Exaltação da Santa Cruz

14 de Setembro de 2018

 

Festividade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Toda a nossa glória está na Cruz, M. Simões, NRMS 25

cf. Gal 6, 14

Antífona de entrada: Toda a nossa glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. N'Ele está a nossa salvação, vida e ressurreição. Por Ele fomos salvos e livres.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Celebrar a santa Cruz de Nosso Senhor é celebrar o Amor misericordioso com que Deus nos ama. Mas é também aceitar o convite do Senhor a pegar na cruz de cada dia e caminharmos com Ele.

 

Acto penitencial

 

Oração colecta: Senhor, que na vossa infinita misericórdia, quisestes que o vosso Filho sofresse o suplício da cruz para salvar o género humano, concedei que, tendo conhecido na terra o mistério de Cristo, mereçamos alcançar no Céu os frutos da redenção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A serpente de bronze levantada sobre a terra é uma prefiguração de Nosso Senhor, que levantado sobre a Cruz cura todos os pecados do mundo.

 

Números 21, 4b-9

Naqueles dias, 5o povo de Israel impacientou-se e falou contra Deus e contra Moisés: «Porque nos fizeste sair do Egipto, para morrermos neste deserto? Aqui não há pão nem água e já nos causa fastio este alimento miserável». 6Então o Senhor mandou contra o povo serpentes venenosas que mordiam nas pessoas e morreu muita gente de Israel. 7O povo dirigiu-se a Moisés, dizendo: «Pecámos, ao falar contra o Senhor e contra ti. Intercede junto do Senhor, para que afaste de nós as serpentes». E Moisés intercedeu pelo povo. 8Então o Senhor disse a Moisés: «Faz uma serpente de bronze e coloca-a sobre um poste. Todo aquele que for mordido e olhar para ela ficará curado». 9Moisés fez uma serpente de bronze e fixou-a num poste. Quando alguém, era mordido por uma serpente, olhava para a serpente de bronze e ficava curado.

 

5 «Este alimento miserável». Referência bem realista ao maná, cuja idealização posterior o considera, pelo contrário, «pão dos fortes» e «pão dos anjos», pão com todas as delícias e com todos os sabores ao gosto de cada pessoa (cf. Sab 16, 20-21; Salm 78, 23-25).

6 «Serpentes venenosas», à letra, de fogo, um hebraísmo para dizer serpentes abrasadoras, cuja natureza se ignora.

8 «Faz uma serpente de bronze…» Como se pode ver no Evangelho de hoje (Jo 3, 14-15), este relato encerra um sentido típico visado por Deus: o poste é figura da Cruz, a serpente de bronze é figura de Cristo Salvador, que salva da morte eterna todos os homens feridos pela mordedura mortal do pecado, desde que, arrependidos, olhem para Jesus com fé.

 

Salmo Responsorial    Sl 77 (78), 1-2.34-35.36-37.38 (R. cf. 7c)

 

Monição: Vamos repetir, acompanhando o salmo “Não esqueçais as obras do Senhor”. Não esqueceremos, efetivamente, todo o que o Senhor fez por nos, se nos habituarmos a olhar com frequência para o crucifixo.

 

 

Refrão:     Não esqueçais as obras do Senhor.

 

Escuta, meu povo, a minha instrução,

presta ouvidos às palavras da minha boca.

Vou falar em forma de provérbio,

vou revelar os mistérios dos tempos antigos.

 

Quando Deus castigava os antigos, eles O procuravam,

tornavam a voltar-se para Ele

e recordavam-se de que Deus era o seu protector,

o Altíssimo o seu redentor.

 

Eles, porém, enganavam-n’O com a boca

e mentiam-Lhe com a língua

o seu coração não era sincero,

nem eram fiéis à sua aliança.

 

Mas Deus, compadecido, perdoava o pecado

e não os exterminava.

Muitas vezes reprimia a sua cólera

e não executava toda a sua ira.

 

Segunda Leitura

 

Filipenses 2, 6-11

6Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, 7mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, 8humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. 9Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, 10para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, 11e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

 

A leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, que muitos exegetas pensam ser anterior ao este escrito paulino e a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento.

6 «De condição divina». Literalmente: «existindo em forma de Deus». Ora esta forma (morfê) de Deus, ainda que não significasse directamente a natureza divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos especificamente divinos na linguagem bíblica. De qualquer modo, como bem observa Heinrich Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma como a têm os homens, mas significa que Jesus «tinha um ser como Deus, um ser divino».

«Não se valeu da sua igualdade com Deus». O texto original foi simplificado no texto litúrgico, pois há diversas possibilidades de tradução desta rica expressão: a) «Não considerou como um roubo o ser igual a Deus»; b) «Não considerou como algo a roubar (=algo cobiçado) o ser igual a Deus». No primeiro caso, considera-se o termo grego harpagmós em sentido activo (roubo); no segundo, em sentido passivo (coisa cobiçada). A Vulgata, seguida pela Nova Vulgata, traduz: «não considerou uma usurpação (rapinam) o ser igual a Deus» (sentido activo); a interpretação dos Padres Gregos, a que se ateve a nossa tradução litúrgica, considera o termo grego com sentido passivo: «não considerou como algo cobiçado (harpagmón) … Há quem pense que S. Paulo quer fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus (cf. Gn 3, 5.22) e a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer «semelhante aos homens» (v. 7).

7 «Mas aniquilou-se a si próprio», à letra, esvaziou-se: Jesus Cristo, ao fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação sensível da majestade que Lhe competia em virtude da chamada união hipostática (na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana e a natureza divina unidas numa união misteriosa). «Assumindo a condição de servo», o que não significa a condição social de escravo, mas a «forma» (morfê) de se conduzir própria de um ser pobre e dependente, cumprindo a figura do «servo de Yahwéh», a que se refere a primeira leitura de hoje; «tornou-se semelhante aos homens, aparecendo como homem», não apenas, como queria a heresia doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é «semelhante» (en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado (cf. Hebr 4, 15).

8 «Humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz». Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento – a kénosis – de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz – homem, escravo, malfeitor!

9-10 Mas este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota, o desfecho dum história trágica com que tudo acabou. Estamos perante o sublime paradoxo da sua «exaltação»: foi «por isso» mesmo que «Deus» (não Ele próprio, mas o Pai, ho Theós com artigo) «O exaltou» de modo singularíssimo (à letra, acima de tudo o que existe, tendo na devida conta a preposição hypér na composição do verbo grego), o que se deu na glorificação da humanidade de Jesus com a sua Ressurreição e Ascensão. A esta exaltação corresponde o «nome» que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os crentes de todos os tempos; já não se trata simplesmente do nome usado na sua vida terrena e que consta da sentença que o condenou à morte de cruz, mas trata-se do mesmo nome com que o próprio Deus é designado para traduzir o nome divino «Yahwéh» – «Senhor».

11 A todos pertence proclamar e reconhecer a divindade de Jesus – «toda a língua proclame que Jesus Cristo é Senhor» (mais expressivo sem artigo, como no original grego) e o seu domínio sobre toda a criação – «no céu, na terra e nos abismos, para glória de Deus Pai» (A tradução da velha Vulgata neste ponto era pouco expressiva e deficiente, ao traduzir: «proclame que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai»).

Independentemente da discussão acerca do aniquilamento de que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o mistério da Incarnação, fica bem claro que Jesus não é um simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois vem a ser exaltado. Também fica patente que a fé na divindade de Jesus não é o fruto duma elaboração teológica tardia, pois a epístola é, quando muito, do ano 62, se não é mesmo de cerca de 56 (como hoje pensa a generalidade dos estudiosos), e, como dissemos, estes versículos fariam parte dum hino litúrgico a Cristo, anterior à epístola.

 

Aclamação ao Evangelho

 

Monição: Aquilo que faz da morte de Jesus na Cruz um sacrifício é o amor e a obediência com que livremente se oferece ao Pai. Cumpramos também nos com amor a vontade de Deus.

 

Aleluia

 

Cântico: S. Marques, NRMS 73-74

 

Nós Vos adoramos e bendizemos, Senhor Jesus Cristo,

que pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

 

 

Evangelho

 

São João 3, 13-17

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 13«Ninguém subiu ao Céu senão Aquele que desceu do Céu: o Filho do homem. 14Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, 15para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna. 16Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. 17Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele».

 

O texto é tirado do «discurso» de Jesus a Nicodemos. Não é fácil distinguir nos discursos de Jesus em S. João, quando é que o evangelista apresenta as próprias palavras de Jesus de quando apresenta a sua reflexão divinamente inspirada sobre elas. Aqui costuma-se considerar a meditação do evangelista a partir do v. 13, meditação que, do v. 16 ao 21, é o chamado kérigma joanino.

13 «Filho do Homem» tem em S. João um sentido glorioso, indicando a origem divina de Jesus, o Filho de Deus pré-existente enviado ao mundo para salvar os homens e que «subiu ao Céu», uma realidade que pertence às coisas do Céu (v. 12); nos Sinópticos conserva mais o sentido da literatura apocalíptica (cf. Dn 7, 13; 4 Esd; Henoc Etiópico), indicando o Messias, o salvador do povo que virá no fim dos tempos e também o Messias-sofredor. Mas expressão na Filho do homem nem sempre fica bem claro o título cristológico, pois por vezes poderia não passar de um mero asteísmo, uma figura de linguagem para Jesus se referir discretamente à sua pessoa: este homem = eu. J. Ratzinger encara com grande profundidade esta afirmação de Jesus acerca de si mesmo (Jesus de Nazaré, cap. X)

14 «Elevado», na Cruz, entenda-se. Mas S. João joga com os dois sentidos da elevação, na Cruz e na glória. E isto não é um simples artifício literário, mas encerra um mistério profundo, pois é na Paixão que se manifesta todo o amor de Jesus (cf. Jo 13, 1), todo o seu poder divino salvífico de dar o Espírito e a vida eterna (cf. 7, 38; 12, 23-24; 17, 1.2.19), numa palavra, a sua glória, que culmina na Ressurreição (cf. 12, 16). Para a alusão à serpente de bronze, ver Nm 21, 4-9 (1ª leitura de hoje); Sab 16, 5-15 e o Targum que fala mesmo dum lugar elevado onde Moisés a colocou.

16 «Deus... entregou o seu Filho Unigénito». Parece haver aqui uma alusão ao sacrifício de Isaac (cf. Gn 22, 1-12), que os Padres consideravam uma figura de Cristo, até por aquele pormenor de Isaac subir o monte Moriá com a lenha às costas, como Jesus subindo o monte Calvário carregando a Cruz.

17 «Não… para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo». Jesus contraria as ideias judaicas da época, que imaginavam o Messias como um juiz que antes de mais vinha para julgar e condenar todos os que ficavam fora do Reino de Deus, ou se lhe opunham.

 

Sugestões para a homilia

 

    A exaltação da Santa Cruz

    A serpente de bronze

    Um olhar que salva

 

 

A exaltação da Santa Cruz

 

A festa que hoje celebramos tem a sua origem em Jerusalém. Após a descoberta da S. Cruz por S. Helena, o Imperador Constantino mandou construir um conjunto basilical que guardasse no seu interior o lugar do Calvário e o Santo Sepulcro. Ali se conservou também a preciosa relíquia da Santa Cruz. O templo foi dedicado o 13 de setembro de 335, e anualmente era celebrada a festa da dedicação e da S. Cruz no mesmo dia. Tornou-se, contudo, habitual que, para satisfazer a devoção dos fiéis, no dia seguinte se realizasse a exposição e adoração da santa Cruz. Um bispo subia para uma espécie de tribuna, magnificamente adornada, e depois de adorar a santa Relíquia, levantava-a e mostrava-a ao povo que permanecia ajoelhado. Esta cerimónia era denominada “Exaltação da santa Cruz”. A festa acabou por passar para o dia 14, e foi tomando uma dimensão cada vez menos local. No ano de 628 o resgate da santa Cruz, então em poder dos persas, pelo imperador Háraclio, contribuiu a solenizar a celebração em todo o Oriente. Mais tarde estender-se-ia à Igreja universal.

A devoção ao instrumento da nossa salvação insere-se na devoção e adoração ao próprio Salvador, porque ela resume e simboliza o Amor infinito de Deus que sofre em Jesus Cristo todas as penas devidas aos nossos pecados. Por isso a “Vera Crucis”, e todos os crucifixos e cruzes, são a presença sempre atual do Amor redentor que nos salva.

Chesterton no seu romance “A esfera e a cruz” descreve dois singulares personagens que viajam num avião, a baixa altura, sob o céu de Londres. O piloto é o professor Lucifer e ao seu lado encontra-se o monge Miguel, de longa barba branca e túnica da mesma cor. Quando passam junto da torre da catedral encimada por uma esfera e sobre ela a cruz, Lucifer profere uma blasfémia contra a cruz. Miguel, em resposta, conta a história de um homem que também odiava a cruz. Esse homem retirou todas as cruzes da sua casa, até do pescoço da sua mulher e de todos os quadros. Dizia que era o símbolo da barbárie, contrário ao gozo e à vida. Chegou, até, a escalar, um dia, a torre sineira da igreja e arremessar para o chão a cruz que nela havia.

Aquele ódio acabou transformando-se primeiro em delírio e depois em loucura furiosa. Uma tarde de verão deteve-se a fumar o seu cachimbo, num passeio campestre, junto duma paliçada que se estendia pela pradaria. Pareceu-lhe contemplar a paliçada convertida em um exército de cruzes unidas ente si. Então, agarrando na sua pesada bengala atirou-se a elas e foi derrubando todos aqueles paus ao longo do caminho. Quando chegou a sua casa continuava a ver cruzes por todas partes, desfez a pontapé todos os móveis e lhes pegou fogo, e na manha seguinte o encontraram morto a flutuar no rio.

Então o professor Lucifer com raiva disse: Essa história foste tu que a inventaste. É verdade, disse Miguel, acabo de a inventar; mas exprime muito bem o que estão a fazer tu e os teus amigos ateus. Começais por despedaçar a cruz e acabais por destruir o mundo.

De facto, retirar a presença da cruz da nossa vida é retirar a presença do amor de Deus por nós, e sem sermos amados tornamo-nos todos inimigos. Procuremos ter sempre por perto o crucifixo, olhemos para ele, beijemos com piedade esse sacramental, e recordemos o amor misericordioso com que somos amados para praticar a caridade e a misericórdia.

 

 

A serpente de bronze

 

Jesus, na conversa com Nicodemo, desvela o sentido típico da passagem do Livro dos Números que ouvimos na primeira leitura. A serpente de bronze levantada no meio do acampamento é uma imagem de Nosso Senhor levantado sobre a Cruz no cume do Calvário.

A serpente aparece no libro do Génesis identificada com o tentador e como imagem do pecado. Ela é a personificação da desobediência a Deus destilada na alma de Adão e Eva como um veneno. A serpente, no Paraíso, é a causa da morte, e a serpente de bronze, no deserto, é causa de cura e vida, preparando essa nova “serpente”, Nosso Senhor, que colocando-se no lugar do pecador, “feito pecado”, é causa da nossa Salvação e a nossa Vida

Jesus crucificado é a máxima expressão da humilhação (2ª leitura), amor e entrega de Deus por nós. O Filho de Deus percorre um caminho cada vez mais fundo de humildade. Faz-se homem, servo e finalmente ocupa o lugar do pecador e malfeitor. Assim nós, como o filho pródigo da parábola, podemos percorrer o caminho inverso: de pecadores podemos passar a servos (o rapaz conformava-se com ser criado) mas o Pai nos acolhe, em festa, como filhos muito amados. Esse caminho que leva à Gloria é aberto por Jesus. Por isso Deus o exaltou como Senhor de toda criatura. De essa exaltação jorra a luz que ilumina a sua Cruz gloriosa. Ela deixa de ser instrumento de tortura para participar, de algum modo, da gloria do Salvador.

Também o sofrimento humano foi transformado pela Paixão do Senhor. Assim o explica o Beato João Paulo II na sua Carta Apostólica Salvifici Doloris: “Na Cruz de Cristo, não só se realizou a Redenção através do sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido. (…) Se um homem, se torna participante dos sofrimentos de Cristo, isso acontece porque Cristo abriu o seu sofrimento ao homem, porque Ele próprio, no seu sofrimento redentor, se tornou, num certo sentido, participante de todos os sofrimentos humanos. Ao descobrir, pela fé, o sofrimento redentor de Cristo, o homem descobre nele, ao mesmo tempo, os próprios sofrimentos, reencontra-os, mediante a fé, enriquecidos de um novo conteúdo e com um novo significado” (C.A.S.D., 19). Jesus, levantado na Cruz, do valor salvífico aos nossos sofrimentos.

A serpente, levantada no acampamento do Povo eleito, não é já o réptil venenoso que rasteia e mata. Ela é Jesus Cristo, o rosto humano do amor de Deus. que cura os nossos males e nos convida a oferecer as nossas dores em união com Ele.

 

 

Um olhar que salva

 

Lemos no livro dos Números que “quando alguém era mordido por uma serpente, olhava para a serpente de bronze e ficava curado”. Esse olhar aqui referido, não é simplesmente ver. É um olhar que nasce do coração, um olhar de fé, um olhar orante. Um olhar que contempla por trás de aquele pedaço de metal, a presença de Deus rico em misericórdia.

Também no Calvário muitos olhos fixaram Jesus. Uns olhavam com curiosidade, outros com ódio, alguns com pena, os soldados com desprezo e com irritação por ter que realizar aquela tarefa ingrata. O mau ladrão, desesperado com a sua sorte, olha indignado para Nosso Senhor e se une ao coro dos escárnios. Dimas, pelo contrário, alcança a ver a inocência do Senhor e recebe a fé e o Ceu. O olhar das santas mulheres e S. João se entrelaçam com o olhar de Nossa Senhora e com Ela pronunciam um novo “faça-se” entregues à vontade de Deus. Alguns não quereriam olhar, e mesmo os apóstolos, com exceção de João, fugiram com medo, e não estavam ali. Outros como os soldados que repartiam as vestes, desinteressam-se de Jesus e só olham para uns poucos despojos materiais. Mas o centurião que estava enfrente d’Ele, quando expira o Senhor disse: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc 15, 39).

O que é que descobre o olhar de fé, que não enxergam os olhos superficiais? Que realidade invisível alcançam esses olhos por trás do imediato? O que contemplam é o Amor de Deus por nós tão poderoso e imenso, que rende qualquer coração. É um amor “inacreditável”; por isso S.João diz aos primeiros cristãos d Asia Menor: “Nos sabemos o amor que Deus nos tem e acreditamos nesse amor”(I Jo, 4, 16). É preciso acreditar nesse Amor, porque por vezes não acreditamos, ou não acreditamos com todas as consequências, e desanimamos, entristecemos e podemos chegar a desesperar.

Quando olhamos com fé para o crucifixo, não só contemplamos que Deus é Amor, mas que me ama a mim como jamais sonhei que alguém me poderia amar, e ama-me sempre. Além disso os meus sofrimentos aparecem na sua verdade mais funda; são bênçãos de Deus que me convida a pegar na sua Cruz como Simão de Cirene. São por isso carícias do Pai que me ajudam a ser santo e feliz.

Devemos, por isso olhar com fé para a Cruz. E olhamos quando participamos na Santa Missa, quando meditamos a Paixão no Evangelho, quando rezamos os mistérios dolorosos do Rosário, quando fazemos a Via Sacra, quando olhamos ou beijamos o crucifixo, etc. Existe uma breve e simples oração que nos facilita abraçar a Cruz identificados com Jesus: perante qualquer sofrimento digamos com fé “Senhor; aceito, agradeço e ofereço”.

Não esqueçamos, também, a pergunta que Nossa Senhora fez aos três pastorinhos: “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?” E a resposta, espontânea e simples, das crianças “sim, queremos”.

Também nós queremos aceitar e agradecer os sofrimentos que Deus nos enviar, conscientes de que são manifestação do seu amor, e converte-los em oração reparadora e impetratória. Nossa Senhora, como boa Mãe, nos conduz pela mão, até junto da Cruz do seu Filho, como fez com São João e as santas mulheres.

 

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos:

Oremos ao nosso Redentor,

que nos remiu pela sua santa Cruz,

e digamos (ou: e cantemos), confiadamente:

 

R. Cristo, ouvi-nos. Cristo, atendei-nos.

Ou: Pela vossa santa Cruz, salvai-nos, Senhor.

 

1. Pela santa Igreja, nascida da árvore da Cruz,

para que siga fielmente a Cristo

e seja revestida da sua glória,

oremos, irmãos.

 

2. Pelos bispos, presbíteros e diáconos,

para que sejam testemunhas da sabedoria do Espírito,

que brotou da Cruz do Salvador,

oremos, irmãos.

 

3. Pelos cristãos que sofrem no corpo ou na alma,

para que sintam a presença consoladora de Cristo,

que ilumina a experiência da dor humana,

oremos, irmãos.

 

4. Pelos catecúmenos e por todos os fiéis,

para que ponham a sua alegria em proclamar

que Jesus é o Senhor, para glória de Deus Pai,

oremos, irmãos.

 

5. Pelos perseguidos por causa da fé e da justiça,

para que na Cruz de Cristo encontrem a certeza

da vitória do perdão e do amor,

oremos, irmãos.

 

6. Pela nossa comunidade (paroquial),

para que ponha toda a sua glória

na Cruz de Cristo, o Redentor,

oremos, irmãos.

 

(Outras intenções).

 

P ai de misericórdia,

que exaltastes o vosso Filho na sua ressurreição,

derramai sobre nós a força do Espírito,

para que possamos levar todos os dias

o peso e a glória da santa Cruz.

Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: É dura a caminhada, M. Faria, NRMS 6 (II)

 

Oração sobre as oblatas: Purificai-nos de todas as culpas, Senhor, pela oblação deste sacrifício, que no altar da cruz tirou o pecado do mundo. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio

 

O triunfo glorioso da cruz

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte:

Na árvore da cruz estabelecestes a salvação da humanidade, para que donde viera a morte daí ressurgisse a vida e aquele que vencera na árvore do paraíso fosse vencido na árvore da cruz, por Cristo nosso Senhor.

Por Ele, numa só voz, os Anjos e os Arcanjos e todos os coros celestes proclamam com júbilo a vossa glória. Permiti que nos associemos às suas vozes, cantando humildemente o vosso louvor:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Pode dizer-se o prefácio da Paixão do Senhor I: p. 467 [600-712]

 

Santo: F. da Silva, NRMS 38

 

Saudação da paz

 

Monição da Comunhão

 

Receber Jesus na Sagrada Comunhão é receber o Pão da Vida, o alimento que nos fortalece para que a nossa vida seja a vida de um filho de Deus. Examinemos a nossa alma para ver se nos encontramos em condições de receber o Senhor, e se assim não for, procuremos confessar-nos quanto antes para poder comungar.

 

Cântico da Comunhão: Amai como eu vos amei, J. Santos, NRMS 87

Jo 12, 32

Antífona da comunhão: Quando Eu for levantado da terra, atrairei tudo a Mim, diz o Senhor.

 

 

Oração depois da comunhão: Senhor Jesus Cristo, que nos alimentais nesta mesa sagrada, fazei que o vosso povo, resgatado pela cruz redentora, seja conduzido à glória da ressurreição. Vós que sois Deus com o Pai na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Façamos o propósito de não nos afastarmos da Cruz de Nosso Senhor. Seremos capazes de o cumprir se procuramos, como S. João e as santas mulheres, estar sempre com Nossa Senhora. Assim não abandonaremos Jesus quando nos custar comportar-nos como bons cristãos.

 

Cântico final: Ó Cruz vitoriosa, F. da Silva, NRMS 29

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Carlos Santamaria

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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