A PALAVRA DO PAPA

A FORMAÇÃO DOS JOVENS SACERDOTES

 

 

 

Ao receber em audiência os participantes na Plenária da Congregação para o Clero, o Santo Padre quis dirigir-se em particular aos jovens sacerdotes, para cuja formação se destina a nova “Ratio fundamentalis”, recentemente publicada.

Damos a seguir um excerto do seu discurso (1-VI-2017).

 

 

(…..)

Deixemo-nos em primeiro lugar iluminar pela Palavra de Deus, que nos mostra como o Senhor chama os jovens, confia neles, envia-os para a missão.

Enquanto «a palavra do Senhor era rara naqueles dias» (1 Sam 3, 1), porque o povo se tinha pervertido e já não escutava a voz do Senhor, Deus dirige-se ao jovem Samuel, um pequeno “ajudante do Templo” que se torna profeta para o povo (cf. 1 Sam 3, 1-10). Depois, o olhar do Senhor, indo além de qualquer aparência, escolhe David, o mais pequenino entre os filhos de Jessé, e unge-o como rei de Israel (cf. 1 Sam 16, 1-13). A Jeremias, preocupado por ser demasiado jovem para a missão, o Senhor garante: «Não digas: “Sou apenas uma criança”, porque estarei contigo” (Jer 1, 1.8). Também dos Evangelhos podemos aprender que a escolha do Senhor recaiu sobre os pequeninos, e a missão de anunciar o Evangelho, confiada aos discípulos, não se baseia na grandeza das forças humanas, mas na disponibilidade a deixar-se guiar pelo dom do Espírito.

Eis o que eu gostaria de dizer aos jovens sacerdotes: vós sois escolhidos, sois queridos do Senhor! Deus olha para vós com a ternura de Pai e, depois de ter feito com que o vosso coração se apaixone, não deixará os vossos passos vacilar. Aos seus olhos sois importantes e Ele tem confiança de que estareis à altura da missão para a qual vos chamou. Como é importante que os jovens sacerdotes encontrem párocos e bispos que os incentivem nesta perspetiva, e não os esperem somente porque há necessidade de substituições e de preencher lugares vazios!

Sobre isto gostaria de dizer duas coisas que me vêm à mente. Lugares vazios: não preencher aqueles lugares com pessoas que não foram chamadas pelo Senhor, não tomar em qualquer lugar; examinar bem a vocação de um jovem, a autenticidade, e se vem para se refugiar ou porque sente a chamada do Senhor. Acolher somente porque precisamos, queridos bispos, é uma hipoteca para a Igreja! Uma hipoteca. Segundo: não deixá-los sozinhos. A proximidade: bispos próximos dos sacerdotes; bispos próximos dos padres. Quantas vezes escutei lamentações de sacerdotes... Isto já o contei muitas vezes – talvez já o tenhais ouvido –: Telefonei ao bispo; não estava, e a secretária disse-me que não estava; pedi para marcar um encontro. “Está tudo cheio em três meses...”. E aquele sacerdote fica separado do bispo. Mas tu, bispo, se sabes que na lista das chamadas que te deixou o teu secretário ou a tua secretária chamou um sacerdote e tens a agenda cheia, naquele mesmo dia, à noite ou no dia seguinte – não mais do que isso –, chama-o pelo telefone e explica como estão as coisas, avaliai juntos, se é urgente, se não é urgente... Mas o importante é que aquele sacerdote sinta que tem um pai, um pai próximo. Proximidade. Proximidade aos sacerdotes. Não se pode governar uma diocese sem proximidade, não se pode fazer crescer e santificar um sacerdote sem a proximidade paterna do bispo.

Alegro-me sempre quando encontro sacerdotes jovens, porque neles vejo a juventude da Igreja. Por isso, pensando na nova Ratio, que fala sobre o sacerdote como um discípulo missionário em formação permanente (cf. n. 3), desejo indicar, antes de tudo aos jovens padres, algumas atitudes importantes: rezar sem se cansar, caminhar sempre e compartilhar com o coração. 

 

Rezar sem se cansar. Porque somente podemos ser “pescadores de homens” se reconhecermos, primeiro nós, que fomos “pescados” pela ternura do Senhor. A nossa vocação iniciou-se quando, depois de ter abandonado a terra do nosso individualismo e dos nossos projetos pessoais, nos encaminhámos para a “viagem santa”, entregando-nos àquele Amor que nos procurou de noite e àquela Voz que fez vibrar o nosso coração. Deste modo, como os pescadores da Galileia, deixámos as nossas redes para segurar as que o Mestre nos entregou. Se não permanecermos estreitamente ligados a Ele, a nossa pesca não poderá ter bom êxito. Rezar sempre, recomendo-vos!

Durante os anos de formação, os horários das nossas jornadas eram cadenciados de maneira que pudéssemos ter o tempo necessário para a oração; mas, não se pode ter tudo assim em ordem – a vida é outra coisa – tudo organizado, uma vez que estamos imersos nos ritmos, por vezes acelerados, dos compromissos pastorais. Todavia, precisamente o que adquirimos no período do Seminário – vivendo a harmonia entre oração, trabalho e repouso – representa um recurso precioso para enfrentar as fadigas apostólicas. Todos os dias temos necessidade de parar, pôr-nos à escuta da Palavra de Deus e deter-nos diante do Tabernáculo. “Mas, eu tento, porém... adormeço diante do Tabernáculo”. Dorme, porque o Senhor gosta, mas fica ali, diante d’Ele. E procura também escutar o nosso corpo, que é um bom médico, e nos avisa quando o cansaço ultrapassou os limites. A oração, a relação com Deus, o cuidado da vida espiritual dão ânimo ao ministério, e o ministério, por assim dizer, dá corpo à vida espiritual: porque o sacerdote santifica-se a si mesmo e aos outros no exercício concreto do ministério, especialmente pregando e celebrando os Sacramentos.

Segundo: caminhar sempre, porque um sacerdote nunca é “acabado”. Permanece sempre um discípulo, peregrino pelas estradas do Evangelho e da vida, presente no limiar do mistério de Deus e na terra sagrada das pessoas que lhe foram confiadas. Nunca poderá sentir-se satisfeito nem poderá apagar a salutar inquietação que lhe faz estender as mãos ao Senhor para se deixar formar e encher. Por conseguinte, actualizar-se sempre e permanecer aberto às surpresas de Deus! Nesta abertura ao novo, os jovens sacerdotes podem ser criativos na evangelização, frequentando com discernimento os novos lugares da comunicação, onde encontrar rostos, histórias e perguntas das pessoas, desenvolvendo a capacidade de sociabilidade, de relacionamento e de anúncio da fé. Do mesmo modo, eles podem “estar em rede” com os outros presbíteros e evitar que a insídia da auto-referencialidade trave a experiência regeneradora da comunhão sacerdotal. Com efeito, em todos os âmbitos da vida presbiteral é importante progredir na fé, no amor e na caridade pastoral, sem ficar presos nas próprias aquisições ou fixar-se nos próprios esquemas.

Por fim, compartilhar com o coração, porque a vida presbiteral não é um ofício burocrático nem um conjunto de práticas religiosas ou litúrgicas a despachar. Falámos muito do “padre burocrata” que é “clérigo de Estado” e não pastor do povo. Ser padre é arriscar a vida pelo Senhor e pelos irmãos, trazendo na própria carne as alegrias e as angústias do Povo, dedicando tempo e escuta para curar as feridas dos outros, e oferecendo a todos a ternura do Pai. Partindo da memória da sua experiência pessoal – quando estavam no oratório, cultivavam sonhos e amizades animados do amor juvenil pelo Senhor –, os novos sacerdotes têm a grande oportunidade de viver esta partilha com os jovens e os adolescentes. Trata-se de estar no meio deles – também aqui proximidade! – não apenas como um amigo entre outros, mas como quem sabe compartilhar com o coração a vida deles, escutar as suas perguntas e participar concretamente nas diversas vicissitudes da sua vida. Os jovens não precisam de um profissional do sagrado ou de um herói que, do alto e de fora, responda às suas interrogações; pelo contrário, eles sentem-se atraídos por quem sabe envolvê-los sinceramente na própria vida, acompanhando-os com respeito e escutando-os com amor. Trata-se de ter um coração cheio de paixão e compaixão, sobretudo para com os jovens.

Rezar sem se cansar, caminhar sempre e compartilhar com o coração, significa viver a vida sacerdotal olhando para o alto e pensando em grande. Não é uma tarefa fácil, mas pode-se ter plena confiança no Senhor, porque ele nos precede sempre no caminho! Maria Santíssima, que rezou sem se cansar, caminhou atrás do seu Filho e compartilhou a sua vida até aos pés da cruz, nos guie e interceda por nós. Por favor, rezai por mim!

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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