DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

A MISSÃO DA FAMÍLIA NA COMUNIDADE CRISTÃ

 

 

No passado dia 6 de Junho, o Santo Padre presidiu na Basílica de São João de Latrão à abertura do Congresso diocesano de Roma sobre «Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé».

O Congresso situa-se na linha da missão na Cidade iniciada com o Sínodo diocesano de Roma. A missão da família na comunidade cristã, para a formação da pessoa e a transmissão da fé - foi o núcleo da reflexão do Papa, partindo do ensinamento da exortação apostólica «Familiaris consortio» (nn. 12-16).

Damos a seguir um excerto do seu discurso.

 

 

Os filhos

 

Também na geração dos filhos o matrimónio reflecte o seu modelo divino, o amor de Deus pelo homem. No homem e na mulher a paternidade e a maternidade, como o corpo e como o amor, não se deixam circunscrever ao biológico: a vida é dada totalmente somente quando, com o nascimento, são dados também o amor e o sentido que tornam possível dizer sim a esta vida. Precisamente daqui torna-se de todo evidente como é contrário ao amor humano, à vocação profunda do homem e da mulher, fechar sistematicamente a própria união ao dom da vida, e mais ainda suprimir ou manipular a vida nascente.

Nenhum homem e nenhuma mulher podem, porém, sozinhos e unicamente com as próprias forças, dar aos filhos de maneira adequada o amor e o sentido da vida. De facto, para poder dizer a alguém «a tua vida é boa, embora eu não conheça o teu futuro», são necessários uma autoridade e uma credibilidade superiores às que o indivíduo pode ter por si. O cristão sabe que esta autoridade é conferida àquela família mais vasta que Deus, através do seu Filho Jesus Cristo e do dom do Espírito Santo, criou na história dos homens, isto é, à Igreja. Ele reconhece aqui em acção aquele amor eterno e indestrutível que assegura à vida de cada um de nós um sentido permanente, mesmo se não conhecemos o futuro. Por este motivo, a edificação de cada família cristã coloca-se no contexto da família mais ampla da Igreja, que a ampara e a leva consigo, e garante que existe o sentido e que haverá também no seu futuro o «sim» do Criador. E, reciprocamente, a Igreja é edificada pelas famílias, «pequenas Igrejas domésticas», tal como as chamou o Concílio Vaticano II (Lumen gentium, 11; Apostolicam actuositatem, 11), redescobrindo uma antiga expressão patrística (São João Crisóstomo, In Genesim serm. VI, 2; VII, 1). No mesmo sentido, a Familiaris consortio afirma que «o matrimónio cristão... constitui o lugar natural onde se realiza a inserção da pessoa humana na grande família da Igreja» (n. 15).

 

A família e a Igreja

 

De tudo isto surge uma consequência evidente: a família e a Igreja – nomeadamente, as paróquias e as outras formas de comunidade eclesial – são chamadas à mais estreita colaboração naquela tarefa fundamental que é constituída, inseparavelmente, pela formação da pessoa e pela transmissão da fé. Sabemos bem que, para uma autêntica obra educativa, não basta uma teoria certa ou uma doutrina para ser comunicada. É necessário algo muito maior e humano, aquela proximidade, vivida quotidianamente, que é própria do amor e que encontra o seu espaço mais propício antes de mais na comunidade familiar, mas depois também numa paróquia, ou movimento ou associação eclesial, nos quais se encontrem pessoas que cuidem dos irmãos, em particular das crianças e dos jovens, mas também dos adultos, dos idosos, dos doentes, das próprias famílias, porque querem, em Cristo, o seu bem. O grande Padroeiro dos educadores, São João Bosco, recordava aos seus filhos espirituais que «a educação é coisa do coração e só Deus é o dono deste» (Epistolário, 4,209).

Ponto central na obra educativa, e especialmente na educação na fé, que é o vértice da formação da pessoa e o seu horizonte mais adequado, é concretamente a figura da testemunha: ela torna-se ponto de referência precisamente enquanto sabe dar razão da esperança que sustenta a sua vida (cfr. 1Pe 3,15) e está pessoalmente comprometida com a verdade que propõe. Por outro lado, a testemunha nunca se propõe a si mesma, mas algo, ou melhor, Alguém maior do que ela, Alguém que ela encontrou e cuja bondade confiante experimentou. Assim, cada educador e cada testemunha encontra o seu modelo insuperável em Jesus Cristo, a grande Testemunha do Pai, que não dizia nada de si mesmo, mas falava tal como o Pai Lhe tinha ensinado (cfr. Jo 8, 28).

Este é o motivo pelo qual, na base da formação da pessoa cristã e da transmissão da fé, está necessariamente a oração, a amizade com Cristo e a contemplação n’Ele do rosto do Pai. O mesmo é válido, evidentemente, para todo o nosso compromisso missionário, em particular para a pastoral familiar: a Família de Nazaré seja, portanto, para as nossas famílias e para as nossas comunidades, objecto de oração constante e confiante, além de ser modelo de vida.

Queridos irmãos e irmãs, e especialmente vós, queridos sacerdotes, conheço a generosidade e a dedicação com que servis o Senhor e a Igreja. O vosso trabalho quotidiano na formação para a fé das novas gerações, em estreita ligação com os sacramentos da iniciação cristã, como também na preparação para o matrimónio e no acompanhamento das famílias no seu caminho, com frequência nada fácil, em particular na grande tarefa da educação dos filhos, é a via fundamental para regenerar continuamente a Igreja e também para vivificar o tecido social desta nossa amada cidade de Roma.

 

A ameaça do relativismo

 

Continuai, pois, sem vos deixardes desencorajar pelas dificuldades que encontrais. A relação educativa é, por sua natureza, uma coisa delicada: com efeito, pressupõe a liberdade do outro que, mesmo se docemente, é sempre provocada a tomar uma decisão. Nem os pais, nem os sacerdotes ou catequistas, nem os outros educadores se podem substituir à liberdade da criança, do rapaz, ou do jovem a quem se dirigem. E, de modo especial, a proposta cristã interpela a fundo a liberdade, chamando-a à fé e à conversão. Hoje, um obstáculo particularmente insidioso na obra educativa é constituído pela presença maciça, na nossa sociedade e cultura, daquele relativismo que, não reconhecendo nada como definitivo, deixa como última medida apenas o próprio eu com os seus desejos, e, sob a aparência de liberdade, torna-se para cada um uma verdadeira prisão, porque separa uns dos outros, levando cada um a encontrar-se encerrado dentro do próprio «eu». Neste horizonte relativista, não é possível, portanto, uma verdadeira educação: sem a luz da verdade, mais cedo ou mais tarde, cada pessoa está condenada a duvidar da bondade da sua própria vida e das relações que a constituem, da validade do seu compromisso em construir com os outros qualquer coisa em comum.

Portanto, é claro que não só devemos procurar superar o relativismo no nosso trabalho de formação das pessoas, como somos também chamados a fazer frente ao seu predomínio destrutivo na sociedade e na cultura. Por isso, é muito importante, ao lado da palavra da Igreja, o testemunho e o compromisso público das famílias cristãs, especialmente para reafirmar a inviolabilidade da vida humana desde a sua concepção até ao seu termo natural, o valor único e insubstituível da família fundada sobre o matrimónio e a necessidade de disposições legislativas e administrativas que defendam as famílias na sua tarefa de gerar e educar os filhos, tarefa essencial para o nosso futuro comum. Também por este compromisso vos digo um cordial obrigado.

 


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