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A  TRANSFIGURAÇÃO

 

Hugo de Azevedo

 

Um velho amigo, preso ao cadeirão de doente, confiava-me o seu esforço por meditar bem os novos mistérios do Rosário, os «luminosos». Tinha encontrado um modo fácil de relacioná-los com vários sacramentos: o Baptismo do Senhor, com o nosso baptismo; as Bodas de Caná, com o matrimónio; o Anúncio do Reino e apelo à conversão, com o sacramento da penitência... O último, a Instituição da Eucaristia, com a Santa Missa, evidentemente. Quanto à Transfiguração... descobriu: a ordem! o sacerdócio!

Que bela descoberta! De facto, o que é nossa configuração com Cristo Sacerdote, sob o olhar da fé, senão uma epifania, uma manifestação de Deus aos homens?  O que se dá no cristão que se ordena, senão uma espécie de «transfiguração»? A sua personalidade já não conta senão como «suporte» de Cristo: «Já não sou eu quem vive; é Cristo que vive em mim!» Com essa «transfiguração» o cristão não perde a sua personalidade, porém, nem a diminui; pelo contrário, desenvolve a sua mais extraordinária capacidade, «actualizando» a máxima «potência obediencial» do ser humano: precisamente a configuração com Cristo «Cabeça do Corpo Místico», com a Fonte viva e perene da graça salvífica. Recebe o poder de dar a Vida e de a restituir a quem a perca. Alimenta e dá crescimento sobrenatural às almas. A sua oração é uma bênção; a sua palavra, profética e sacramental...  Pelo Baptismo é nosso irmão; pela Ordem, nosso pai. Nosso, de todos, incluindo os demais sacerdotes, que dele precisam como quaisquer outros fiéis.

O padre! Um homem como outro qualquer? Com os seus defeitos e virtudes, sim. Pecador e necessitado de perdão, certamente. Tanto ou mais fraco de que muitos leigos, é possível... Mas nenhum pai é pai por merecimento ou virtude; é pai simplesmente por gerar os filhos. Neste caso, filhos de Deus! Por isso, a reverência para com o sacerdote não procede de nenhum sentimento, mas da fé. E temos de ser nós, os sacerdotes, os mais conscientes de tal dignidade e de tal paternidade, tratando os nossos «colegas», não só como irmãos e amigos, mas como pais também, ainda que, pela idade, pudessem ser sobrinhos-netos... Não havemos de reservar o espírito de filiação sobrenatural apenas para o Santo Padre e o nosso Bispo. Nesse caso, seria inevitável que os leigos vissem na nossa atitude obediente um mero respeito pela autoridade, por vezes tocado de servilismo.

A devida reverência aos «colegas» e companheiros de trabalho é perfeitamente compatível com a maior amizade e também com os conselhos oportunos... ou até «importunos», quando convenha dar-lhes a forma de correcção fraterna, segundo o espírito evangélico. Compatível, e mesmo indissociável: qual é o filho que não chama a atenção do pai (oxalá com todo o respeito) quando verifica a sua imprudência num negócio, o perigo de saúde em que está incorrendo, o escândalo que poderá ocasionar?... Justamente o respeito filial é que o leva ao aviso, à reflexão, ao apelo...

Neste ano da Eucaristia, que bom serviço faremos procurando aprender dos outros – velhos ou novos – a ser mais delicados na Santa Missa, «mais litúrgicos», isto é, mais atentos às rubricas e ao seu sentido profundo; agradecendo sinceramente conselhos e correcções que nos façam, embora nem sempre totalmente acertados; pedindo a outros expressamente esclarecimentos, ajudas, experiências!...

Que bom serviço faremos, tendo maior cuidado e fazendo maiores «investimentos» na limpeza da igreja e das alfaias litúrgicas, na dignidade das celebrações, na preparação das homilias, na catequese de cada festividade, evitando prolongar avisos e sobretudo reprimendas colectivas, de tal maneira que a Missa dominical seja sentida pelo cristão, «não como uma imposição ou um peso, mas como uma necessidade e uma alegria», em palavras do Santo Padre, no dia 12 de Junho passado!

E não excluamos a possibilidade de que esses conselhos e correcções nos sejam dirigidos pelos próprios fiéis que pastoreamos... Não veio ainda recentemente a Santa Sé recordar-nos, na «Instrução sobre algumas coisas que se devem observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia», o direito dos fiéis a «uma liturgia verdadeira e, em particular, uma celebração da santa Missa que seja tal como a Igreja quis e estabeleceu»? «O povo católico tem o direito de que se celebre para ele, de modo íntegro, o sacrifício da Missa, em plena conformidade com a doutrina do Magistério da Igreja (...) A comunidade católica tem o direito de que se celebre para ela a Santíssima Eucaristia de tal maneira que apareça como um verdadeiro sacramento de unidade, excluindo completamente todo o género de defeitos e gestos que possam gerar divisões e facções na Igreja» (nº 12), e nunca como «propriedade privada de alguém, nem do celebrante nem da comunidade em que se celebram os Mistérios» (nº 18).

E, se a Instrução chega a falar do direito dos fiéis a «abrir um processo sobre um abuso litúrgico (...) sempre com espírito de verdade e de caridade» (nº 184), quanto melhor será que nos disponhamos a aperceber-nos das suas inquietações, a escutar com serenidade os seus desabafos, a responder com seriedade – e documentação – às suas interrogações ou perplexidades, a compreender os seus «escândalos», nem sempre farisaicos ou pueris, como tendemos a considerá-los!

A «transfiguração» realizada em nós pelo sacramento da ordem não nos converte automaticamente em padres excelentes, impecáveis, exemplares. Sem humildade, a paternidade deixa de ser um serviço, um ministério, para se tornar um poder, uma autoridade pessoal, desligada da raiz que a legitima e lhe dá vida. Aliás, todos os pais sabem, por experiência, que a paternidade exige uma aprendizagem e uma adaptação contínuas. Um pai que nunca rectifica as suas atitudes não é bom pai, e cada vez se distancia mais dos filhos. Pelo contrário, aquele que sabe ouvi-los sem susceptibilidades, que admite poder errar e é capaz de lhes dar razão, esse conquista a sua amizade, e valoriza a sua autoridade.

 


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