DOCUMENTAÇÃO

FRANCISCO

 

VIAGEM APOSTÓLICA À COLÔMBIA

 

 

De 6 a 11 de Setembro passado, o Papa Francisco realizou a sua Viagem apostólica à Colômbia, para uma visita centrada no tema da reconciliação, numa altura em que o país estava em processo de paz depois de mais de 50 anos de guerra civil.

Damos a seguir o comentário que o próprio Papa fez na seguinte audiência geral da quarta-feira (13-IX-2017).

 

 

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

 

Como sabeis, nos dias passados realizei a Viagem apostólica à Colômbia. De todo o coração dou graças ao Senhor por este grande dom; e desejo renovar a expressão do meu reconhecimento ao Senhor Presidente da República, que me recebeu com muita cortesia, aos Bispos colombianos que muito trabalharam para preparar esta visita, assim como às Autoridades do país, e a quantos colaboraram para a realização desta visita. E um agradecimento especial ao povo colombiano que me acolheu com muito afecto e muita alegria! Um povo alegre no meio de muitos sofrimentos, mas alegre; um povo com esperança. Uma das coisas que mais me impressionaram em todas as cidades, no meio da multidão, foram os pais e as mães com os filhos, que os erguiam para que o Papa os abençoasse, mas também com orgulho mostravam os próprios filhos como se dissessem: “Este é o nosso orgulho! Esta é a nossa esperança”. Eu pensei: um povo capaz de ter filhos e de os mostrar com orgulho, como esperança: este povo tem futuro. Gostei muito disto.

De modo particular nesta viagem senti a continuidade com os dois Papas que antes de mim visitaram a Colômbia: o beato Paulo VI, em 1968, e São João Paulo II, em 1986. Uma continuidade fortemente animada pelo Espírito, que guia os passos do povo de Deus nos caminhos da história.

O lema da viagem foi “Dar o primeiro passo”, referido ao processo de reconciliação que a Colômbia está a viver para sair de meio século de conflito interno, que semeou sofrimentos e inimizades, causando muitas feridas, difíceis de cicatrizar. Mas com a ajuda de Deus o caminho já começou. Com a minha visita quis abençoar o esforço daquele povo, confirmá-lo na fé e na esperança, e receber o seu testemunho, que é uma riqueza para o meu ministério e para toda a Igreja. O testemunho deste povo é uma riqueza para toda a Igreja.

A Colômbia – como a maior parte dos países latino-americanos – é um país no qual as raízes cristãs são fortíssimas. E se este facto torna ainda mais aguda a dor pela tragédia da guerra que o dilacerou, ao mesmo tempo constitui a garantia da paz, o firme fundamento da sua reconstrução, a linfa da sua esperança invencível. É evidente que o Maligno quis dividir o povo para destruir a obra de Deus, mas também é evidente que o amor de Cristo, a sua infinita Misericórdia é mais forte do que o pecado e a morte.

Esta viagem levou a bênção de Cristo, a bênção da Igreja ao desejo de vida e de paz que transborda do coração daquela nação: pude observá-lo nos olhos dos milhares e milhares de crianças, adolescentes e jovens que encheram a praça de Bogotá e que encontrei em toda a parte; aquela força de vida que também a própria Natureza proclama com a sua exuberância e a sua biodiversidade. A Colômbia é o segundo país do mundo pela biodiversidade. Em Bogotá pude encontrar todos os Bispos do país e também o Comité Directivo da Conferência Episcopal Latino-americana. Dou graças a Deus por os ter podido abraçar e lhes ter dado o meu encorajamento pastoral, para a sua missão ao serviço da Igreja, sacramento de Cristo nossa paz e nossa esperança.

O dia dedicado de modo particular ao tema da reconciliação, momento culminante de toda a viagem, foi realizado em Villavicencio. De manhã houve a grande celebração eucarística, com a beatificação dos mártires Jesus Emílio Jaramillo Monsalve, bispo, e Pedro Maria Ramírez Ramos, sacerdote; à tarde, a especial Liturgia de Reconciliação, simbolicamente orientada para o Cristo de Bocayá, sem braços nem pernas, mutilado como o seu povo.

A beatificação dos dois Mártires recordou plasticamente que a paz se funda também, e talvez sobretudo, no sangue de tantas testemunhas do amor, da verdade, da justiça, e também de verdadeiros e próprios mártires, assassinados pela fé, como os dois que acabei de citar. Ouvir as suas biografias foi comovedor até às lágrimas: lágrimas de dor e de alegria ao mesmo tempo. Diante das suas Relíquias e das suas imagens, o santo povo fiel de Deus sentiu com força a própria identidade, com dor, pensando nas muitas, demasiadas vítimas, e com alegria, pela misericórdia de Deus que se estende sobre os que o temem (cf. Lc 1, 50).

«Misericórdia e verdade encontrar-se-ão, / justiça e paz beijar-se-ão» (Sl 85, 11), escutámos no início. Este versículo do Salmo contém a profecia do que aconteceu na última sexta-feira na Colômbia; a profecia e a graça de Deus por aquele povo ferido, para que possa levantar-se e caminhar numa vida nova. Estas palavras proféticas cheias de graça vimo-las encarnadas nas histórias das testemunhas, que falaram em nome de muitos que, a partir das suas feridas, com a graça de Cristo saíram de si mesmos e abriram-se ao encontro, ao perdão, à reconciliação.

Em Medellín a perspectiva foi a da vida cristã como discipulado: a vocação e a missão. Quando os cristãos se esforçam até ao fundo no caminho do seguimento de Jesus Cristo, tornam-se deveras sal, luz e fermento no mundo, e vêem-se frutos abundantes. Um destes frutos são os Hogares, isto é, as casas onde crianças e adolescentes feridos pela vida podem encontrar uma nova família na qual são amados, acolhidos, protegidos e acompanhados. Outros frutos, abundantes como cachos, são as vocações para a vida sacerdotal e consagrada, que pude abençoar e encorajar com alegria num encontro inesquecível com os consagrados e seus familiares.

Por fim, em Cartagena, a cidade de São Pedro Claver, apóstolo dos escravos, o “focus” foi sobre a promoção da pessoa humana e dos seus direitos fundamentais. São Pedro Claver, como mais recentemente Santa Maria Bernarda Bütler, deram a vida pelos mais pobres e marginalizados, mostrando assim a via da verdadeira revolução, a evangélica, não a ideológica, que liberta realmente as pessoas e as sociedades das escravidões de ontem e, infelizmente, também de hoje. Neste sentido, “dar o primeiro passo” – o lema da viagem – significa aproximar-se, inclinar-se, tocar a carne do irmão ferido e abandonado. E fazê-lo com Cristo, o Senhor que se tornou escravo por nós. Graças a Ele há esperança, porque Ele é a misericórdia e a paz.

Novamente confio a Colômbia e o seu amado povo à Mãe, Nossa Senhora de Chiquinquirá, que pude venerar na catedral de Bogotá. Com a ajuda de Maria, cada colombiano poderá em cada dia dar o primeiro passo em direcção ao irmão e à irmã, e assim construir juntos, dia após dia, a paz no amor, na justiça e na verdade.

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial