DOCUMENTAÇÃO

PAPA FRANCISCO

 

VIAGEM APOSTÓLICA AO CHILE E AO PERU

 

 

 

De 15 a 21 de Janeiro passado, o Papa Francisco realizou uma Viagem apostólica a dois países limítrofes da América do Sul, primeiro ao Chile, de 15 a 17 de Janeiro, e a seguir ao Peru, de 18 a 21 de Janeiro.

Damos a seguir o comentário que o próprio Papa fez na seguinte audiência geral da quarta-feira (24-I-2018).

 

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

 

Esta audiência realiza-se em dois lugares conectados entre si: vós, aqui na Praça [de São Pedro], e um grupo de crianças um pouco doentes, que estão na Sala [Paulo VI]. Elas ver-vos-ão e vós as vereis: e assim estamos conectados. Saudemos as crianças que estão na Sala: mas era melhor que não apanhassem tanto frio, e por isso estão lá.

Regressei há dois dias da Viagem Apostólica ao Chile e ao Peru. Um aplauso ao Chile e ao Peru! Dois povos bons, bons... Dou graças ao Senhor porque tudo correu bem: pude encontrar o Povo de Deus a caminho naquelas terras – também aqueles que não estão a caminho, que estão um pouco parados... mas são boa gente – e encorajar o desenvolvimento social daqueles Países. Renovo a minha gratidão às Autoridades civis e aos irmãos Bispos, que me acolheram com muita atenção e generosidade; assim como a todos os colaboradores e voluntários. Pensai que em cada um dos dois Países havia mais de 20 mil voluntários: mais de 20 mil no Chile e 20 mil no Peru. Boa gente: na maioria, jovens.

A minha chegada ao Chile fora precedida por diversas manifestações de protesto, por vários motivos, como tendes lido nos jornais. E isto tornou ainda mais actual e vivo o lema da minha visita: «Mi paz os doy – Dou-vos a minha paz». São as palavras de Jesus dirigidas aos discípulos, que repetimos em cada Missa: o dom da paz, que só Jesus morto e ressuscitado pode dar a quem confia n’Ele. Não só cada um de nós tem necessidade da paz, mas também o mundo de hoje, nesta terceira guerra mundial aos pedaços... Por favor, oremos pela paz!

No encontro com as Autoridades políticas e civis do País, encorajei o caminho da democracia chilena, como espaço de encontro solidário e capaz de incluir as diversidades; para esta finalidade, indiquei como método o caminho da escuta: em particular, a escuta dos pobres, dos jovens e dos idosos, dos imigrantes e também a escuta da terra.

Na primeira Eucaristia, celebrada pela paz e a justiça, ressoaram as Bem-Aventuranças, especialmente «Bem-aventurados os agentes da paz, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 9). Uma Bem-Aventurança que deve ser testemunhada com o estilo da proximidade, da vizinhança, da partilha, fortalecendo assim, com a graça de Cristo, o tecido da comunidade eclesial e de toda a sociedade.

Neste estilo de proximidade contam mais os gestos do que as palavras, e um gesto importante que pude realizar foi visitar a prisão feminina de Santiago: os rostos daquelas mulheres, muitas das quais jovens mães, com os seus filhinhos ao colo, exprimiam apesar de tudo muita esperança. Encorajei-as a exigir, de si mesmas e das instituições, um sério caminho de preparação para a reinserção, como horizonte que dá sentido à pena quotidiana. Não podemos pensar num cárcere, em qualquer cárcere, sem esta dimensão da reinserção, porque, se não houver esta esperança da reinserção social, o cárcere é uma tortura infinita. Pelo contrário, quando se trabalha pela reinserção – mesmo dos condenados à prisão perpétua – mediante o trabalho da prisão para a sociedade, abre-se um diálogo. O cárcere deve ter sempre esta dimensão da reinserção, sempre.

Com os sacerdotes e os consagrados e com os Bispos do Chile, vivi dois encontros muito intensos, que se tornaram ainda mais fecundos pelo sofrimento partilhado por causa de algumas feridas que afligem a Igreja naquele País. Em particular, confirmei os meus irmãos na rejeição de qualquer cumplicidade com os abusos sexuais de menores e, ao mesmo tempo, na confiança em Deus que, através desta dura prova, purifica e renova os seus ministros.

As outras duas Missas no Chile foram celebradas, uma no Sul e a outra no Norte. A Missa no Sul, na Auracania, terra onde vivem os índios Mapuches, transformou em alegria os dramas e as dificuldades deste povo, lançando um apelo a favor de uma paz que seja harmonia das diversidades e rejeição de toda a violência. A Missa no Norte, em Iquique, entre o oceano e o deserto, foi um hino ao encontro entre os povos, que se exprime de modo singular na religiosidade popular.

Os encontros com os jovens e com a Universidade Católica do Chile responderam ao desafio crucial de oferecer um sentido relevante à vida das novas gerações. Aos jovens deixei a palavra programática de Santo Alberto Hurtado: “Que faria Cristo no meu lugar?”. E à Universidade propus um modelo de formação integral, que traduz a identidade católica em capacidade de participar na construção de sociedades unidas e plurais, onde os conflitos não sejam ocultados, mas resolvidos no diálogo. Conflitos há sempre: também em casa; existem sempre. Mas, tratar mal os conflitos é ainda pior. Não se devem esconder os conflitos debaixo da cama: os conflitos que venham à luz, enfrentam-se e resolvem-se com o diálogo. Pensai nos pequenos conflitos que certamente tendes na vossa casa: não deveis escondê-los, mas enfrentá-los. Procurar o momento e falar: o conflito resolve-se assim, com o diálogo.

 

No Peru, o lema da Visita foi: “Unidos por la esperanza – Unidos pela esperança”. Unidos, não numa uniformidade estéril, todos iguais: isto não é união; mas com toda a riqueza das diferenças que herdamos da história e da cultura. Testemunhou-o emblematicamente o encontro com os povos da Amazónia peruana, que deu também início ao itinerário do Sínodo Pan-amazónico, convocado para Outubro de 2019, assim como o testemunharam os momentos vividos com a população de Puerto Maldonado e com as crianças da Casa de acolhimento “O Principezinho”. Juntos, dissemos “não” à colonização económica e à colonização ideológica.

Falando às Autoridades políticas e civis do Peru, apreciei o património ambiental, cultural e espiritual daquele País, e pus em evidência as duas realidades que mais gravemente o ameaçam: a degradação ecológico-social e a corrupção. Não sei se aqui ouvistes falar de corrupção... não sei... Ela não existe só naqueles lados: também aqui, e é mais perigosa que a gripe! Mistura-se e arruína os corações. A corrupção arruína os corações. Por favor, não à corrupção! E salientei que ninguém está isento da responsabilidade diante destes dois flagelos, e que o empenho para se opor a eles diz respeito a todos.

A primeira Missa pública no Peru, celebrei-a à beira-mar, nos arredores da cidade de Trujillo, onde a tempestade chamada “Niño costiero” no ano passado atingiu duramente a população. Por isso, encorajei-a a reagir a esta e também a outras tempestades, como a criminalidade, a falta de educação, de trabalho e de alojamento seguro. Em Trujillo encontrei-me também com os sacerdotes e os consagrados do Norte do Peru, partilhando com eles a alegria da chamada e da missão, e a responsabilidade da comunhão na Igreja. Exortei-os a serem ricos de memória e fiéis às suas raízes. E entre estas raízes está a devoção popular à Virgem Maria. Ainda em Trujillo teve lugar a celebração mariana, durante a qual coroei a Virgem da Porta, proclamando-a “Mãe da Misericórdia e da Esperança”.

O último dia da viagem, no domingo passado [21 de Janeiro], decorreu em Lima, com um forte significado espiritual e eclesial. No Santuário mais célebre do Peru, onde se venera a pintura da Crucificação chamada “Señor de los Milagros”, encontrei-me com cerca de 500 religiosas de vida contemplativa, um verdadeiro “pulmão” de fé e de oração pela Igreja e por toda a sociedade. Na Catedral realizei um especial acto de oração por intercessão dos Santos peruanos, a que se seguiu o encontro com os Bispos do País, aos quais propus a figura exemplar de São Turíbio de Mongrovejo. Também aos jovens peruanos indiquei os Santos como homens e mulheres que não perderam tempo a “retocar” a própria imagem, mas seguiram Cristo, que olhou para eles com esperança. Como sempre, a palavra de Jesus dá sentido pleno a tudo, e assim também o Evangelho da última celebração eucarística resumiu a mensagem de Deus ao seu povo no Chile e no Peru: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho» (Mc 1, 15). Assim – parecia dizer o Senhor – recebereis a paz que Eu vos dou e estareis unidos na minha esperança. Eis, mais ou menos, o resumo desta minha viagem. Oremos por estas duas Nações irmãs, o Chile e o Peru, a fim de que o Senhor as abençoe.

 

 

 


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