DomINGO DE Ramos na Paixão do senhor

Dia Mundial da Juventude

9 de Abril de 2017

 

Neste dia, a Igreja recorda a entrada de Cristo, o Senhor, em Jerusalém, para consumar o seu mistério pascal. Por isso, em todas as Missas se comemora esta entrada do Senhor na cidade santa: ou com a procissão, ou com a entrada solene antes da Missa principal, ou com a entrada simples antes das outras Missas. A entrada solene (mas sem procissão) pode repetir-se antes de outras Missas que se celebram com grande assistência de fiéis.

 

 

A. Comemoração da entrada do Senhor em Jerusalém

 

 

Primeira forma: Procissão

 

À hora marcada, reúnem-se todos numa igreja secundária ou noutro lugar apropriado fora da igreja para a qual se dirige a procissão. Os fiéis levam ramos na mão.

O sacerdote e o diácono, revestidos de paramentos vermelhos próprios da Missa, dirigem-se para o lugar onde o povo está reunido. O sacerdote, em vez da casula, pode levar o pluvial, que deporá terminada a procissão.

Entretanto, canta-se a antífona seguinte ou outro cântico apropriado.

 

Mt 21, 9

Antífona: Hossana ao Filho de David. Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel. Hossana nas alturas.

 

O sacerdote, ao chegar, saúda o povo na forma habitual. Depois exorta os fiéis a participarem activa e conscientemente na celebração deste dia, dizendo estas palavras ou outras semelhantes:

 

Irmãos caríssimos:

No Evangelho que antecede a procissão narra-se a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém: não como os grandes conquistadores, montados em luxuosos corcéis, com multidões de soldados que semeiam o temor e o respeito, seguidos de inimigos vencidos e troféus das vitórias.

O Mestre faz a Sua entrada triunfal na Cidade Santa montado num burrico e tem como única arma irresistível o sorriso em que há uma mistura de sombra de amargura e a oferta de um Amor incondicional. Em vez de soldados, uma multidão de jovens aclama-O. Não trazem armas de guerra, mas palmas de vitória e ramos de oliveira, símbolo da paz. Não há escravos, mas amigos que estendem reverentemente as suas capas no caminho onde Jesus vai passar.

Assim se cumpre, deste modo desconcertante, a profecia sobre a entrada do Messias na cidade de David. É o anúncio solene da presença do único Salvador do mundo.

Com divina sabedoria, Jesus antecipa-Se a qualquer manifestação de outro género que Lhe queiram prestar, porque não quer se deturpe a imagem e missão do Enviado do Senhor.

Depois de nos dizer claramente que é Ele mesmo, entrega-Se generosamente, para nosso resgate. Quer ensinar-nos o caminho da Cruz, da Redenção, na Igreja que vem fundar.

Eis porque a entrada triunfal em Jerusalém não se pode separar da Paixão e Morte de Jesus. Estão intimamente entrelaçadas.

 

Seguidamente, o sacerdote, de mãos juntas, diz uma das seguintes orações:

 

Oremos.

Deus eterno e omnipotente, santificai com a vossa + bênção estes ramos, para que, acompanhando a Cristo nosso Rei nesta celebração festiva, mereçamos entrar com Ele na Jerusalém celeste. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

R. Amen.

 

Ou:

 

Aumentai, Senhor, a fé dos que esperam em Vós e ouvi com bondade as nossas humildes súplicas, para que, aclamando com estes ramos a Cristo vitorioso, permaneçamos unidos a Ele e dêmos fruto abundante de boas obras. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

R. Amen.

 

Terminada a oração, asperge os ramos com água benta, sem dizer nada.

A seguir, faz-se a proclamação do Evangelho da entrada do Senhor, segundo o texto evangélico correspondente a cada um dos ciclos. Esta proclamação é feita do modo habitual pelo diácono, ou, na falta dele, pelo sacerdote.

 

Evangelho

 

São Mateus 21, 1-11

 

1Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, junto ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: 2«Ide à povoação que está em frente e encontrareis uma jumenta presa e, com ela, um jumentinho. Soltai-os e trazei-mos. 3E se alguém vos disser alguma coisa, respondei que o Senhor precisa deles, mas não tardará em devolvê-los». 4Isto sucedeu para se cumprir o que o profeta tinha anunciado: 5«Dizei à filha de Sião: ‘Eis o teu Rei, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho de uma jumenta’». 6Os discípulos partiram e fizeram como Jesus lhes ordenara: 7trouxeram a jumenta e o jumentinho, puseram-lhes em cima as suas capas e Jesus sentou-Se sobre elas. 8Numerosa multidão estendia as capas no caminho; outros cortavam ramos de árvores e espalhavam-nos pelo chão. 9E, tanto as multidões que vinham à frente de Jesus como as que O acompanhavam, diziam em altos brados: «Hossana ao Filho de David! Bendito O que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!» 10Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou em alvoroço. «Quem é Ele?» perguntavam. 11E a multidão respondia: «É Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia».

 

2 A povoação que está ai em frente é com certeza Betânia (cf. Mc 11, 1).

7 A jumenta e o jumentinho: Mateus desce até ao pormenor de falar não apenas do jumentinho, mas também da jumenta. Pretende sublinhar o cumprimento da letra da profecia citada (Zac 9, 9), mas a mãe do jumentinho facilitaria que este não se espantasse com a multidão e seguisse o caminho. A entrada dos peregrinos em Jerusalém fazia-se a pé. Jesus quer entrar a cavalo, desta vez. Até então, tinha querido evitar todas as homenagens messiânicas, mas quer agora mostrar-se como o Messias nesta última visita à cidade, entrando montado. Mas não quer fazer a sua entrada como um rei temporal, ou um general, montado num corcel, mas num jumentinho: uma lição de humildade, mesmo no momento de se manifestar como o Messias. Jesus não é um rei dominador, em concorrência com os poderosos da terra, mas o rei cheio de mansidão, o príncipe da paz. Compreende-se, então, como o povo tenha aclamado a Jesus e os seus inimigos se tenham indignado. Os Santos Padres viram nesta atitude de Jesus, ao cavalgar alternadamente sobre o jumentinho e a jumenta, um sinal: a jumenta, submetida ao jugo, representa o povo judeu sujeito ao jugo da Lei; o jumentinho figurava os gentios. A ambos Jesus vinha guiar até Jerusalém (a Igreja e o Céu).

9 «Hossana». Palavra hebraica que aqui tem um sentido de aclamação, correspondente ao nosso «viva!», e não uma mera prece, como indicaria a tradução literal do hebraico: «salva-nos, por favor, (ó Deus)». A saudação «Bendito o que vem em nome do Senhor» é tirada do Salmo 117 e dela se fazem eco todos os fiéis na Liturgia eucarística: «Bendito o que vem» (baruk habá) é ainda hoje a saudação de boas-vindas em Israel. De qualquer modo, estas palavras não são mera saudação, mas uma aclamação solene da realeza de Cristo.

 

 

Depois do Evangelho, conforme as circunstâncias, pode fazer-se uma breve homilia. A anunciar o começo da procissão, o sacerdote ou outro ministro idóneo pode fazer uma admonição, dizendo estas palavras ou outras semelhantes:

 

Imitemos, irmãos caríssimos, a multidão que aclamava Jesus na cidade santa de Jerusalém, e caminhemos em paz.

 

Inicia-se a procissão em direcção à igreja onde é celebrada a Missa.

À frente vai o turiferário com o turíbulo aceso (se se usa o incenso); depois, no meio de dois ministros com velas acesas, o cruciferário com a cruz ornamentada; segue-se o sacerdote com os outros ministros: finalmente, os fiéis com os ramos na mão.

 

 

 

Á entrada da procissão na igreja, canta-se o responsório seguinte ou outro cântico alusivo à entrada do Senhor.

 

Cântico: As crianças de Jerusalém, M. Faria, NRMS 25

 

V. Ao entrar o Senhor na cidade santa, as crianças de Jerusalém, com ramos de palmeira, anunciaram a ressurreição da vida, cantando alegremente:

R. Hossana nas alturas.

 

V. Quando o povo ouviu dizer que Jesus vinha para Jerusalém, saiu ao seu encontro com ramos de palmeira, cantando alegremente:

R. Hossana nas alturas.

 

Ao chegar ao altar, o sacerdote faz-lhe a devida reverência e, conforme as circunstâncias, incensa-o. Seguidamente, dirige-se para a sua cadeira (depõe o pluvial e veste a casula) e, omitindo tudo o mais, diz, como conclusão da procissão, a oração colecta da Missa. Terminada esta oração, a Missa continua na forma habitual.

 

B. Missa

 

Depois da procissão ou da entrada solene, o sacerdote começa a Missa com a oração colecta.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Hossana ao Filho de David, Az. Oliveira, NRMS 29

 

Antífona de entrada: Seis dias antes da Páscoa, o Senhor entrou em Jerusalém e as crianças vieram ao seu encontro, com ramos de palmeira, cantando com alegria:

Hossana nas alturas. Bendito sejais, Senhor, que vindes trazer ao mundo a misericórdia de Deus.

 

Ou

 

Salmo 23, 9-10

Levantai, ó portas, os vossos umbrais, alteai-vos, pórticos antigos, e entrará o Rei da glória.

Quem é esse Rei da glória? O Senhor dos Exércitos, é Ele o Rei da glória.

Hossana nas alturas. Bendito sejais, Senhor, que vindes ao mundo trazer a misericórdia de Deus.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Liturgia do Domingo de Ramos na Paixão do Senhor é como drama em dois actos: entrada triunfal do Messias anunciado pelos profetas, acontecimento em que os jovens ocupam lugar destacado; e a Paixão do Senhor descrita com realismo sempre impressionante. É o pórtico solene da Semana Maior que agora começa.

 Há, na entrada triunfal, uma antecipação profética da glorificação futura da Ressurreição a qual não segue os planos dos homens, mas passa pelo mistério da Cruz.

 

Acto penitencial

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e padecesse o suplício da cruz, fazei que sigamos os ensinamentos da sua paixão, para merecermos tomar parte na glória da sua ressurreição. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Com um realismo que nos impressiona sempre, o profeta Isaías, à distância de mais de meio milhar de anos, fala-nos da Paixão do Senhor com um realismo impressionante. A Paixão de Cristo não apareceu por acaso, nem foi uma derrota. E um dos caminhos desconcertantes do fracasso que Deus segue na salvação dos homens.

 

Isaías 50, 4-7

 

4O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. 5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.

 

O texto é tirado do II Isaías e corresponde aos primeiros 4 vv. do 3° poema do Servo de Yahwéh (Is 50, 4-9). Quem está a falar parece ser o próprio servo, embora não seja aqui nomeado, mas é o que se deduz do contexto imediato deste canto (v. 10). De qualquer modo, considera-se como a figura profética de Jesus Cristo. O texto consta de três estrofes iniciadas com a mesma fórmula (que a tradução não respeitou): «O Senhor Deus»; na primeira sublinha-se a docilidade de discípulo; na segunda, o sofrimento que esta docilidade acarreta; na terceira, a fortaleza no meio das dores.

4 Apresenta-se «a falar como um discípulo», embora não se trate de um discípulo qualquer; é um discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus: «a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou» (Jo 7, 16; cf. 14, 24).

5 «Não resisti nem recuei». Mesmo os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf. Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42).

6 «Apresentei as costas àqueles que me batiam... não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam». Os evangelistas hão-de deixar ver como o pleno cumprimento deste hino profético se deu no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26, 67; 27, 26-30; Mc 15, 19; Lc 22, 63-64…

 

Salmo Responsorial    Sl 21 (22), 8-9.17-18a.19-20.23-24 (R. 2a)

 

Monição: O Salmo de meditação foi rezado por Jesus Cristo na Cruz, momentos antes de entregar a alma ao Pai.

Termina com uma expressão de esperança. O nosso Deus não perde batalhas.

 

Refrão:        Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

 

Todos os que me vêem escarnecem de mim,

estendem os lábios e meneiam a cabeça:

«Confiou no Senhor, Ele que o livre,

Ele que o salve, se é seu amigo».

 

Matilhas de cães me rodearam,

cercou-me um bando de malfeitores.

Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,

posso contar todos os meus ossos.

 

Repartiram entre si as minhas vestes

e deitaram sortes sobre a minha túnica.

Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim,

sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me.

 

Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos,

hei-de louvar-Vos no meio da assembleia.

Vós, que temeis o Senhor, louvai-O,

glorificai-O, vós todos os filhos de Jacob, reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.

 

Segunda Leitura

 

Monição: O texto da carta de S. Paulo aos cristãos de Filipos é uma proclamação da humildade de Cristo, especialmente manifestada na Sua Paixão. Terá sido, possivelmente um hino cantado nas comunidades primitivas de cristãos e que pode ser tema da nossa meditação frequente.

 

Filipenses 2, 6-11

 

6Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, 7mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, 8humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. 9Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, 10para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, 11e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

 

A leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, um hino que muitos exegetas pensam ser anterior ao este escrito paulino; é a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento.

6 «De condição divina». Literalmente: «existindo em forma de Deus». Ora esta forma (morfê) de Deus, ainda que não significasse directamente a natureza divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos especificamente divinos na linguagem bíblica. De qualquer modo, como bem observa Heinrich Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma como a têm os homens, mas significa que Jesus «tinha um ser como Deus, um ser divino».

«Não se valeu da sua igualdade com Deus». Há diversas possibilidades de tradução desta rica expressão, segundo se considerar o termo grego harpagmós em sentido activo (roubo), ou em sentido passivo (coisa roubada). A Vulgata traduz: «não considerou uma usurpação (rapinam) o ser igual a Deus» (sentido activo). Segundo a interpretação dos Padres Gregos, a que se ateve a nossa tradução litúrgica (sentido passivo), teríamos: «não considerou como algo cobiçado (harpagmón) … Há quem pense que S. Paulo quer fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus (cf. Gn 3, 5.22), e a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer «semelhante aos homens» (v. 7).

7 «Mas aniquilou-se a si próprio», à letra, esvaziou-se: Jesus Cristo, ao fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação sensível da majestade que Lhe competia em virtude da chamada união hipostática (na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana e a natureza divina unidas numa união misteriosa). «Assumindo a condição de servo», o que não significa a condição social de escravo, mas a «forma» (morfê) de se conduzir própria de um ser pobre e dependente, cumprindo n’Ele a figura do «servo de Yahwéh», a que se refere a primeira leitura de hoje. «Tornou-se semelhante aos homens, aparecendo como homem», não apenas, como queria a heresia doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é «semelhante» (en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado (cf. Hebr 4, 15).

8 «Humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz». Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento – a kénosis – de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz – homem, escravo, malfeitor!

9-11 Mas este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota, o humilhante desfecho dum história trágica com que tudo acabou. Temos em paralelo o sublime paradoxo da sua «exaltação»: «por isso Deus – não Ele próprio, mas o Pai – O exaltou» de modo singularíssimo, à letra, acima de tudo o que existe, como o sugere a preposição hypér na composição do verbo hypsóein (exaltar). Esta exaltação deu-se com a glorificação da humanidade de Jesus na sua Ressurreição e Ascensão. A esta sublime exaltação corresponde o «Nome» que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os crentes em todos os tempos. Com efeito, já não se trata do simples nome de Jesus, um nome corrente com que era tratado na sua vida terrena e que consta da sentença que o condenou à morte de cruz, nem apenas o título da sua condição messiânica, «Cristo», pois o nome que agora Lhe compete é o mesmo nome com que o próprio Deus é designado no A. T.: «Kyrios-Senhor», nome divino, como consta da tradução grega de «Yahwéh». Desde agora, a todos pertence proclamar e reconhecer a divindade de Jesus – «toda a língua proclame que Jesus Cristo é Senhor» (mais expressivo sem artigo, como no original grego) – e o seu domínio sobre toda a criação, a saber: «no céu, na terra e nos abismos, para glória de Deus Pai» (A tradução da velha Vulgata neste ponto era pouco expressiva e deficiente: «que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai»).

Independentemente da discussão acerca do aniquilamento de que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o mistério da Incarnação, fica bem claro que Jesus não é um simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois vem a ser exaltado. Também fica patente que a fé na divindade de Jesus não é o fruto duma elaboração teológica tardia, pois a epístola é, quando muito, do ano 62, se não é mesmo de cerca de 55/56 (data mais provável), e, como dissemos, estes versículos fariam parte dum hino litúrgico a Cristo, anterior à epístola.

 

Aclamação ao Evangelho        Filip 2, 8-9

 

Monição: Com profundo respeito e alegria contida, aclamemos o Evangelho da Paixão de Cristo que vais ser proclamado para nós. A morte de Cristo não é uma desgraça, uma derrota, mas um triunfo do Seu Amor por nós.

 

 

 

Cântico: J. Santos, NRMS 40

 

Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz.

Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes.

 

 

Evangelho

 

Forma longa: Mateus 26, 14 - 27, 66;  forma breve: Mateus 27, 11-54

 

N   Naquele tempo, [14um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes 15e disse-lhes:

R   «Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?»

N   Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. 16E a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para O entregar. 17No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe:

R   «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?»

N   18Ele respondeu:

J    «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo. É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos’».

N   19Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha mandado, e prepararam a Páscoa. 20Ao cair da noite, sentou-Se à mesa com os Doze. 21Enquanto comiam, declarou:

J    «Em verdade vos digo: Um de vós há-de entregar-Me».

N   22Profundamente entristecidos, começou cada um a perguntar-Lhe:

R   «Serei eu, Senhor?»

N   23Jesus respondeu:

J    «Aquele que meteu comigo a mão no prato é que há-de entregar-Me. 24O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca d’Ele. Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido».

N   25Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou:

R   «Serei eu, Mestre?»

N   Respondeu Jesus:

J    «Tu o disseste».

N   26Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo:

J    «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo».

N   27Tomou em seguida um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo:

J    «Bebei dele todos, 28porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados. 29Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira, até ao dia em que beberei convosco o vinho novo no reino de meu Pai».

N   30Cantaram os salmos e seguiram para o Monte das Oliveiras.

N   31Então, Jesus disse-lhes:

J    «Todos vós, esta noite, vos escandalizareis por minha causa, como está escrito: ‘Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas do rebanho’. 32Mas, depois de ressuscitar, preceder-vos-ei a caminho da Galileia».

N   33Pedro interveio, dizendo:

R   «Ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu não me escandalizarei».

N   34Jesus respondeu-lhe:

J    «Em verdade te digo: Esta mesma noite, antes do galo cantar, Me negarás três vezes».

N   35Pedro disse-lhe:

R   «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei».

N   E o mesmo disseram todos os discípulos. 36Então, Jesus chegou com eles a uma propriedade, chamada Getsémani e disse aos discípulos:

J    «Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar».

N   37E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se. 38Disse-lhes então:

J    «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo».

N   39E adiantando-Se um pouco mais, caiu com o rosto por terra, enquanto orava e dizia:

J    «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres».

N   40Depois, foi ter com os discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro:

J    «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo! 41Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».

N   42De novo Se afastou, pela segunda vez, e orou, dizendo:

J    «Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade».

N   43Voltou novamente e encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados de sono. 44Deixou-os e foi de novo orar, pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. 45Veio então ao encontro dos discípulos e disse-lhes:

J    «Dormi agora e descansai. Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser entregue às mãos dos pecadores. 46Levantai-vos, vamos. Aproxima-se aquele que Me vai entregar».

N   47Ainda Jesus estava a falar, quando chegou Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. 48O traidor tinha-lhes dado este sinal:

R   «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O».

N   49Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse-Lhe:

R   «Salve, Mestre!»

N   E beijou-O. 50Jesus respondeu- lhe:

J    «Amigo, a que vieste?»

N   Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-n’O. 51Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada, desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. 52Jesus disse-lhe:

J    «Mete a tua espada na bainha, pois todos os que puxarem da espada morrerão à espada. 53Pensas que não posso rogar a meu Pai que ponha já ao meu dispor mais de doze legiões de Anjos? 54Mas como se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim tem de acontecer?»

N   55Voltando-Se depois para a multidão, Jesus disse:

J    «Viestes com espadas e varapaus para Me prender como se fosse um salteador! Eu estava todos os dias sentado no templo a ensinar e não Me prendestes... 56Mas, tudo isto aconteceu para se cumprirem as Escrituras dos profetas».

N   Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram.

N   57Os que tinham prendido Jesus levaram-n’O à presença do sumo sacerdote Caifás, onde os escribas e os anciãos se tinham reunido. 58Pedro foi-O seguindo de longe, até ao palácio do sumo sacerdote. Aproximando-se, entrou e sentou-se com os guardas, para ver como acabaria tudo aquilo. 59Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho falso contra Jesus para O condenarem à morte, 60mas não o encontravam, embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas. Por fim, apresentaram-se duas 61que disseram:

R   «Este homem afirmou: ‘Posso destruir o templo de Deus e reconstruí-lo em três dias’».

N   62Então, o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus:

R   «Não respondes nada? Que dizes ao que depõem contra Ti?»

N   63Mas Jesus continuava calado. Disse-Lhe o sumo sacerdote:

R   «Eu Te conjuro pelo Deus vivo, que nos declares se és Tu o Messias, o Filho de Deus».

N   64Jesus respondeu-lhe:

J    «Tu o disseste. E Eu digo-vos: vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso, vindo sobre as nuvens do céu».

N   65Então, o sumo sacerdote rasgou as vestes, dizendo:

R   «Blasfemou. Que necessidade temos de mais testemunhas? 66Acabais de ouvir a blasfémia. Que vos parece?»

N   Eles responderam:

R   «É réu de morte».

N   67Cuspiram-Lhe então no rosto e deram-Lhe punhadas. Outros esbofeteavam-n’O, dizendo:

R   68«Adivinha, Messias: quem foi que Te bateu?»

N   69Entretanto, Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe:

R   «Tu também estavas com Jesus, o galileu».

N   70Mas ele negou diante de todos, dizendo:

R   «Não sei o que dizes».

N   71Dirigindo-se para a porta, foi visto por outra criada que disse aos circunstantes:

R   «Este homem estava com Jesus de Nazaré».

N   72E, de novo, ele negou com juramento:

R   «Não conheço tal homem».

N   73Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro:

R   «Com certeza tu és deles, pois até a fala te denuncia».

N   74Começou então a dizer imprecações e a jurar:

R   «Não conheço tal homem».

N   E, imediatamente, um galo cantou. 75Então, Pedro lembrou-se das palavras que Jesus dissera: «Antes do galo cantar, tu Me negarás três vezes». E, saindo, chorou amargamente. 27, 1Ao romper da manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram em conselho contra Jesus, para Lhe darem a morte. 2Depois de Lhe atarem as mãos, levaram-n’O e entregaram-n’O ao governador Pilatos. 3Então Judas, que entregara Jesus, vendo que Ele tinha sido condenado, tocado pelo remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo:

R   4«Pequei, entregando sangue inocente».

N   Mas eles replicaram:

R   «Que nos importa? É lá contigo».

N   5Então arremessou as moedas para o santuário, saiu dali e foi-se enforcar. 6Mas os príncipes dos sacerdotes apanharam as moedas e disseram:

R   «Não se podem lançar no tesouro, porque são preço de sangue».

N   7E, depois de terem deliberado, compraram com elas o Campo do Oleiro. 8Por este motivo se tem chamado àquele campo, até ao dia de hoje, «Campo de Sangue». 9Cumpriu-se então o que fora dito pelo profeta: «Tomaram trinta moedas de prata, preço em que foi avaliado Aquele que os filhos de Israel avaliaram 10e deram-nas pelo Campo do Oleiro, como o Senhor me tinha ordenado».]

N   11Entretanto,] Jesus foi levado à presença do governador, que lhe perguntou:

R   «Tu és o Rei dos judeus?»

N   Jesus respondeu:

J    «É como dizes».

N   12Mas, ao ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. 13Disse-Lhe então Pilatos:

R   «Não ouves quantas acusações levantam contra Ti?»

N   14Mas Jesus não respondeu coisa alguma, a ponto de o governador ficar muito admirado. 15Ora, pela festa da Páscoa, o governador costumava soltar um preso, à escolha do povo. 16Nessa altura, havia um preso famoso, chamado Barrabás. 17E, quando eles se reuniram, disse-lhes:

R   «Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?»

N   19Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja. 20Enquanto estava sentado no tribunal, a mulher mandou-lhe dizer:

R   «Não te prendas com a causa desse justo, pois hoje sofri muito em sonhos por causa d’Ele».

N   Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram a multidão a que pedisse Barrabás e fizesse morrer Jesus. 21O governador tomou a palavra e perguntou-lhes:

R   «Qual dos dois quereis que vos solte?»

N   Eles responderam:

R   «Barrabás».

N   22Disse-lhes Pilatos:

R   «E que hei-de fazer de Jesus, chamado Cristo?»

N   Responderam todos:

R   «Seja crucificado».

N   23Pilatos insistiu:

R   «Que mal fez Ele?»

N   Mas eles gritavam cada vez mais:

R   «Seja crucificado».

N   24Pilatos, vendo que não conseguia nada    e aumentava o tumulto, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo:

R   «Estou inocente do sangue deste homem. Isso é lá convosco».

N   25E todo o povo respondeu:

R   «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos».

N   26Soltou-lhes então Barrabás. E, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-lh’O para ser crucificado. 27Então os soldados do governador levaram Jesus para o pretório e reuniram à volta d’Ele toda a coorte. 28Tiraram-Lhe a roupa e envolveram-n’O num manto vermelho. 29Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça e colocaram uma cana na sua mão direita. Ajoelhando diante d’Ele, escarneciam-n’O, dizendo:

R   «Salve, Rei dos judeus!»

N   30Depois, cuspiam-Lhe no rosto e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça. 31Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas e levaram-n’O para ser crucificado.

N   32Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus. 33Chegados a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar do Calvário, 34deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Mas Jesus, depois de o provar, não quis beber. 35Depois de O terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, 36e ficaram ali sentados a guardá-l’O. 37Por cima da sua cabeça puseram um letreiro, indicando a causa da sua condenação: «Este é Jesus, o Rei dos judeus». 38Foram crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. 39Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo:

R   40«Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz».

N   41Os príncipes dos sacerdotes, juntamente com os escribas e os anciãos, também troçavam d’Ele, dizendo:

R   42«Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz e acreditaremos n’Ele. 43Confiou em Deus: Ele que O livre agora, se O ama, porque disse: ‘Eu sou Filho de Deus’».

N   44Até os salteadores crucificados com Ele O insultavam. 45Desde o meio-dia até às três horas da tarde, as trevas envolveram toda a terra. 46E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:

J    «Eli, Eli, lema sabachtani!»,

N   que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?» 47Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:

R   «Está a chamar por Elias».

N   48Um deles correu a tomar uma esponja, embebeu-a em vinagre, pô-la na ponta duma cana e deu-Lhe a beber. 49Mas os outros disseram:

R   «Deixa lá. Vejamos se Elias vem salvá-l’O».

N   50E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.

N   51Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. 52Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; 53e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. 54Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram:

R   «Este era verdadeiramente Filho de Deus».

N   55Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem. 56Entre elas encontrava-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. 57Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado discípulo de Jesus. 58Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. E Pilatos ordenou que lho entregassem. 59José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo 60e depositou-o no seu sepulcro novo que tinha mandado escavar na rocha. Depois rolou uma grande pedra para a entrada do sepulcro, e retirou-se. 61Entretanto, estavam ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas em frente do sepulcro. 62No dia seguinte, isto é, depois da Preparação, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus foram ter com Pilatos 63e disseram-lhe:

R   «Senhor, lembrámo-nos do que aquele impostor disse quando ainda era vivo: ‘Depois de três dias ressuscitarei’. 64Por isso, manda que o sepulcro seja mantido em segurança até ao terceiro dia, para que não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ‘Ressuscitou dos mortos’. E a última impostura seria pior do que a primeira».

N   Pilatos respondeu:

R   65«Tendes à vossa disposição a guarda: ide e guardai-o como entenderdes».

N   66Eles foram e guardaram o sepulcro, selando a pedra e pondo a guarda.

 

A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente por todos os Evangelistas é a sua Paixão, pois culmina a vida e obra redentora de Cristo. Os padecimentos colossais que o Senhor abraçou voluntariamente põem em evidência do modo mais significativo tanto o seu amor infinito para com todos e cada um de nós (cf. Gál 2, 20), como a tremenda gravidade dos nossos pecados (cf. Gál 1, 4). Os estudiosos pensam que foi a parte do Evangelho que tomou a forma definitiva escrita mais cedo.

N.B. – Podem ver-se mais comentários sobre a Paixão do Senhor, em Sexta-Feira Santa.

15 A traição de Judas causa-nos um grande desconcerto. Não teria chegado a entender a missão espiritual de Jesus e, como era interesseiro, oportunista e sem amor sincero, ao pressentir o que considerava um fracasso da missão do Mestre, tentou tirar o máximo rendimento da situação: antes que viesse a ser incomodado por ser discípulo de Jesus, passou para o grupo dos inimigos e, como também é hábil, negoceia a traição para tirar dela todo o lucro. O dinheiro da traição foram trinta moedas de prata. Em nenhum sítio se diz que eram 30 dinheiros: tanto se podia tratar da moeda romana (denário), como da grega (estáter), ou da moeda do Templo (siclo). Daqui que é difícil de calcular o preço da traição na moeda actual; de qualquer modo não iria muito além de 10 euros.

17 Durante os sete dias que duravam as festas da Páscoa comia-se pão sem fermento (ázimo), em memória do pão que os israelitas cozeram apressadamente ao fugir da escravidão do Egipto (cf. Ex 12, 34).

18 Os encarregados de preparar a Ceia pascal, em que se comia um cordeiro sacrificado no Templo, foram Pedro e João (Lc 22, 8-13; cf. Mc 14, 12-16) a quem Jesus deu indicações precisas: seria na casa de um homem que encontrariam com uma bilha de água. É natural que Jesus já tivesse falado a esse homem no assunto e que ele fosse conhecido dos Apóstolos. Talvez Jesus tivesse querido evitar que Judas ficasse a conhecer o local da Ceia para que este não o fosse indicar aos inimigos que poderiam aproveitar esta ocasião para O prenderem.

25 A resposta positiva à pergunta de Judas passa despercebida aos restantes Apóstolos (cf. Jo 13, 26-29). Isto mostra a delicadeza de Jesus, bem como a sua vontade de tocar o coração empedernido de Judas e também a firme decisão que Jesus tinha de ir para a morte: se os demais soubessem que Judas ia consumar a traição, tê-lo-iam impedido. Ainda que Jesus vá para a morte porque quer, isto em nada diminuiu a responsabilidade do traidor (v. 24).

26-29 Podem ver-se os comentários à 2.ª leitura de Quinta-Feira Santa.

30 Referência aos Salmos que então se rezavam: 113-118.

31-35 Jesus mostra que sabe tudo o que vai acontecer. O aviso a Pedro de que iria negar o Mestre não evitou a sua estrondosa queda, porque lhe faltou humildade. O Senhor permitiu aquela humilhação de Pedro para que o Chefe da Igreja fosse grande pela humildade e para lição de todos nós. Comenta S. João Crisóstomo: «Aprendemos daqui uma grande verdade, a saber, que não é suficiente o desejo do homem, a não ser que se apoie na ajuda de Deus».

36-46 Temos aqui uma das páginas mais impressionantes e misteriosas do Evangelho. Jesus podia ter dominado perfeitamente o ímpeto da emoção da sua sensibilidade finíssima. No entanto, deixa que ela reaja na proporção da gravidade da hora. Desta maneira revela-se como homem em tudo igual a nós (excepto no pecado) e aparece-nos como modelo que pode ser imitado por nós, que não temos o perfeito domínio da sensibilidade. Assim o Senhor nos aparece estendido por terra (v. 39) e sentindo uma angústia tão profunda que se queixa dizendo que sente uma tristeza de morte, suando sangue (Lc 22, 44), precisando de buscar apoio nos mais íntimos para consolo da sua dor e solidão. Jesus diz a Pedro, Tiago e João que fiquem perto, mas, por delicadeza, não os quer impressionar com a sua agonia, por isso se afasta deles na distância de um tiro de pedra (Lc 22, 41). Pede-lhes que velem e rezem não só para Lhe servirem de companhia e apoio humano, mas também para terem a coragem de se portarem bem, à altura da tremenda hora que se avizinha. Ainda que eles tenham podido ouvir algumas palavras da oração do Senhor, não se aperceberam perfeitamente do que se passava com Jesus, aliás não se teriam deixado adormecer; é, pois, natural que só depois da Ressurreição tenham ficado a saber os pormenores da oração do Senhor no Getsemani, quando Ele lhos tenha contado.

35 «Passe de mim este cálice». Não obstante a perfeita identificação da própria vontade humana de Jesus com a sua vontade divina, a mesma vontade do Pai – «não se faça como Eu quero, mas como Tu queres» –, a viva repugnância da finíssima sensibilidade de Jesus pelos iminentes martírios da Sua Paixão leva-O a falar assim.

«Cálice» significa no Antigo Testamento a ira divina que faz cair a dor sobre os pecadores (cf. Is 51, 17.22; Jer 25, 15; Lam 4, 21; Ez 23, 33; Sal 75 (74), 9). Jesus não é pecador, mas esta mesma imagem sugere a «expiação vicária»: Jesus sofre uma dor expiatória dos pecados da Humanidade (cf. 2 Cor 5, 21; Is 53, 1-12). O motivo da agonia de Jesus parece ser, antes de mais, a antevisão da sua Paixão e Morte na cruz, mas juntava-se a isto um motivo de dor não de menos importância e que facilmente podemos adivinhar: a visão da maldade e ingratidão humana, a falta de correspondência a tão grande excesso do amor de Deus pelas criaturas, o abandono e adormecimento dos mais íntimos, etc.

45 «Dormi agora e descansai». Costumam entender-se estas palavras de Jesus como uma censura com certa ironia. Porém estas palavras poderiam indicar uma certa condescendência para com a fraqueza dos Apóstolos, ao dar-lhes tempo de repouso antes de começar o drama da sua prisão.

49 Na escuridão da noite (embora houvesse Lua cheia, havia as sombra das árvores), convinha um sinal para que os encarregados de prender a Jesus atacassem de surpresa. Judas escolheu o sinal mais discreto e mais velhaco: um sinal de afeição e cortesia como manifestação da traição. A tão monstruosa vilania, Jesus corresponde com enorme delicadeza, deixando uma porta aberta ao arrependimento, ao tratar o traidor por «amigo»; assim nos ensina a respeitar e a tratar com caridade os nossos inimigos.

53 «Uma legião» era um efectivo militar com mais de 6.000 homens.

57-58 Jesus comparece perante as autoridades judaicas. Este julgamento não sabemos se foi feito em duas ou três sessões: S. João fala da comparência do Senhor perante Anãs, sogro de Caifãs e sumo sacerdote deposto, que conservava grande preponderância (Jo 18, 19-24); S. Lucas fala da sessão oficial do Sinédrio, de manhã, em que é dada a sentença (Lc 22, 66-67), relato que coincide com a sessão nocturna perante Caifãs contada aqui por S. Marcos. Como S. Mateus (que coincide com S. Marcos) fala de uma outra sessão depois de amanhecer (Mt 27, 1), ou houve três sessões ou então teremos de supor que S. Mateus, por motivos redaccionais, simplificou as coisas, atribuindo a uma sessão nocturna o que se passou na sessão diurna.

61 O depoimento das testemunhas era deturpado, pois Jesus não tinha dito «posso destruir o Templo», mas «desfazei este Templo» e referindo-se ao seu corpo (Jo 2, 19).

63-65 Jesus cala-se perante as falsas acusações, mas fala agora quando tem de dar testemunho da sua missão, embora isto Lhe acarreta a morte. E fá-lo aplicando a si dois textos bíblicos considerados como referidos ao Messias: Salm 109 (110), 1 e Dan 7, 13. De acordo com o uso respeitoso de evitar pronunciar o nome inefável de Jahwéh, diz «à direita do Todo-Poderoso», (v. 64). O Senhor é condenado por blasfémia: não por se declarar o Messias, mas por declarações com que se situava num nível divino.

70-75 As negações de Pedro. A fé de Pedro que Jesus louvara (Mt 16, 17) tem de suportar uma dura prova (cf. Lc 22, 31-32). O rápido desenlace dos acontecimentos deixara Pedro desconcertado e sem força para reagir e confessar o seu Mestre: se Ele lhe mandara arrumar a espada quando O tentava defender (Mt 26, 52), que lhe restava fazer agora por Jesus? Um homem tão impulsivo como Pedro não se resignava a seguir Jesus até à morte sem lutar. Pedro sentia-se atordoado e confuso: quando vê que os seus planos humanos de defesa falharam tem a grande fraqueza de negar insistentemente o Mestre e com juramento, esquecendo os insistentes protestos de fidelidade pouco antes feitos (v. 35). Mas, se foi grande o seu pecado, também foi profundo o seu arrependimento, merecendo da misericórdia do Senhor não vir a ser rejeitado como chefe da sua Igreja.

27, 3-5 O desespero de Judas. Judas também se arrepende, mas o seu arrependimento não é uma conversão, um regresso para Deus; é um fechar-se na sua miséria e na sua soberba ferida pelo remorso. Judas desespera porque não sabe confiar na misericórdia infinita de Deus. A sua soberba não o deixa voltar atrás, pedir perdão a Deus e ir ao encontro dos seus irmãos, os Apóstolos.

9 O Evangelista sublinha que se cumpre o que estava previsto por Deus: não era uma fatalidade inexorável ou um fracasso de Jesus. A citação de Jeremias (32, 6-9) é completada com um oráculo doutro profeta (Zac 11, 12-13).

11-31 Jesus no tribunal do governador romano. O recurso à autoridade romana tornava-se necessário para que se pudesse levar a cabo legalmente a morte de Jesus, coisa que não estava nas atribuições do Sinédrio. Pilatos foi governador (præfectus) na Palestina de 26 a 36 d. C. Vivia habitualmente em Cesareia, mas encontrava-se então em Jerusalém para estar mais atento aos movimentos dos judeus por ocasião das festas da Páscoa. Era cruel e odiava os judeus, não perdendo ocasião de os humilhar. Devia estar ao par da actuação de Jesus, que consideraria inofensiva para a causa do império. O processo diante de Pilatos é contado mais detalhadamente por S. João. Aqui apenas temos umas pinceladas pouco conexas. Não é acusado de culpas no campo religioso, mas de ser um elemento perigoso para o domínio romano.

24 O gesto hipócrita de Pilatos com que pretende justificar a sua cobardia pode explicar-se por um certo medo supersticioso de vir a sofrer más consequências da sua iníqua sentença, demais que a sua mulher tinha tido um pesadelo de mau presságio (v. 21): lavar as mãos teria o sentido mágico de afastar de si qualquer castigo divino.

26 A flagelação foi mais um expediente de Pilatos para evitar a morte de Jesus (Jo 19, 1.5.14). S. Mateus não desce a este detalhe do processo de Jesus diante de Pilatos; limita-se a referir este crudelíssimo suplício, que era habitual para a vítima destinada à crucifixão.

27 A companhia, ou «coorte», constava de uns 625 soldados recrutados entre a gente não judia que morava na Palestina; estavam aquartelados permanentemente em Jerusalém, na torre Antónia ao lado do Templo, às ordens do governador romano.

32 Simão de Cirene. Este cireneu é um estranho que é forçado a levar a cruz de Jesus (talvez só o pau transversal. segundo era costume, pois o poste vertical já estaria erguido no lugar da execução). É de fazer pensar a solidão de Jesus: não tem um amigo, um discípulo, um beneficiário dos seus milagres que apareça para O ajudar a levar a Cruz. Este serviço de Simão de Cirene há-de ser bem recompensado, pois os seus dois filhos, Alexandre e Rufo. hão-de vir a tornar-se cristãos dignos de especial menção (cf. Mc 15, 21; Rom 16, 13).

34 Provou, mas não quis beber. Costumava ser oferecida aos que iam ser crucificados uma mistura de vinho com mirra, para lhes acalmar as terríveis dores. Jesus, por delicadeza e deferência, provou, mas não quis beber, para poder sofrer conscientemente todas as dores por nós.

35 Cf. Sal 21 (22), 19.

45 Com estas palavras do Salmo 21 (22), 2, o Senhor deixa-nos ver toda a magnitude do seu sofrimento físico e moral. Não são palavras de desespero ou protesto, mas uma oração de desabafo, com que mostra como sofre no máximo grau de intensidade a sua alma e o seu corpo, mas numa atitude de abandono, pois este é o tom do Salmo, que Jesus rezaria inteiro e não apenas o 1º versículo.

51 O véu do Templo era um cortinado que separava, no santuário, o Santo do Santo dos Santos. Este rasgar-se significa que, a partir da morte de Jesus, ficam abertas para todos os homens as portas do Céu (cf. Hebr 9, 15) e também que acabou a Antiga Aliança dando lugar à Nova, selada com o sangue de Cristo. Os sinais prodigiosos que acompanham a morte de Jesus atestam a transcendência do que se passa no momento: não morre mais um homem qualquer, é o Filho de Deus que morre, redimindo a Humanidade pecadora.

52-53 Passagem muito difícil de interpretar e sobre cujo sentido nunca houve acordo. Cristo foi certamente o primeiro a ressuscitar (1 Cor 15, 20; Col 1, 18), por isso haverá que distinguir dois factos: a abertura dos túmulos (talvez devida ao tremor de terra) e a ressurreição de muitos santos que só teria vindo a dar-se depois da ressurreição de Jesus (v. 53). No v. 52 S. Mateus, não se fixando na ordem dos acontecimentos, adianta a referência à ressurreição, como se dissesse: «e muitos corpos dos santos que tinham morrido vieram a ressuscitar». Esta falta de atenção à ordem dos factos narrados é frequente em S. Mateus.

62-66 A guarda do sepulcro. As medidas de segurança tomadas pelos inimigos de Jesus vão ser mais uma prova do facto da Ressurreição. Estas precauções têm toda a credibilidade: compreende-se que tenham sido tomadas só no sábado, pois a sepultura tinha tido lugar no fim de sexta-feira e com a intervenção de um homem influente, José de Arimateia; também é crível que os inimigos de Jesus tivessem qualquer referência à ressurreição a partir do anunciado sinal de Jonas (Mt 12, 40), embora fosse só do conhecimento dos Apóstolos o tríplice anúncio da Paixão, Morte e Ressurreição. Por mais descabida que parecesse a Pilatos a preocupação dos chefes judeus, ele bem poderia ter acabado por destacar os seus soldados para guardarem o túmulo.

 

Sugestões para a homilia

 

• A obediência, caminho do nosso resgate

Atenção à vontade de Deus

O Senhor nunca nos desampara

• O preço da nossa Redenção

O Filho de Deus reduz-Se à condição de servo

As nossas perguntas sobre a Paixão de Jesus

A desobediência foi apagada pela obediência

A pedagogia de Deus na Paixão de Jesus

Os apelos de cada Eucaristia dominical

 

1. A obediência, caminho do nosso resgate

 

A profecia de Isaías, proclamada como 1ª leitura, coloca-nos perante um texto escrito seis séculos antes da vinda de Cristo, que anuncia com impressionante realismo a Paixão de Jesus.

Deus capacita o Seu Servo para cumprir a sua missão como consolador dos abatidos pelo sofrimento. O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos.

 

Atenção à vontade de Deus. Ele está permanentemente à escuta do que Deus lhe manda, disposto a executar fielmente a Sua vontade, mesmo que isto lhe acarrete dores e ultrajes. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar como escutam os discípulos.

Pode ensinar-nos e animar-nos a levar a Cruz da vida, porque vai á nossa frente com uma que é imensamente mais pesada.

Aceita a cruz com generosidade, sem lhe fazer descontos: eu não resisti nem recuei um passo.

Enfrenta-a com coragem: Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba.

O primeiro pecado — como todos os que se cometem no mundo — foi de desobediência à vontade de Deus.

Cristo Jesus redime-nos da escravidão do pecado por uma docilidade generosa à vontade do Pai.

 

O Senhor nunca nos desampara. No entanto, a Liturgia coloca em nossos lábios o salmo 21, oração de um pobre abandonado e triste, o mesmo que Jesus Cristo rezou na Cruz, na tarde de Sexta-Feira Santa.

Esta oração exprime, sem dúvida, sentimentos de aflição e dor, mas também a nossa confiança ilimitada no Senhor. É a voz dum filho que desabafa com o Pai, com a esperança de receber consolação.

É uma oração para rezarmos especialmente naqueles momentos em que a cruz se torna mais pesada, quer em si mesma, quer pela incompreensão dos que mais nos deviam ajudar: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

 

2. O preço da nossa Redenção

 

S. Paulo, na carta aos Filipenses, transmite-nos um hino da Igreja dos primeiros tempos.

 

O Filho de Deus reduz-Se à condição de servo. Nele se canta o mistério da Encarnação, recordando algumas verdades fundamentais: a existência divina de Cristo; o ocultamento da Sua glória na fraqueza da condição humana; a Sua humilhação suprema — descendo quase abaixo da nossa dignidade — para nos servir, terminando na morte da Cruz. Mas o Pai acaba por glorificá-l'O com a Ressurreição gloriosa.

Por isso, todas as gerações aclamaram e hão-de aclamar Jesus Cristo torna-se o único Salvador do mundo, ontem, hoje e sempre.

 

As nossas perguntas sobre a Paixão de Jesus. S. Marcos, ao descrever-nos a Paixão de Jesus, procura responder a uma pergunta que, possivelmente, teremos feito ao Senhor, no silêncio da nossa alma: Por que motivo a nossa salvação teve de se realizar por este caminho de sofrimento?

 

A desobediência foi apagada pela obediência. Recebemos apenas uma resposta que exige de nós um generoso acto de fé: porque era esta a vontade do Pai. A Paixão apresenta-se como o cumprimento das Escrituras e, portanto, como um supremo acto de obediência.

 

 A pedagogia de Deus na Paixão de Jesus. No entanto, somos capazes de vislumbrar algumas razões para este drama da Paixão: era a única linguagem que seríamos capazes de entender, para gravar na inteligência e no coração algumas verdades: a loucura do Amor de Deus por nós; a tremenda fealdade do pecado; e o valor infinito de cada pessoa humana, por mais degrada que se encontre.

 

Os apelos de cada Eucaristia dominical. Em cada Celebração da Eucaristia, com a renovação da Paixão e Morte do Senhor, sentimos diversos apelos: ao nosso Amor a Deus, sem limites de qualquer espécie; à disposição interior para evitar o pecado, mesmo ao preço do sacrifício da vida; à generosidade no dar a mão a cada pessoa, ajudando-a a crescer até à dimensão de Jesus Cristo, a começar especialmente pelas pessoas mais necessitadas.

De tudo isto nos fala o silêncio de Maria, com a alma trespassada de dor, enquanto Jesus agoniza no Calvário.

 

Fala o Santo Padre

 

«Ouvimos a Paixão do Senhor. Será bom pormo-nos apenas uma pergunta:

Quem sou eu à vista de Jesus que entra festivamente em Jerusalém?»

Esta semana começa com a festiva procissão dos ramos de oliveira: todo o povo acolhe Jesus. As crianças, os adolescentes cantam, louvam Jesus.

Mas esta semana continua com o mistério da morte de Jesus e da sua ressurreição. Ouvimos a Paixão do Senhor. Será bom pormo-nos apenas uma pergunta: Quem sou eu? Quem sou eu, face ao meu Senhor? Quem sou eu à vista de Jesus que entra festivamente em Jerusalém? Sou capaz de exprimir a minha alegria, de O louvar? Ou fico à distância? Quem sou eu, face a Jesus que sofre?

Escutámos muitos nomes, muitos nomes. O grupo dos líderes, alguns sacerdotes, alguns fariseus, alguns doutores da lei, que decidiram matá-Lo. Esperavam só a oportunidade boa para O prenderem. Sou eu como um deles?

Ouvimos também outro nome: Judas. Trinta moedas. Sou eu como Judas? Escutámos outros nomes: os discípulos que não entendiam nada, que adormeciam enquanto o Senhor sofria. A minha vida está adormecida? Ou sou como os discípulos, que não compreendiam o que era trair Jesus? Ou então como aquele discípulo que queria resolver tudo com a espada: sou eu como eles? Sou como Judas, que finge de amar e beija o Mestre para O entregar, para O trair? Sou eu um traidor? Sou eu como aqueles líderes que montam à pressa o tribunal e procuram testemunhas falsas: sou eu como eles? E, quando faço estas coisas – se é que as faço –, creio que, com isso, salvo o povo?

Sou eu como Pilatos? Quando vejo que a situação é difícil, lavo as mãos e não assumo a minha responsabilidade, condenando ou deixando condenar as pessoas?

Sou eu como aquela multidão que não sabia bem se estava numa reunião religiosa, num julgamento ou num circo, e escolhe Barrabás? Para ela tanto valia: era mais divertido, para humilhar Jesus.

Sou eu como os soldados, que batem no Senhor, cospem-Lhe em cima, insultam-No, divertem-se com a humilhação do Senhor?

Sou eu como Simão de Cirene que voltava do trabalho, cansado, mas teve a boa vontade de ajudar o Senhor a levar a cruz?

Sou eu como aqueles que passavam diante da Cruz e escarneciam de Jesus: «Era tão corajoso! Desça da cruz e nós acreditaremos n’Ele!». Escarnecem de Jesus...

Sou eu como aquelas mulheres corajosas, e como a Mãe de Jesus, que estavam lá e sofriam em silêncio?

Sou eu como José, o discípulo oculto, que leva o corpo de Jesus, com amor, para Lhe dar sepultura?

Sou eu como as duas Marias que permanecem junto do sepulcro chorando, rezando?

Sou eu como aqueles líderes que, no dia seguinte, foram ter com Pilatos para lhe dizer: «Olha que Ele afirmava que havia de ressuscitar. Não queremos mais enganos!» e bloqueiam a vida, bloqueiam o sepulcro para defender a doutrina, para que a vida não irrompa?

Onde está o meu coração? Com qual destas pessoas me pareço? Que esta pergunta nos acompanhe durante toda a semana.

Papa Francisco, Homilia, Praça de São Pedro, 13 de Abril de 2014

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos:

Contemplando Jesus Cristo, nosso Salvador,

na entrada triunfal em Jerusalém e na Sua Paixão,

oremos pela salvação de todos os homens,

vítimas do ódio, da violência e da injustiça.

Oremos (cantando), confiadamente:

 

    Abençoai, Senhor, o vosso povo.

 

1. Pela santa Igreja, que vive a Paixão de Cristo nas perseguições,

    para que, vivendo na fé o martírio, recolha da cruz a esperança,

    oremos, irmãos.

 

    Abençoai, Senhor, o vosso povo.

   

2. Pelos que administram a justiça e julgam os homens, seus irmãos,

    para que defendam os inocentes e os oprimidos e com a verdade,

    oremos, irmãos.

 

    Abençoai, Senhor, o vosso povo.

 

3. Pelos ateus e pelos cristãos indiferentes que se afastaram da fé,

para que descubram em Jesus Cristo crucificado o Filho de Deus,

    oremos, irmãos.

 

    Abençoai, Senhor, o vosso povo.

 

4. Pelos doentes, pelos moribundos e pelos que estão agonizantes,

    para que aprendam com Jesus entregar nas mãos do Pai a sua vida,

    oremos, irmãos.

 

    Abençoai, Senhor, o vosso povo.

 

5. Por todos nós aqui presentes e pela nossa comunidade (paroquial),

    para que, unidos à Paixão e Morte de Jesus, alcancemos a glória

    oremos, irmãos.

 

    Abençoai, Senhor, o vosso povo.

 

6. Pelos deixaram vida na terra e são purificados das suas manchas,

    para que, pela Paixão e Morte de Jesus, os receba hoje no Paraíso,

    oremos, irmãos.

 

    Abençoai, Senhor, o vosso povo.

 

Senhor, nosso Deus, e nosso Salvador,

que Vos dignastes contar-nos entre o número daqueles

para quem o vosso Filho implorou o perdão ao expirar,

dai-nos a graça de descobrir, à luz da fé, o Amor infinito

com que nos atendeis em todas as necessidades.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Na hóstia sobre a patena, B. Salgado, NRMS 6 (II)

 

Oração sobre as oblatas: Pela paixão do vosso Filho Unigénito, apressai, Senhor, a hora da nossa reconciliação: concedei-nos, por este único e admirável sacrifício, a misericórdia que nossos pecados não merecem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

A paixão redentora de Cristo

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. E nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Sendo inocente, entregou-Se à morte pelos pecadores; não tendo culpas, deixou-Se condenar pelos culpados. A sua morte redimiu os nossos pecados e a sua ressurreição abriu-nos as portas da salvação.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos com alegria a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: Santo I, H. Faria, NRMS 103-104

 

Monição da Comunhão

 

Identifiquemo-nos, na Sagrada Comunhão, com os sentimentos de Jesus. É para isso que nós comungamos.

Diante das contrariedades — que a nossa soberba exagera, tantas vezes, — e sofrimentos da vida presente, repitamos a oração de Jesus: Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, faça-se a Tua vontade (Mt 26, 42).

 

Cântico da Comunhão: A minha carne é verdadeira comida, F. da Silva, NRMS 102

Mt 26, 42

Antífona da comunhão: Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-Se a tua vontade.

 

Cântico de acção de graças: Troquemos o instante pelo eterno, M. Simões, NRMS 61

 

Oração depois da comunhão: Saciados com estes dons sagrados, nós Vos pedimos, Senhor: assim como, pela morte do vosso Filho, nos fizestes esperar o que a nossa fé nos promete, fazei-nos também chegar, pela sua ressurreição, às alegrias do reino que esperamos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Preparemo-nos para viver a Semana Santa como a melhor de sempre fomentando, para isso, um ambiente de recolhimento.

Ajudemos fraternalmente as pessoas que estão ao nosso alcance para que se preparem para a Páscoa da Ressurreição do Senhor.

 

Cântico final: Proclamai em toda a terra, M. Faria, NRMS 27-28

 

 

Homilias Feriais

 

SEMANA SANTA

 

2ª Feira, 10-IV: O cumprimento do plano de salvação.

Is 42, 1-7 / Jo 12, 1-11

Eis o meu servo. A quem eu protejo, o meu eleito, o enlevo da minha alma. Fui eu, o Senhor, quem te chamou num propósito de salvação.

Este plano divino de salvação, pela entrega à morte do servo, o Justo, tinha sido de antemão anunciado pela Escritura. O próprio Jesus apresentou o sentido da sua vida e da sua morte à luz do servo sofredor» (CIC, 601).

Nesta Semana Santa encontramos os que estiveram mais ligados à paixão de Cristo: Judas, que protesta contra os pormenores de carinho para com o Senhor; e Maria de Betânia, que derramou sobre Ele uma libra de perfume de elevado preço (Ev.). Sejamos pois mais generosos no acompanhamento do Senhor.

 

3ª Feira, 11-IV: Acompanhamento de Cristo na Paixão.

Is 49, 1-6 / Jo 13, 21-33. 36-38

Não basta que sejas meu servo. Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue aos confins da terra.

Pela sua obediência até à morte, Jesus leva a cabo a missão do servo sofredor, que oferece a sua vida em expiação, carregando sobre os seus ombros as nossas faltas e oferecendo ao Pai uma satisfação pelos nossos pecados (CIC, 615).

Durante a Última Ceia, Jesus vê partir Judas, que o vai entregar, e profetiza as negações de Pedro (Ev.). Procuremos oferecer a nossa vida em expiação pelos pecados, aceitemos as contrariedades, dores e sofrimentos que Ele nos enviar; arrependamo-nos das nossas faltas de fidelidade.

 

4ª Feira, 12-IV: Preparativos para a Última Ceia.

Is 50, 4-9 / Mt 26, 14-25

Onde queres que façamos os preparativos para comermos a Páscoa?

Na véspera da sua Paixão, quando ainda era livre, Jesus faz desta Última Ceia com os Apóstolos (Ev.), o memorial da sua oblação voluntária ao Pai» (CIC, 610).

Façamos igualmente os nossos preparativos para esta Páscoa, desejando reunir-nos com Jesus e os discípulos para a instituição da Eucaristia. Jesus quer a nossa companhia, mas procuremos evitar as infidelidades, como a de Judas (Ev.). Melhoremos as nossas disposições para estarmos em comunhão com Ele.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial