qUARTA-FEIRA DE CINZAS

14 de Fevereiro de 2018

 

Na Missa deste dia benzem-se e impõem-se as cinzas, feitas dos ramos de oliveira (ou de outras árvores), benzidos no Domingo de Ramos do ano anterior.

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Eis o tempo favorável, M. Borda, NRMS 53

cf. Sab 11, 24-25.27

Antífona de entrada: De todos Vos compadeceis, Senhor, e amais tudo quanto fizestes; perdoais aos pecadores arrependidos, porque sois o Senhor nosso Deus.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

«Convertei-vos a mim de todo o coração». Este apelo de Deus entusiasma-nos, neste início de caminhada quaresmal, a viver como discípulos missionários em estado de conversão de coração. Por isso, a imposição das cinzas pode ser uma oportunidade para fazer memória da nossa condição pecadora, que quer ser acolhida pela misericórdia do Pai, e a suplicar com insistência no silêncio do nosso interior: dai-nos um coração puro. Vivamos este momento em ambiente de oração, predispondo o nosso coração para o arrependimento, a mudança e a novidade de vida que Deus estimula na nossa missão.

 

Deixamos, para o momento da imposição das Cinzas, o ato penitencial.

Oremos a Deus, nosso Pai.

 

Omite-se o acto penitencial, porque é substituído pela imposição das cinzas.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Senhor, a graça de começar com santo jejum este tempo da Quaresma, para que, no combate contra o espírito do mal, sejamos fortalecidos com o auxílio da temperança. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Pela palavra do profeta da penitência somos convocados para a assembleia do povo de Deus. Todo o cristão se há de manifestar, na Quaresma, membro de um povo que se regenera, renovando em si a vida batismal por meio de uma profunda reconversão.

 

Joel 2, 12-18

 

12Diz agora o Senhor: «Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. 13Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete. 14Quem sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de Si uma bênção, para oferenda e libação ao Senhor, vosso Deus? 15Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. 16Reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças. Saia o esposo do seu aposento e a esposa do seu tálamo. 17Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: ‘Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo e não entregueis a vossa herança à ignomínia e ao escárnio das nações. Porque diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?’». 18O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo.

 

Começa a Quaresma com um forte apelo à conversão e de esperança no perdão do Senhor, extraído do final da primeira parte do livro do profeta Joel (1, 2 – 2, 17). Num estilo solene e apocalíptico, fala de uma invasão de gafanhotos medonhos, mas sem ficar claro se fala em sentido próprio ou figurado. Se a obra é anterior ao exílio de Babilónia, aludiria a invasões de exércitos inimigos; se é posterior, tratar-se-ia de alguma praga agrícola. Joel não se detém a denunciar os pecados concretos do povo, como é costume dos grandes profetas. Diante da enorme calamidade apresentada como castigo divino, o profeta apela para uma sincera conversão, a começar pela dos sacerdotes (1, 13).

12-13 «Convertei-vos a Mim de todo o coração». Não é suficiente uma manifestação exterior de dor; rasgar as vestes (v. 13) era um típico gesto de grande dor ou indignação, entre os judeus; rasgavam violentamente a túnica exterior, do pescoço até à cintura (cf. Gn 37, 29; Mt 26, 65). O coração não significa, na linguagem bíblica, apenas a afectividade, mas toda a interioridade da pessoa, todas as suas virtualidades, a sua inteligência e a sua vontade. Deus também nos convida a nós, mais fortemente neste tempo da Quaresma, a voltarmo-nos para Ele de todo o coração, isto é, com todas as veras da nossa alma, e a rasgar o nosso coração, a dilacerá-lo pela contrição, que é essa profunda mágoa de ter ofendido ao Senhor, infinitamente bom. Mas esta dor não é dor angustiante e desesperada, porque é cheia de esperança no perdão, pois Ele é clemente e compassivo… rico de bondade.

«É clemente e compassivo, paciente e misericordioso». A Vulgata e a Neovulgata têm «benignus et misericors est, patiens et multæ misericordiæ». «Compassivo», isto é, dotado de piedade e ternura, de compreensão e disposição para perdoar: o termo hebraico «rahum» é derivado de «réhem» (ventre materno), o que sugere que Deus tem entranhas de mãe, sentimentos e coração de mãe para connosco. Assim, o seu amor não acaba quando nos portamos mal com Ele; então tem pena de nós, compreende e facilita a reconciliação. Por seu lado, a expressão «misericordioso» (à letra, «de muita misericórdia») deixa ver que a misericórdia do Senhor («hésed») não é uma bondade qualquer, é a bondade de Quem se mantém fiel a Si próprio (cf. Ez 36, 22); daqui a frequente hendíadis da S. E.: «amor e fidelidade» («hésed v-émet», um amor que é fidelidade). Este atributo divino tem na sua origem bíblica um matiz jurídico: a fidelidade de Deus à Aliança; uma fidelidade tal que, após o pecado, se mantém, embora já não dentro do mero âmbito legal dum pacto bilateral. Com efeito, mesmo quando o homem rompe a Aliança, Deus continua a manter-se fiel a Si próprio, ao seu amor gratuito, ao seu dom inicial (cf. Rom 11, 29). O amor de Deus é mais forte do que o nosso desamor, as nossas traições e pecados: «jamais algum pecado do mundo poderá superar este Amor» (João Paulo II em Fátima: 13.05.82; cf. Enc. Dives in misericordia).

14 «Vai reconsiderar». A expressão é um antropomorfismo com que se fala de Deus à maneira humana, mas de facto Deus não pode reconsiderar e mudar; se, em face da nossa penitência, Deus já não nos castiga e atende às nossas súplicas, a mudança apenas se dá em nós, não em Deus que, sempre tudo tem presente e tudo dispõe, contando com as nossas mudanças. O Profeta fala de Deus à maneira humana, ao dizer também que «Ele se encheu de zelo pela sua terra» (v. 18), em face do apelo feito ao brio do Senhor, numa súplica tão humilde como ousada da parte dos seus «ministros» (v. 17).

 

Salmo Responsorial    Sl 50 (51), 3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)

 

Refrão:        Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.

 

Ou:               Tende compaixão de nós, Senhor,

                     porque somos pecadores.

 

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.

Lavai-me de toda a iniquidade

e purificai-me de todas as faltas.

 

Porque eu reconheço os meus pecados

e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.

Pequei contra Vós, só contra Vós,

e fiz o mal diante dos vossos olhos.

 

Criai em mim, ó Deus, um coração puro

e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.

Não queirais repelir-me da vossa presença

e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

 

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação

e sustentai-me com espírito generoso.

Abri, Senhor, os meus lábios

e a minha boca cantará o vosso louvor.

 

Segunda Leitura

 

Monição: São Paulo lembra aos cristãos de Corinto que é Deus quem, no fundo, convida, como é Deus quem perdoa e reconcilia. Ele é sempre o princípio e o termo da nossa conversão.

 

2 Coríntios 5, 20 – 6, 2

 

20Irmãos: Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. 21A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus. 6,1Como colaboradores de Deus, nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. 2Porque Ele diz: «No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio». Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação.

 

S. Paulo, ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e Ressurreição de Cristo (5, 14-15).

20 «Reconciliai-vos com Deus». É este o insistente convite que a Igreja nos faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S. Paulo, consciente de que «é Deus quem vos exorta por nosso intermédio». Os Apóstolos, como os demais ministros de Cristo, são «embaixadores de Cristo», não apenas «ao seu serviço», mas actuando «em vez de Cristo e por autoridade de Cristo»; o próprio texto original grego parece dá-lo a entender com a preposição hyper (em favor de Cristo), usada com o sentido do antí (em vez de: cf. Jo 11, 50; Gal 3, 13; etc.).

21 «Deus identificou-o com o pecado» (à letra, Deus fê-lo pecado, uma expressão extraordinariamente forte e chocante. Note-se, no entanto, que não se diz que Deus O tenha feito pecador; o que se pretende significar é que Deus permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui duma identificação jurídica, não moral. Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (a raça humana), a fim de os expiar, sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3, 13). O texto torna-se menos duro, se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício pelo pecado; isto, que pode parecer uma escapatória para evitar a dificuldade de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra ’axam tem este duplo sentido de «violação da justiça» e de «sacrifício de reparação pelo pecado»; com efeito, pelo sacrifício de Cristo tornamo-nos «justiça de Deus», isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois substantivos abstractos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo antitético, tão do gosto paulino).

6, 2 «Este é o tempo favorável». S. Paulo cita aqui Isaías 49, 8, onde se classifica assim o momento em que aprouve à misericórdia divina libertar os israelitas do cativeiro. O Apóstolo diz que «agora» é que é o tempo realmente favorável, o tempo em que Jesus Cristo nos redimiu do cativeiro do pecado (cf. Gal 4, 4-5). A linguagem paulina é ainda mais expressiva e rica do que a da versão grega de Isaías (LXX): agora é que é o momento singularmente oportuno, em que apraz à misericórdia divina operar a nossa salvação. Não há dúvida que a Liturgia pretende fazer uma acomodação deste texto ao tempo santo da Quaresma.

 

Aclamação ao Evangelho        cf. Sl 94, 8ab

 

Monição: O Evangelho recorda-nos que tudo há de sair do coração sincero e penitente e conduzir à renovação do coração sob o olhar de Deus.

 

 

Cântico: F. Silva, NRMS 1 (I)

 

Se hoje ouvirdes a voz do Senhor,

não fecheis os vossos corações.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 6, 1-6.16-18

 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1«Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. 2Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 5Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa».

 

Os versículos da leitura são tirados do Sermão da Montanha de S. Mateus; por focarem práticas tipicamente judaicas, estes não têm paralelos nos outros evangelistas, que se dirigem a cristãos na sua maioria vindos dos gentios.

1 «As vossas boas obras» letra, a vossa justiça), isto é, os actos tradicionais da boa piedade judaica, a esmola, a oração e o jejum. Jesus de modo algum os suprime ou diminui o seu valor, pelo facto de serem actos de piedade pessoal individual, mas exige que todos estes actos se façam sempre com rectidão de intenção, isto é, com uma sincera piedade, com o fim de agradar a Deus, e não por ostentação, ou para se receber o aplauso humano.

6 «Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto». Segundo estas palavras de Jesus, desde crianças, fomos ensinados a rezar não apenas comunitariamente, mas também, a sós: «no teu quarto». O Senhor ensina aqui a necessidade da oração individual (o que não quer dizer individualista). Deus chama os homens à salvação, fazendo-os entrar dentro do Povo de Deus, a sua Igreja, mas chama-os um a um (nominatim: Jo 10, 3); daqui que são imprescindíveis tanto a oração púbica, que manifesta o carácter de família e povo que somos em Cristo, como a oração a sós, que manifesta a resposta pessoal e intransferível de cada um de nós ao seu Pai celeste. Por sua vez, Jesus não se limitou a pregar a necessidade da oração individual, pois Ele próprio deu este mesmo exemplo (cf. Mt 14, 23; Mc 1, 35; Lc 5, 16; 6, 12; 9, 18; 11, 1.28-29), um exemplo que foi seguido pelos Apóstolos (cf. Act 10, 9-16). Também a experiência pessoal de todos os santos e dos que tomam a sério a fé cristã nos diz que é imprescindível este tipo de oração, que consiste em se recolher para, a sós, falar com Deus, frequentemente. A esta oração recolhida e íntima nos convida hoje o Senhor e a Liturgia nesta Quaresma, que agora começa.

 

Sugestões para a homilia

 

1. Três atitudes

2. Um caminho de santidade

 

 

1. Três atitudes

 

Começamos hoje o tempo santo da Quaresma. Diz-nos a tradição que é um tempo de preparação para as festas da Páscoa. E, de facto, a Quaresma introduz-nos no caminho da Páscoa, ao longo de quarenta dias, número de grande simbologia na tradição bíblica, em que somos convidados a converter-nos a Deus e acreditarmos mais no Evangelho.

Mais do que um tempo de penitência, a quaresma é marcada pela austeridade, ou se quisermos, pela simplicidade. O Evangelho convida-nos ao despojamento dos gestos e das orações. A não sermos complicados, a não termos segundas intenções no que fazemos, a sermos verdadeiros com Deus, connosco próprios e com os outros. Por isso apresenta-nos três atitudes que, nós, cristãos, deveríamos praticar sempre, mas que, neste tempo quaresmal, devemos ter como prioridade no caminho da nossa conversão a Cristo: a oração, o jejum e a esmola. Pela oração, somos convidados à simplicidade na nossa relação com Deus; a não pedirmos muitas coisas, a não nos distrairmos do essencial, mas a termos uma relação filial com Deus. Pelo jejum, somos convidados à simplicidade da nossa vida; a deixar de lado os protagonismos, a nossa autossuficiência e a sermos controlados na ambição e na possessão das coisas. Por fim a esmola, que nos diz que devemos ser simples na nossa relação com os outros: a partilharmos o que temos e somos e a sermos sinceros nas nossas relações com os outros.

 

2. Um caminho de santidade

 

Essas três atitudes, se as entendemos só como penitências, de pouco nos hão de valer; se as entendermos como meio de conversão ao Evangelho, vemos nelas um bom caminho de santidade.

Dizia há pouco que a Quaresma só se entende tendo como fim a Páscoa. Assim é a nossa vida: uma Quaresma que nos conduz à verdadeira Páscoa que é Cristo. Santo Agostinho faz esta analogia entre a Quaresma da Igreja e a quaresma da vida: “Da mesma maneira que a Quaresma, tempo que precede a festa da Páscoa, é figura dos trabalhos e sofrimentos desta vida mortal, assim os dias de alegria que se seguem depois da Páscoa são símbolo da vida futura, na qual havemos de reinar com o Senhor”.

Que o Senhor leve a bom termo os nossos propósitos quaresmais. Que eles sirvam para descobrirmos o seu grande amor, no qual a cruz é o grande sinal. E que esta Quaresma oriente a nossa vida

 

Fala o Santo Padre

 

«Far-nos-á bem a todos, no início desta Quaresma, pedir o dom das lágrimas, de modo a tornar a nossa oração

e o nosso caminho de conversão cada vez mais autênticos e sem hipocrisia.»

Como povo de Deus, começamos o caminho da Quaresma, tempo em que procuramos unir-nos mais intimamente ao Senhor, para compartilhar o mistério da sua paixão e da sua ressurreição.

A liturgia de hoje propõe-nos antes de tudo o trecho do profeta Joel, enviado por Deus para chamar o povo à penitência e à conversão, por causa de uma calamidade (uma invasão de gafanhotos) que devasta a Judeia. Unicamente o Senhor pode salvar do flagelo e, por conseguinte, é necessário suplicá-lo com orações e jejuns, confessando o próprio pecado.

O profeta insiste sobre a conversão interior: «Voltai para mim com todo o vosso coração» (2, 12).

Voltar para o Senhor «com todo o vosso coração» significa empreender o caminho de uma conversão não superficial nem transitória, mas sim um itinerário espiritual que diz respeito ao lugar mais íntimo da nossa pessoa. Com efeito, o coração é a sede dos nossos sentimentos, o centro no qual amadurecem as nossas escolhas e as nossas atitudes. Aquele «voltai para mim com todo o vosso coração» não se refere unicamente aos indivíduos, mas estende-se à comunidade inteira, é uma convocação dirigida a todos: «reuni o povo; santificai a assembleia, agrupai os anciãos, congregai as crianças e os lactentes; saia o recém-casado dos seus aposentos, e a esposa da sua câmara nupcial» (vv. 15-16).

O profeta medita de maneira particular sobre a prece dos sacerdotes, observando que ela deve ser acompanhada de lágrimas. Far-nos-á bem a todos, mas especialmente a nós sacerdotes, no início desta Quaresma, pedir o dom das lágrimas, de modo a tornar a nossa oração e o nosso caminho de conversão cada vez mais autênticos e sem hipocrisia. Far-nos-á bem interrogar-nos: «Eu choro? O Papa chora? Os cardeais choram? Os bispos choram? Os consagrados choram? Os sacerdotes choram? Há pranto nas nossas orações?». É precisamente esta a mensagem do Evangelho deste dia. No trecho de Mateus, Jesus volta a ler as três obras de piedade previstas na lei moisaica: a esmola, a oração e o jejum. E distingue a situação exterior da interior, daquele chorar com o coração. Ao longo do tempo, estas prescrições foram corroídas pela ferrugem do formalismo exterior, ou até se transformaram num sinal de superioridade social. Jesus põe em evidência uma tentação comum nestas três obras, que se pode resumir precisamente na hipocrisia (que é mencionada três vezes): «Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para serdes admirados por eles... Quando, pois, deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas... Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé... para serem vistos pelos homens... E quando jejuardes, não tenhais um ar triste, como os hipócritas» (Mt 6, 1.2.5.16). Irmãos, estai conscientes de que os hipócritas não sabem chorar, já se esqueceram de como se chora, não pedem o dom das lágrimas.

Quando realizamos algo de bom, quase instintivamente nasce em nós o desejo de sermos estimados e até admirados por esta boa acção, para recebermos uma satisfação. Mas Jesus convida-nos a realizar as boas obras sem qualquer ostentação, confiando unicamente na recompensa do Pai, «que vê o segredo» (Mt 6, 4.6 e 18).

Estimados irmãos e irmãs, o Senhor nunca se cansa de ter misericórdia de nós, e deseja oferecer-nos mais uma vez o seu perdão — todos nós temos necessidade disto — convidando-nos a voltar para Ele com um coração novo, livres do mal e purificados pelas lágrimas, para participar na sua alegria. Como responder a este convite? É são Paulo quem no-lo sugere: «Rogamos-vos, em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus!» (2 Cor 5, 20). Este esforço de conversão não é apenas uma obra humana, mas significa deixar-se reconciliar. A reconciliação entre nós e Deus é possível graças à misericórdia do Pai que, por amor a nós, não hesitou em santificar o seu único Filho. Com efeito Cristo, que era justo e não conhecia o pecado, fez-se pecado por nós (cf. v. 21), quando na cruz assumiu os nossos pecados, e deste modo nos resgatou e justificou diante de Deus. «Nele» nós podemos tornar-nos justos, nele nós podemos mudar, se acolhermos a graça de Deus e não deixarmos passar em vão este «momento favorável» (6, 2). Por favor, paremos, detenhamo-nos um pouco, para nos deixarmos reconciliar com Deus!

Com esta consciência, encetemos confiantes e jubilosamente o itinerário quaresmal. Maria Mãe Imaculada, sem pecado, sustente o nosso combate espiritual contra o pecado, acompanhando-nos neste momento favorável, a fim de que possamos entoar juntos a exultação da vitória no dia da Páscoa. E como sinal da vontade de nos deixarmos reconciliar com Deus, além das lágrimas que estarão «no segredo», em público também realizaremos o gesto da imposição das Cinzas sobre a cabeça. O celebrante pronuncia as seguintes palavras: «Recorda-te que és pó, e pó te hás-de tornar» (cf. Gn 3, 19), ou então repete a exortação de Jesus: «Convertei-vos e crede no Evangelho» (cf. Mc 1, 15). Ambas as fórmulas constituem uma evocação da verdade acerca da existência humana: somos criaturas limitadas, pecadores sempre necessitados de penitência e de conversão. Como é importante ouvir e aceitar tal exortação nesta nossa época! Por isso, o convite à conversão constitui um impulso a voltar, como fez o filho da parábola, aos braços de Deus, Pai terno e misericordioso, a chorar naquele abraço, a confiar nele e a entregar-se a Ele.

 

Papa Francisco, Homilia, Basílica de Santa Sabina, 18 de Fevereiro de 2015

 

Bênção das cinzas

 

Depois da homilia, o sacerdote, de pé, diz com as mãos juntas:

 

Irmãos caríssimos: Oremos fervorosamente a Deus nosso Pai, para que Se digne abençoar com a abundância da sua graça estas cinzas que vamos impor sobre as nossas cabeças, em sinal de penitência.

 

E depois de alguns momentos de oração em silêncio, diz esta oração (2.ª opção):

 

Deus de infinita bondade, que não desejais a morte do pecador mas a sua conversão, ouvi misericordiosamente as nossas súplicas e dignai-Vos abençoar estas cinzas que vamos impor sobre as nossas cabeças, para que, reconhecendo que somos pó da terra e à terra havemos de voltar, alcancemos, pelo fervor da observância quaresmal, o perdão dos pecados e uma vida nova à imagem do vosso Filho ressuscitado, Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

O sacerdote asperge as cinzas com água benta, sem dizer nada.

 

Imposição das cinzas

 

Em seguida, o sacerdote impõe as cinzas a todos os presentes que se aproximam dele, dizendo a cada um:

 

Mc 1, 15

·         Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.

cf. Gen 3, 19

·         Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás-de voltar.

Rom 12,8

·         Pratica a misericórdia, com alegria!

Lc 6,36

·         Sede misericordiosos, como o Pai.

 

Entretanto, canta-se um cântico apropriado, por exemplo:

 

cf. Joel 2, 13

Antífona: Mudemos as nossas vestes pela cinza e o cilício. Jejuemos e choremos diante do Senhor, porque Deus é infinitamente misericordioso e perdoa os nossos pecados.

 

ou

cf. Joel 2, 17; Est 13, 17

Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo, para que possa cantar sempre os vossos louvores.

 

ou

Salmo 50, 3

Lavai-me de toda a iniquidade, Senhor.

 

Pode repetir-se esta antífona depois de cada versículo ou estrofe do salmo 50. Compadecei-Vos de mim, ó Deus.

 

Responsório

cf. Bar 3, 2; Salmo 78, 9

V.  Renovemos a nossa vida,

reparemos o mal que fizemos,

para que não nos surpreenda o dia da morte

e nos falte o tempo para nos convertermos.

R.  Ouvi-nos, Senhor, e tende compaixão de nós,

porque somos pecadores.

 

V.  Ajudai-nos, Senhor, para glória do vosso nome;

perdoai as nossas culpas e salvai-nos.

R.  Ouvi-nos, Senhor, e tende compaixão de nós,

porque somos pecadores.

 

Terminada a imposição das cinzas, o sacerdote lava as mãos. O rito conclui-se com a oração universal ou oração dos fiéis. Não se diz o Credo.

 

Oração Universal

 

Ao darmos início ao tempo santo da Quaresma,

oremos para que todos os homens se convertam

e tomem parte na renovação pascal,

dizendo confiantes:

 

R. Ouvi-nos, Senhor.

 

1. Para que este seja o tempo de nos aproximarmos do Senhor, «com a plena segurança da fé»,

o tempo de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança»

e o tempo favorável à prática do «amor feito de boas obras».

Oremos irmãos.

 

2. Pelos que governam os povos:

para que estejam de olhar bem atento e consciente,

aos que mais precisam da solicitude social do Estado.

Oremos irmãos.

 

3. Para que, na família, na sociedade e na Igreja,

saibamos cuidar uns dos outros,

estimulando-nos à prática das boas obras,

da solidariedade, da justiça, da misericórdia e da compaixão.

Oremos irmãos.

 

4. Para que o nosso coração não fique endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual»,

que nos torna cegos aos sofrimentos alheios e surdos ao brado dos pobres,

mas antes nos adiantemos uns aos outros na mútua estima.

Oremos irmãos.

 

5. Para que nesta comunidade paroquial

se desenvolva a solicitude pelo bem espiritual dos irmãos,

através da correção fraterna, praticada na humildade e no amor.

Oremos irmãos.

 

Senhor, nosso Deus, dai-nos um olhar capaz de amar o invisível,

um olhar que ama e corrige,

que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc. 22, 61),

como Vós o fizestes e fazeis com cada um de nós.

Por Jesus Cristo nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Amai como Eu vos amei, J. Santos, NRMS 87

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, este sacrifício, com o qual iniciamos solenemente a Quaresma, e fazei que, pela penitência e pela caridade, nos afastemos do caminho do mal, a fim de que, livres de todo o pecado, nos preparemos para celebrar fervorosamente a paixão de Cristo, Vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio da Quaresma III p. 463 ou IV p. 464 [598-710]

 

Santo: F. da Silva, NRMS 38

 

Monição da Comunhão

 

A cinza derramada sobre a nossa cabeça é reconhecimento da nossa fragilidade, do nosso pecado. Contudo, sentimos que o Pai de misericórdia nos impulsiona a fazer caminho de conversão, porque alimentados e fortalecidos pelo sacramento da Eucaristia.

 

Cântico da Comunhão: O Senhor me apontará o caminho, F. da Silva, NRMS 69

Salmo 1, 2-3

Antífona da comunhão: Aquele que medita dia e noite na lei do Senhor dará fruto a seu tempo.

 

Oração depois da comunhão: Senhor, fazei que este sacramento nos leve a praticar o verdadeiro jejum que seja agradável a vossos olhos e sirva de remédio aos nossos males. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Não te contentes em receber a cinza na cabeça. Lembra-te que és pó.

Não te contentes em arrepender-te. Acredita no Evangelho.

Partamos com a feliz esperança de purificar o nosso coração ao longo deste caminho quaresmal!

 

Cântico final: Da morte e do pecado, J. Santos, NRMS 29

 

A bênção e imposição das cinzas pode fazer-se também fora da Missa. Nesse caso, convém que preceda uma liturgia da palavra, utilizando a antífona de entrada, a oração colecta, as leituras e seus cânticos, como na Missa. Depois da homilia, procede-se à bênção e imposição das cinzas. O rito conclui com a oração universal.

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO DA QUARESMA

 

CINZAS

 

5ª Feira, 15-II: O caminho da vida e o caminho da morte.

Deut 30, 15-20 / Lc 9, 22-25

E dizia a todos: Se alguém quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo, pegue na sua cruz todos os dias e siga-me.

Diante de nós temos dois caminhos: um que conduz à vida e outro que leva à perdição (Leit. e Ev.). Jesus deu-nos exemplo, pegando na sua cruz, com muito amor, a caminho do Calvário. Pede-nos que nos decidamos a seguir o mesmo caminho (Ev.).

Para isso, teremos que renunciar cada dia ao nosso eu, provocar uma rotura com o pecado, ter aversão ao mal. E ter o desejo e o propósito de mudar de vida, de perder o medo à pequena cruz de cada dia: às contrariedades, aos sofrimentos físicos ou morais; procurar oferecer pequenos sacrifícios, com um sorriso nos lábios e alegria interior na nossa alma.

 

6ª Feira, 16-II: O jejum agradável a Deus.

Is 58, 1-9 / Mt 9, 14-15

Será então jejum que me agrada mortificar-se um homem durante um dia? O jejum que me agrada não será antes este...

Que jejum agradará ao Senhor? O jejum é uma forma particular de oração dos sentidos: sobriedade nas comidas, bebidas, uso da TV e Redes Sociais, vencimento do comodismo e da preguiça...

Para que o jejum seja autêntico, deve ser sempre acompanhado pela caridade (Leit.). Procuremos, pois, viver as obras de misericórdia, que são acções caridosas, pelas quais vamos em auxílio do nosso próximo, das suas necessidades materiais e espirituais. Como consequência, haverá mais luz na nossa na vida e o Senhor curará as nossas feridas (Leit.).

 

Sábado, 17-II: A cura das feridas da alma.

Is 58, 9-14 / Lc 5, 27-32

Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas aqueles que estão doentes. Eu não vim chamar os justos, vim chamar os pecadores.

Jesus apresenta-se como o Médico divino (Ev.), para curar as feridas da nossa alma. Para isso, sofreu muitos padecimentos na sua paixão, até que o seu corpo ficou feito uma chaga.

Por isso, contamos com a ajuda de Deus para repararmos as brechas (Leit.) que há na nossa vida: as do egoísmo, da sensualidade, da preguiça, etc. Contamos com o sacramento da Penitência, pelo qual se aplica nas nossas feridas a paixão Nosso Senhor Jesus Cristo, os méritos de Nª Senhora e de todos os Santos, todo o bem que fizermos e o mal que suportarmos, para que nos sirvam de proveito para aumento da graça e penhor da vida eterna.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Nuno Westwood

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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