PASTORAL

A PAIXÃO DE CRISTO: PORQUÊ?

 

 

 

Miguel Falcão

 

 

Damos a seguir a homilia pronunciada na Celebração da Paixão do Senhor na passada Sexta-Feira Santa (29-III-2018), no Oratório de São Josemaria, em Lisboa.

 

 

“Levando a cruz, Jesus saiu para o Gólgota. Ali o crucificaram” (Jo 19, 17-18). O evangelista não dá pormenores dos sofrimentos de Jesus: seria preciso ver um filme que mostrasse a Paixão de Cristo. S. João termina dizendo: “inclinando a cabeça, expirou” (Jo 19, 30).

S. Paulo resume assim a entrega de Jesus: Sendo Deus, fez-se homem, e humilhou-se ainda mais, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz (cf. Flp 2, 7-8).

Por que aceitou Jesus a morte na cruz? S. Paulo diz-nos que “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (1 Cor 15, 3), como fora anunciado por Isaías (cf. Is 53, 4 ss).

Mas, não haveria outro modo? Os pecados dos homens não poderiam ser simplesmente perdoados por Deus, como parece mostrar a parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32)?

Desde o pecado de Adão e Eva – que quiseram viver sem Deus –, os pecados dos homens têm-se multiplicado assombrosamente. Todos se queixam de injustiças que sofrem; e aqueles que procuram viver rectamente, segundo Deus, queixam-se de que continuam a fazer os mesmos pecados. Não há maneira de parar!

Na parábola do filho pródigo, o filho arrepende-se e regressa para pedir perdão, porque se lembra precisamente de que o pai é misericordioso, isto é, prefere ser ele a sofrer.

Pensemos num filho que brinca como quer dentro de casa, apesar de lhe terem dito que tivesse cuidado. Um dia, parte uma louça de China. Como se há-de reparar o estrago? Se os pais não fazem nada, o rapaz convence-se de que não tem importância, que é fácil substituir a louça partida, e continuará com as suas brincadeiras, que irão ocasionando consequências mais graves.

Uma solução seria um castigo corporal: o sofrimento poderia servir de travão. Mas, normalmente, os pais preferem que o filho sofra de outro modo: por exemplo, ajudando a colar a louça partida, ou entregando uma importância do seu mealheiro para uma nova compra. O filho sofre segundo a sua capacidade, mas a maior parte do sofrimento caberá aos pais, pelo amor que lhe têm.

É assim que Deus nos trata, pelo imenso amor que nos tem, assumindo na sua misericórdia quase a totalidade do sofrimento necessário (por isso, fez-se homem para poder sofrer): mesmo quando uma pessoa tenha o coração duro, cheia de si mesma, como o filho pródigo da parábola evangélica.

 Deus espera que um dia o filho, perante o sofrimento devido à sua vida desordenada, se recorde do amor sem limites do Pai e, arrependendo-se, decida regressar. É o que nos mostra a história da conversão de grandes Santos, como Santo Agostinho.  

É também o que ajuda à conversão da nossa vida, quando nos queixamos de que continuamos a cair nos mesmos pecados. À satisfação desordenada de um prazer, corresponde um novo sofrimento do nosso Deus, Jesus que sofre agora nos seus membros – os cristãos e os homens justos, as crianças e os dementes –, que não se revoltam, perguntando: que fiz eu para sofrer tanto? Eles sofrem com Jesus misericordioso, para que um dia nos arrependamos. Como Nossa Senhora pediu em Fátima aos pastorinhos: “Oferecei sacrifícios pela conversão dos pecadores”.

O Papa Ratzinger, no seu livro Jesus de Nazaré, tinha abordado esta questão. Fazendo referência à pergunta de Jesus aos dois Apóstolos irmãos, Tiago e João, “Podeis beber o cálice que vou beber?”, diz: “O próprio Deus «bebe o cálice» de tudo aquilo que é terrível e, assim, restabelece [a reconciliação e a paz] pela grandeza do seu amor” (Parte II, p. 190).

Lendo a homilia de S. Josemaria, A morte de Cristo, vida do cristão (cf. Cristo que passa, nn. 95 ss), perguntamo-nos: Mas, para que todo este sofrimento seja eficaz para as nossas almas, uma vez que Deus respeita a liberdade com que nos criou, que temos de fazer?

A Epístola aos Hebreus recordava-nos com S. Paulo: Cristo, fazendo-se obediente ao Pai até à morte na cruz, “tornou-se para todos os que lhe obedecem, causa de salvação eterna” (Heb 5, 9). Precisamos de obedecer, de seguir o nosso Jesus, tendo fé n’Ele, isto é, confiando inteiramente n’Ele, fazendo aquilo de que somos capazes e pedindo-lhe ajuda para aquilo que não podemos. Deste modo, a sua Morte desfaz os nossos pecados e más inclinações, uma vez e outra, e a sua Ressurreição dá a vida da graça à nossa alma.

No mês passado [22-II-2018], o Santo Padre aprovou um documento que recorda que a salvação vem de Nosso Senhor Jesus Cristo, e não principalmente de nós. A nossa purificação vem toda de Cristo, nós só temos de deixar que Ele actue na nossa alma, com a nossa humildade e boa vontade, como a Virgem Maria animava os servos nas bodas de Caná: “Fazei o que Ele vos disser!” (Jo 2, 5).

Se estas considerações necessitam de tempo para as meditarmos, podemos ficar com o que dizia uma mulher de condição humilde, num país de outra religião, depois de se converter a Cristo:

“Disseram-me que Jesus sofreu por nós. Noto que, quando confio n’Ele, aceito melhor os meus sofrimentos. Por isso, também estou disposta a sofrer por Jesus” (adaptado de Ajuda à Igreja que sofre).

   

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial