TEMAS LITÚRGICOS

A oração universal

 

 

 

P. Pedro Boléo Tomé

 

Assisti com alguma frequência a pedidos feitos sobre a Oração dos fiéis ou Oração Universal. Um deles ficou-me gravado e tendo a reproduzi-lo em situações semelhantes.

- Senhor Padre, gostávamos de fazer uma oração dos fiéis especial. É possível?

O padre olhou-os e esperou que todos os presentes estivessem atentos antes de pronunciar a resposta.

- Sim, claro. Desde que não esteja em contradição com o seu nome.

Dito isto, sorriu e percorreu as pessoas que se encontravam na sacristia com o olhar. Sabia de antemão que não iam entender, mas olhava-as com um sorriso bondoso. Não, ele não queria guerras ou colocar entraves. Aquele sacerdote percebia bem o que lhe tinham pedido, dar um cunho particular aquela celebração e estava de acordo com isso. Porém, queria alertá-las para mais. Então, acrescentou:

- Ela deve ser universal.

Deu um tempo para que pensassem e depois, acrescentou:

- Deve incluir toda a Igreja, todas as suas intenções, também as vossas, as nossas, as deste dia, que não poderiam faltar, claro. Mas, sem esquecer as outras. As dos ausentes, os necessitados, todos. É a oração universal ou oração dos fiéis.

Esta oração é, de algum modo, uma resposta à Palavra de Deus. O povo dirige-se a Deus e exerce o seu sacerdócio comum pedindo por todos.[1] Por todas as necessidades da Igreja e dos homens, independentemente da sua raça, país ou condição. Daí o seu nome: universal. Chama-se dos fiéis, porque é pronunciada pela comunidade, como resposta à Palavra que o Senhor lhe dirigiu. É resposta de fé. Resposta que dilata o coração, que o torna como o de Cristo, capaz de se recordar de todos os homens. Mais, de morrer por eles.[2]

Suarez sublinha este facto recordando um elemento curioso da Missa de S. Pio V. Tratava-se de uma «anomalia curiosa. Ao terminar o Credo, o sacerdote voltava-se para os fiéis e saudava-os, dizendo: «O Senhor esteja convosco». Depois da resposta do povo, acrescentava: «Oremos!»; mas a este «Oremos» nenhuma oração se seguia, o que parece indicar que, no correr dos tempos, se perdera a oração que devia vir em seguida ao convite do sacerdote».[3] Efetivamente, essa oração existiu e o Concílio Vaticano II solicitou expressamente que fosse recuperada e reintroduzida na celebração:

«Deve restaurar-se, especialmente nos domingos e festas de preceito, a “Oração comum” ou “oração dos fiéis”, recitada após o Evangelho e a homilia, para que, com a participação do povo, se façam preces pela Santa Igreja, pelos que nos governam, por aqueles a quem a necessidade oprime, por todos os homens e pela salvação de todo o mundo».[4]

Desde o tempo do Papa Félix III que dita oração é chamada de «oração dos fiéis». Porquê? Para a distinguir das preces dos catecúmenos. Daí a tal chamada à oração e naquele momento específico. Eram preces que requeriam o batismo, o sacerdócio comum do batismo. Tratava-se, pois, de uma oração própria dos fiéis batizados: «Na antiguidade, antes de elevar estas súplicas, convidava-se os catecúmenos a abandonar o templo. Tinham escutado as leituras e a homilia, mas não possuíam ainda o carácter batismal, não estavam habilitados para o exercício do sacerdócio comum. Por isso, a primeira parte da celebração litúrgica chamava-se também “Missa dos catecúmenos”. A segunda parte da celebração, a parte eucarística, ficava reservada aos batizados. O pórtico de entrada era, precisamente, a “oratio fidelium”»[5].

Agora, porém, ela não é o começo da liturgia eucarística, mas sim o final da liturgia da Palavra. Efetivamente, na disposição atual a «oração dos fiéis» conclui a Liturgia da Palavra e, de certa forma, configura-se como a sua conclusão e, ao mesmo tempo, como o seu cume, se a virmos do ponto de vista da participação dos fiéis.[6]

O Missal Romano, na sua introdução geral, dá indicações precisas sobre o que pedir e, inclusive, por que ordem pedir:

«Normalmente a ordem das intenções é a seguinte:

a)     Pelas necessidades da Igreja

b)     Pelas autoridades civis e pela salvação do mundo;

c)     Por aqueles que sofrem dificuldades;

d)     Pela comunidade local

Em celebrações especiais – por exemplo, Confirmação, Matrimónio, Exéquias – a ordem das intenções pode acomodar-se às circunstâncias[7]

Todo este número da IGMR parece querer ajudar-nos a conformar o nosso coração com o do Cristo, as nossas intenções com as d’Ele. Quer levantar-nos o olhar para o mundo, para os homens e para os irmãos. Um olhar que se interessa e se compadece. Trata-se, pois, de uma oração que tende a universalizar a nossa oração, a torná-la sacerdotal e a libertar-nos do egoísmo e da visão curta a que o homem e a mulher, feridos pelo pecado original, são tão propensos.

Nesse sentido foram as indicações de S. Paulo a Timóteo:

«Recomendo-te, pois, antes de tudo, que se façam súplicas, orações, petições, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, para que levemos uma vida sossegada e tranquila em toda a piedade e dignidade.»[8]

Aliás, a antiguidade desta oração testemunha esta caraterística da Igreja. Já S. Justino testemunha explicitamente a existência de uma oração deste tipo no seio da celebração eucarística logo a seguir às leituras e homilia.[9] Parecem mesmo existir registos de orações de intercessão em forma litânica na liturgia sinagogal que, naturalmente, passaram para a liturgia eucarística.[10] Silvestre destaca S. Agostinho entre os Padres da Igreja como aquele que mais se refere nos seus escritos à oração dos fiéis.[11] «Conservamos textos magníficos elaborados pelas primeiras gerações cristãs; e outrora (…). O modelo mais impressionante que temos desta oração é a grande intercessão de Sexta-feira Santa, na hora em que a Igreja contempla o seu Cristo e Senhor, cravado no madeiro da cruz, oferecendo a sua vida em sacrifício ao Pai dos céus pela salvação do mundo».

É por Cristo, com Cristo e em Cristo que nós também queremos fazer as nossas preces. Por isso, fazemo-las com a Igreja e, por isso, fazemo-las universais.

 

 

 

 

 

 



[1] MISSAL ROMANO, Introdução Geral ao Missal Romano, n. 69.

[2] «Por outras palavras, a Igreja, congregada pela Palavra Divina, pondo em ato a sua fé na comunhão dos santos e na sua vocação universal, apresenta-se como a grande intercessora e advogada de todos os homens.»: SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p. 123.

[3] SUAREZ, F, O Sacrifício do altar, Edições Prumo, 1989, p. 125.

[4] SC 53

[5] J. ECHEVARRÍA, Vivir la Santa Misa, Rialp 2010, p. 77.

[6] Cfr. SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p. 122.

[7] MISSAL ROMANO, Introdução Geral ao Missal Romano, n. 70.

[8] 1Tim 2, 1-2.

[9] S. JUSTINO, Apologia, 1, 67.

[10] Cfr. SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p. 121.

[11] Ibíd. p. 122.


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