TEMAS LITÚRGICOS

O Credo

 

 

 

 

P. Pedro Boléo Tomé

 

 

Nos domingos e solenidades está prevista a recitação do Credo, uma profissão de fé fixa. «Desde a origem, a Igreja apostólica exprimiu e transmitiu a sua própria fé em fórmulas breves e normativas para todos. Mas, bem cedo a Igreja quis também recolher o essencial da sua fé em resumos orgânicos e articulados, destinados sobretudo ao Batismo»[1]. Porque se insere esta fórmula batismal na celebração eucarística? Quando se começou ela a recitar na Missa? Porquê sempre com a mesma fórmula? Qual o sentido de recitar em conjunto e que tipo de oração é esta?

 

A introdução do Credo na celebração eucarística

Sobre a riqueza desta profissão de fé gostaria de citar as palavras de S. Cirilo de Jerusalém que o Catecismo da Igreja Católica recolhe:

«Esta síntese da fé não foi feita segundo as opiniões humanas; mas recolheu-se de toda a Escritura o que nela há de mais importante, para apresentar na íntegra aquilo e só aquilo que a fé ensina. E, tal como a semente de mostarda contém, num pequeno grão, numerosos ramos, do mesmo modo este resumo da fé encerra em algumas palavras todo o conhecimento da verdadeira piedade contido no Antigo e no Novo Testamento»[2].

Porém, porquê na Missa? Sabemos que «esta profissão de fé é manifestamente um acréscimo à missa primitiva. Ela é completamente estranha ao rito eucarístico que é um sacrifício de louvor»[3].

Para o responder pode ser bom olharmos para o momento da celebração eucarística no qual foi introduzido o Credo. Acaba de terminar a homilia e, com ela, terminava nos primeiros tempos da Igreja, a Missa dos catecúmenos. A partir desse momento, só os fiéis, aqueles que tinham recebido o Batismo, eram admitidos à celebração dos mistérios. «O diácono elevava a voz para despedir os infiéis, os catecúmenos e os pecadores públicos. Esta despedida era tão grave, tão solene, tão instrutiva e comovedora, que o povo, por essa razão, deu ao Sacrifício o nome de despedida, Missa».[4]

Daí que, com certa naturalidade, se tenha introduzido um rito que é, de por si, próprio do batismo.[5] Talvez, precisamente, para garantir que todos os que ficavam na Igreja partilhavam sinceramente da mesma fé. Nalguns casos, deveu-se mesmo às heresias que surgiram no seio das comunidades, levando as autoridades a ordenarem o costume de formular solenemente e em conjunto a regula fidei.[6]

Compreende-se, portanto, que a recitação do Credo não tenha surgido de forma universal e simultânea. Nasceu no Oriente no séc. VI, de lá passou à Espanha, às Gálias e aos países germânicos (sec. VIII). Roma pareceu resistir à introdução desse costume. Até que, em 1014 o imperador romano Henrique II, de origem germânica, por ocasião da sua coroação na Cidade eterna pelo Papa Bento VIII se mostrou um pouco escandalizado pelo facto de em Roma não se cantar o Credo a seguir ao Evangelho, como se fazia na Alemanha. Diz-se que um romano lhe teria replicado, com muita graça, ser inútil a recitação do Credo em Roma uma vez que esta nunca tinha sido herege. Porém, o Papa acedeu ao desejo do imperador e no século XI a missa romana adotou o Credo restringindo o seu uso nos domingos e dias de festa.[7]

 

Aos domingos, uma fórmula fixa

«Alguns dizem: “É sempre a mesma coisa! Porque não se varia um pouco a fórmula para ser menos aborrecida?”».[8] Lustiger vai responder recordando o facto de o fazermos dominicalmente. O domingo é o dia da Ressurreição do Senhor e, de domingo em domingo, os cristãos reunidos na Missa celebram a Páscoa de Cristo Jesus. Ora a Páscoa é a festa da Ressurreição e, portanto, a festa do Batismo, porque, pela graça deste sacramento, os homens e mulheres que morreram com Cristo ressuscitam com Ele.

«Recitar o Credo é um sinal de reconhecimento da fé de todos os cristãos e, ao mesmo tempo, o lembrar a cada um o seu próprio batismo. Proclamar essas palavras fixadas pela Igreja indivisa (quer dizer, antes dos grandes cismas) é recordar, numa fé renovada, de Páscoa a Páscoa, de domingo a domingo, o ato pelo qual nos tornámos filhos do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito, membros da Igreja».[9]

Compreende-se, então, que a Introdução Geral ao Missal Romano indique que o Credo seja rezado pelo sacerdote juntamente com o povo.

Recordo a este respeito uma indicação da Sacrossantum Concilium a respeito do canto gregoriano e do latim. Pedia-se que se mantivesse o conhecimento de alguns destes cânticos gregorianos na língua oficial da Igreja e, em especial, recomendava-se o Credo. Tratava-se, evidentemente, de um desejo de não perder um elemento agregador. Que pretendiam os antigos ao introduzir o Credo? Unir-nos a todos na proclamação da mesma fé. Por isso, pedia-se, inclusive, que fosse cantado. Daí que, embora as outras partes da missa tivessem melodias variadas (Kyrie, Gloria, Sanctus, Agnus Dei) para o Credo houve durante muito tempo um canto único.[10]

Vem à minha mente um episódio dos meus estudos em Roma. Fui com vários amigos visitar a basílica de S. Pedro. Chegados ao altar da confissão alguém propôs recitar o Credo. Pertencíamos a várias nacionalidades. Cada um começou na sua língua. Seja pelo que for, a certo ponto demos-nos conta de que nenhum tinha chegado ao fim. Decidimos então entoar o Credo em gregoriano, em latim, que todos conhecíamos e, desta vez, cantámo-lo todos juntos, do princípio ao fim, sem que nada fosse esquecido, sem que nenhum artigo fosse omitido. Os antigos sabiam-no: o canto é mais fácil de memorizar e de recordar.

 

O símbolo de Niceia-Constantinopla e o Símbolo dos Apóstolos

Quando na Missa dizemos, solenemente e em conjunto, «creio», aderimos ao «nós cremos» da Igreja. [11] Trata-se de um ato não só pessoal, mas comunitário, eclesial. «O acto de fé é pessoalíssimo, mas refere-se sempre a uma fé que é a fé da Igreja e que só na Igreja se pode professar em plenitude».[12]

Por isso, adquire particular sabor recitar a fórmula que se recitava nos primeiríssimos tempos: «O Símbolo dos Apóstolos, é assim chamado porque se considera com justa razão, o resumo fiel da fé dos Apóstolos».[13]

 O Símbolo dito de Niceia-Constantinopla deve a sua grande autoridade ao facto de ser proveniente desses dois primeiros concílios ecuménicos.[14] Embora o texto atual não seja literalmente o das duas veneráveis assembleias do séc. IV, exprime, todavia, o verdadeiro pensamento dos Padres que proclamaram contra Ario a divindade de Jesus Cristo, e contra Macedónio a divindade do Espírito Santo.[15]

Recitar assim o Credo com fé é entrar em comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e entrar em comunhão com toda a Igreja. Não se trata, pois, de algo mecânico, cerebral ou frio, mas de uma forma litúrgica de nos unirmos a Deus e aos irmãos na fé.

«Se confessares com a tua boca o Senhor Jesus e creres no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos serás salvo. Com o coração se crê para alcançar a justiça, mas com a boca se faz a confissão para conseguir a salvação».[16]

Sim, é possível recitar o Credo com o coração, saboreando as verdades de fé, como dizia S. Josemaria: «Dizei-lhe ao Senhor com toda a alma, e com desejos de reparação: Senhor, creio! Creio em Ti, com todo o meu coração. Creio tudo o que em teu nome nos ensina a Igreja. Creio e espero firmemente em ti, e amo-te sobre todas as coisas. Ajuda-me, meu Deus, a crer e a acender a fé em muitos corações!»[17]

Assim, recitando o Credo com essas disposições da alma, cumpriremos a finalidade litúrgica da sua recitação. Se a liturgia da Palavra se estrutura como um diálogo entre Deus e a sua Igreja, entre o Senhor e os fiéis, com a recitação do Credo respondemos, aderindo com fé, aos mistérios que nos acabam de ser revelados.[18]

 

 

 

 



[1] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 186

[2] S. CIRILO DE JERUSALÉM, Catecheses illuminandorum 5, 12: Opera, v.1, ed. G.C. Reischl (Monachi 1848), p. 150 (PG 33, 521-524)

[3] CHEVROT, J, A Santa Missa, Aster, 1957, p. 97.

[4] SUAREZ, F, O Sacrifício do altar, Edições Prumo, 1989, p. 119.

[5] «O Símbolo de fé é, antes de mais, um símbolo batismal», Catecismo da Igreja Católica n. 189.

[6] A título de exemplo: «Foi o imperador Carlos Magno e S. Paulino de Aquileya (780-802) quem, como resposta às ideias adopcionistas de Félix de Urgel e Elipando de Toledo, mandaram que se introduzisse o Credo no final da liturgia da Palavra»: SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p. 118.

[7] CHEVROT, J, A Santa Missa, Aster, 1957, p. 98.

[8] LUSTIGER, J-M. A Missa, Editorial A. O., 2003, p. 96.

[9] Ibid. p. 98.

[10] CHEVROT, J, A Santa Missa, Aster, 1957, p. 99.

[11] Cfr. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 185.

[12] SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p. 119.

[13] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 194: «É o antigo símbolo batismal da Igreja de Roma. A sua grande autoridade vem-lhe deste facto: “É o símbolo adotado pela Igreja romana, aquela em que Pedro, o primeiro dos Apóstolos, teve a sua cátedra, e para a qual ele trouxe a expressão da fé comum (S. Ambrósio)”»

[14] Ibíd. n. 195

[15] CHEVROT, J, A Santa Missa, Aster, 1957, p. 99.

[16] Rom 10, 8-10.

[17] S. JOSEMARIA, carta 19-III-1967, nn. 50-51, in: J. ECHEVARRÍA, Vivir la Santa Misa, Rialp 2010, p. 75.

[18] Cfr. IGMR n. 67.


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