S. José, Esposo da Virgem Santa Maria

19 de Março de 2017

 

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Procuremos S. José, Az. Oliveira, NRMS 89

Lc 12, 42

Antífona de entrada: Este é o servo fiel e prudente, que o Senhor pôs à frente da sua família.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Quaresma convida-nos a renovar a luta pela santidade. Vale pena olhar para S.José, modelo de santidade grande na vida humilde de cada dia. Ajudados por ele vamos fazer por imitá-lo em nossa vida.

 

 Olhar para os santos ajuda-nos a descobrir as nossas faltas e aviva o desejo de nos parecermos com eles.

 

Oração colecta: Deus todo-poderoso, que na aurora dos novos tempos confiastes a São José a guarda dos mistérios da salvação dos homens, concedei à vossa Igreja, por sua intercessão, a graça de os conservar fielmente e de os realizar até à sua plenitude. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Deus prometeu a David que da sua descendência havia de nascer o Messias. É através de S.José que se concretizou essa promessa.

 

2 Samuel  7, 4-5a.12-14a.16

4Naqueles dias, o Senhor falou a Natã, dizendo: 5a«Vai dizer ao meu servo David: Assim fala o Senhor: 12Quando chegares ao termo dos teus dias e fores repousar com os teus pais, estabelecerei em teu lugar um descendente que nascerá de ti e consolidarei a tua realeza. 13Ele construirá um palácio ao meu nome e Eu consolidarei para sempre o seu trono real. 14aSerei para ele um pai e Ele será para Mim um filho. 16A tua casa e o teu reino permanecerão diante de Mim eternamente e o teu trono será firme para sempre».

 

Este texto, respigado da célebre profecia dinástica do profeta Natã, em que se garante a estabilidade da descendência de David à frente do povo de Israel – «o teu trono será firme para sempre» (v. 16) –, irá alimentar a esperança de restauração messiânica, após o desterro de Babilónia e justifica o título de «Filho de David» dado a Jesus ao longo do Novo Testamento (cf. Mt 1, 1; 9, 27; 12, 23; 15, 22; 20, 30-31; 21, 9; 22, 42; Act 2, 30; 13, 22-23; Rom 1, 3; 2 Tim 2, 8; Apoc 5, 5; 22, 16). O texto é escolhido para a solenidade de S. José, por ser ele quem garante a Jesus a sua descendência de David (Mt 1, 1; Lc 1, 31-33: «reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reino não terá fim»); com efeito, segundo a lei, José era pai de Jesus, um dado suficiente para Ele ser considerado descendente de David, embora também Maria devesse ser descendente de David, dado o costume de os casamentos se fazerem dentro da parentela.

4 Naqueles dias, isto é, na mesma noite em que o profeta Natã tinha apoiado a resolução do rei David de vir a construir uma casa digna para a arca da aliança que substituísse o modesto tabernáculo feito de cortinados. A mensagem divina para David é que não vai ser ele a conseguir uma casa (templo) para Deus, mas vai ser o próprio Deus a erguer-lhe uma casa (descendência) que permanecerá eternamente. O profeta joga com o duplo sentido da palavra hebraica «báyit», casa e dinastia (v. 11-12).

 

Salmo Responsorial    Sl 88 (89), 2-3.4-5.27 e 29 (R. 37)

 

Monição: David canta agradecido a promessa de Deus de que o seu trono duraria para sempre porque dele viria o Messias.

 

Refrão:        A sua descendência permanecerá eternamente.

 

Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor

e para sempre proclamarei a sua fidelidade.

Vós dissestes: «A bondade está estabelecida para sempre»,

no céu permanece firme a vossa fidelidade.

 

Concluí uma aliança com o meu eleito,

fiz um juramento a David meu servo:

Conservarei a tua descendência para sempre,

estabelecerei o teu trono por todas as gerações.

 

Ele Me invocará: «Vós sois meu Pai,

meu Deus, meu Salvador».

Assegurar-lhe-ei para sempre o meu favor,

a minha aliança com ele será irrevogável.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S.Paulo fala da fé de Abraão pela qual se tornou pai de muitas nações. Não ficou atrás a fé de S.José e por ela se tornou pai de todos os cristãos.

 

Romanos 4, 13.16-18.22

Irmãos: 13Não foi por meio da Lei, mas pela justiça da fé, que se fez a Abraão ou à sua descendência a promessa de que receberia o mundo como herança. 16Portanto a herança vem pela fé, para que seja dom gratuito de Deus e a promessa seja válida para toda a descendência, não só para a descendência segundo a Lei, mas também para a descendência segundo a fé de Abraão. 17Ele é o pai de todos nós, como está escrito: «Fiz de ti o pai de muitos povos». Ele é o nosso pai diante d’Aquele em quem acreditou, o Deus que dá vida aos mortos e chama à existência o que não existe. 18Esperando contra toda a esperança, Abraão acreditou, tornando-se pai de muitos povos, como lhe tinha sido dito: 22«Assim será a tua descendência». Por este motivo é que isto «lhe foi atribuído como justiça».

 

A leitura é um extracto do capítulo 4 de Romanos, onde S. Paulo, depois de ter explicado que a obra salvadora de Jesus (a justificação) não procedia das práticas da Lei do A. T., procura mostrar como a nova economia divina não contradiz a antiga; pelo contrário, já Abraão, o pai do antigo povo de Deus se tornou justo, não por ter cumprido a lei da circuncisão (que ainda não lhe tinha sido imposta), mas por ter acreditado nas promessas de Deus.

A atitude de fé de Abraão foi-lhe creditada na conta de justiça: «foi-lhe atribuída como justiça» (v. 22). «E isto foi escrito… também por nossa causa» (v. 24): é que nós não somos justificados por observâncias legais (da Lei de Moisés), mas sim pela fé em Deus, a qual é idêntica à de Abraão, não só pela atitude interior que pressupõe, como também se assemelha à dele quanto ao seu objecto; com efeito, ele acreditou que Deus lhe faria suscitar um filho, a ele já morto para a geração; e nós cremos que Deus fez ressuscitar a Jesus, morto pelos nossos pecados.

O texto presta-se a ser aplicado a S. José. Se na 1.ª leitura se falava de David, ascendente de S. José, nesta fala-se de outro ascendente mais longínquo, Abraão, o primeiro Patriarca do antigo povo de Deus. S. José é o Santo Patriarca do novo Povo de Deus, pois tem sobre Jesus os direitos legais de pai. Assim como Abraão foi pai de muitas nações (v. 17) também o Patriarca S. José é Pai e Patrono da Igreja de Cristo. Por outro lado, ele tornou-se como Abraão um modelo de vida de fé para todos os crentes, com uma fé bem provada em tantas e tão duras circunstâncias.

 

Aclamação ao Evangelho        Sl 83 (84), 5

 

Monição: Jesus foi concebido no seio virginal de Maria por milagre do Espírito Santo. O anjo revela este prodígio a José. Deus quer contar com ele para a realização deste mistério. Ele será pai de Jesus duma forma mais sublime.

 

Cântico: F. da Silva, NRMS 1 (I)

 

Felizes os que habitam na vossa casa, Senhor:

eles Vos louvarão pelos tempos sem fim.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 1, 16.18-21.24a

16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. 18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». 24aQuando despertou do sono, José fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor.

 

S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: «Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David» (v. 1). Como a linha genealógica passava pela linha do esposo, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes. Pensa-se que isto obedece a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim, o número 14, ao ser reforçado pela sua tripla repetição – «catorze gerações» – (no v. 17), sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais) que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+[D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é já aludida na genealogia, apresentada na 1ª parte (facultativa) da leitura de hoje, pois para todos os seus elos se diz «gerou», quando para o último elo não se diz que José gerou, mas, pelo contrário: «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus» (v. 16, à letra «da qual Jesus foi gerado» – entenda-se – por Deus).

18 «Antes de terem vivido em comum»: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

«Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo»: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se «por virtude do Espírito Santo», não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra «espírito» (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera criaturas, Deus cria-as. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos.

19 «Mas José, seu esposo…». Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. A verdade é que não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois em face dos dados das suas fontes nem sequer disso precisava. Do texto parece depreender-se que Maria nada tinha revelado a José do mistério que nela se passava. José vem a saber da gravidez de Maria por si mesmo ou pelas felicitações do paraninfo (o «amigo do esposo»), e aquilo que deveria ser para José uma grande alegria tornou-se o mais cruel tormento. Em circunstâncias idênticas, qualquer outro homem teria actuado drasticamente, denunciando a noiva ao tribunal como adúltera. Mas José era um santo, «justo», por isso, não condenava ninguém sem ter as provas evidentes da culpa. E aqui não as tinha e, conhecendo a santidade singular de Maria, não admite a mais leve suspeita, mas pressente que está perante o sobrenatural, já sentido por Isabel… Então só lhe restava deixar Maria, para não se intrometer num mistério em que julga não lhe competir ter parte alguma. É assim que «resolveu repudiá-la em segredo», evitando, assim, «difamá-la» (colocá-la numa situação infamante), ou simplesmente «tornar público» o mistério da sua maternidade. Mas podemos perguntar: porque não interrogava antes Maria para ser ela a esclarecer o assunto? Mas pedir uma explicação já seria mostrar dúvida, ofendendo Maria; a sua delicadeza extrema levá-lo-ia a não a humilhar ou deixar embaraçada. E porque razão é que Maria não falou, se José tinha direito de saber do sucedido? Mas como é que Maria podia falar de coisas tão colossalmente extraordinárias e inauditas?! Como podia provar a José a Anunciação do Anjo? Maria calava, sofria e punha nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; e Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da concepção de Jesus, poderia igualmente vir a revelá-lo a José. De tudo isto fica para nós o exemplo de Maria e de José: não admitir suspeitas temerárias e confiar sempre em Deus.

20 «Não temas receber Maria, tua esposa». O Anjo não diz: «não desconfies», mas: «não temas». Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julga-se indigno de Maria e decide não se imiscuir num mistério que o transcende. Na mesma linha de S. Jerónimo, S. Bernardo diz que S. José «foi tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, que a quis deixar ocultamente... José tinha-se, por indigno...». O texto sagrado poderia mesmo traduzir-se assim, com X. Léon-Dufour e outros: «porque sem dúvida (gar) o que foi gerado nela é obra do Espírito Santo, mas (dè) Ela dará à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus» (exercendo assim para Ele a missão de pai). Assim, o Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: «A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade... O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus».

23 «Será chamado Emanuel». No original hebraico de Isaías 7, 14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqara’t referido a virgem, que é a que põe o nome = «e ela chamará»). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: «e chamarão»), um plural de generalização, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai «legal» de Jesus. Mateus, em face do papel providencial desempenhado por S. José, não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Contudo, esta técnica do Evangelista para «actualizar» um texto antigo (chamada deraxe) não é arbitrária, pois baseia-se na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey («não leias»), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de «não ler» as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular na forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX: weqara’t «e tu chamarás»), mas de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqara’ta «e tu chamarás» – em hebraico há diferentes formas masculina e feminina para as 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, «com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: «e (tu, José) o chamarás».

Eis, a propósito, o maravilhoso comentário de S. João Crisóstomo, apresentando Deus a falar a José: «Não penses que, por ser a concepção de Cristo obra do Espírito Santo, tu és alheio ao serviço desta divina economia; porque, se é certo que não tens nenhuma parte na geração e a Virgem permanece intacta, não obstante, tudo o que pertence ao ofício de pai, sem atentar contra a dignidade da virgindade, tudo to entrego a ti, o pôr o nome ao filho. (...) Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer» (Homil. in Mt, 4).

25 «E não a tinha conhecido...». S. Mateus pretende realçar que Jesus nasceu sem prévias relações conjugais, mas por um milagre de Deus. Quanto à posterior virgindade, o Evangelista não só não a nega, como até a parece insinuar no original grego, ao usar o imperfeito de duração («não a conhecia») em vez do chamado aoristo complexivo como seria de esperar, caso quisesse abranger apenas o tempo até ao parto (Zerwick). De qualquer modo, esta afirmação não significa que depois já não se verificasse o que até este momento acontecera, como é o caso de Jo 9, 18.

 

 

Em vez do Evangelho precedente, pode ler-se o seguinte:

 

São Lucas 2, 41-51a

41Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. 42Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. 43Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. 44Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos. 45Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. 46Passados três dias, encontraram-n’O no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. 47Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. 48Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados e sua Mãe disse-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». 49Jesus respondeu-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?». 50Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso.

 

No nosso comentário julgamos que não há razões suficientes para prescindir da realidade do facto narrado, mas pretendemos valorizar a teologia de Lucas no seu maravilhoso trabalho redaccional. É certo que Lucas não pretende, sem mais, relatar um episódio – curiosamente o único em cerca de três dezenas de anos passados em Nazaré. Ele visa, antes de mais e acima de tudo, por um lado, pôr em foco como toda a vida de Jesus estava radicalmente marcada pelo cumprimento da vontade do Pai, ao sublinhar o contraste – «teu pai e eu» (v. 48) e «meu Pai» –, deixando (como diz o Catecismo da Igreja Católica, nº 534) «entrever o mistério da sua consagração total à missão decorrente da sua filiação divina» (v. 49); por outro lado, deixa ver como o conhecimento do mistério de Jesus nunca é pleno para ninguém, nem sequer para Maria e José: «eles não entenderam…» (v. 50).

Segundo a Mixnáh, (Niddáh, V, 6) depois dos 13 anos, o rapaz israelita começava a ser «bar-hamitswáh», «filho-da-lei», isto é, passava ter os deveres e direitos da Lei mosaica, incluindo o dever de peregrinar a Jerusalém, mas os pais piedosos costumavam antecipar um ano ou dois o cumprimento deste dever. Os judeus costumavam deslocar-se em caravanas e em grupos separados de homens e de mulheres, as crianças podiam fazer viagem em qualquer dos grupos; nas paragens do caminho, as famílias reuniam-se. É neste contexto que se desenrola o relato. A atitude de Jesus de ficar em Jerusalém é deveras surpreendente. Não deveria ter avisado os pais ou outros familiares? O que não faz sentido é buscar a explicação do sucedido numa rebeldia ou na irresponsabilidade dum adolescente – este rapaz é o Filho de Deus –, embora o relato evangélico possa fornecer luzes aos pais que se deparam com situações similares de filhos perdidos.

A teologia de Lucas talvez nos possa dar alguma pista para a compreensão do episódio narrado. «Jerusalém» não é simplesmente o centro da vida religiosa de Israel. Para os evangelistas, e de modo singular para Lucas, Jerusalém representa o culminar de toda a obra salvadora de Jesus, por ocasião da Páscoa da Paixão, Morte e Ressurreição; é por isso que Lucas, ao pôr em evidência a tensão de Jesus para a sua Paixão, apresenta grande parte do seu ensino «a caminho de Jerusalém», onde Jesus tem de padecer para ir para o Pai e entrar na sua glória (cf. Lc 24, 26). A teologia de Lucas não é abstracta e desligada da realidade. Ora a realidade é que Jesus não é apenas «o Mestre», Ele é «o Profeta» – especialmente Lucas gosta de apresentar Jesus como Profeta (cf. 7, 16; 9, 19; 13, 33; 24, 19) –, e, por isso mesmo, Jesus não ensina apenas quando exerce a função de rabi, mas em todos os passos da sua vida actua como Profeta, ensinando através do seu agir, mormente através de acções simbólicas de profundo alcance, por vezes bem chocantes. O «Menino perdido» não aparece como um simples menino, é um Profeta que realiza uma acção simbólica para proclamar quem é e qual é a sua missão: «Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?» (v. 49). Ele é o Filho de Deus, e tem de cumprir a missão que o Pai lhe confiou, em Jerusalém, ainda que isto lhe custe bem e tenha de fazer sofrer aqueles que mais ama – «aflitos à tua procura» (v. 48). O episódio passa-se em Jerusalém, como prenúncio e paralelo de um sofrimento bem maior, também em Jerusalém. A lição é clara: não se pode realizar plenamente a vontade do Pai do Céu e, ao mesmo tempo, evitar todo o sofrimento próprio e dos seres mais queridos; subir a Jerusalém é subir à Cruz, e subir à Cruz é «elevar-se» ao Céu, também em Jerusalém (cf. Lc 24, 50-51).

41 «Os pais de Jesus. Teu pai» (v. 48). Uma vez que Lucas tinha acabado de falar tão explicitamente da concepção virginal de Jesus, não tem agora qualquer receio de nomear S. José como pai (virginal) do Senhor.

49 «Eu devia estar na Casa de Meu Pai». A tradução de tà toû Patrós mou pode significar tanto «a casa de meu Pai», como «as coisas (assuntos, vontade) de meu Pai». A verdade é que o redactor pode ter querido dar à resposta de Jesus uma certa ambiguidade: «Não sabíeis que Eu tenho de estar nas coisas de meu Pai» (e que, por isso, me deveria encontrar aqui no Templo)?

50 «Eles não entenderam». A resposta do Menino envolve um sentido muito profundo que ultrapassa uma simples justificação da sua «independência». Não alcançam ver até onde iria este «estar nas coisas do Pai», mas também não se atrevem a fazer mais perguntas, dada a sua extrema delicadeza e reverência, que uma profunda fé lhes ditava. Estamos postos perante o mistério do ser e da missão de Jesus; é mais um «sinal» e mais uma «espada» (cf. Lc 2, 34-35).

 

Sugestões para a homilia

 

Ao qual porás o nome de Jesus

A herança veio-lhe em virtude da fé

José filho de David

 

Ao qual porás o nome de Jesus

 

 S.José foi o pai de Jesus cá na terra. Pai não segundo a carne, mas pai de maneira mais sublime. Pai virginal, de algum modo parecido com Maria, que concebeu por milagre de Deus e não por concurso de homem.  O anjo diz a José: pôr-lhe-ás o nome de Jesus. O pôr o nome era um direito de paternidade, que lhe é conferido por Deus.

Ao fazer-se homem, Jesus quis nascer não apenas de uma mulher, a Virgem Santa Maria, mas numa família verdadeira, formada por homem e mulher. Tratou a José como Seu pai, amou-o e obedeceu-lhe como verdadeiro filho.

E José soube gastar alegremente a sua vida ao serviço de Jesus e Nossa Senhora. Soube responder generosamente à missão que Deus lhe confiara. Foi servo bom e fiel.

Recebeu graças extraordinárias de Deus. Muitos teólogos dizem que foi a criatura mais santa depois da Virgem Maria e soube corresponder a essas graças na vida simples de cada dia, como humilde carpinteiro numa aldeia perdida da Palestina.

A ele Jesus quis dever tantos cuidados e serviços ao fazer-se menino indefeso, sujeito aos mesmos perigos que nós. Tratou-o como verdadeiro pai, obedecia-lhe na vida de família. Quis aprender com ele a profissão de carpinteiro. Apanhou muitos dos seus modos de falar, de tratar com as outras pessoas, que aparecem depois na Sua pregação.

 

A herança veio-lhe em virtude da fé

 

S.José tornou-se  pai de numerosa família, como Abraão. Por isso costuma dar-se-lhe o título de patriarca, pai de família muito grande. Pelo baptismo fomos enxertados em Cristo, tornamo-nos nEle um só Corpo. Nele somos filhos de Deus, nEle somos filhos de Nossa Senhora, nEle nos tornámos também filhos de S.José. Muitos santos gostavam de chamar-lhe: nosso pai e senhor.

Isso nos leva a falar-lhe com muita confiança, a manifestar-lhe o nosso carinho, a pedir-lhe muitos favores. Santa Teresa de Ávila conta como muitas vezes acudiu a ele e sempre a escutou. “Se eu fora pessoa que tivesse autoridade para escrever de boa vontade me alongaria a dizer muito por miúdo as mercês que este glorioso santo me tem feito a mim e a outras pessoas… Só peço por amor de Deus que faça  a prova quem não me acreditar e verá por experiência o grande bem que é o encomendar-se a este glorioso Patriarca e ter-lhe devoção “ (Vida, c.6)

O papa Francisco tinha em Buenos Aires uma imagem de S.José a dormir, lembrando como o anjo lhe falava em sonhos. Quando precisava de algum favor punha um bilhete debaixo da imagem. O Santo Padre quis trazer para Roma essa imagem, mostrando que continua a acudir à intercessão do Santo Patriarca.

Saibamos também nós recorrer a ele e pedir-lhe favores. Em especial que nos ajude a crescer na fé e no amor a Jesus.

A 2ª leitura fala-nos da fé de Abraão e, como através dela, se tornou pai de todos os crentes. Também S.José se tornou pai de todos os cristãos pela sua fé, que não ficou atrás da de Abraão.

Procuremos imitar a fé do santo Patriarca, aprender com ele a fiar-nos em Deus, a deixar-nos guiar por Ele, a saber confiar e fazer a Sua santíssima vontade.

Não foi fácil a vida do esposo de Maria. Foi cheia de imprevistos e dificuldades, que ele soube enfrentar com serenidade, confiança no poder e sabedoria de Deus e, ao mesmo tempo, pondo da sua parte os meios humanos que dele dependiam.

 

José, filho de David

 

José era da descendência do rei David, a quem Deus prometera que seria o pai do Messias prometido. É através dele, como narra o Evangelho de S.Mateus, que se cumpre essa promessa.

José era, pois, duma família ilustre. Ao mesmo tempo era um homem muito simples, que não alardeia grandezas, que sabe passar despercebido, que se gasta alegremente ao serviço dos outros.

É para nós um modelo, hoje que a humildade não está de moda. Como ele temos de procurar a verdadeira grandeza: somos filhos de Deus pelo baptismo, chamados a pôr a nossa vida ao serviço de Deus e dos outros: na família, no trabalho profissional, nas relações com os que nos rodeiam. Jesus deu o exemplo também. Ele não veio para ser servido mas para servir. E disse-nos que quem quiser ser o primeiro tem de fazer-se servo todos.

Temos de saber encontrar a nossa alegria em gastar a vida ao serviço de Deus e dos outros. Como fez S.José e como fez Nossa Senhora.

 

 

Oração Universal

 

Unidos a toda a Igreja trazemos a Jesus, cheios de fé e confiança, os nossos pedidos.

Ele apresenta-os ao Pai, para que os atenda.

Unidos à Virgem Maria e a S.José, peçamos com fé e humildade. Digamos:

Por intercessão de S.José ouvi-nos Senhor

 

1-Pela Santa Igreja, para que proclame por toda a parte

e sem medo as verdades do Evangelho, oremos ao Senhor

 Por intercessão de S.José   ouvi-nos Senhor

 

2-Pelo Santo Padre, para que todos escutem os seus ensinamentos

e encontrem o caminho para Jesus, que tem palavras de vida eterna,  oremos ao Senhor.

 Por intercessão de S.José   ouvi-nos Senhor

 

3-Pelos bispos e sacerdotes, para que apontem com fé

e valentia a todos o caminho da verdadeira felicidade, oremos ao Senhor.

 Por intercessão de S.José   ouvi-nos Senhor

 

4-Por todos os cristãos, para que saibam ser generosos

no amor com obras aos outros, oremos ao Senhor.

Por intercessão de S.José   ouvi-nos Senhor

 

5-Para que todos nos saibamos desprender do orgulho, da avareza

e do apego aos prazeres mundanos, pondo em Deus a nossa segurança, oremos ao Senhor.

Por intercessão de S.José   ouvi-nos Senhor

 

6-Por todos os que andam afastados de Deus,  para que o Senhor os converta

e encontrem a alegria que procuram, oremos ao Senhor.

Por intercessão de S.José   ouvi-nos Senhor

 

7-Por todos os nossos irmãos que estão no Purgatório,

para que  possam contemplar no Céu o rosto de Cristo, oremos ao Senhor.

  Por intercessão de S.José   ouvi-nos Senhor

 

Senhor, que nos ensinastes o caminho para ser felizes na terra e no céu,

fazei–nos crescer cada dia mais na fé, na esperança e na caridade,

para vivermos mais unidos a Vós.

Por N.S.J.C.Vosso Filho que conVosco vive e reina na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Nós vos louvamos José, M. Carneiro, NRMS 89

 

Oração sobre as oblatas: Concedei-nos, Senhor, a graça de servir ao vosso altar de coração puro, imitando a dedicação e fidelidade com que São José serviu o vosso Filho Unigénito, nascido da Virgem Maria. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio de São José [na solenidade]: p. 492

 

Santo: F. dos Santos, NCT 84

 

Monição da Comunhão

 

Aprendamos com a Virgem e com S.José a tratar bem a Jesus na sagrada comunhão. 

 

Cântico da Comunhão: Saciastes o vosso povo, F. da Silva, NRMS 90-91

Mt 25, 21

Antífona da comunhão: Servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor.

 

ou

Mt 1, 20-21

Não temas, José: Maria dará à luz um Filho e tu lhe darás o nome de Jesus.

 

Oração depois da comunhão: Senhor, que na solenidade de São José alimentastes a vossa família à mesa deste altar, defendei-a sempre com a vossa protecção e velai pelos dons que lhe concedestes. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Agradeçamos a Jesus este encontro que nos proporcionou e vamos encher-nos da alegria de estar connosco, levando-a àqueles que nos rodeiam.

 

Cântico final: Outrora S. José, M. Faria, NRMS 5 (I)

 

 

Homilias Feriais

 

3ª SEMANA

 

3ª Feira, 21-III: A misericórdia de Deus e o perdão.

Dan 3, 25. 34-43 / Mt 18, 21-35

Não nos deixeis ficar envergonhados, mas tratai-nos segundo a vossa misericórdia.

Ananias, em nome do povo de Deus, invoca a misericórdia do Senhor (Leit.). E fica perdoado. E nós como perdoamos aos outros? (Ev.).

Para conseguirmos perdoar àqueles que nos ofenderam, temos que chegar ao fundo do coração: «A parábola do servo desapiedado, que conclui com um ensinamento do Senhor, termina com estas palavras: 'assim procederá convosco o meu Pai celestial, se cada um de vós não perdoar a seu irmão, do fundo do coração' (Ev.). É aí, de facto, no fundo do coração, que tudo se ata e desata» (CIC, 2843).

 

4ª feira, 22-III: Benefícios do cumprimento da Lei.

Deut. 4, 1-5-9 / Mt 5, 17-19

Não penseis que eu tenha vindo revogar a Lei ou os Profetas: não vim revogar, mas dar pleno cumprimento.

«A Lei evangélica dá cumprimento aos mandamentos da Lei. Chega a reformar a raiz dos actos, o coração onde se formam a fé, a esperança e a caridade. Assim, o Evangelho leva a Lei à sua plenitude, pela imitação da perfeição do Pai celeste, pelo perdão dos inimigos e pela oração pelos perseguidores, à maneira da generosidade divina» (CIC, 1967).

Quem cumpre a Lei adquire sabedoria e entende melhor os acontecimentos. E, ao contrário do que muitos pensam, os preceitos da Lei são justos e muitos melhores do que quaisquer outros. E também porque são a chave que abre a porta para vida eterna (Leit.).

 

5ª Feira, 23-III: A escuta da Palavra de Deus.

Jer 7, 23-28 / Lc 11, 14-23

Escutai a minha voz. Segui inteiramente o caminho que vou traçar-vos, a fim de serdes felizes.

Deus não se cansa de falar ao seu povo. Enviou muitos profetas, desde a saída do Egipto até ao aparecimento de Cristo. O povo, porém, não escutava a voz do Senhor (Leit.) e até se opunha ao próprio Cristo (Ev.).

Procuremos não fechar os nossos corações aos ensinamentos do Senhor (S. Resp.). Recebamos a Boa Nova, tal como a Igreja no-la propõe; assimilemos os seus ensinamentos, para que sejam vida da nossa vida. Guardemo-los nos nossos corações e transmitamo-los aos nossos familiares e amigos.

 

6ª Feira, 24-III: Voltar de novo para  Deus.

Os 14, 2-10 / Lc 11, 14-23

Perdoai-nos todas as faltas e aceitai o que temos de bom.

O Profeta pede ao povo de Israel que volte para Deus, que tenha confiança no Senhor (Leit.). Deus compromete-se a ajudá-lo: «amá-los-ei generosamente pois a minha indignação vai desviar-se deles» (Leit.).

Jesus confirma que Deus é o único Senhor e que é necessário amá-lo sobre todas as coisas e com todo o empenho (Ev.). Nesta Quaresma voltemos para Deus, procuremos amá-lo mais, demos-lhe o primeiro lugar, façamos um esforço maior por nos aproximar-nos, meditemos no seu amor generoso.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Celestino Correia

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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