ECONOMIA E COMUNHÃO

ECONOMIA DE COMUNHÃO

Uma iniciativa do Movimento dos Focolares

 

PAPA FRANCISCO

 

 

No passado dia 4 de Fevereiro, o Papa Francisco recebeu os participantes no Encontro Internacional promovido pelo Movimento dos Focolares, cujo objectivo era analisar os resultados da Economia de Comunhão, uma iniciativa nascida há 25 anos no Brasil por proposta da fundadora do Movimento, Chiara Lubich (1920-2008), falecida com fama de santidade.

Damos a seguir o discurso do Papa em que anima a desenvolver esta nova economia.

 

Queridos irmãos e irmãs!

É com prazer que vos recebo, como representantes de um projeto no qual estou sinceramente interessado desde há muito tempo. Dirijo a minha cordial saudação a cada um de vós e agradeço de maneira especial ao coordenador, Prof. Luigino Bruni, as amáveis palavras que me dirigiu. Obrigado também pelos testemunhos!

Economia e comunhão. Duas palavras que a cultura atual mantém bem separadas e muitas vezes considera até opostas. Duas palavras que pelo contrário vós unistes, aceitando o convite que há vinte e cinco anos vos dirigiu Chiara Lubich no Brasil, quando, perante o escândalo da desigualdade na cidade de São Paulo, pediu aos empresários que se tornassem agentes de comunhão. Exortando-vos a ser criativos e competentes, mas não só.

Vós considerais o empresário como um agente de comunhão. Inserindo na economia a boa semente da comunhão, destes início a uma profunda mudança no modo de ver e de viver a empresa. A empresa pode não destruir a comunhão entre as pessoas, mas também pode edificá-la, promovê-la. Com a vossa vida mostrais que economia e comunhão se tornam mais belas quando está uma ao lado da outra. Mais bela a economia, certamente, mas também mais bela a comunhão, porque a comunhão espiritual dos corações é ainda mais plena quando se torna comunhão de bens, de talentos e de lucros.

 

Pensando no vosso compromisso, hoje gostaria de vos dizer três coisas.

A primeira refere-se ao dinheiro. É muito importante que no centro da economia de comunhão esteja a comunhão dos vossos lucros. A economia de comunhão é também comunhão dos lucros, expressão da comunhão da vida. Muitas vezes falei do dinheiro como ídolo. A Bíblia di-no-lo de várias maneiras. Não é por acaso que o primeiro ato público de Jesus, no Evangelho de João, é a expulsão dos mercadores do Templo (cf. Jo 2, 13-21). Não se pode compreender o novo Reino trazido por Jesus, se não nos libertamos dos ídolos, entre os quais um dos mais poderosos é o dinheiro. Portanto, como é possível ser mercadores que Jesus não expulsa? O dinheiro é importante, sobretudo quando não há e dele dependem a comida, a escola e o futuro dos filhos. Mas torna-se ídolo quando se torna a finalidade. A avareza, que não por acaso é um vício capital, constitui um pecado de idolatria porque a acumulação de dinheiro para si mesmo se torna a finalidade do próprio agir. Foi Jesus, precisamente Ele, quem atribuiu a categoria de “Senhor” ao dinheiro: “Ninguém pode servir a dois senhores, a dois patrões”. São dois: Deus ou o dinheiro, o anti-Deus, o ídolo. Foi isto que Jesus disse. No mesmo nível de opção. Pensai nisto!

Quando o capitalismo faz da busca do lucro o seu único objetivo, corre o risco de se tornar uma estrutura idolátrica, uma forma de culto. A “deusa fortuna” é cada vez mais a nova divindade de certas finanças e de todo aquele sistema do jogo de azar que está a destruir milhões de famílias no mundo, e que vós justamente combateis. Este culto idolátrico é um sucedâneo da vida eterna. Todos os produtos (automóveis, telefones...) envelhecem e gastam-se, mas se eu tiver dinheiro ou crédito posso adquirir imediatamente outros, criando a ilusão de vencer a morte.

Compreende-se, então, o valor ético e espiritual da vossa opção de colocar o lucro em comum. O modo melhor e mais concreto para não fazer do dinheiro um ídolo é compartilhá-lo, dividi-lo com os outros, sobretudo com os pobres, ou para levar os jovens a estudar e a trabalhar, vencendo a tentação idolátrica com a comunhão. Quando compartilhais e doais os vossos lucros, realizais um ato de elevada espiritualidade, dizendo com factos ao dinheiro: tu não és Deus, tu não és Senhor, tu não és patrão! E não vos esqueçais também daquela alta filosofia e alta teologia, que levavam as nossas avós a dizer: «O diabo entra pelos bolsos». Não vos esqueçais disto!

 

A segunda coisa que vos quero dizer refere-se à pobreza, um tema central no vosso Movimento.

Hoje tomam-se múltiplas iniciativas, públicas e privadas, para combater a pobreza. E tudo isto, por um lado, é um crescimento em humanidade. Na Bíblia, os pobres, os órfãos, as viúvas, os “descartados” da sociedade daquele tempo, eram ajudados com o dízimo e com a recolha do resto do grão. Mas a maioria do povo permanecia pobre, pois aquela ajuda não era suficiente para alimentar e cuidar de todos. Os “descartados” da sociedade continuavam a ser muitos. Hoje inventamos outros modos para cuidar, alimentar e educar os pobres, e algumas das sementes da Bíblia floresceram em instituições mais eficazes do que as antigas. A razão dos impostos está também nesta solidariedade, a qual é negada pela evasão e pela fraude fiscal que, antes de serem ações ilegais, são ações que negam a lei básica da vida: o socorro mútuo.

No entanto – e nunca será demais dizer isto –, o capitalismo continua a produzir descartados, que depois gostaria de ajudar. O principal problema ético deste capitalismo é a criação de descartados para depois procurar escondê-los ou ajudar, para não serem vistos. Uma grave forma de pobreza de uma civilização é já não conseguir ver os seus pobres, que primeiro são descartados e depois escondidos.

Os aviões poluem a atmosfera, mas com uma pequena parte do dinheiro do bilhete plantarão árvores, para compensar parte do prejuízo causado. As sociedades do jogo de azar financiam campanhas para tratar os jogadores patológicos que elas mesmas criam. E no dia em que as empresas de armamento financiarem hospitais para tratar as crianças mutiladas pelas suas bombas, o sistema terá alcançado o seu apogeu. Isto é a hipocrisia!

A economia de comunhão, se quiser ser fiel ao seu carisma, não deve apenas ajudar as vítimas, mas construir um sistema no qual haja cada vez menos vítimas, onde na medida do possível elas deixem de existir. Enquanto a economia ainda produzir uma só vítima, enquanto houver uma única pessoa descartada, a comunhão não se terá ainda realizado, a festa da fraternidade universal não será plena.

Então, é preciso apostar na mudança das regras de jogo do sistema económico-social. Não é suficiente imitar o bom samaritano do Evangelho. Sem dúvida, quando o empresário ou qualquer pessoa se cruza com uma vítima, é chamado a cuidar dela e porventura, como o bom samaritano, a associar também o mercado (o estalajadeiro) à sua ação de fraternidade. Sei que procurais fazer isto há vinte e cinco anos. Mas é necessário agir sobretudo antes de que o homem caia nas mãos dos salteadores, combatendo as estruturas de pecado que produzem salteadores e vítimas. Um empresário que é apenas um bom samaritano cumpre metade do seu dever: cuida das vítimas de hoje, mas não diminui as de amanhã. Pela comunhão, é necessário imitar o Pai misericordioso da parábola do filho pródigo e esperar em casa os filhos, os trabalhadores e colaboradores que falharam, abraçá-los e festejar com eles e por eles – e não se deixar limitar pela meritocracia invocada pelo filho mais velho e por tantas pessoas que, em nome do mérito, negam a misericórdia. O empresário de comunhão é chamado a fazer de tudo para que, até aqueles que falham e deixam a sua casa, possam esperar um trabalho e um salário digno, e não ter de comer com os porcos. Nenhum filho, nenhum homem, nem sequer o mais rebelde, merece bolotas.

 

Finalmente, a terceira coisa diz respeito ao futuro. Estes vinte e cinco anos da vossa história dizem que a comunhão e a empresa podem estar e crescer juntas. Uma experiência que por enquanto se limita a um pequeno número de empresas, pequeníssimo se o compararmos com o grande capital do mundo. Mas as mudanças na ordem do espírito, e por conseguinte da vida, não estão ligadas a grandes números. A pequena grei, a lâmpada, uma moeda, um cordeiro, uma pérola, o sal, o fermento: são estas as imagens do Reino que nós encontramos nos Evangelhos. E os profetas anunciaram-nos um novo tempo de salvação, indicando-nos o sinal de um Menino, o Emanuel, e falando-nos acerca de um “resto” fiel, um pequeno grupo.

Não é necessário ser numerosos, para mudar a nossa vida: basta que o sal e o fermento não se desvirtuem. O grande trabalho a empreender é procurar não perder o “princípio ativo” que os anima: o sal não desempenha a sua função crescendo em quantidade – pelo contrário, sal a mais torna a massa salgada –, mas salvando a sua “alma”, ou seja, a sua qualidade. Todas as vezes que as pessoas, os povos e até a Igreja pensaram em salvar o mundo crescendo em número, produziram estruturas de poder, esquecendo os pobres. Salvemos a nossa economia, permanecendo simplesmente sal e fermento: um trabalho difícil, porque com o passar do tempo tudo decai. Como fazer para não perder o princípio ativo, o “enzima” da comunhão?

Quando não havia frigoríficos, para conservar o fermento mãe do pão oferecia-se à vizinha um pouco da própria massa fermentada, e quando era necessário voltar a fazer o pão, recebia-se um punhado de massa levedada daquela mulher ou de outra qualquer que, por sua vez, já a tinha recebido. É a reciprocidade. A comunhão não é somente divisão, mas também multiplicação dos bens, criação de um novo pão, de novos bens, de um novo Bem com maiúscula. O princípio vivo do Evangelho permanece ativo somente se o oferecermos, porque é amor, e o amor é ativo quando amamos, não quando escrevemos romances ou quando vemos telenovelas. Se, pelo contrário, o conservarmos zelosamente seguro e só para nós, ele ganha mofo e morre. E o Evangelho pode ganhar mofo. A economia de comunhão terá futuro se a comunicardes a todos e se não permanecer só dentro da vossa “casa”. Oferecei-a a todos, e em primeiro lugar aos pobres e aos jovens, que são os que mais precisam dela e mais sabem fazer frutificar o dom recebido! Para ter vida em abundância, é necessário aprender a doar, não só os lucros das empresas, mas vós próprios. O primeiro dom do empresário é a própria pessoa: o vosso dinheiro, embora importante, é demasiado pouco. O dinheiro não salva, se não for acompanhado pelo dom da pessoa. A economia de hoje, os pobres, os jovens têm necessidade em primeiro lugar da vossa alma, da vossa fraternidade respeitadora e humilde, da vossa vontade de viver, e só depois do vosso dinheiro.

O capitalismo conhece a filantropia, não a comunhão. É simples doar uma parte dos lucros, sem abraçar nem tocar as pessoas que recebem aquelas “migalhas”. Pelo contrário, até cinco pães e dois peixes podem matar a fome de multidões, se forem a partilha de toda a nossa vida. Na lógica do Evangelho, se não se dá tudo, nunca se dá bastante.

Vós já fazeis estas coisas. Mas podeis compartilhar ainda mais os lucros para combater a idolatria e mudar as estruturas para prevenir a criação das vítimas e dos descartados; oferecer mais o vosso fermento para levedar o pão de muitos. O “não” a uma economia que mata torna-se um “sim” a uma economia que faz viver, porque compartilha, inclui os pobres e utiliza os lucros para criar comunhão.

Desejo-vos que prossigais no vosso caminho, com coragem, humildade e alegria. “Deus ama quem dá com alegria” (2 Cor 9, 7). Deus ama os vossos lucros e talentos oferecidos com alegria. Já o fazeis; mas podeis fazê-lo ainda mais.

Faço votos para que continueis a ser semente, sal e fermento de outra economia: a economia do Reino, na qual os ricos sabem compartilhar as suas riquezas e os pobres são chamados bem-aventurados. Obrigado!

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial