aCONTECIMENTOS eclesiais

COMENTÁRIO

 

 

A MENSAGEM DE ALFIE

 

 

Sergio Centofanti

Vatican News, 28-IV-2018

 

 

“O nosso bebé ganhou asas nesta noite [27 para 28 de Abril] às 2h30 da manhã. Estamos com o coração despedaçado. Obrigado a todos pelo vosso apoio”: com este post no facebook, Kate James anunciou a morte do seu filho, o pequeno Alfie Evans. Não chegou a completar dois anos: teria completado no próximo dia 9 de Maio. Ao mesmo tempo, Thomas, o pai, escreveu: “O meu gladiador baixou o seu escudo e ganhou asas às duas e meia da manhã. Totalmente inconsolável. Amo-te, meu menino!”.

 

Na última quarta-feira, 25 de Abril, a Corte Suprema britânica tinha dado o seu enésimo «não» ao recurso dos pais de Alfie, que pediam a transferência do seu filho para a Itália, para que fosse seguido pelo Hospital pediátrico Bambino Gesù, de Roma. O Hospital do Papa teria suportado todas as despesas: o Alder Hey Hospital, de Liverpool, não deveria gastar nenhum cêntimo. O Papa Francisco tinha pedido aos seus colaboradores para que fizessem o possível e o impossível para transferi-lo.

Às 23h17 de segunda-feira, 23 de Abril, os médicos retiraram o ventilador para deixá-lo morrer. O menino continuou a respirar por si em pouco mais de 4 dias. Afectado por uma doença neuro-degenerativa ainda desconhecida, para os médicos e juízes ingleses era “inútil” que Alfie continuasse a viver até à sua morte natural.

Alfie não falava, mas fez e continua a fazer um ruído enorme. Quiseram “doar-lhe” a morte a todo o custo e ele ofereceu-nos tanta vida e amor com a inocente gentileza do seu rosto. Um juiz disse que ele estava tão destroçado que não podia sentir sequer as carícias da sua mãe: mas nós sentíamo-nos acariciados por ele.

Os médicos que deviam cuidar dele fizeram-no morrer prematuramente: ele procurou curar a nossa doença mais mortal, a indiferença. Alfie era prisioneiro, mas deu a muitos a coragem para falar e agir livremente. Ele era o mais débil de todos, mas deu uma força incrível aos que o amavam. A lei foi muito dura: Alfie mostra-nos que o amor é muito mais forte do que a lei. Vimos uma justiça fria, mas ele conseguiu derreter muitos corações.

Consideraram a sua vida inútil; no entanto, Alfie, sem fazer nada, envolveu milhões de pessoas numa luta por um mundo mais humano. Alfie tornou-se um símbolo: a voz de todos os pequenos do mundo, usados, explorados e – se já não servem – descartados. O nosso mundo utilitarista, se já não fizermos alguma coisa, um dia descartar-nos-á também a nós: para todos chega o momento de pedir para ser amados e salvos na própria “inútil” debilidade.

Ele foi esmagado pela violência dos poderosos, mas ensina-nos a responder com um espírito manso e firme. O mistério da vida só Deus o compreende: Alfie fez-nos vislumbrar um raio desse mistério. Alfie é loucura e escândalo para alguns: recorda-nos Aquele que foi crucificado. Recorda-nos o juízo final: “Eu tinha fome e vós destes-me de comer... todas as vezes que fizestes estas coisas a um só destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes”. Muito rezámos por Alfie: agora é ele que reza por nós.

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial