4º Domingo da Quaresma

26 de Março de 2017

 

 

Onde se fizerem os escrutínios preparatórios para o Baptismo dos adultos, neste domingo, podem utilizar-se as orações rituais e as intercessões próprias: p. 1063 do Missal Romano.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Senhor é minha luz, M. Faria, NRMS 16

cf. Is 66, 10-11

Antífona de entrada: Alegra-te, Jerusalém; rejubilai, todos os seus amigos. Exultai de alegria, todos vós que participastes no seu luto e podereis beber e saciar-vos na abundância das suas consolações.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A caminhada quaresmal começa a consolidar o seu ritmo e, embora estes momentos se revistam de uma perspectiva itinerante e penitencial, não podemos perder do horizonte que estamos a ser conduzidos até ao epicentro do Amor de Deus, manifestado na Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Para que isso aconteça é necessário um reforço daquilo que é a busca interior de Deus, permitir ir ao mais profundo de nós mesmos e aclarar a vida à luz da Fé. Hoje, a Liturgia, vai exortar-nos a aclarar a nossa própria vida, pois o Senhor espera que para ele voltemos o nosso olhar.

 

Oração colecta: Deus de misericórdia, que, pelo vosso Filho, realizais admiravelmente a reconciliação do género humano, concedei ao povo cristão fé viva e espírito generoso, a fim de caminhar alegremente para as próximas solenidades pascais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A leitura que vamos escutar narra-nos a escolha de David para Rei de Israel. O profeta Samuel é enviado por Deus à casa de Jessé, numa escolha que não recai sob a égide dos critérios humanos, mas segundo o coração de Deus.

 

1 Samuel 16, 1b.6-7.10-13ª

 

1bNaqueles dias, o Senhor disse a Samuel: «Enche o corno de óleo e parte. Vou enviar-te a Jessé de Belém, pois escolhi um rei entre os seus filhos». 6Quando chegou, Samuel viu Eliab e pensou consigo: «Certamente é este o ungido do Senhor». 7Mas o Senhor disse a Samuel: «Não te impressiones com o seu belo aspecto, nem com a sua elevada estatura, pois não foi esse que Eu escolhi. Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração». 10Jessé fez passar os sete filhos diante de Samuel, mas Samuel declarou-lhe: «O Senhor não escolheu nenhum destes». 11E perguntou a Jessé: «Estão aqui todos os teus filhos?» Jessé respondeu-lhe: «Falta ainda o mais novo, que anda a guardar o rebanho». Samuel ordenou: «Manda-o chamar, porque não nos sentaremos à mesa, enquanto ele não chegar». 12Então Jessé mandou-o chamar: era loiro, de belos olhos e agradável presença. O Senhor disse a Samuel: «Levanta-te e unge-o, porque é este mesmo». 13Samuel pegou no corno do óleo e ungiu-o no meio dos irmãos. Daquele dia em diante, o Espírito do Senhor apoderou-Se de David.

 

A leitura é tirada do início da última parte do 1º livro de Samuel, que deixa ver o progressivo declínio do rei Saúl até à sua morte. A ascensão de David ao trono de Israel não aparece apenas como obra do seu génio e sagacidade, mas como uma providência divina com a intervenção de Samuel.

1 «Jessé», grafia usada na Vulgata para o pai de David, chamado Isaí, no texto hebraico (nos LXX, Iesai).

6-7 Tanto o profeta Samuel como Isaí estavam de acordo em sagrar rei o primogénito Eliab. Porém Deus, nos seus desígnios vocacionais, não olha a critérios humanos (ser o mais velho, o mais belo, o mais forte, o mais sábio): «o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração». A escolha divina é gratuita, não partindo dos méritos do escolhido, mas da benevolência divina que torna o homem capaz de cumprir a missão a que o chama.

12 «Ungiu-o no meio dos seus irmãos», isto é, em família, sem qualquer espécie de publicidade para evitar as iras e represálias do rei Saúl.

 

Salmo Responsorial    Sl 22 (23), 1-3a.3b-4.5.6 (R. 1)

 

Monição: Antes da sua unção real, o Rei David dedicava-se à pastorícia. A escolha que recai sobre ele para Rei de Israel parte da sua missão de cuidar, em nome de Deus, do Povo de Israel; pois o Senhor cuida do Seu povo como um pastor cuida do seu rebanho.

 

Refrão:        O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

 

Ou:               O Senhor me conduz: nada me faltará.

 

O Senhor é meu pastor: nada me falta.

Leva-me a descansar em verdes prados,

conduz-me às águas refrescantes

e reconforta a minha alma.

 

Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.

Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,

não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:

o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

 

Para mim preparais a mesa

à vista dos meus adversários;

com óleo me perfumais a cabeça

e meu cálice transborda.

 

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me

todos os dias da minha vida,

e habitarei na casa do Senhor

para todo o sempre.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Os cuidados de Deus para connosco levam-nos a descobrir o modo como somos chamados a corresponder a nossa vida à Fé que professamos. Somos filhos da luz, o que nos leva a tomar atitudes determinantes para vivermos e sermos luz no Senhor, distantes de tudo quanto represente a dormência e frivolidade das trevas.

 

Efésios 5, 8-14

 

Irmãos: 8Outrora vós éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz, 9porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade. 10Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor. 11Não tomeis parte nas obras das trevas, que são inúteis; tratai antes de condená-las abertamente, 12porque o que eles fazem em segredo até é vergonhoso dizê-lo. 13Mas, todas as coisas que são condenadas são postas a descoberto pela luz, e tudo o que assim se manifesta torna-se luz. 14É por isso que se diz: «Desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos e Cristo brilhará sobre ti».

 

A leitura é tirada da segunda parte de epístola, com exortações morais, correspondentes a uma vida nova em Cristo.

2 «Outrora», isto é, antes da conversão, «éreis trevas», pois viviam na ignorância, no erro, no pecado, afastados de Cristo, Luz do mundo, «mas agora sois luz no Senhor», pela fé e pela graça que têm pela sua união ao Senhor (cf. Jo 12, 35-36). «Filhos da luz» (cf. Lc 16, 8; Jo 12, 36) é um semitismo que corresponde ao adjectivo: iluminados (pela verdade de Cristo, «Luz verdadeira que a todo o homem ilumina» – Jo 1, 9.4-5).

10 «Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor». Para nos comportarmos como filhos da luz, temos de ter essa sobrenatural ponderação e discernimento de quem busca a todo o momento, em tudo o que diz e faz, a vontade de Deus.

13 «Tudo o que assim se manifesta torna-se luz». Toda a maldade que se denuncia é um projectar de luz sobre os ambientes tenebrosos do pecado. Estas palavras podiam adaptar-se à denúncia da nossa própria maldade, que levamos dentro de nós. Essa denúncia mais sincera e eficaz é a que se faz quando, no Sacramento da Penitência, acusamos sincera e contritamente os nossos pecados: então a nossa vida torna-se clara e luminosa, é luz. (A leitura presta-se, pois, a falar da Confissão Quaresmal).

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 8, 12

 

Monição: Os encontros entre Jesus e as pessoas do Seu tempo são sempre ocasiões de salvação. O Evangelho de hoje narra-nos como, do encontro entre Jesus e um Cego, nasce a possibilidade de uma nova vida, num horizonte de certezas e de confiança total na força e no poder de Deus.

 

 

Cântico: F. da Silva, NRMS 1 (I)

 

Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor:

quem Me segue terá a luz da vida.

 

 

Evangelho

 

Forma longa: São João 9, 1-41;                          forma breve: São João 9, 1.6-9.13-17.34-38

 

1Naquele tempo, Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença. [2Os discípulos perguntaram-Lhe: «Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele ou os seus pais?» 3Jesus respondeu-lhes: «Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais; mas aconteceu assim para se manifestarem nele as obras de Deus. 4É preciso trabalhar, enquanto é dia, nas obras d’Aquele que Me enviou. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. 5Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo». 6Dito isto,] cuspiu em terra, fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: 7«Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado». Ele foi, lavou-se e ficou a ver. 8Entretanto, perguntavam os vizinhos e os que antes o viam a mendigar: «Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?» 9Uns diziam: «É ele». Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele». Mas ele próprio dizia: «Sou eu». [10Perguntaram-lhe então: «Como foi que se abriram os teus olhos?» 11Ele respondeu: «Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo, ungiu-me os olhos e disse-me: ‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’. Eu fui, lavei-me e comecei a ver». 12Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?» O homem respondeu: «Não sei».] 13Levaram aos fariseus o que tinha sido cego. 14Era sábado esse dia em que Jesus fizera lodo e lhe tinha aberto os olhos. 15Por isso, os fariseus perguntaram ao homem como tinha recuperado a vista. Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos; depois fui lavar-me e agora vejo». 16Diziam alguns dos fariseus: «Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado». Outros observavam: «Como pode um pecador fazer tais milagres?» E havia desacordo entre eles. 17Perguntaram então novamente ao cego: «Tu que dizes d’Aquele que te deu a vista?» O homem respondeu: «É um profeta». [18Os judeus não quiseram acreditar que ele tinha sido cego e começara a ver. 19Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes: «É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego? Como é que ele agora vê?» 20Os pais responderam: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; 21mas não sabemos como é que ele agora vê, nem sabemos quem lhe abriu os olhos. Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». 22Foi por medo que eles deram esta resposta, porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga quem reconhecesse que Jesus era o Messias. 23Por isso é que disseram: «Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». 24Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido curado e disseram-lhe: «Dá glória a Deus. Nós sabemos que esse homem é pecador». 25Ele respondeu: «Se é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e agora vejo». 26Perguntaram-lhe então: «Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?» 27O homem replicou: «Já vos disse e não destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo novamente? Também quereis fazer-vos seus discípulos?» 28Então insultaram-no e disseram-lhe: «Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés; 29mas este, nem sabemos de onde é». 30O homem respondeu-lhes: «Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é, mas a verdade é que Ele me deu a vista. 31Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade. 32Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. 33Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».] 34Replicaram-lhe então eles: «Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?» E expulsaram-no. 35Jesus soube que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do homem?» 36Ele respondeu-Lhe: «Senhor, quem é Ele, para que eu acredite?» 37Disse-lhe Jesus: «Já O viste: é Quem está a falar contigo». 38O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou: «Eu creio, Senhor». [39Então Jesus disse-lhe: «Eu vim para exercer um juízo: os que não vêem ficarão a ver; os que vêem ficarão cegos». 40Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto, perguntaram-Lhe: «Nós também somos cegos?» 41Respondeu-lhes Jesus: «Se fôsseis cegos, não teríeis pecado. Mas como agora dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece».]

 

Este longo trecho apresenta-se como uma encantadora peça dramática, cheia de vigor e naturalidade, que se pode considerar estruturada em quatro actos: 1º – A abertura (vv. 1-5), onde aparece o tema, Jesus, Luz do mundo, em face da cegueira, não apenas física do doente, mas moral, de que participam os próprios discípulos, obcecados pela mentalidade «retribuicionista» (cf. Job 4, 7-8; 2 Mac 7, 18; Tob 3, 3); eles, em face da desgraça alheia, põem-se a indagar quem pecou e não quem a pode remediar. 2º – A cura do cego (vv. 6-7). 3º – A longa investigação acerca da cura (vv. 8-34), primeiro pelos vizinhos (vv. 8-12) e depois pelos fariseus que montam como que um processo judicial com sucessivos interrogatórios e que termina numa sentença de excomunhão (vv. 13-34). 4º – O desfecho do drama (vv. 35-41), com o acto de fé do cego e a obstinação na cegueira espiritual dos que não querem crer.

Sem prejuízo para o valor histórico da narração, esta reveste-se dum grande poder evocativo e dramático, em que sobressai, evocando o itinerário dum catecúmeno, a progressão do cego para a fé plena, o qual começa por se confessar beneficiário da misericórdia do homem Jesus (v. 11), passando a reconhecê-lo como um profeta (v. 17), depois a atestar que Ele vem de Deus (v. 33), e, por fim, a professar a fé explícita em Jesus como Senhor, à maneira de quem responde às perguntas rituais do último escrutínio catecumenal (v 35-38). A alusão ao Baptismo é bastante clara através da unção e do banho: «lavei-me e fiquei a ver» (vv. 11.15), pois na primitiva Igreja este Sacramento era chamado iluminação (cf. Hebr 6, 4; 10, 32; Ef 5, 14; Rom 6, 4). Por outro lado, o decreto de exclusão punitiva da sinagoga (v. 34) não vai apenas contra o cego, mas visa Jesus e os próprios cristãos, os quais no sínodo de Yámnia (pelo ano 80) se viram excomungados pelo farisaísmo que sobreviveu à destruição de Jerusalém (v. 22; cf. Jo 12, 42; 16, 2).

6-7 «Ungiu...» O milagre não se realiza nem pela virtude do «lodo», nem pela eficácia medicinal da água, água comum. O prodígio é consequência do simples querer de Jesus. Como em Mc 7, 33 e 8, 23, com este gesto, Jesus quis pôr à prova e estimular a fé do doente, mas, neste caso, também se quis apresentar como «Senhor do Sábado», pois os rabinos consideravam a preparação do lodo e a unção como um trabalho proibido aos sábados (cf. v. 16). A «Piscina de Siloé» era alimentada pela água da fonte de Gihon (a fonte de Maria), que ali chegava através do canal de Ezequias (rei contemporâneo do profeta Isaías), canal subterrâneo e cavado na rocha com cerca de meio quilómetro de comprido.

 

Sugestões para a homilia

 

1.     O HOMEM OLHA ÀS APARÊNCIAS, O SENHOR VÊ O CORAÇÃO:

A narração da escolha de David para Rei de Israel é, em certo modo, inóspita. Partindo da confusão do reinado controverso de Saul, e face às incertezas de um Reino que ameaçava não singrar, o profeta Samuel é enviado à casa de Jessé para, de entre os seus filhos, escolher e ungir o novo Rei de Israel. Se a escolha sobre algum dos jovens filhos de Jessé já representava alguma novidade e uma certa incerteza, a verdade é que tudo se torna contraditório quando nenhum dos filhos de Jessé ali presentes corresponde aos desígnios de Deus. O único filho que ali não se encontrava, o mais novo e que andava na pastorícia, era a escolha de Deus a quem o profeta era enviado a ungir e a proclamar como Rei de Israel. A expressão usada por Deus ao profeta traduz, com exactidão, os critérios do Senhor: “o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração”. O modo como Deus escolheu David para Rei de Israel manifesta, com clareza, o modo como o Senhor faz as suas escolhas. Os critérios humanos são, na maior parte das vezes, determinados pelas aparências dos outros, com critérios que partem do que nos pode impressionar, seduzir ou que mais se destaque. De um modo totalmente distinto é o olhar de Deus, o qual centra a sua atenção na pessoa em si mesma, no seu coração, nas possibilidades da sua vida, na perspectiva da santidade e da salvação. Deste modo, a unção e a escolha de David iluminam a escolha e a unção que, também nós, recebemos no dia do nosso Baptismo. O Senhor olhou-nos e olha-nos para a realidade do que somos, para as circunstâncias que vivemos e pelas quais passamos e para o mais profundo do nosso coração e do nosso sentir humano.

 

2.     EU CREIO, SENHOR:

O Evangelho que escutávamos não nos fala de alguém importante, influente e da elite, mas de um miserável cego de nascença que jazia no caminho por onde Jesus passava. Partindo da mentalidade daquele tempo, o referido cego é um marginal e um excluído da sociedade, não só pela desgraça da sua incapacidade visual, mas também pela interpretação feita sobre a causa da sua doença. Assim sendo, a sua condição de excluído e de incapacitado, fazia do Cego uma pessoa vulnerável e desprezada. Diante desta tremenda injustiça e exclusão, é Jesus quem tem a iniciativa, não só de o abordar, mas também de o reabilitar moralmente (explicando que a cegueira não é um castigo divino), de o curar e de o enviar. Curiosamente, a vida deste homem leva uma mudança, ainda que não seja completa. Por isso, depois de ter sido inquirido pelas autoridades judaicas, é procurado por Jesus e aí dialogam. Deste encontro e desta possibilidade de diálogo, nascem maiores certezas na vida do Cego, pois chega à conclusão de que Jesus é o Filho de Deus. A narração evangélica que nos é proposta não só narra uma cena muito marcante de quem foi curado por Jesus, como também permite compreender o modo como acontece a experiência da fé na nossa vida. Tal como aconteceu com o Cego, não nos basta sermos curados e serem salvaguardados os nossos interesses. Do encontro com Jesus Cristo tem de nascer uma vontade e uma necessidade expressa de querer saber quem Ele é e entrar numa profunda relação de intimidade com o Senhor. O acto de acreditar, de poder professar como o Cego “Eu Creio, Senhor”, não depende apenas de vermos satisfeitos os nossos interesses e necessidades, mas de conhecermos Jesus, experimentarmos a Sua vinda à nossa vida e, em consequência, fazer da nossa vida um lugar de contínua relação íntima com Jesus.

 

Fala o Santo Padre

 

«Abramo-nos à luz do Senhor! Ele espera-nos sempre para nos levar a ver melhor,

para nos dar mais luz, para nos perdoar. Não podemos esquecer isto!»

O Evangelho de hoje apresenta-nos o episódio do homem cego de nascença, a quem Jesus confere a vista. Esta longa narração tem início com um cego que começa a ver e termina — isto é curioso — com alguns presumíveis videntes que continuam a ser cegos na alma. O milagre é narrado por João em apenas dois versículos, porque o evangelista quer chamar a atenção não apenas para o prodígio em si mesmo, mas para aquilo que acontece em seguida, para os debates que isto suscita; e também para o falatório, pois muitas vezes uma obra, um gesto de caridade provoca murmurações e debates, porque alguns não querem ver a verdade. O evangelista João quer chamar a atenção para aquilo que acontece até nos dias de hoje, quando se realiza uma obra boa. O cego curado é primeiro interrogado pela multidão admirada — viram o milagre e interrogam-no — e depois pelos doutores da lei, que interrogam também os seus pais. No final, o cego curado chega à fé, a maior graça que lhe é concedida por Jesus: não apenas de ver, mas de O conhecer, de O ver como «a luz do mundo» (Jo 9, 5).

Enquanto o cego se aproxima gradualmente da luz, os doutores da lei, ao contrário, afundam cada vez mais na sua cegueira interior. Fechados na sua presunção, já julgam possuir a luz; por isso, não se abrem à verdade de Jesus. E fazem de tudo para negar a evidência. Põem em dúvida a identidade do homem curado; em seguida, negam a obra de Deus na cura, alegando como desculpa que Deus não age aos sábados; chegam até a duvidar que aquele homem fosse cego de nascença. O seu fechamento à luz torna-se agressivo e acaba na expulsão do homem curado para fora do templo.

Ao contrário, o caminho do cego é um percurso por etapas, que começa com o conhecimento do nome de Jesus. Nada mais sabe dele; com efeito, diz: «Aquele homem que se chama Jesus fez lodo e ungiu-me os olhos» (v. 11). A seguir às perguntas insistentes dos doutores da lei, considera-o primeiro um profeta (v. 17) e em seguida um homem que está próximo de Deus (v. 31). Depois de ter sido afastado do templo, excluído da sociedade, Jesus encontra-se novamente com ele e «abre os seus olhos» pela segunda vez, revelando-lhe a sua própria identidade: «Eu sou o Messias», assim lhe diz! Nesta altura, aquele que era cego exclama: «Creio, Senhor!» (v. 38), e prostra-se diante de Jesus. Trata-se de um trecho do Evangelho que mostra o drama da cegueira interior de muitas pessoas, inclusive da nossa, porque às vezes também nós vivemos momentos de cegueira interior.

Às vezes a nossa vida é semelhante à existência do cego que se abriu à luz, que se abriu a Deus, que se abriu à sua graça. Por vezes, infelizmente, é um pouco como a vida dos doutores da lei: do alto do nosso orgulho julgamos os outros, e até o próprio Senhor! Hoje, somos convidados a abrir-nos à luz de Cristo para dar fruto na nossa vida, para eliminar os comportamentos que não são cristãos; todos nós somos cristãos, mas todos nós — todos! — às vezes temos comportamentos não cristãos, atitudes que são pecados. Devemos arrepender-nos disto, eliminar estes comportamentos para caminhar decididamente pela vereda da santidade. Ela tem a sua origem no Baptismo. Com efeito, também nós fomos «iluminados» por Cristo no Baptismo, como no-lo recorda são Paulo, a fim de nos podermos comportar como «filhos da luz» (Ef 5, 8), com humildade, paciência e misericórdia. Aqueles doutores da lei não tinham humildade, nem paciência e nem sequer misericórdia!

Hoje, quando voltardes para casa, sugiro-vos que pegueis no Evangelho de João para ler este trecho do capítulo 9. Isto far-vos-á bem, porque assim vereis este caminho da cegueira para a luz, e a outra senda errada, rumo a uma cegueira ainda mais profunda. Interroguemo-nos: como é o nosso coração? Tenho um coração aberto ou fechado? Aberto ou fechado para Deus? Aberto ou fechado para o próximo? Temos sempre em nós mesmos algum fechamento que nasce do pecado, dos equívocos, dos erros. Não devemos ter medo! Abramo-nos à luz do Senhor! Ele espera-nos sempre para nos levar a ver melhor, para nos dar mais luz, para nos perdoar. Não podemos esquecer isto! Confiemos à Virgem Maria o caminho quaresmal para que também nós, como o cego curado, com a graça de Cristo, possamos «vir à luz», progredir rumo à luz e renascer para uma vida nova.

 Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, 30 de Março de 2014

 

Oração Universal

 

Imitando os cegos que Jesus encontrava na Sua vida pública,

 e de tantos outros necessitados que Lhe confiavam as dificuldades,

elevemos também ao Coração Divino as carências que nos afligem.

Oremos (cantando) com toda a filial confiança:

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

1.  Para o Santo Padre, Bispos, Presbíteros e Diáconos,

ao anunciarem no mundo as verdades da nossa fé,

as façam chegar a todos os homens de boa vontade,

oremos, irmãos.

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

2.  Para que todos os que vivem nas trevas do erro e mentira

recebam da misericórdia de Deus a luz da fé cristã,

e por ela orientem sempre todos os passos da sua vida

oremos, irmãos.

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

3. Para que os cristãos, mensageiros da luz, por vocação,

sintam e vivam a necessidade, para melhor evangelizarem,

de crescer generosamente na formação doutrinal em cada dia,

oremos, irmãos.

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

4. Para que todos os presentes, ao celebrarmos esta Eucaristia,

encontremos no aprofundamento da doutrina do Evangelho

uma fonte de paz e de alegria que jorra para a Vida Eterna,

oremos, irmãos.

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

5. Para que os pais, catequistas e demais educadores

conheçam e difundam entre todos os jovens a verdade

que Jesus Cristo veio trazer à terra e nos ensina pela Igreja,

oremos, irmãos.

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

6. Para que as almas de todos os nossos fiéis defuntos

ainda a purificar-se das manchas contraídas nesta vida,

se alegrem, quanto antes, na contemplação da luz eterna,

oremos, irmãos.

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

Senhor, que na vida pública abristes os olhos aos cegos

 e nos animais a confiar-Vos as nossas dificuldades:

atendei-nos em tudo o que no sabemos pedir-Vos,

para vivermos em paz e felizes nesta vida terrena,

e nos preparemos para as alegrias que nos esperam no Céu.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

Na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Corri, Senhor, M. Carneiro, NRMS 13

 

Oração sobre as oblatas: Ao apresentarmos com alegria estes dons de vida eterna, humildemente Vos pedimos, Senhor, a graça de os celebrar com verdadeira fé e de os oferecer dignamente pela salvação do mundo. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

O cego de nascença

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Pelo mistério da Encarnação, iluminou o género humano que vivia nas trevas para o reconduzir à luz da fé e pela regeneração do Baptismo libertou os que nasciam na escravidão do antigo pecado para os tornar seus filhos adoptivos.

Por isso o céu e a terra Vos adoram, cantando um cântico novo, e também, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: «Da Missa de festa», Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Vamos abeirar-nos da Sagrada Comunhão, onde o Filho de Deus se dá a nós. Este acto de entrega convida-nos também a nós a unirmo-nos a Cristo, verdadeira vítima e oferenda, ao qual nos unimos também nós como oferenda agradável a Deus.

 

Cântico da Comunhão: Senhor, nada somos sem Ti, F. da Silva, NRMS 84

Jo 9, 11

Antífona da comunhão: O Senhor ungiu os meus olhos. Eu fui lavar-me, comecei a ver e acreditei em Deus.

 

Cântico de acção de graças: Proclamai em toda a terra, M. Faria, NRMS 27-28

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, luz de todo o homem que vem a este mundo, iluminai os nossos corações com o esplendor da vossa graça, para que pensemos sempre no que Vos é agradável e Vos amemos de todo o coração. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Sair da Eucaristia é voltar ao mundo com o olhar contemplativo do próprio Deus. Amar o mundo apaixonadamente e manifestar-lhe a beleza da Fé é o desafio que hoje levamos, certos de que caminhamos na Sua presença sempre que a nossa confiança repousa na Sua vontade. À semelhança da narração do Evangelho, também nós somos curados da nossa cegueira para que, olhando o mundo com os olhos de Deus, possamos transformá-lo sendo luz no Senhor.

 

Cântico final: Minha alma exulta de alegria, F. da Silva, NRMS 32

 

 

Homilias Feriais

 

4ª SEMANA

 

2ª Feira, 27-III: Alegria e renovação pessoal.

Is 65, 17-21 / Jo 4, 43-54

Olhai que vou criar novos céus e nova terra. Vai haver alegria e júbilo sem fim.

Esta é a grande notícia: a renovação da face da terra (Leit.). E, como consequência, a alegria, que nunca deve faltar na vida de um filho de Deus. E, no tempo da Quaresma, é a alegria da Cruz: Jesus entregou a sua vida para nos salvar. Ele também gosta de dar muitas alegrias, através de curas milagrosas (Ev.).

«O caminho da perfeição passa pela cruz. Não há santidade sem renúncia e combate espiritual. O progresso espiritual implica a ascese e a mortificação, que conduzem gradualmente a viver na paz e na alegria das bem-aventuranças» (CIC, 2015).

 

3ª Feira, 28-III: A água viva e o rio da vida.

Ez 47, 1-9. 12 /Jo 5, 1-3. 5-16

É que, aonde chegar, a água tornará tudo são, e haverá vida em todo o lugar que o rio atingir.

Do templo (Leit.), e do trono de Deus e do Cordeiro, corre o rio da vida que cura as nossas enfermidades espirituais, como aconteceu na piscina de Betsatá (Ev.).

A água passa a ser uma nova criatura no Baptismo de Jesus: «O Espírito pairava sobre as águas da primeira criação, desce então sobre Cristo, como prelúdio de uma nova criação» (CIC, 1224). E passa  a ser a água viva, com a paixão e morte de Jesus: «o sangue e a água que manaram do lado aberto do crucificado são tipos do Baptismo e da Eucaristia, sacramentos da vida nova» (CIC, 1225).

 

4ª Feira, 29-III: Meios para receber a vida sobrenatural.

Is 49, 8-15 / Jo 5, 17-30

Tal como o Pai ressuscita os mortos e os faz viver, assim o Filho faz viver aqueles que entende.

Deus está sempre disposto a ajudar-nos: «no dia da salvação vou ajudar-te» (Leit.). E chega a dizer-nos que nunca nos abandona, nem nos esquecerá, pois o seu amor é mais forte do que o de uma mãe para com seus filhos» (Leit.).

Esse amor leva-o a comunicar-nos a sua vida, principalmente através dos sacramentos, «forças que saem do corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante; acções do Espírito Santo que opera no seu corpo, que é a Igreja, os sacramentos são as obras primas de Deus: Deixai cair a vossa indignação, renunciai ao castigo que quereis dar ao vosso povo, na Nova e Eterna Aliança» (CIC, 1116).

 

5ª Feira, 30-III: As intercessões de Moisés e de Jesus.

Ex 32, 7-14 / Jo 5, 31-47

Moisés: Deixai cair a vossa ardente indignação, renunciai ao castigo que quereis dar ao vosso povo.

Depois do terrível acto de idolatria, a adoração do bezerro de ouro (Leit.), Moisés tornou-se um poderoso intercessor diante de Deus, para salvar o povo que o Senhor lhe tinha confiado.

O intercessor agora é Cristo «que se ofereceu ao Pai, uma vez por todas, morrendo como intercessor sobre o altar da Cruz, para realizar a favor dos homens uma redenção eterna. Ele quis deixar à Igreja um sacrifício visível, perpetuando a sua memória até ao fim dos séculos e aplicando a sua eficácia salvífica à remissão dos pecados que nós cometemos cada dia» (CIC, 1366).

 

6ª Feira, 31-III: Associados à paixão de Cristo.

Sab 2, 1. 12-22 7 Jo 7, 1-2. 10. 25-30

Se esse justo é filho de Deus, condenemo-lo a morte infamante, pois Ele diz que será socorrido.

Este pensamento dos ímpios (Leit.), repete-se no tempo de Cristo: «os judeus procuravam dar-lhe a morte» (Ev.).

Jesus aceitou livremente a sua Paixão e morte, por amor do Pai e dos homens, a quem o Pai quer salvar. Pela Encarnação, Ele está de certo modo unido a cada homem, e a todos dá a possibilidade de se associarem a Ele: «Ele quer associar ao seu sacrifício aqueles mesmos que são os primeiros beneficiários. Isto realiza-se em sumo grau, em sua Mãe, associada mais intimamente do que ninguém ao mistério do seu sofrimento redentor» (CIC, 618).

 

Sábado, 1-IV: O servo sofredor e o Cordeiro pascal.

Jer 11, 18-20 / Jo 7, 40-53

Eu era como dócil cordeiro levado ao matadouro, sem saber da conjura contra mim.

Depois desta profecia de Jeremias (Leit.), foi João Baptista que indicou o 'Cordeiro de Deus: «Jesus é, ao mesmo tempo, o servo sofredor, que se deixa levar ao matadouro (Leit.), sem abrir a boca, carregando os pecados das multidões, e o Cordeiro pascal, símbolo da redenção de Israel na primeira Páscoa» (CIC, 608).

«A morte de Cristo é, ao mesmo tempo, o sacrifício pascal, por meio do Cordeiro que tira o pecado do mundo, e o sacrifício da nova Aliança, que estabelece a comunhão entre o homem e Deus» (CIC, 613).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Ricardo Cardoso

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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