A PALAVRA DO PAPA

A MISSÃO DO SACERDOTE

 

Na manhã do dia 13 de Maio passado, Memória litúrgica de Nossa Senhora de Fátima, o Papa Bento XVI teve o seu primeiro encontro com o clero de Roma, sua diocese, na Basílica de S. João de Latrão.

No fim do discurso, que oferecemos aos nossos leitores, o Santo Padre anunciou a abertura da Causa de beatificação do Papa João Paulo II, lendo o rescrito da Congregação para as Causas dos Santos.

Título e subtítulos da Redacção da CL.

 

Queridos sacerdotes e diáconos, que prestais o vosso serviço pastoral na Diocese de Roma, sinto-me feliz por me encontrar hoje convosco no início do meu ministério de Bispo desta Igreja, «que preside no amor». Saúdo com afecto o Cardeal Vigário, ao qual agradeço as gentis palavras que me dirigiu, o Vice-gerente e os Bispos Auxiliares. Saúdo com ânimo amigo cada um de vós e desejo exprimir-vos desde este primeiro encontro a minha gratidão pela vossa fadiga quotidiana na vinha do Senhor.

A extraordinária experiência de fé, que vivemos por ocasião da morte do nosso amadíssimo Papa João Paulo II, mostrou-nos uma Igreja de Roma profundamente unida, cheia de vida e rica de fervor: tudo isto é também fruto da vossa oração e do vosso apostolado. Assim, na humilde adesão a Cristo único Senhor, podemos e devemos promover juntos aquela «exemplaridade» da Igreja de Roma que é serviço genuíno às Igrejas irmãs presentes no mundo inteiro. De facto, o vínculo indissolúvel entre romanum e petrinum implica e requer a participação da Igreja de Roma na solicitude universal do seu Bispo. Mas a responsabilidade de uma tal participação refere-se de modo muito especial a vós, queridos sacerdotes e diáconos, unidos ao vosso Bispo pelo vínculo sacramental e constituídos seus preciosos colaboradores. Por conseguinte, conto convosco, com a vossa oração, com o vosso acolhimento e dedicação, para que esta nossa amada Diocese corresponda cada vez mais generosamente à vocação que o Senhor lhe confiou. E da minha parte digo-vos: podeis contar, apesar dos meus limites, com a sinceridade do meu afecto paterno por todos vós.

A raiz do sacerdócio é Cristo

Queridos sacerdotes, a qualidade da vossa vida e do vosso serviço pastoral parece indicar que, nesta como em numerosas outras Dioceses do mundo, já deixámos para trás o tempo daquela crise de identidade que atormentou tantos sacerdotes. Mas permanecem muito presentes aquelas causas de «deserto espiritual» que afligem a humanidade do nosso tempo e por conseguinte minam também a Igreja que vive nesta humanidade. Como não temer que elas possam insidiar também a vida dos sacerdotes? Portanto, é indispensável voltar sempre de novo à raiz do nosso sacerdócio.

Esta raiz, como bem sabemos, é uma só: Jesus Cristo Senhor. Foi Ele que o Pai enviou, Ele é a pedra angular (cf. 1 Pe 2, 7). Nele, no mistério da sua morte e ressurreição, vem o reino de Deus, e cumpre-se a salvação do género humano. Mas este Jesus nada possui que lhe pertença como próprio, é tudo inteiramente do Pai e para o Pai. Por isso, Ele diz que a sua doutrina não é sua, mas daquele que o enviou (cf. Jo 7, 16): o Filho sozinho nada pode fazer (cf. Jo 5, 19.30).

E esta, queridos amigos, é também a verdadeira natureza do nosso sacerdócio. Na realidade, tudo o que é constitutivo do nosso ministério não pode ser o produto das nossas capacidades pessoais. Isto é válido para a administração dos Sacramentos, mas também para o serviço da Palavra: somos enviados a anunciar não a nós próprios ou opiniões nossas, mas o mistério de Cristo e, nele, a medida do verdadeiro humanismo. Não fomos encarregados de dizer muitas palavras, mas de nos fazermos eco e portadores de uma só «Palavra», que é o Verbo de Deus feito carne para a nossa salvação. Por conseguinte, também para nós é válida a palavra de Jesus: «A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou» (Jo 7, 16). Queridos sacerdotes de Roma, o Senhor chama-nos amigos, faz de nós seus amigos, confia-se a nós, confia-nos o seu corpo na Eucaristia, confia-nos a sua Igreja. E então devemos ser verdadeiramente seus amigos, ter com ele um só sentir, desejar o que Ele deseja e não desejar o que Ele não deseja. O próprio Jesus diz-nos: «Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando» (Jo 15, 14). Seja este o nosso propósito comum: fazer, todos juntos, a sua santa vontade, na qual estão a nossa liberdade e a nossa alegria.

Natureza eclesial do sacerdócio

Dado que tem em Cristo a sua raiz, o sacerdócio é, por sua natureza, na Igreja e para a Igreja. Com efeito, a fé cristã não é algo meramente espiritual e interior e a nossa própria relação com Cristo não é apenas subjectiva e privada. Pelo contrário, é uma relação totalmente concreta e eclesial. Por sua vez, o sacerdócio ministerial tem uma relação constitutiva com o corpo de Cristo, na sua dupla e inseparável dimensão de Eucaristia e de Igreja, de corpo eucarístico e de corpo eclesial. Por isso, o nosso ministério é, como diz Santo Agostinho, amoris officium (In Iohannis Evangelium Tractatus, 123, 5), é o ofício do bom pastor, que oferece a sua vida pelas ovelhas (cf. Jo 10, 14-15). No mistério eucarístico, Cristo oferece-se sempre de novo, e precisamente na Eucaristia nós aprendemos o amor de Cristo e, por conseguinte, o amor à Igreja. Portanto, repito convosco, queridos irmãos no sacerdócio, as inesquecíveis palavras de João Paulo II: «A Santa Missa é de modo absoluto o centro da minha vida e de todos os meus dias» (Discurso de 27 de Outubro de 1995, no trigésimo aniversário do Decreto Presbyterorum ordinis). E esta deveria ser uma palavra que cada um de nós pode considerar sua: a Santa Missa é de maneira absoluta o centro da minha vida e de cada um dos meus dias. Do mesmo modo, a obediência a Cristo, que corrige a desobediência de Adão, concretiza-se na obediência eclesial, que é, para o sacerdote, na prática quotidiana, antes de tudo obediência ao seu Bispo. Mas na Igreja a obediência não é algo de formalismo; é obediência àquele que por sua vez é obediente e personifica Cristo obediente. Tudo isto não torna vão nem atenua as exigências concretas da obediência, mas garante a sua profundidade teologal e o seu alcance católico: no Bispo obedecemos a Cristo e à Igreja inteira, que ele representa neste lugar.

Missão de evangelizar a todos

Jesus Cristo foi enviado pelo Pai, no poder do Espírito, para a salvação de toda a família humana e nós, sacerdotes, através da graça do sacramento, tornámo-nos partícipes desta sua missão. Como escreve o Apóstolo Paulo, «Deus... confiou-nos o ministério da reconciliação... Portanto, nós exercemos as funções de embaixadores de Cristo, como se fosse Deus quem, por nosso intermédio, vos exorta. Em nome de Cristo suplicamo-vos: reconciliai-vos com Deus» (2 Cor 5, 18-20). São Paulo descreve assim a nossa missão de sacerdotes. Por isso, na homilia que precedeu o Conclave, falei de uma «santa preocupação» que nos deve animar, a preocupação de levar a todos o dom da fé, de oferecer a todos aquela salvação, a única que permanece eternamente. E numa cidade tão grande como Roma que, por um lado, está tão imbuída pela fé e na qual, contudo, vivem tantas pessoas que não experimentaram realmente no coração o anúncio da fé, tanto mais devemos estar animados por esta preocupação de levar esta alegria, este centro da vida que lhe dá sentido e orientação. Assim, queridos irmãos sacerdotes de Roma, Cristo ressuscitado chama-nos a ser suas testemunhas e dá-nos a força do seu Espírito, para o sermos verdadeiramente. Portanto, é necessário estar com Ele (cf. Mc 3, 14; Act 1, 21-23). Como na primeira descrição do «munus apostolicum», em Marcos 3, está descrito aquilo que o Senhor pensava que deveria ser o significado de um apóstolo: estar com Ele e estar disponível para a missão. As duas coisas andam juntas e, só estando junto com Ele, estamos também e sempre em movimento com o Evangelho para os outros. Por conseguinte, é essencial estar com Ele e assim anima-se a preocupação e tornamo-nos capazes de levar a força e a alegria da fé aos outros, de dar testemunho com toda a nossa vida e não apenas com algumas palavras. Para nós são válidas as palavras do Apóstolo Paulo: «Se eu anuncio o Evangelho, não é para mim motivo de glória, é antes uma obrigação: ai de mim se eu não evangelizar!... De facto, embora livre em relação a todos, fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número... Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo» (1 Cor 9, 16-22). Estas palavras, que são o auto-retrato do apóstolo, dão-nos também o retrato de cada sacerdote. Este «fazer-se tudo para todos» exprime-se na proximidade quotidiana, na atenção prestada a cada pessoa e família: vós, sacerdotes de Roma, tendes, a este respeito, uma grande tradição, e digo isto com profunda convicção, e também hoje a estais a honrar, quando a cidade cresceu tanto e mudou profundamente. É decisivo, como bem sabeis, que a proximidade e a atenção a todos aconteçam sempre em nome de Cristo e sejam constantemente destinadas a conduzir a Ele.

Viver em comunhão com Cristo

Naturalmente essa proximidade e dedicação tem para cada um de vós, de nós, um preço pessoal, significa tempo, preocupações, dispêndio de energias. Conheço a vossa fadiga quotidiana e desejo agradecer-vos da parte do Senhor. Mas também gostaria de vos ajudar, na medida do possível, a não ceder sob o peso da fadiga. Para poder resistir, e até crescer, como pessoas e como sacerdotes, é fundamental antes de mais a comunhão íntima com Cristo, cujo alimento era fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34): tudo quanto fazemos, façamo-lo em comunhão com Ele e encontremos assim, sempre de novo, a unidade da nossa vida em tanta dispersão, favorecida pelas diversas ocupações de cada dia. Do Senhor Jesus Cristo, que se sacrificou a si mesmo para fazer a vontade do Pai, aprendemos além disso a arte da ascese sacerdotal, que é necessária também hoje. Ela não deve ser colocada ao lado da acção pastoral, como um fardo acrescentado que torna ainda mais pesado o nosso dia. Pelo contrário, na própria acção devemos aprender a superar-nos, a deixar e a dar a nossa vida. Mas, para que tudo isto se realize realmente em nós, e para que a nossa acção seja realmente em si mesma a nossa ascese e a nossa doação, para que tudo isto não permaneça apenas um desejo, temos sem dúvida necessidade de momentos para recuperar as nossas energias também físicas, e sobretudo para rezar e meditar, entrando de novo na nossa interioridade e encontrando dentro de nós o Senhor. Por isso, o tempo para estar na presença de Deus na oração é uma verdadeira prioridade pastoral, não é algo ao lado do trabalho pastoral, estar diante do Senhor é uma prioridade pastoral, em definitiva, a mais importante. Mostrou-nos isto do modo mais concreto e luminoso João Paulo II, em todas as circunstâncias da sua vida e do seu ministério.

Queridos sacerdotes, nunca realçaremos suficientemente quanto a nossa resposta pessoal à chamada à santidade é fundamental e decisiva. Esta é a condição não só para que o nosso apostolado pessoal seja frutuoso, mas também, e mais amplamente, para que o rosto da Igreja reflicta a luz de Cristo (cf. Lumen gentium, 1), levando assim os homens a reconhecer e a adorar o Senhor. Devemos acolher a súplica do Apóstolo Paulo a deixar-se reconciliar com Deus (cf. 2 Cor 5, 20) antes de mais em nós mesmos, pedindo ao Senhor com coração sincero e com ânimo determinado e corajoso que afaste de nós tudo o que nos separa dele e está em contraste com a missão que recebemos. O Senhor, temos a certeza, é misericordioso e saberá ouvir-nos.

A união com o Bispo de Roma

O meu ministério de Bispo de Roma situa-se no sulco dos meus Predecessores, acolhendo em particular a herança preciosa que deixou João Paulo II: caminhemos juntos por esta via, queridos sacerdotes e diáconos, com serenidade e confiança. Continuaremos a procurar fazer crescer a comunhão no âmbito da grande família da Igreja diocesana e a colaborar para incrementar a orientação missionária da nossa pastoral, em conformidade com as orientações básicas do Sínodo romano, postas em prática com particular eficiência na experiência da Missão da Cidade. Roma é uma Diocese bastante grande e é uma Diocese verdadeiramente especial, pela solicitude universal que o Senhor confiou ao seu Bispo. Por isso, o vosso relacionamento, queridos sacerdotes, com o Bispo diocesano, que sou eu, infelizmente, não pode ter aquela proximidade quotidiana que gostaria e que é possível noutras situações. Através da obra do Cardeal Vigário e dos Bispos Auxiliares, aos quais exprimo a minha sentida gratidão, é-me contudo possível estar concretamente próximo de cada um de vós, nas alegrias e nas dificuldades que acompanham o caminho de cada sacerdote. E, sobretudo, desejo garantir-vos aquela proximidade mais profunda e decisiva que une o Bispo aos seus sacerdotes e aos seus diáconos, na oração quotidiana. E estai certos de que realmente na minha oração o clero de Roma está presente de modo especial. E estamos próximos na fé e no amor de Cristo e na entrega a Maria, Mãe do único e Sumo Sacerdote. Precisamente da nossa união a Cristo e à Virgem se alimentam a serenidade e a confiança de que todos sentimos necessidade, tanto para o trabalho apostólico como para a nossa existência pessoal.

Queridos sacerdotes e diáconos, eis algumas considerações que eu desejava propor à vossa atenção. Antes de vos conceder a palavra, para as vossas perguntas e reflexões, tenho ainda que anunciar uma notícia muito alegre. Temos uma comunicação chegada hoje. Está escrita pelo Cardeal Saraiva Martins, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, juntamente com Mons. Nowak, Secretário da mesma Congregação:

 

 

CONGREGAÇÃO PARA AS CAUSAS DOS SANTOS

Prot. N. 2666-1/05

ROMANA

Causa de Beatificação e de Canonização

do Servo de Deus JOÃO PAULO II

(Karol Wojtyla)

Sumo Pontífice

 

A pedido do Eminentíssimo e Reverendíssimo Senhor Cardeal Camillo Ruini, Vigário Geral de Sua Santidade para a Diocese de Roma, o Sumo Pontífice BENTO XVI, consideradas as peculiares circunstâncias expostas, na audiência concedida ao mesmo Cardeal Vigário Geral no dia 28 do mês de Abril deste ano de 2005, dispensou do tempo de cinco anos de espera depois da morte do Servo de Deus João Paulo II (Karol Wojtyla), Sumo Pontífice, de modo que a causa de Beatificação e Canonização do mesmo Servo de Deus possa ter início imediatamente. Não obstante algo em contrário.

Dado em Roma, da sede desta Congregação para as Causas dos Santos, no dia 9 do mês de Maio do ano de 2005.

 

JOSÉ Card. SARAIVA MARTINS

Prefeito

 

EDWARD NOWAK

Arcebispo titular de Luni

Secretário

 


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