104, 3-4

Antífona de entrada: Alegre-se o coração dos que procuram o Senhor. Buscai o Senhor e o seu poder, procurai sempre a sua face.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

O Profeta Jeremias recorda-nos o infinito amor de Deus, que é “um Pai para Israel.” O Senhor salvou o Seu povo, fazendo-o regressar a Sião. Tinham partido com lágrimas nos olhos, agora, terminados os setenta anos de cativeiro em Babilónia, os israelitas regressam a cantar, cheios de consolações. O Amor salvífico de Deus revela-se de modo especial em Jesus Cristo, Sumo-sacerdote que nos ilumina com a sua Palavra de vida eterna.

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade; e para merecermos alcançar o que prometeis, fazei-nos amar o que mandais. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: «Vou trazer de novo o cego e o coxo no meio de consolações.» Jeremias 31,7-9

Sabemos que os israelitas tinham sido deportados para o cativeiro de Babilónia. Passados setenta anos, o Senhor faz regressar os cativos de Sião. Cheios de júbilo podiam cantar: Deus fez grandes maravilhas em favor do seu povo. Esta leitura enche de optimismo e de esperança todos os crentes.

 

Jeremias 31, 7-9

7Eis o que diz o Senhor: «Soltai brados de alegria por causa de Jacob, enaltecei a primeira das nações. Fazei ouvir os vossos louvores e proclamai: 'O Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel'. 8Vou trazê-los das terras do Norte e reuni-los dos confins do mundo. Entre eles vêm o cego e o coxo, a, mulher que vai ser mãe e a que já deu à luz. É uma grande multidão que regressa. 9Eles partiram com lágrimas nos olhos e Eu vou trazê-los no meio de consolações. Levá-los-ei às águas correntes, por caminho plano em que não tropecem. Porque Eu sou um Pai para Israel e Efraim é o meu primogénito».

 

A 1ª leitura é como habitualmente escolhida em função do Evangelho; é tirada da parte do livro que os críticos chamam o «Livro da Consolação» (Jer 30 – 33), considerada o núcleo de toda a obra do Profeta de Anatot, onde se anuncia a futura restauração de Israel assente sobre um descendente de David (33, 15-17) e sobre uma nova Aliança, já não escrita em placas de pedra, mas nos corações (31, 31-34).

8-9 «Vou trazê-los das terras do Norte», isto é, da Assíria, cujo rei Salmanasar V conquistara o reino do Norte (Israel ou Efraím: v. 9), em 721, havia já cerca de um século. Os israelitas tinham sido deportados em massa não só para a Assíria, mas também para os mais diversos sítios: «os confins do mundo». Notar como é o próprio Deus quem reconduz os exilados, incapacitados de sair da sua miséria; por isso a salvação não fica reservada apenas ao soldado que combate e a quem tem capacidade para se deslocar por seus próprios pés: entre a multidão que regressa para fazer parte do futuro reino messiânico, vêm «o cego e o coxo, a mulher que vai ser mãe e a que já deu à luz»: é uma bela forma poética de exaltar a intervenção divina. O v. 9 faz lembrar o Salmo 126 (125), 5-6, um Salmo de peregrinações (gradual, ou das ascensões).

 

Salmo Responsorial     Sl 125 (126), 1-2ab.2cd-3.4-5.6 (R. 3)

 

Monição: Este cântico das subidas é um salmo de alegria e de esperança em Deus. Começa com uma acção de graças pelo que já aconteceu e termina com uma súplica para que o que aconteceu, se complete. Ao lembrarem-se da alegria do regresso do exílio em Babilónia, que agora lhes parece um sonho, os habitantes de Jerusalém recordam a admiração dos próprios pagãos, ao apreciarem as grandes coisas feitas pelo Senhor: “Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião, parecia-nos viver um sonho.” Depois de um longo exílio, o povo canta a alegria da libertação.

 

Refrão:        Grandes maravilhas fez por nós o Senhor,

                     por isso exultamos de alegria.

 

Ou:               O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo.

 

Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião,

parecia-nos viver um sonho.

Da nossa boca brotavam expressões de alegria

e dos nossos lábios cânticos de júbilo.

 

Diziam então os pagãos:

«O Senhor fez por eles grandes coisas».

Sim, grandes coisas fez por nós o Senhor,

estamos exultantes de alegria.

 

Fazei regressar, Senhor, os nossos cativos,

como as torrentes do deserto.

Os que semeiam em lágrimas

recolhem com alegria.

 

À ida vão a chorar,

levando as sementes;

à volta vêm a cantar,

trazendo os molhos de espigas.

 

Segunda Leitura

 

Monição: «Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.» 

Jesus é o Sumo-sacerdote de toda a humanidade. É Sumo-sacerdote para sempre à imagem de Melquisedec, de quem não conhecemos, nem a origem nem o fim.

 

Hebreus 5, 1-6

1Todo o sumo sacerdote, escolhido de entre os homens, é constituído em favor dos homens, nas suas relações com Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. 2Ele pode ser compreensivo para com os ignorantes e os transviados, porque também ele está revestido de fraqueza; 3e, por isso, deve oferecer sacrifícios pelos próprios pecados e pelos do seu povo. 4Ninguém atribui a si próprio esta honra, senão quem foi chamado por Deus, como Aarão. 5Assim também, não foi Cristo que tomou para Si a glória de Se tornar sumo sacerdote; deu-Lha Aquele que Lhe disse: «Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei», 6e como disse ainda noutro lugar: «Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec».

 

O v. 1 é uma bela e válida síntese do que é ser sacerdote. Os vv. 1-4, começam por descrever as características gerais dum sumo sacerdote, um sacerdote do A. T., para depois demonstrar como Jesus cumpriu cabalmente as exigências desta figura de sacerdote. A leitura de hoje apenas desenvolve a última característica: a vocação divina (v. 4). Como Aarão, que foi escolhido por Deus (cf. Ex 28, 1), assim também Jesus não se arrogou por si próprio a honra de se tornar Sumo Sacerdote (v. 5), pois Ele, sendo o Filho de Deus anunciado no Salmo 2, 7, é constituído Sacerdote de uma natureza superior à do sacerdócio levítico, pois cumpre a figura do Salmo 110 (109), 4, um Salmo considerado messiânico pelos próprios judeus: «sacerdote para sempre à maneira de Melquisédec». Mais adiante explicar-se-á a razão da superioridade do sacerdócio de Melquisédec, no capítulo 7, de que vamos ter um pequeno trecho no próximo Domingo.

 

Aclamação ao Evangelho          cf. 2 Tim 1, 10

 

Monição: Aleluia. Aclamemos Jesus Cristo, nosso Salvador. Morrendo, destruiu a morte e fez brilhar a vida por meio do Evangelho. Aleluia. (2 Tim 1, 10) 

 

Aleluia

 

Cântico: Az. Oliveira, NRMS 36

 

Jesus Cristo, nosso Salvador, destruiu a morte

e fez brilhar a vida por meio do Evangelho.

 

 

Evangelho

 

São Marcos 10, 46-52

Naquele tempo, 46quando Jesus ia a sair de Jericó com os discípulos e uma grande multidão, estava um cego, chamado Bartimeu, filho de Timeu, a pedir esmola à beira do caminho. 47Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». 48Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem piedade de mim». 49Jesus parou e disse: «Chamai-o». Chamaram então o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». 50O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. 51Jesus perguntou-lhe: «Que queres que Eu te faça?» O cego respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja». 52Jesus disse-lhe: «Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.

 

A vivacidade da narração e o colorido próprio do Evangelho de S. Marcos encontram aqui um exemplo típico. Assim há uma série de pormenores que não aparecem nos relatos paralelos de Mateus e Lucas: a referência aos discípulos (v. 46), o nome do cego com a sua respectiva tradução (v. 46), as palavras que dizem os que chamam o cego (v. 49: «Coragem! Levanta-te que Ele está a chamar-te»), e também o gesto de o cego largar a capa e de se levantar dum salto (v. 50), bem como a forma de ele se dirigir a Jesus com a delicada expressão «rabbuní» (v. 51), em vez da forma seca rabbí. Todos estes pormenores, bem como aqueles que são comuns aos restantes Sinópticos, reforçam o valor histórico do Evangelho, especialmente a referência ao nome do miraculado, coisa rara nos relatos evangélicos. S. Marcos não foi certamente uma testemunha ocular do facto, mas, ao registar todos estes detalhes, teve em conta o Evangelho como era pregado por Pedro, de quem foi companheiro e colaborador, que Papias chama «o intérprete de Pedro».

Na passagem paralela, S. Mateus fala de dois cegos que Jesus curou, ao sair de Jericó. S. Lucas fala da cura de um, ao entrar em Jericó, ao passo que S. Marcos diz: «Quando Jesus ia a entrar em Jericó» (v. 46). Se queremos valorizar todos estes pormenores, podemos recorrer à explicação habitual da discrepância: trata-se de dois cegos diferentes; e S. Mateus, de acordo com o seu hábito de sintetizar e simplificar, fala da cura dos dois de uma só vez, quando saía de Jericó.

A insistência dos Evangelhos na cura de invisuais – com mais de uma dezena de referências – parece que se deve não apenas à frequências deste tipo de doentes, mas também a uma intenção teológica dos evangelistas, de modo a que assim fique patente que Jesus é a luz do mundo, como aparece expressamente no capítulo 9 de S. João na cura do cego (Jo 9, 5; cf. Jo 1, 9; 8, 12; 12, 35-36). Jesus vem iluminar os corações com a luz da fé – «a tua fé te salvou» (v. 52) – vem curá-los, purificando-os; com efeito «o fundo dos olhos é o coração» (R. Guardini); e, sem um coração limpo, não há olhos sãos. Também se pode ver uma intenção didáctica no pormenor de mostrar como o cego deixa de estar à beira do caminho (v. 46), para «seguir Jesus pelo caminho» (v. 52); este é o rumo que toma quem se deixa curar por Jesus; «caminho» tornou-se mesmo uma expressão para designar a fé e a vida cristã (cf. Act 9, 2; 18, 25.26; 19, 9.23; 22, 4; 24, 14).

 

Sugestões para a homilia

 

Mestre, que eu veja.

Cidade de Jericó

 

«Mestre, que eu veja.» 

A profecia da primeira leitura, dizendo que entre os que regressam do exílio estaria o cego, foi escolhida porque se relaciona com o Evangelho de hoje. Jesus realiza a cura de um cego, na cidade de Jericó. Este cego tem um nome, chama-se Bartimeu, é uma pessoa concreta, é filho de Timeu e estava sentado à beira do caminho a pedir esmola. Ouvindo a voz das pessoas, perguntou quem estava a passar por ali. Responderam-lhe que era Jesus de Nazaré. Certamente já tinha alguma ideia de Jesus, cuja fama se tinha espalhado por toda a terra de Israel (Luc 4,37), por causa dos milagres realizados. Então cheio de fé e de esperança, gritou: “Jesus, Filho de David, tem piedade de mim.”

Muitos repreendiam-no para o fazer calar. Mas Jesus foi sensível àquele pedido persistente e mandou-o chamar. Foram dizer-lhe: Coragem! Levanta-te. Jesus chama-te. São Marcos descreve esta cena cheia de movimento e realismo de modo que nós podemos imaginar o que se passou, como se estivéssemos a ver um filme: Aquele homem, deitando fora a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus. Pela maneira de pedir e pela decisão imediata que tomou, podemos dizer que este cego reconheceu em Jesus o Messias, descendente do célebre rei David.

Na linguagem bíblica o manto é um símbolo de segurança e de poder. Ao tocar no manto de Jesus, os doentes ficavam curados: “Onde quer que Jesus entrasse, nos povoados, nas cidades ou nos campos, levavam os doentes. Rogavam-Lhe que ao menos lhes permitisse tocar a borda do Seu manto. E todos os que a tocavam ficavam curados ( cf. Mc 5, 27. 6, 56). O cego, ao abandonar o seu manto faz um corte com o seu passado. No tempo de S. Marcos, os baptizados deixavam o seu manto para se revestirem com o manto novo do baptismo, que simboliza a vida nova da graça. O baptismo, nos primeiros tempos da Igreja, também se chamava iluminação. Era o sacramento da abertura dos olhos. O baptismo é a passagem das trevas para a luz.

“Jesus perguntou: Que queres que eu te faça? O cego respondeu-Lhe: Mestre, que eu veja.”

 Que coisa mais lógica! O cego recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.

Senhor Jesus, abre-me os olhos à tua luz.

 

Jericó

A cidade de Jericó, do ponto de vista histórico, é uma das mais célebres do mundo. Fica situada cerca de 250 metros abaixo do nível do mar. Segundo a arqueologia já era habitada no ano 7800, antes de Cristo. Do ponto de vista bíblico, Jericó era o símbolo da entrada na terra Prometida como nos lembra o livro de Josué. De Jericó a Jerusalém são apenas trinta e cinco quilómetros. São Marcos não descreve a subida. Hoje mostrou-nos o milagre da cura do cego Bartimeu (Marc 10,46-52). No capítulo seguinte, Jesus já se encontra na cidade de Jerusalém. No Domingo de Ramos recordámos a frágil entrada triunfal. (Marcos 11,1-10) Depois, o evangelista descreve a Última Ceia, a Paixão, a Morte e a Ressurreição.

Nas peregrinações à Terra santa, costumamos partir de Telavive rumo à Galileia, pela estrada junto ao mar. Depois da visita a Nazaré, ao Monte Tabor e ao Lago de Tiberíades, regressamos a Jerusalém pelo itinerário do Jordão, até Jericó. Jericó é um oásis, é a cidade das palmeiras, é a última etapa dos peregrinos para chegarem à Cidade Santa. Lembremos que Jesus também utilizou este caminho.

Jericó significa em hebraico “cidade da Lua”. A lua é o principal astro da noite. Foi aqui que Jesus fez o último milagre, curando o cego Bartimeu. Jesus vai vencer a noite onde estava encerrado o pobre cego. Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo! Quem me seguir não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.” (Jo 8,2) O cego Bartimeu, iluminado pelo amor de Jesus, começou uma nova vida. Tornou-se modelo de todos aqueles a quem Jesus convida: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Quem perder a vida por minha causa, há-de salvá-la.” (Marcos 8,34-35).

Jesus tinha anunciado: “O filho do homem vai sofrer muito, vai ser rejeitado pelos príncipes dos sacerdotes, pelos escribas, vai morrer, mas ao fim de tês dias ressuscitará. E dizia isto abertamente.” (Marcos 8,31-32) Ao longo do Evangelho de S. Marcos encontramos o chamado segredo messiânico. Jesus pedia silêncio acerca da sua pessoa. Agora, aproximava-se o tempo da Redenção. Já não há segredos. Jesus falava abertamente. Agora já não há problemas com a verdadeira identidade de Jesus. [1]  As pessoas repreendiam o cego para que se calasse, mas ele gritava cada vez mais: “Jesus, Filho de David, tem piedade de mim!” E Jesus aceitou esta oração cheia de confiança e confirma com um milagre que os tempos Messiânicos tinham chegado. Em Jerusalém Jesus é aclamado pela multidão com as mesmas palavras do cego Bartimeu. “Hossana, hossana ao Filho de David. Bendito o reino que vem, o reino do nosso pai David.” (Marcos 11,10) Os fariseus pedem a Jesus: “Mestre, repreende os teus discípulos.” Jesus não os repreendeu e fez esta afirmação maravilhosa: “Se eles se calarem falarão as pedras.” (Lucas 19,39-40)

 

Jesus sobe a Jerusalém e os Seus discípulos pensam que Ele vai tomar posse do reino de seu pai David. A genealogia de Jesus, diz que Ele é descendente de David, que havia de nascer em Belém, a cidade do Seu antepassado. Jesus vai reinar em Jerusalém, como reinou David, mas não é como as multidões esperam. Jesus afirmará diante de Pilatos, que pergunta: “Então Tu és rei?” Jesus responde-lhe: “É como dizes. Eu sou Rei. Mas o meu reino não é deste mundo. O meu reino não daqui” (Jo 18, 36-37) A Sua coroa é de espinhos. O Seu poder manifesta-se no serviço. O seu reino é eterno e universal, é um reino de santidade, amor, justiça e paz.

“Jesus, Filho de David, tem piedade de mim.”

Que bela jaculatória para repetirmos com frequência.[2]

 

Fala o Santo Padre

 

«Como o povo de Israel foi libertado graças à paternidade de Deus,

assim Bartimeu foi libertado graças à compaixão de Jesus.»

 

As três leituras deste domingo apresentam-nos a compaixão de Deus, a sua paternidade, que se revela definitivamente em Jesus.

O profeta Jeremias, em pleno desastre nacional, enquanto o povo é deportado pelos inimigos, anuncia que «o Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel» (31, 7). E por que o fez? Porque Ele é Pai (cf. 31, 9); e, como Pai, cuida dos seus filhos, acompanha-os ao longo do caminho, sustenta «o cego e o coxo, a mulher grávida e a que deu à luz» (31, 8). A sua paternidade abre-lhes um caminho desimpedido, um caminho de consolação depois de tantas lágrimas e tantas amarguras. Se o povo permanecer fiel, se perseverar na busca de Deus mesmo em terra estrangeira, Deus mudará o seu cativeiro em liberdade, a sua solidão em comunhão: e aquilo que o povo semeia hoje em lágrimas, recolhê-lo-á amanhã com alegria (cf. Sal 125, 6).

Com o Salmo, também nós manifestámos a alegria que é fruto da salvação do Senhor: «A nossa boca encheu-se de sorrisos e a nossa língua de canções» (125, 2). O crente é uma pessoa que experimentou na sua vida a acção salvífica de Deus. E nós, pastores, experimentamos o que significa semear com fadiga, por vezes em lágrimas, e alegrar-se pela graça duma colheita que sempre ultrapassa as nossas forças e as nossas capacidades.

O trecho da Carta aos Hebreus apresentou-nos a compaixão de Jesus. Também Ele «Se revestiu de fraqueza» (cf. 5, 2), para sentir compaixão por aqueles que estão na ignorância e no erro. Jesus é o Sumo Sacerdote grande, santo, inocente, mas ao mesmo tempo é o Sumo Sacerdote que tomou parte nas nossas fraquezas e foi provado em tudo como nós, excepto no pecado (cf. 4, 15). Por isso, é o mediador da nova e definitiva aliança, que nos dá a salvação.

O Evangelho de hoje liga-se directamente à primeira Leitura: como o povo de Israel foi libertado graças à paternidade de Deus, assim Bartimeu foi libertado graças à compaixão de Jesus. Jesus acaba de sair de Jericó. Mas Ele, apesar de ter apenas iniciado o caminho mais importante, o caminho para Jerusalém, detém-Se ainda para responder ao grito de Bartimeu. Deixa-Se comover pelo seu pedido, interessa-Se pela sua situação. Não Se contenta em dar-lhe uma esmola, mas quer encontrá-lo pessoalmente. Não lhe dá instruções nem respostas, mas faz uma pergunta: «Que queres que te faça?» (Mc 10, 51). Poderia parecer uma pergunta inútil: que poderia um cego desejar senão a vista? E todavia, com esta pergunta feita «face a face», directa mas respeitosa, Jesus manifesta que quer escutar as nossas necessidades. Deseja um diálogo com cada um de nós, feito de vida, de situações reais, que nada exclua diante de Deus. Depois da cura, o Senhor diz àquele homem: «A tua fé te salvou» (10, 52). É belo ver como Cristo admira a fé de Bartimeu, confiando nele. Ele acredita em nós, mais de quanto acreditamos nós em nós mesmos.

Há um detalhe interessante. Jesus pede aos seus discípulos que vão chamar Bartimeu. Estes dirigem-se ao cego usando duas palavras, que só Jesus utiliza no resto do Evangelho. Primeiro, dizem-lhe «coragem!», uma palavra que significa, literalmente, «tem confiança, faz-te ânimo!» É que só o encontro com Jesus dá ao homem a força para enfrentar as situações mais graves. A segunda palavra é «levanta-te!», como Jesus dissera a tantos doentes, tomando-os pela mão e curando-os. Os seus limitam-se a repetir as palavras encorajadoras e libertadoras de Jesus, conduzindo directamente a Ele sem fazer sermões. A isto são chamados os discípulos de Jesus, também hoje, especialmente hoje: pôr o homem em contacto com a Misericórdia compassiva que salva. Quando o grito da humanidade se torna, como o de Bartimeu, ainda mais forte, não há outra resposta senão adoptar as palavras de Jesus e, sobretudo, imitar o seu coração. As situações de miséria e de conflitos são para Deus ocasiões de misericórdia. Hoje é tempo de misericórdia!

Mas há algumas tentações para quem segue Jesus. O Evangelho de hoje põe em evidência pelo menos duas. Nenhum dos discípulos pára, como faz Jesus. Continuam a caminhar, avançam como se nada fosse. Se Bartimeu é cego, eles são surdos: o seu problema não é problema deles. Pode ser o nosso risco: face aos contínuos problemas, o melhor é continuar para diante, sem se deixar perturbar. Desta maneira, como aqueles discípulos, estamos com Jesus, mas não pensamos como Jesus. Está-se no seu grupo, mas perde-se a abertura do coração, perdem-se a admiração, a gratidão e o entusiasmo e corre-se o risco de tornar-se «consuetudinários da graça». Podemos falar d’Ele e trabalhar para Ele, mas viver longe do seu coração, que Se inclina para quem está ferido. Esta é a tentação duma «espiritualidade da miragem»: podemos caminhar através dos desertos da humanidade não vendo aquilo que realmente existe, mas o que nós gostaríamos de ver; somos capazes de construir visões do mundo, mas não aceitamos aquilo que o Senhor nos coloca diante de olhos. Uma fé que não sabe radicar-se na vida das pessoas, permanece árida e, em vez de oásis, cria outros desertos.

Há uma segunda tentação: cair numa «fé de tabela». Podemos caminhar com o povo de Deus, mas temos já a nossa tabela de marcha, onde tudo está previsto: sabemos aonde ir e quanto tempo gastar; todos devem respeitar os nossos ritmos e qualquer inconveniente perturba-nos. Corremos o risco de nos tornarmos como «muitos» do Evangelho que perdem a paciência e repreendem Bartimeu. Pouco antes repreenderam as crianças (cf. 10, 13), agora o mendigo cego: quem incomoda ou não está à altura há que excluí-lo. Jesus, pelo contrário, quer incluir, sobretudo quem está relegado para a margem e grita por Ele. Estes, como Bartimeu, têm fé, porque saber-se necessitado de salvação é a melhor maneira para encontrar Jesus.

E, no fim, Bartimeu põe-se a seguir Jesus ao longo da estrada (cf. 10, 52). Não só recupera a vista, mas une-se à comunidade daqueles que caminham com Jesus. Queridos irmãos [...] peçamos (ao Senhor) um olhar são e salvo, que saiba irradiar luz, porque recorda o esplendor que o iluminou. Sem nos deixarmos jamais ofuscar pelo pessimismo e pelo pecado, procuremos e vejamos a glória de Deus que resplandece no homem vivo.

 Papa Francisco, Homilia, Basilica Vaticana, 25 de Outubro de 2015

 

Oração Universal

 

Caríssimos: Jesus, que deu vista a um cego,

também dá nova luz às nossas vidas.

Iluminados pela sua Palavra salvadora, supliquemos ao Pai:

 

R. Lembrai-Vos, Senhor, do vosso povo.

Ou: Ouvi-nos, Senhor.

 

1. Pelos fiéis de todas as paróquias da nossa Diocese,

para que não impeçam os cegos de chegar a Jesus,

mas sejam eles próprios a conduzi-los até Ele, oremos.

 

2. Pelos que exercem o ministério sacerdotal,

para que nenhuma fraqueza humana os desanime

e sejam sempre compreensivos como Cristo, oremos.

 

3. Pelo povo de Israel e pelos seus chefes,

para que recordem as palavras dos profetas

e não esqueçam as promessas da Escritura, oremos.

 

4. Pelos órfãos, os abandonados e os cativos,

e por aqueles que já perderam toda a esperança,

 para que Deus Se lhes revele em plenitude, oremos.

 

5. Pelos fiéis desta assembleia e de todas as outras,

para que, no meio das angústias, clamem com fé:

“Jesus, Filho de David, tende piedade”, oremos.

 

Senhor, nosso Deus,

que nos amais como a menina dos olhos,

fazei regressar à pátria os refugiados e cativos

e dai colheitas abundantes aos que semeiam com lágrimas.

Por Jesus Cristo nosso Senhor.

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Sois, Jesus, o meu Deus, M. Borda, NRMS 107

 

Oração sobre as oblatas: Olhai, Senhor, para os dons que Vos apresentamos e fazei que a celebração destes mistérios dê glória ao vosso nome. Por Nosso Senhor...

 

Prefácio

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor. Hoje a vossa família, reunida para escutar a palavra da salvação e participar no Pão da vida, celebra o memorial do Senhor ressuscitado, na esperança do domingo que não tem ocaso, quando toda a humanidade entrar no vosso descanso. Então veremos o vosso rosto e louvaremos sem fim a vossa misericórdia. Nesta feliz esperança, com os Anjos e os Santos do Céu, proclamamos na terra a vossa glória, cantando numa só voz: Santo, Santo, Santo...

 

Santo: A. Cartageno, 99-100

 

Monição da Comunhão

 

“Sede santos, porque Eu o Senhor vosso Deus, sou santo.” (Levítico 19,2)

“Não tenhas medo de apontar mais alto, e de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixar guiar pelo Espírito Santo. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça.

Na vida existe apenas uma tristeza: a de não ser santo.”[3]

 

Cântico da Comunhão: Senhor, eu creio que sois Cristo, F. da Silva, NRMS 67

cf. Sl 19, 6

Antífona da Comunhão: Celebramos, Senhor, a vossa salvação e glorificamos o vosso santo nome.

Ou:    Ef 5, 2

Cristo amou-nos e deu a vida por nós, oferecendo-Se em sacrifício agradável a Deus.

 

Cântico de acção de graças: Cantai Comigo, H. Faria, NRMS 2 (II)

 

Oração depois da Comunhão: Fazei, Senhor, que os vossos sacramentos realizem em nós o que significam, para alcançarmos um dia em plenitude o que celebramos nestes santos mistérios. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

“Desejo agradecer ao Senhor pelo dom da casa comum e por todos os homens de boa vontade que estão comprometidos em protegê-la. Neste Dia Mundial de Oração pelo cuidado da criação, que a Igreja Católica, há alguns anos, celebra em união com os irmãos ortodoxos, e com o apoio de outras Igrejas e Comunidades cristãs, gostaria de chamar a atenção para a questão da água, elemento tão simples e precioso, cujo acesso infelizmente é difícil para muitos, se não impossível. Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável» (Laudato sit, 30). Para nós cristãos, a água é um elemento essencial de purificação e de vida. O pensamento vai imediatamente para o Baptismo, sacramento do nosso renascimento. A água santificada pelo Espírito é a matéria pela qual Deus nos vivificou e nos renovou; é a fonte abençoada de uma vida que não morre mais. Jesus, durante a sua missão, prometeu uma água capaz de saciar para sempre a sede do homem (cf. Jo 4,14), e profetizou: «Se alguém tem sede, venha a mim e beba» (Jo 7,37). Que possam ressoar em nós com força as palavras que Ele pronunciou na cruz: «Tenho sede» (Jo 19, 28). O Senhor continua a pedir para ser saciado na sua sede, pois tem sede de amor. Ele nos pede para dar-Lhe de beber nos muitos sedentos de hoje, para então nos dizer: «Eu estava com sede e me destes de beber» (Mt 25,35)

Gostaria também de tocar na questão dos mares e dos oceanos. Devemos agradecer ao Criador pelo dom imponente e maravilhoso das grandes águas e de quanto elas contêm (cf. Gen 1,20-21; Sl 146,6), e louvá-Lo por ter coberto a terra com os oceanos (cf. Sl 104,6). Proteger esse bem inestimável todos os dias, representa, hoje, uma responsabilidade imperiosa, um desafio real: é necessária uma cooperação eficaz entre os homens de boa vontade para colaborar na obra contínua do Criador. Não podemos permitir que os mares e oceanos se preencham com extensões inertes de plástico flutuante.

Por fim, preocupemo-nos com as jovens gerações e rezemos por elas, para que cresçam no conhecimento e no respeito pela casa comum e no desejo de cuidar do bem essencial da água para o benefício de todos. [4]

 

Cântico final: Exultai de alegria no Senhor, F. da Silva, NRMS 87

 

 

Homilias Feriais

 

30.ª SEMANA

 

2ª Feira, 29-X: Olhar para o Alto.

Ef  4, 32- 5, 8 / Lc 13, 10-17

Apareceu então uma mulher com um espírito que a tornava enferma havia dezoito anos: andava curvada.

Esta mulher que andava curvada (Ev.) é o símbolo daqueles que têm uma visão muito rasteira e muito humana, e não conseguem levantar os olhos do chão e olhar para cima, para contemplar a Deus. E assim se tornam escravos dos bens terrenos.

Cristo quer ajudar-nos a levantar: «entregou-se a si mesmo por nós, oferecendo-se como vítima agradável» (Leit.). Deste modo, libertou-nos das escravidões e tornou-nos filhos de Deus: «comportai-vos como filhos da luz» (Leit.). Agradeçamos a Nossa Senhora o seu 'fiat', que nos obteve a graça da filiação divina.

 

3ª Feira, 30-X: O fermento na vida familiar.

Ef  5, 21-33 / Lc 13, 18-21

O reino de Deus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e meteu em três medidas de farinha.

Nós somos enviados pelo Senhor para sermos o fermento (Ev.), que faz crescer o amor de Deus nos ambientes que nos rodeiam. Para que o fermento mantenha a sua força é necessário que esteja unido a Cristo.

De um modo particular, poderíamos ver como ser melhor fermento na vida familiar (Leit.). O modelo que nos apresenta é o amor com que Cristo  amou a Igreja: «Ele entregou-se à morte por ela, a fim de a santificar» (Leit.). Cada dia há oportunidades de os esposos se entregarem mais: na ajuda mútua, no carinho, na amabilidade, nas desculpas, etc.

 

4ª Feira, 31-X: A porta estreita, caminho para o Céu.

Ef  6, 1-9 / Lc 13, 22-30

Senhor, são poucos os que se salvam? Jesus disse: esforçai-vos por entrar pela porta estreita.

A vontade de Deus é que todos se salvem. Mas, no entanto, pede-nos que entremos pela porta estreita. Esta afirmação «é um apelo ao sentido de responsabilidade com que o homem deve usar a sua liberdade. E, ao mesmo tempo, é um apelo urgente à conversão: 'Entrai pela porta estreita' (Ev.)» (CIC, 1036).

O nosso caminho de salvação passa pela porta do Céu. Este título atribui-se a Nª Senhora, dada a sua união íntima com o Filho e pela sua participação na plenitude e misericórdia de Cristo.  Também, pela sua poderosa intercessão, nos obtém os auxílios necessários para chegarmos ao Céu.

 

 

 

Celebração e Homilia:         José Roque

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 



[1] Noel Quesson, Parole de Dieu pour chaque Dimanche, 30º Domingo comum, ano B

[2] São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus nº 195

[3] Papa Francisco, Alegrai-vos e Exultai, nº 34

[4] Papa Francisco, Mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação,

Vaticano, 1 de Setembro de 2018

 


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