OPINIÃO

IDEIAS SOLTAS SOBRE A ORAÇÃO

 

 

Augusto Pascoal

 

 

1. Orar é relacionar-se com Deus.

Falamos da oração cristã.

Não vamos perder tempo a analisar fenómenos aos quais se chamou oração, pela analogia que conservam com a oração propriamente dita, mas que, de facto, não são oração. Ou, pelo menos, não o são no sentido em que nós a entendemos.

Para nós, que acreditamos num Deus pessoal, tão pessoal que existe em três pessoas, para nós, a oração é uma forma de entrar em diálogo com este Deus, uno e trino.

 

Do conceito de diálogo faz parte essencial o encontro de dois... duas pessoas que, guardando a sua identidade, o seu eu, se tornam o tu do outro.

E o diálogo com Deus só é diferente porque, neste diálogo, é sempre Ele que toma a iniciativa: num certo sentido, Ele começa sempre por fazer de nós o Seu tu, e só na medida em que aceitamos ser o Seu tu, Ele Se tornará também o nosso tu e nós o Seu eu.

Por isso se diz, e bem, que a oração é um dom, uma dádiva do próprio Deus.

Um Deus pessoal, que nos trata como pessoas, que nos concede uma experiência pessoal única, quando, vencendo as barreiras do racionalismo, aceitamos esse diálogo.

Isto significa que a oração é essencialmente comunicação, ainda antes de ser comunhão.

 

Mas não podemos esquecer que o nosso Deus é o Deus de Jesus Cristo, que é precisamente a Palavra divina encarnada.

É n’Ele que Deus Se nos torna acessível, Se abre de forma única à nossa comunicação, é n’Ele que, pela acção do Espírito Santo, entramos em comunhão com Deus.

A nossa oração tem sempre um carácter trinitário. Por isso as orações oficiais da Igreja terminam sempre invocando as três Pessoas divinas.

2. Ensinar a orar...

Senhor, ensina-nos a orar (Lc 11, 1).

No contexto narrativo de São Lucas, ficamos com a impressão de que os Discípulos pedem a Jesus que os ensine a orar, porque, observando as palavras e os gestos do Mestre, sobretudo os gestos, se dão conta da importância da oração, que eles intuem ser algo diferente do que pensavam até aí.

E poderíamos dizer que este é o primeiro fruto da oração.

A descoberta ou redescoberta da sua importância: não é nos livros que se aprende a orar, mas orando, de coração aberto a Deus, que, como se diz acima, nos dá o primeiro impulso; responde reacendendo o desejo de aprender e ensina.

E ensina o como e o quê:

 

Orar com a humildade do publicano – que, para os ouvintes de Jesus, reunia em si todos defeitos pelos quais se devia desprezar um cidadão –, pondo-se diante de Deus como quem não tem outra Segurança senão Ele.

E pedindo tudo o que entre no conteúdo das sete petições do Pai-nosso.

Agora, não podemos esquecer que Jesus é também mestre dos mestres da oração; e a nossa identificação com Ele exige que todos, cada um segundo a sua vocação específica no mundo, sejamos mestres da oração.

 

Como Ele e com Ele, antes de mais, pelos nossos gestos, despertar nos que se cruzam connosco na vida, o desejo de aprender.

Como Ele e com Ele, ensinar o que se deve pedir... ajudando cada um a encontrar os temas específicos do seu diálogo com Deus.

A oração do Pai-nosso será a fórmula de referência para todos os orantes e mestres de oração.

Porque com Deus fala-se, em primeiro lugar d’Ele e das Suas coisas, como diria a grande mestra Teresa de Jesus. Depois, como crianças confiantes, falamos de nós e de nossas coisas.

3. Eucaristia – A Grande Escola

No português comum, dos nossos dias, a palavra escola pode designar muitas coisas.

Mas são duas as áreas mais vastas de significado: aquela que se refere às instituições destinadas à formação humana e científica das novas gerações e a que engloba tudo aquilo que, de forma não institucional, contribui para essa formação.

Aqui, quando falamos da Eucaristia como escola de oração, é claro que não falamos de teorias nem muito menos de formas de as transmitir.

Queremos apenas dizer isto: todas as celebrações da fé, enquanto tais, são meios privilegiados de aprendizagem e prática da oração. E entre essas celebrações, como é óbvio, a Eucaristia ocupa um lugar, melhor, o lugar cimeiro:

Primeiramente, porque cria espaço de encontro com Deus e com os irmãos. Um espaço que, da parte de Deus, tem as dimensões do mistério da Encarnação; da parte da humanidade, tem a medida do Coração de Cristo, dependendo, porém, da fé da Igreja e da adesão de cada um de nós a essa fé.

 

A Eucaristia é escola de oração porque exige um esforço permanente de despojamento, renúncia ao próprio eu, para um encontro cada vez mais profundo com os outros, sobretudo com o Outro, que é Deus.

E é escola de oração, ainda, porque nos ajuda a dizer as palavras e a realizar os gestos que agradam a Deus.

E tanto as palavras como os gestos se destinam a tornar presentes na história que estamos a viver, individual e comunitariamente, os objectivos essenciais da oferta de Cristo, no Calvário: Adorar a Deus, dar-Lhe graças pelo que é e pelo que faz por nós, reparar as nossas ofensas e pedir para a humanidade aquilo de que ela precisa.

4. Questão de tempo?

De um modo geral, as pessoas que não fazem oração, ou fazem pouca, desculpam-se com a falta de tempo: têm demasiadas ocupações e, dizem, são obrigadas a levar uma vida tão cheia de preocupações, que nem sequer se lembram de rezar.

A primeira reflexão a fazer é que, sendo o tempo um dom de Deus, como acontece com qualquer donatário, não podemos consumir tal dádiva satisfazendo caprichos que nada têm a ver com a vontade do doador.

Antes de dizermos que não temos tempo para rezar, devemos perguntar-nos se estamos a gastá-lo como aquilo que é: um dom de Deus.

Mas o mais importante é que Deus não quer que Lhe demos um momento; quer que Lhe demos o tempo todo. Segundo a doutrina do Novo Testamento (cf. 1 Tess 5, 17), é necessário orar sempre, sem interrupção.

O que significa que, como é evidente, exige um conceito de oração muito diferente daquele que tem o comum das pessoas.

Certamente já tivemos todos a oportunidade de ouvir dizer que há necessidade de corrigir a ideia comum, demasiado mecânica, de oração.

E, no princípio destas notas, dizíamos que «orar é relacionar-se», entrar em contacto pessoal com Deus.

Ora, sabendo nós que Deus está permanentemente a nosso lado, o que nos falta é prestar atenção a essa presença. Para vivermos o «orai sem parar» de São Paulo, bastaria que, sempre que à mente nos vem o nome ou a ideia de Deus, nos tornássemos conscientes de que Ele Se põe à nossa disposição para um contacto íntimo, pessoal.

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial