TEMAS LITÚRGICOS

A «oração colecta»

 

 

 

P. Pedro Boléo Tomé

 

 

Os «Ritos Iniciais» da liturgia eucarística terminam com um convite à oração, seguido de um silêncio, para depois o sacerdote pronunciar uma oração, que o povo aclama com uma solene «Ámen». Todos se dão conta da solenidade desse momento e de que algo de importante se está a realizar naquele momento concreto. Porquê? Qual o seu significado?

Olhar para a celebração eucarística como um encontro com Cristo permite-nos compreender muitos dos seus elementos. Em concreto, o significado e a importância desta oração, chamada «oração colecta».

A Igreja reúne-se para se encontrar com o seu Senhor. Vai, sacramentalmente, tornar-se presente no momento cume da História da Humanidade, o momento em que Cristo se entrega ao Pai em sacrifício pelos nossos pecados. Fá-lo de forma incruenta, sem derramamento de sangue, festiva até, porque o Senhor ressuscitou, está vivo. E ao longo dos ritos iniciais dá-se o encontro entre os fiéis e o seu Senhor. A saudação, o sinal da cruz, o pedido de perdão (tão normal perante a consciência de o ter defraudado ou magoado) e a ação de graças e louvores por tantas coisas (manifestado no «Glória»).

É chegado, então, o momento de intimidade. Gera-se um silêncio, uma troca de olhares e surge, natural, sincero, um pedido, uma prece, uma intenção. É o nosso encontro com o Senhor, e temos tantas coisas que pedir! Na Missa esse momento é este: o da oração colecta. A oração que sintetiza todas as preces, as dos fiéis, as da Igreja, as do sacerdote, nas circunstâncias históricas dos presentes e no contexto próprio daquela celebração.

A expressão «colligere orationem», usual nos primeiros séculos, na salmodia comunitária, queria dizer «recolher, numa oração, as intenções dos que tinham recitado o salmo». E o nome de «oração colecta» pode ter dois sentidos: o de ser pronunciada quando a comunidade já está reunida (oração de reunião, concluindo o rito de entrada) ou então, precisamente, que a sua finalidade é a de recolher e resumir as petições de cada um dos presentes.[1]

A Instrução Geral ao Missal Romano apresenta-nos os diversos momentos que esta oração inclui: convite à oração, silêncio (a fim de tomarem consciência de que se encontram na presença de Deus e poderem formular interiormente as suas intenções), oração pronunciada pelo sacerdote (pela qual se exprime o carácter da celebração), associação do povo a esta oração através da aclamação «Amen».[2]

É significativo o facto de o sacerdote estar de mãos postas até ao momento em que pronuncia oralmente a oração. Só então as abre em gesto sacerdotal. Durante o rito penitencial rezou com o povo, de mãos juntas e, inclusive, bateu no peito. Fê-lo em nome pessoal. Agora, convida à oração e em silêncio, também ele, junto com o povo, exprime as suas intenções. [3] Só então, abre os braços e fala em nome da Igreja.[4]

Voltemos, porém, ao silêncio do povo reunido e ao gesto do sacerdote: de mãos juntas. Ratzinger refere que «quando ao orar juntamos as mãos, o que expressamos é precisamente que pomos as mãos nas Suas, com as nossas mãos pomos o nosso destino na sua mão, confiando na Sua fidelidade».[5] Logo, esse gesto tem como objetivo purificar a nossa prece pessoal, identificá-la com a de Cristo. Ou seja, aquele silêncio conjunto permite recordarmos as nossas intenções, unindo-nos a Cristo e aos irmãos, com as suas preces. Instantes depois, todas elas serão elevadas como uma só, por Cristo ao Pai.

O silêncio depois do convite à oração é sinal de que a Igreja convida os fiéis a colocarem as suas intenções próprias. Valoriza-as e deseja reuni-las (colligere). Porém, com o «Ámen» final, deseja também que os fiéis se unam às intenções de todos e às da Igreja. Trata-se de uma característica fundamente da oração cristã: ela deve ser eclesial.[6]

 J. Silvestre, na sua obra sobre a Missa que tem como «leitmotiv» precisamente a identificação com os sentimentos de Cristo através da liturgia eucarística, pergunta-se: «Como se dá na nossa vida o contexto de oração que permite entrar em contacto com os sentimentos de Cristo? A resposta é clara: rezando com outros. Na realidade, a filiação divina, o ser filhos no Filho, implica necessariamente «os outros», a fraternidade, os irmãos, filhos de um mesmo Pai (…) Isolado dos restantes, sem se abrir aos outros, não se pode rezar a Deus. “Impregnados deste espírito, as nossas orações, mesmo quando começam por temas e propósitos em aparência pessoais, acabam sempre por discorrer por caminhos de serviço aos outros,”[7](…). Este movimento de ida e volta entre o individual e o comunitário caracteriza a oração colecta e dá-lhe esse carácter dialógico: Deus e eu; Deus e nós».[8]

Certo dia, contaram-me de um professor universitário que, em plena aula, ficara extasiado diante de uma equação que acabara de escrever no quadro. Perante o assombro dos alunos que não compreendiam aquela atitude, ele explicava-se perguntando se não viam a beleza ali condensada. Muitos riram deste episódio sem compreender o iluminado professor, porém, a muitos físicos e matemáticos, a quem ouvi a história, essa atitude não só não era absurda, mas percebi que eram capazes de comungar de sentimentos idênticos diante dessa beleza abstrata.  Algo semelhante me aconteceu com um professor de liturgia ao ouvi-lo falar precisamente da beleza das orações colecta. Surpreendeu-me, pois até à altura sempre me pareceu uma oração demasiado intricada e difícil. Porém, depois de o ouvir, percebi que nela é possível encontrar um tipo de beleza. Trata-se mais de uma beleza intelectual do que poética, pois esta oração, clara e concisa, ao bom estilo latino, obedece a um esquema: costuma iniciar-se com uma invocação a Deus, muitas vezes enriquecida com uma motivação ou alusão ao tempo litúrgico ou à festa celebrada, para prosseguir com uma súplica e concluir apelando à mediação de Cristo.[9]

Recordo o interesse e, por vezes, até a emoção, com que um sacerdote se referia nas suas pregações à oração colecta do dia: «que pede hoje a Igreja para nós?». Era com curiosidade que a lia antes da celebração da Missa. Queria saber com antecedência as intenções da sua Mãe Igreja, meditar nessas preces e fazê-las suas.

 

 

 

 

 

 

 



[1] J. ADALZÁBAL, Dicionário elementar de Liturgia, p. 71.

[2] IGMR, n. 54

[3] Recordo ouvir sacerdotes anciãos partilharem o fato de aproveitarem este momento para formularem a intenção da Missa. Eram da opinião de que se tratava da altura mais adequada da celebração eucarística para o fazer.

[4] «Na sequência ritual que compõe a oração colecta vemos como o sacerdote, depois de ter rezado «como» e «com» o povo reunido, depois o faz «por» e em nome dele»:  SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p. 79.

[5] RATZINGER, El espíritu de la liturgia, p. 230.

[6] Cfr. BENTO XVI, Homilia na Missa Crismal, 9-IV-2009.

[7] S. JOSEMARIA, Cristo que Passa, n. 145.

[8] SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p. 79.

[9] J. ADALZÁBAL, Dicionário elementar de Liturgia, p. 71.


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