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O SACERDÓCIO

 

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Na actual revisão e aprofundamento da Mensagem de Fátima, não passem despercebidos certos aspectos «colaterais», como o grande respeito pelo sacerdócio manifestado pelos Videntes desde o começo, apesar do incómodo que representava para eles a curiosidade maliciosa ou impertinente de muitos padres, cujos interrogatórios constituíam um dos maiores sacrifícios que tiveram de suportar, assim como a profunda gratidão por tantos outros que os ajudaram a esclarecer as recomendações da «Senhora mais brilhante do que o sol» e a pô-las em prática pessoalmente. Nem esqueçamos as suas orações pela nossa santificação, sobretudo no caso de Santa Jacinta, que tanto orou e se sacrificou por nós.

Às vezes somos nós mesmos os primeiros a «habituar-nos» à altíssima dignidade que Deus nos concedeu e a ver nos outros sacerdotes apenas «colegas de profissão», mais ou menos simpáticos, mais ou menos «competentes», mais ou menos «estimáveis», enfim, sem visão sobrenatural.

Todos os baptizados participam do sacerdócio de Cristo, é verdade, mas, como bem sabemos, o nosso sobrepuja o daqueles que não receberam o Sacramento da Ordem. E vale a pena recordá-lo e transmiti-lo aos fiéis.

Embora seja óbvia a diferença essencial entre o «sacerdócio ministerial» e o «sacerdócio comum», pelos poderes sacramentais exclusivos do primeiro, não é fácil exprimir em palavras chãs o seu conceito teológico a quem não está familiarizado com expressões clássicas, como «in Christo capite», ainda que traduzido ao «vulgar»: «em Cristo, Cabeça». Hoje em dia. de facto, esta expressão seria entendida, de imediato, como proeminência: tal como a cabeça se destaca do corpo na posição mais elevada, assim Cristo – e n’Ele, os sacerdotes – se «elevam» e «presidem» aos fiéis comuns. Ou seja, relaciona-se equivocadamente o sacerdócio com a missão de governo eclesiástico, que só corresponde aos Bispos e, acima deles, ao Papa; e sendo ela mesma uma missão de serviço. Todos nos ordenámos para sermos «servos dos servos de Deus» e, se nos cabe presidir e «governar» o rebanho que nos foi confiado, trata-se de um «poder pastoral delegado» e só enquanto nos mantiverem nessa missão. Não é essa, portanto, a diferença essencial entre o nosso sacerdócio e o sacerdócio comum.

Talvez nos tenhamos esquecido do que significava a cabeça para os antigos: significava a fonte da vida. A experiência elementar – e infelizmente tão abundante – de que, perdendo pernas e braços, ainda assim se podia continuar a viver, mas, perdendo a cabeça, o homem morria fatalmente, levava a velha Medicina a concluir que a vida residia na cabeça e dela se comunicava aos membros. «In Christo capite», não quer dizer que somos «superiores», «chefes», «presidentes», mas fonte de Vida e de Verdade, ao serviço de todos.

Seria conveniente alguma vez explicar que, enquanto todos os fiéis recebem (ou recuperam) a Vida através dos Sacramentos, só os sacerdotes dão essa Vida, por meio da Sagrada Eucaristia, da Penitência, da Confirmação e da Unção dos Doentes, além de administrarem normalmente o Baptismo, de presidirem ao Matrimónio, de proclamarem e exporem a Palavra de Deus e oficiarem o culto divino.

Daí, a reverência que nos é devida – e que devemos honrar com o nosso procedimento – sem a confundirmos com qualquer tipo de subserviência ou admiração pessoal. Não tendo isto presente, descuidaríamos facilmente a nossa vida interior e cairíamos em equívocos prejudiciais a todos: o clericalismo, as comparações (sempre odiosas), o espírito de «carreira», contra o qual tantas vezes nos tem avisado o Papa Francisco. Pelo contrário, quanto mais nos compenetrarmos com o dom sublime que Deus nos concedeu, mais humildes seremos, com mais empenho procuraremos ser fonte abundante e pura para a sede espiritual dos nossos irmãos e de todas as almas.

À Virgem Maria, que não recebeu o nosso sacerdócio, mas no-lo deu no seu Filho, peçamos que nunca nos satisfaçam os nossos «êxitos pastorais», nem as nossas capacidades e virtudes, e que, assim como Deus não «desiste» de ninguém até à morte, nunca desistamos nós de santificar-nos, apesar de todas as nossas fraquezas.

 

 

 

 

 

 

 


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