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A TRAIÇÃO

 

 

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Talvez haja explicação para isso, mas não deixa de ser curioso que a Irmã Lúcia, nos seus «Apelos da Mensagem de Fátima», se tenha «enganado» no segundo mistério doloroso do Santo Rosário: «A Prisão de Jesus», deixando para o terceiro «Jesus flagelado e coroado de espinhos». Talvez sentisse a falta da contemplação do mistério dolorosíssimo da traição de Judas.

Traidores foram todos os outros Apóstolos e discípulos, excepto as santas mulheres que acompanhavam Nossa Senhora, e João, que fugiu também e voltou mais tarde, mas traidores por fraqueza e confusão no meio daquele desconcerto da captura do Mestre, que julgavam invencível – e que o era de facto. A traição de Judas, porém, premeditada e cautelosamente preparada, ainda hoje nos arrepia e custa a entender. Não faltam complicadas explicações psicológicas que chegam a inibi-lo de culpa e até a «justificá-lo», como instrumento necessário da Redenção. E todas embatem com a demorada vileza do processo de entrega do Mestre aos seus inimigos, tanto mais estranha quanto mais se considera o seu perfeito conhecimento por parte de Jesus.

A contemplação dos mistérios dolorosos não pode limitar-se à da simples fraqueza humana: à brutalidade dos costumes e das próprias leis, à covardia, ao jogo ardiloso de interesses, ao desespero, às exaltações colectivas, à resistência a tudo o que é verdadeiramente novo e nos transtorna… Temos de reconhecer que a malvadez humana chega a ser diabólica. Atinge graus e formas inconcebíveis no plano psicológico. Razão tinha aquele sacerdote que presenciou torturas indescritíveis sobre populações indefesas, fazendo notar a dificuldade do perdão quando parece que é preciso perdoar… o próprio demónio.

Nosso Senhor quis passar por todas as aflições humanas. E uma delas é aquela a que se referia Guimarães Rosa em «Grande Sertão. Veredas»: «Ser chefe às vezes é isso: levar cobras na sacola sem concessão de se matar».

 

 


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