1º Domingo da Quaresma

5 de Março de 2017

 

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Perdoa ao teu povo, Az. Oliveira, NRMS 105

Salmo 90, 15-16

Antífona de entrada: Quando me invocar, hei-de atendê-lo; hei-de libertá-lo e dar-lhe glória. Favorecê-lo-ei com longa vida e lhe mostrarei a minha salvação.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Na Quarta Feira de Cinzas teve início a Quaresma que é o tempo de preparação para a Solenidade da Páscoa da Ressurreição do Senhor.

A Igreja instituiu o tempo da Quaresma como sendo o catecumenado anual durante o qual revemos os grandes temas da nossa fé, preparando-nos para a renovação das Promessas do Baptismo na noite da Vigília Pascal, ou mesmo para o Baptismo aqueles que ainda o não receberam.

Nesta caminhada de quarenta dias, celebramos a memória dos que passou Jesus no Monte das Tentações, antes de começar a Vida Pública; e dos quarenta anos em o Povo de Deus caminhou pelo deserto até chegar à Terra da Promissão. Ao longo destes dias, são-nos propostos os grandes temas do catecumenado.

Neste 1.º Domingo, a Liturgia da Palavra alerta-nos para a luta espiritual que devemos travar.

 

Acto penitencial

 

Muitas vezes temos sucumbido nesta luta, deixando-nos aprisionar pelo pecado, entregando-nos ao demónio — o nosso maior inimigo.

Peçamos ao Senhor perdão pela nossa cobardia, e prometamos-Lhe, contando com a Sua ajuda amiga, que vamos emendar a nossa vida.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C)

 

•   Senhor Jesus: Deixamo-nos dominar pela sensualidade, pela comida e bebida,

    ofendendo-Vos e tornando-nos escravos do demónio pelos nossos pecados.

    Senhor, misericórdia!

 

    Senhor, misericórdia!

 

•   Cristo: A soberba da vida faz que nos julguemos superiores às outras pessoas

    e enche amargura a nossa vida e a dos nossos irmãos, afastando-nos de Vós.

    Cristo, misericórdia!

 

    Cristo, misericórdia!

 

•   Senhor Jesus: Não sabemos usar os bens materiais de acordo com a Vossa Lei,

    e ficamos prisioneiros da preocupação do ter, em vez de procurarmos ser santos.

    Senhor, misericórdia!

 

    Senhor, misericórdia!

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O texto do Livro do Génesis que vai ser proclamado narra-nos a formação dos nossos primeiros pais e a sua infidelidade ao Senhor que os fez perder para eles e para nós o tesouro da graça.

Aprendamos com a sua dolorosa experiência a vencer as batalhas da nossa vida espiritual.

 

Génesis 2, 7-9; 3, 1-7

 

7O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. 8Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. 9Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. 1Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: «É verdade que Deus vos disse: ‘Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do jardim’?» 2A mulher respondeu: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; 3mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis’». 4A serpente replicou à mulher: «De maneira nenhuma! Não morrereis. 5Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal». 6A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu o fruto e comeu-o; depois deu-o ao marido, que estava junto dela, e ele também comeu. 7Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas.

 

O «relato» bíblico das origens, de que hoje se lêem alguns vv., não pode ser lido ingenuamente como um relato histórico daquilo que sucedeu no início do Universo e do ser humano, «porque, não se trata de saber quando e como surgiu materialmente o cosmos, nem quando é que apareceu o homem; mas, sobretudo, de descobrir qual o sentido de tal origem: se foi determinada pelo acaso, por um destino cego ou uma fatalidade anónima, ou, antes, por um Ser transcendente, inteligente e bom, que é Deus. E, se o mundo provém da sabedoria e da bondade de Deus, qual a razão do mal? De onde vem o mal? Quem é responsável pelo mal? E será que existe uma libertação do mesmo?» (Catecismo da Igreja Católica, nº 284). 

7 «Pó da terra… sopro de vida»: a narrativa tem como ponto de referência não só o facto de que, pela sua corporeidade, o homem pertence à terra e, ao morrer, se reduz a pó, mas também o facto de que, na língua hebraica, «homem» (adam) se diz com o mesmo vocábulo com que se designa a terra avermelhada (adamáh); mas, ao mesmo tempo, o homem está animado por um princípio («sopro») de vida, que não vem da terra. A representação de Deus como «oleiro», independentemente das notáveis semelhanças com outros relatos extra-bíblicos, parece sugerir que o homem está nas mãos de Deus como o barro nas mãos do oleiro (cf. Is 29, 16; Jer 18, 6; Rom 9, 20-21; Job 34, 14-15).

2, 8-9 Um jardim. Nos LXX lê-se «parádeisos»; daqui a habitual designação de «paraíso (terrestre)». O jardim de «delícias» (éden) permite que o leitor pense, mais que num lugar geográfico, num estado de felicidade original e de comunhão com Deus; a «árvore da vida» simboliza a vida em plenitude e a imortalidade (cf. Gn 3, 22); «a árvore da ciência do bem e do mal» é o símbolo da fonte do recto actuar moral, o projecto do Criador, que o homem não pode manipular nem alterar a seu bel-prazer sem cavar a sua ruína.

3, 1-7 Num relato simbólico, numa linguagem cheia de imagens muito expressivas, seja qual for a origem literária destas figuras, deixa-se ver que os males de que o ser humano padece não procedem de Deus, mas do pecado, que, desde a origem, destruiu a harmonia do homem com Deus, consigo próprio e com a criação, com consequências desastrosas que afectam toda a humanidade (cf. a 2ª leitura de hoje: Rom 5, 12-19). Note-se, porém, que uma interpretação literal fundamentalista desta narrativa corre o perigo de levar ao absurdo de considerar a lei moral como algo caprichoso e extrínseco à natureza humana.

1 «A serpente», um símbolo do demónio, cf. Apoc 12, 9, onde se fala da «serpente antiga», o inimigo de Deus e dos amigos de Deus, que aqui aparece também como «caluniador» (este é o significado do seu nome grego, «diábolos»), ao apresentar a ordem divina como má, uma prepotência da parte de Deus (v. 5). Note-se a profunda observação psicológica posta na encenação do processo da tentação: estão aqui representadas as tentações de sempre; primeiro, uma insinuação inocente – «é verdade que Deus vos proibiu...», a que se segue o efeito de começar a prestar atenção àquele a quem não se pode dar ouvidos; finalmente, uma vez aberto o diálogo, no momento preciso, o tentador entra a matar, mentindo descaradamente (cf. Jo 8, 44) – «de maneira nenhuma! Não morrereis! Mas Deus sabe que...» (v. 5). A Escritura e a Tradição da Igreja vêem no demónio, satanás, ou diabo, um anjo criado bom por Deus, mas que se tornou mau.

5 «Sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal»: Isto não significa alcançar a omnisciência divina, nem adquirir o poder de discernir o bem do mal. Este «conhecer o bem e o mal» corresponde a decidir por si o que é bem e o que é mal; trata-se, portanto, de encenar uma tentação de soberba pela qual a criatura não se conforma com a sua condição de criatura, e não aceita o supremo domínio de Deus.

6 «Fruto… para esclarecer a inteligência». Sendo-nos desconhecido em que consistiu o pecado das origens, porque Deus não no-lo revelou, alguns exegetas procuram então averiguar qual é o tipo de pecado que o hagiógrafo aqui descreve, e vêem nesta linguagem um colorido de magia e feitiçaria (um conhecimento oculto), ou até mesmo uma alusão ao culto das serpentes para a fertilidade, de que o hagiógrafo pretenderia afastar os seus contemporâneos tão atreitos a estes desvios religiosos.

7 «Compreenderam que estavam despidos». Note-se a fina ironia latente no contraste com a promessa sedutora: «abrir-se-ão os vossos olhos» (v. 6); os olhos abrem-se, sim, mas para contemplarem a própria nudez. Assim fica simbolizado o desgosto e a frustração que se segue ao gosto do pecado, e também a noção teológica da ruptura da harmonia primordial, nomeadamente entre o homem e a mulher (cf. 2, 25).

 

Salmo Responsorial    Sl 50 (51), 3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)

 

Monição: A Liturgia convida-nos, a cantar o salmo 50, o acto de contrição mais denso de toda a Sagrada Escritura. À tomada de consciência da nossa condição de pecadores, proclamada na primeira leitura, respondemos com uma atitude de conversão, insistentemente recomendada nesta Quaresma que agora começa.

Este salmo — composto pelo rei David depois do seu pecado — ajuda-nos a pedir ao Senhor que nos purifique dos pecados e renove o nosso coração.

 

Refrão:        Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.

 

Ou:               Tende compaixão de nós, Senhor,

                porque somos pecadores.

 

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.

Lavai-me de toda a iniquidade

e purificai-me de todas as faltas.

 

Porque eu reconheço os meus pecados

e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.

Pequei contra Vós, só contra Vós,

e fiz o mal diante dos vossos olhos.

 

Criai em mim, ó Deus, um coração puro

e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.

Não queirais repelir-me da vossa presença

e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

 

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação

e sustentai-me com espírito generoso.

Abri, Senhor, os meus lábios

e a minha boca cantará o vosso louvor.

 

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Paulo, na Carta aos Romanos, confronta-nos com dois exemplos: Adão e Jesus. Adão representa o homem que escolhe desobedecer à vontade de Deus, procurando, por si só, os caminhos da salvação e da felicidade; Jesus, Deus e Homem verdadeiro, escolhe a obediência à vontade do Pai, alcançando-nos a salvação e a verdadeira felicidade.

A escolha de Adão gerou o egoísmo, o sofrimento e a morte; o caminho de Jesus gera vida plena e definitiva.

 

Forma longa: Romanos 5, 12-19;        forma breve: Romanos 5, 12.17-19

 

Irmãos: 12Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. [13De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei. 14Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir. 15Mas o dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só pereceram muitos, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a muitos homens. 16E esse dom não é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à condenação, ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva à justificação.] 17Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. 18Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. 19De facto, como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornarão justos.

 

Estamos diante dum texto da máxima importância para a Teologia e para a vida cristã. As controvérsias doutrinais contribuíram para que o ponto central das afirmações de Paulo se tenha feito deslocar da justificação pela graça para o pecado, e da obra salvadora de Cristo para a obra demolidora de Adão. É certo que não faria sentido falar da libertação por Cristo do pecado, da condenação e da morte, sem que estes males tivessem entrado de forma poderosa no mundo. Mas Adão não passa duma figura, por antítese, de Cristo, em virtude duma argumentação a fortiori de tipo rabínico (o chamado qal wa-hómer). Mas, ainda que, como pensam muitos exegetas, Paulo não trate directa e expressamente do tema do pecado original (só indirectamente), este texto não deixa de oferecer uma base legítima e sólida para a doutrina proposta pelo Magistério da Igreja, assim resumida no Catecismo da Igreja Católica, nº 403: «Depois de S. Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens, e a sua inclinação para o mal e para a morte não se compreendem sem a ligação com o pecado de Adão e o facto de ele nos transmitir um pecado de que todos nascemos infectados e que é a ‘morte da alma’. A partir desta certeza de fé, a Igreja confessa o Baptismo para a remissão dos pecados, mesmo às crianças que não cometeram qualquer pecado pessoal».

 

 

Aclamação ao Evangelho        Mt 4, 4b

 

Monição: O Evangelho apresenta, de forma clara, o exemplo de Jesus. Que Se recusou — de forma absoluta e definitiva — a fazer a vontade de Satanás, para ser fiel à vontade do Pai. Deste modo nos ensinou o verdadeiro caminho da felicidade nesta vida e na há-de vir.

Acolhamos com alegria o Evangelho que nos ensina estas verdades e enche de luz e os nossos caminhos e aclamemo-lo, cantando.

 

Cântico: Não só de pão vive o homem, M. Luis, NCT 106

 

Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 4, 1-11

 

1Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Demónio. 2Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. 3O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». 4Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». 5Então o Demónio conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: 6«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». 7Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». 8De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, 9e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». 10Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». 11Então o Demónio deixou-O e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.

 

Antes de mais, convém advertir que as tentações de Jesus não aparecem como uma tentação ocasional qualquer, nem sequer um ataque mais violento, mas como um duelo mortal e decisivo entre dois inimigos irredutíveis. Com efeito, não se trata de umas tentações dirigidas a fazer com que Jesus caia em meras faltas pessoais (gula, orgulho, avareza), mas têm o carácter de um ataque frontal para desvirtuar toda a obra de Jesus, desviando-a da vontade do Pai. Com efeito, «as tentações acompanham todo o caminho de Jesus, e a narração das tentações apresenta-se… uma antecipação, na qual se condensa a luta de todo o caminho. […] Os 40 dias de jejum abrangem o drama da história, que Jesus assume em Si mesmo e suporta até ao fundo». (Bento xvi, Jesus de Nazaré, pp. 57.60).

Uma consideração superficial desta passagem evangélica poderia levar-nos a encarar estas tentações até como ridículas, absurdas ou míticas. Vale pena ver o belo e profundo comentário do Papa na referida obra. Mas vejamos brevemente o enorme alcance de cada uma das três tentações:

3-4 Na primeira tentação, trata-se de fazer enveredar a Jesus pelo caminho das esperanças materialistas do povo que esperava um Messias que lhe trouxesse bem-estar, riqueza, prosperidade, fertilidade, pão e prazer.

5-7 Na segunda tentação, aquele «lança-te daqui abaixo», constitui um apelo à esperança judaica num messias a descer espectacularmente do céu, à vista do povo. Mas Jesus renuncia decididamente à fácil tentação de ser um messias milagreiro e espectacular, dizendo um decidido não a um actuar à base do triunfo pessoal, do êxito humano.

8-10 Na terceira tentação, aparece diante de Jesus a sedução de se mover na linha da esperança popular num messianismo político, vitorioso, dominador dos Romanos e do mundo inteiro, a tentação de reduzir a instauração do Reino de Deus à instauração dum reino temporal.

Ninguém foi testemunha destas tentações, mas Jesus, ao falar aos Apóstolos do Reino de Deus, não deixa de os prevenir contra umas tentações que haveriam de vir a sentir também os seus discípulos ao longo da história. Também assim Jesus «se tornava em tudo semelhante aos seus irmãos, para se tornar um Sumo Sacerdote misericordioso» (Hebr 2, 17). E Jesus aparece a ensinar-nos a resistir, sem dar ouvidos, como Eva, aos enganos do mafarrico, sem entrar em diálogo com ele, mas apoiando-nos sempre na certeza e na luz da Palavra de Deus e na sua graça, que Jesus ensinou a pedir no «Pai-Nosso»: «não nos deixeis cair em tentação» e «livrai-nos do Maligno» (Mt 6, 13).

 

Sugestões para a homilia

 

• A luta ascética (tentação e pecado)

O estado de inocência original

A tentação do demónio

As consequências da derrota

• Como alcançar a vitória

Preparar-se para o combate

A “psicologia” da tentação

Fidelidade à Palavra de Deus

 

1. A luta ascética

 

a) O estado de inocência original. «O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. Depois, [...] plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado

Somos fruto de um “sonho” de Deus, como, de modo análogo, brotámos de um sonho dos nossos pais.

Deus arrancou-nos do nada para partilhar connosco a Sua eterna e infinita felicidade.

«O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo.» O Criador interveio directamente para infundir no nosso corpo a alma humana imortal. O evolucionismo não é um dogma, mas apenas uma hipótese científica, como muitas outras. Exigimos apenas uma intervenção directa de Deus na história do homem, porque da evolução do corpo não podia resultar uma alma imortal.

Deus formou Adão e Eva:

Com a graça santificante. É a participação da natureza divina na criatura racional. Está acima das exigências de qualquer natureza criada.

Com a harmonia das paixões. Cada uma das paixões — inclinações fortes … foi-nos dada para nos facilitar o cumprimento de um dever: o apetite, para a conservação da saúde e da vida; o instinto sexual, para perpetuar a vida humana; a estima própria, para conservarmos a nossa dignidade.

Com a ciência infusa. O nosso conhecimento é lento e moroso. Vamos saltando de um raciocínio ao outro, até chegarmos a uma conclusão final.

Os nossos pais estavam dotados de uma ciência intuitiva, muito mais fácil e profunda.

Eram todos estes dons preter-naturais, isto é, não estavam compreendidos dentro das exigências da natureza humana.

Num tempo de prova para alcançar a felicidade eterna. «Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, [...] entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal

Aos olhos de Deus valemos mais do que o sol e todas as estrelas, o mar e as montanhas da terra. Ele criou-nos para partilhar connosco eternamente a Sua felicidade.

Alcançamos esta felicidade fazendo a vontade de Deus, praticando obras boas, no uso da nossa liberdade e responsabilidade.

 

b) A tentação do demónio. «Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais do campo que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: “É verdade que Deus vos disse: “Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do Jardim”?”»

O tempo em que vivemos na terra é um tempo de provação da nossa fidelidade a Deus, de merecimento da vida eterna. Merecemos porque somos responsáveis e livres.

• O Demónio é a origem de todo o mal moral que há na terra: mortes, escravidões, corrupção, desvios de bens, mentira, injustiça.

Na sua actuação malvada, consegue que alguns homens se lhe entreguem e se tornem seus instrumentos, tal como os santos são instrumentos de Deus.

• A serpente diabólica molesta as pessoas nesta vida de diversos modos: tentação, obsessão, infestação e possessão. O modo mais vulgar é a tentação.

O que é a tentação. Tentação e o mesmo que provação. A competição desportiva é uma “tentação:” Ser boa ou má para nós depende do modo como nos comportarmos, tal como o desportista na competição.

É um desafio, um convite tentando arrastar-nos para o mal, para o pecado, para a desobediência a Deus, como Adão e Eva no Éden.

Em geral, o Inimigo tenta conduzir-nos para as profundidades por um plano inclinado.

Parte de uma coisa boa, de um desejo legítimo, por exemplo, o desejo de ter dinheiro, o amor, humano, o desejo de se alimentar.

Dado este primeiro passo, leva-nos a exagerar, a perder o controle, pela desobediência a Deus. Adão e Eva queriam saber; a mulher desce gradualmente por um plano inclinado: viu que era agradável à vista; tocou-o e viu que era agradável ao tacto; finalmente veio a desobediência a Deus.

Origem das tentações. Temos entre nós um cúmplice que a frequência do pecado vai dando cada vez mais força: a gula, a embriaguez, a sensualidade, a avareza, o orgulho.

Actuam contra nós os três inimigos da alma: o mundo, com os seus maus exemplos, demónio, com as suas seduções e enganos, e carne, as más inclinações que temos em nós.

 

c) As consequências da derrota. «Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas

Nudez espiritual. Depois de termos feito a vontade ao demónio, no pouco ou no muito, temos a mesma sensação de quem foi vítima do “conto do vigário”. Abrem-se os nossos olhos e compreendemos que não estava ali a felicidade que procurávamos.

Perdemos ingloriamente a amizade de Deus por um pecado grave, ou enfraquecemo-la, por um pecado venial e logo nos apercebemos que estamos nus, despojados da nossa riqueza espiritual. Caímos numa verdadeira nudez espiritual, porque o pecado grave despoja-nos a veste da graça santificante e dos merecimentos que tínhamos adquirido com as boas obras. É como se nos congelassem a conta bancária, de modo deixássemos de ter acesso a ela, temporariamente ou para sempre.

Medo de Deus. O medo de Deus não tem sentido para nós, porque somos filhos Seus. Mas, depois do pecado, não nos sentimos à vontade na Sua presença. Temos dificuldade em rezar, em nos recolhermos.

Falta de amor a si próprio. Sentimos vergonha da nossa derrota, tal como Adão e Eva sentiram vergonha da sua nudez.

Ao serviço do Inimigo. À medida que uma pessoa se afasta de deus pela entrega ao pecado, vai-se tornando um instrumento do demónio, arrastando outros para a perdição e infelicidade.

Assim procedeu Eva que, uma vez em pecado, arrastou Adão para a mesma situação desgraçada.

Rompemos a comunhão. Os nossos primeiros pais romperam a comunhão com Deus, pecando gravemente; um com o outro, de modo que Adão já não bate palmas ao ver Eva, mas acusa-a como sendo a causa da sua desgraça; há também uma ruptura com a criação inteira, porque o homem terá de arrancar dela o sustento com o suor do seu rosto.

 

2. Como alcançar a vitória

 

a) Preparar-se para o combate. «Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Demónio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome

Antes de entrar na Vida Pública, Jesus preparou-se para ela com oração e jejum durante quarenta dias e quarenta noites, no monte da Quarentena, perto de Jericó.

Também nos devemos preparar em cada dia — e especialmente nesta Quaresma — para o combate espiritual com estas duas armas.

Oração e recolhimento. Ainda não descobrimos o valor da oração. Achamos que é desnecessária, ou quando muito, adiamo-la para quando não tivermos mais que fazer. E como os passatempos são muitos, nos nossos dias, abandonamo-la gradualmente até a suprimir.

Muitas vezes, nem o sinal da cruz fazemos de manhã, levantando o nosso pensamento a Deus e pedindo-Lhe ajuda.

Orar é falar com Deus de tudo aquilo que nos preocupa. É assim que fazem dois bons amigos.

Pela oração afeiçoamo-nos cada vez mais a Deus — tal como acontece no amor humano — e acabamos por querer o que Deus quer.

Ainda que digamos palavras muito bonitas acerca de Deus, se não fizermos oração, não O amamos.

Deste modo, vamos aumentado a intimidade do Deus até à plena comunhão de Amor com Ele no paraíso.

Temos necessidade de concretizar — com a ajuda de uma pessoa amiga — o que havemos de rezar em cada dia. A nossa oração pode ser uma repetição de fórmulas, como fazemos no terço; ou uma conversa com Deus sem palavras, apenas com o nosso pensamento e afecto.

Jejum. Jesus entregou-se ao jejuou durante quarenta dias, sem comer nem beber.

Há só dois dias de jejum e abstinência obrigatórios na Quaresma: a Quarta-Feira de Cinzas e Sexta-Feira Santa.

Jejuar não é apenas privar-se de comer, mas abster-se também de alguma coisa agradável.

Temos de começar por jejuar do que faz mal ao nosso corpo ou à vida da alma.

— Submeter-se à dieta prescrita para a saúde, aos medicamentos e exercícios físicos que nos são prescritos (caminhadas piscina, exercícios de recuperação); comer com alegria, gratidão e sem queixumes o que preparam para nós.

— Abster-se de conversas pessimistas, porque nada resolvem; sorrir, ser amável com as outras pessoas, jejuar de ver TV durante algum tempo, tornar a vida de família mais agradável aos outros, etc.

Na verdade, o Senhor não nos pede mortificações extraordinárias, mas estes pequenos nadas que ninguém vê, mas são maravilhas da caridade cristã.

 

b) A “psicologia” da tentação. «O tentador aproximou se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães.» [...]. «Se és Filho de Deus, lança Te daqui abaixo.» [...] «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares».

Desarma a vítima. Quando nos quer tentar, o demónio começa por nos fechar a boca e o coração, levando-nos a aborrecer e a omitir a oração, com falsas desculpas de falta de tempo, de disposição, etc., e a deixar de frequentar os sacramentos.

Ele procede como os assaltantes que, logo que chegam à beira da vítima, tapam-lhe a boca, para que não peça ajuda e procuram tirar-lhe todos os meios de defesa: telemóvel, armas, etc.

O que admira, não é que as pessoas pequem tanto, mas que não pequem mais, porque enfrentam as tentações completamente desarmadas e mudas. Às vezes, são as primeiras a procurá-las, sem esperarem que o demónio se aproxime: um programa imoral de TV, o acesso à internet em sites que levam a cair em pecado mortal, o acesso a lugares de pecado ou conviver com pessoas que nos arrastam a ofender a Deus, por pensamento, palavras e obras.

Parte de uma coisa boa. Nas três tentações com que prova o Mestre, o demónio parte sempre de coisas naturalmente boas. Depois exagera ou desvia-nos da vontade de Deus.

— Tinha fome. Nada mais normal do que senti-la, depois de ter jejuado tanto tempo. Querer comer era uma coisa normal.

Mas depois exagera e tenta afastar-nos de Deus. Insinua a Jesus que, em vez de usar o Seu poder para ajudar as pessoas, o ponha exclusivamente ao serviço das Suas necessidades materiais.

Volta e meia, esta tentação aparece na Igreja querendo que ela deixe de se preocupar com a salvação das pessoas, para cuidar apenas de soluções políticas e económicas.

— Jesus quer chamar a atenção de todas as pessoas, para lhes ensinar a Boa Nova. Lançando-se do ponto mais alto e Templo e salvando-Se milagrosamente, todos O vão escutar com atenção.

Mas, para isso, era preciso manipular as pessoas com coisas extraordinárias, em vez de as trazer serenamente à Verdade.

— Jesus quer que todas as pessoas entrem na Igreja que Ele vem fundar e se salvem. Sendo Senhor de todos os reinos, dará uma ordem e tudo fica feito sem esforço.

Mas para isto, é preciso procurar os fins sem olhar aos meios. É a grande tentação de hoje, nas pessoas da Igreja: procurar o rapidamente eficaz, o que dá nas vistas, o que promete espectáculo, em vez de se procurar seriamente a conversão das pessoas.

 

c) Fidelidade à Palavra de Deus. «Jesus respondeu lhe: “Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’.” [...] “Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’.” [...]‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’».

Em cada uma das tentações, Jesus responde ao Inimigo, cintando frases da Sagrada Escritura: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’»; «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’»; «Vai te, Satanás, porque esta escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’».

A ignorância religiosa é o maior inimigo de Deus no mundo de hoje (S. Josemaria Escrivá).

De facto, as pessoas são enganadas porque são ignorantes em matéria religiosa. E o que mais agrava a situação, é que estão convencidas de que nunca precisam de ouvir nada, de ler nada, nem de frequentar meios de formação. O Santo Padre começa nesta semana o seu retiro anual, com os principais colaboradores; os Bispos de todo o mundo fazem o mesmo, bem como os sacerdotes. Só os leigos nunca precisam de nada, não lêem nada e, por isso, são apanhados na primeira armadilha do demónio.

Como hão-de ser fiéis à Palavra de Deus, sem nem a conhecem, nem procuram conhecê-la? Alguns até de ouvir a homilia se aborrecem. Classificam as missas dominicais de boas ou menos boas, segundo o tempo que demoram.

Fecham, deste modo, os ouvidos a Cristo, para não saberem o que Ele quer de nós.

Jesus Cristo é o nosso Salvador. «Se pelo pecado de um só pereceram muitos, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a muitos homens

Para estarmos com Ele e conhecermos a Sua vontade, a Igreja convida-nos a celebrar a Missa de cada Domingo. Ele preside, fala-nos e dá-nos o Seu Corpo e Sangue em Alimento.

Maria é apresentada no Génesis como a Mulher extraordinária que enfrenta a serpente com os seus filhos, num combate vitorioso.

Que Ela nos alcance e vitória sobre o demónio nos nossos combates espirituais.

 

Fala o Santo Padre

 

«Recordemo-nos disto: no momento da tentação, das nossas tentações,

nenhum diálogo com Satanás, mas defendidos sempre pela Palavra de Deus! E isto nos salvará.»

O Evangelho do primeiro domingo da Quaresma apresenta cada ano o episódio das tentações de Jesus, quando o Espírito Santo, que desceu sobre Ele depois do baptismo no Jordão, o levou a enfrentar abertamente Satanás no deserto, por quarenta dias, antes de iniciar a sua missão pública.

O tentador procura desencorajar Jesus do projecto do Pai, isto é, do caminho do sacrifício, do amor que oferece a si mesmo em expiação, para lhe fazer empreender um caminho fácil, de sucesso e poder. O duelo entre Jesus e Satanás dá-se com uma troca de citações da Sagrada Escritura. Com efeito, para desencorajar Jesus do caminho da cruz, o diabo recorda-lhe as falsas esperanças messiânicas: o bem-estar económico, indicado pela possibilidade de transformar as pedras em pão; o estilo espectacular e milagroso, com a ideia de se lançar do ponto mais alto do templo de Jerusalém e de se fazer salvar pelos anjos; e por fim o atalho do poder e do domínio, em troca de um acto de adoração a Satanás. São os três grupos de tentações: também nós os conhecemos bem!

Jesus rejeita com decisão todas estas tentações e reafirma a vontade decidida de seguir o percurso estabelecido pelo Pai, sem qualquer compromisso com o pecado e com a lógica do mundo. Observai bem como Jesus responde. Ele não dialoga com Satanás, como tinha feito Eva no paraíso terrestre. Jesus sabe bem que com Satanás não se pode dialogar, porque é muito astuto. Por isso Jesus, em vez de dialogar como tinha feito Eva, escolhe refugiar-se na Palavra de Deus e responde com a força desta Palavra. Recordemo-nos disto: no momento da tentação, das nossas tentações, nenhum diálogo com Satanás, mas defendidos sempre pela Palavra de Deus! E isto nos salvará. Nas suas respostas a Satanás, o Senhor, usando a Palavra de Deus, recorda-nos antes de tudo que «não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4, 4: cf. Dt 8, 3); e isto dá-nos a força, ampara-nos na luta contra a mentalidade mundana que abaixa o homem ao nível das necessidades primárias, fazendo-lhe perder a fome do que é verdadeiro, bom e belo, a fome de Deus e do seu amor. Recorda ainda que «está escrito também: “Não porás à prova o Senhor teu Deus” (v. 7), porque o caminho da fé passa também pela escuridão, pela dúvida, e alimenta-se de paciência e expectativa perseverante. Por fim, Jesus recorda que «está escrito: “Adorarás ao Senhor, teu Deus: a Ele unicamente prestarás culto”» (v. 10); ou seja, devemos abandonar os ídolos, as coisas vãs, e construir a nossa vida sobre o essencial.

Depois estas palavras de Jesus encontrarão confirmação concreta nas suas acções. A sua fidelidade total ao desígnio de amor do Pai conduzi-lo-á após cerca de três anos à prestação de contas final com o «príncipe deste mundo» (Jo 16, 11), na hora da paixão e da cruz, e ali Jesus alcançará a sua vitória definitiva, a vitória do amor!

Queridos irmãos, o tempo da Quaresma é ocasião propícia para todos nós cumprirmos um caminho de conversão, confrontando-nos sinceramente com esta página do Evangelho. Renovemos as promessas do nosso Baptismo: renunciemos a Satanás e a todas as suas obras e seduções — porque ele é um sedutor — para caminhar pelas veredas de Deus e «chegar à Páscoa na alegria do Espírito» (Oração colecta do 1º domingo de Quaresma do Ano A).

 Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, 9 de Março de 2014

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

O Senhor nunca nos pede nada na nossa vida,

sem que esteja disponível para nos ajudar.

Cheios de confiança no Seu Amor de Pai,

peçamos-Lhe a ajuda para vivermos esta Quaresma

com a generosidade que Ele deseja ver em nós.

Oremos (cantando):

 

    Convertei, Senhor, o Vosso Povo!

 

1.     Pelo Santo Padre, guia nos caminhos da Quaresma,

    para que nos conduza a uma verdadeira conversão,

    oremos, irmãos.

 

    Convertei, Senhor, o Vosso Povo!

 

2. Pelos Bispos, bons Pastores da Igreja de Jesus Cristo,

    para que alumiem com a luz de Cristo as nossas vidas,

    oremos, irmãos.

 

    Convertei, Senhor, o Vosso Povo!

 

3. Pelos que vivem afastados do Senhor pelo pecado,

    para que nesta Quaresma se reconciliem com Deus,

    oremos, irmãos.

 

    Convertei, Senhor, o Vosso Povo!

 

4. Pelos doentes e idosos da nossa comunidade de fé,

    para que nesta Quaresma encontrem solidariedade,

    oremos, irmãos.

 

    Convertei, Senhor, o Vosso Povo!

 

5. Por aqueles que o Demónio tenta arrastar para a perdição,

    para que o Senhor os ilumine e fortaleça neste combate,

    oremos, irmãos.

 

    Convertei, Senhor, o Vosso Povo!

 

6. Pelos nossos irmãos defuntos que são purificados,

    para que o Senhor os receba quanto antes no Céu,

    oremos, irmãos.

 

    Convertei, Senhor, o Vosso Povo!

 

Senhor, que nos concedeis mais uma Quaresma,

para que preparemos a Páscoa da Nova Lei:

iluminai-nos e ajudai-nos a sermos generosos,

para recebermos de Vós o prémio prometido.

Vós que sois, com a Pai, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Nem só de pão vive o homem, diz-nos Jesus no Evangelho deste Domingo.

O Mestre divino, que preside a esta celebração da Eucaristia, iluminou-nos com a Sua Palavra, e vai agora preparar para nosso Alimento o Pão da vida.

 

Cântico do ofertório: Caminho pelo deserto, J. Santos, NRMS 69

 

Oração sobre as oblatas: Fazei que a nossa vida, Senhor, corresponda à oferta das nossas mãos, com a qual damos início à celebração do tempo santo da Quaresma. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

As tentações do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Jejuando durante quarenta dias, Ele santificou a observância quaresmal e, triunfando das insídias da antiga serpente, ensinou-nos a vencer as tentações do pecado, para que, celebrando dignamente o mistério pascal, passemos um dia à Páscoa eterna.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Saudação da Paz

 

Esta vida é um combate para reconquistar a paz com Deus, com os irmãos e connosco próprios.

Sejamos generoso da luta, para sermos enriquecidos com a recompensa.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Jesus faz nesta Missa muito mais do que transformar as pedras em pão, para alimento corporal. Transubstancia o pão e o vinho do nosso ofertório no Seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, para nos alimentar.

A melhor forma de agradecermos esta solicitude de Nosso Senhor é comungarmos com as disposições que Ele estabeleceu: na graça de Deus, com reverência e amor.

 

Cântico da Comunhão: Nem só de pão vive o homem, F. da Silva, NRMS 29

Mt 4, 4

Antífona da comunhão: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

 

ou

Salmo 90, 4

O Senhor te cobrirá com as suas penas, debaixo das suas asas encontrarás abrigo.

 

Cântico de acção de graças: A toda a hora bendirei o Senhor, M. Valença, NRMS 60

 

Oração depois da comunhão: Saciados com o pão do Céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade, nós Vos pedimos, Senhor: ensinai-nos a ter fome de Cristo, o verdadeiro pão da vida, e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

A vida presente é um combate contra o Inimigo do homem, a preparar para nós uma eternidade feliz.

Não nos podemos deixar adormecer na vida espiritual, de modo ainda mais urgente, nesta Quaresma.

 

Cântico final: É dura a caminhada, M. Faria, NRMS 6 (II)

 

 

Homilias Feriais

 

1ª SEMANA

 

2ª Feira, 6-III: Os caminhos da salvação.

1 Lev 19, 1-2. 11-18 / Mt 25, 31-46

Vinde benditos de meu Pai, recebei como herança o reino, que vos está preparado desde a criação do mundo.

 Quem quiser receber a herança do reino, a salvação, há de viver os mandamentos (Leit.): «O Decálogo, as 'dez palavras' indicam as condições de uma vida liberta da escravidão do pecado, O Decálogo é um caminho de vida» (CIC, 2057).

A segunda parte do Decálogo refere-se ao amor ao próximo (Leit. e Ev.), que se pode concretizar nas obras de misericórdia. Durante a Quaresma procuremos viver melhor as obras de misericórdia espirituais (instruir, consolar, confortar...), e também as corporais (dar de comer a quem tem fome, cuidar dos doentes...).

 

3ª Feira, 7-III: A vontade de Deus e a misericórdia

Is 55, 10-11 / Mt 6, 7-15

 A chuva e a neve, ao descerem do céu, não voltam lá sem terem regado a terra, sem a haverem fecundado.

Devemos rezar confiadamente a oração que o Senhor nos ensinou, o Pai-nosso (Ev.), que contém tudo o que podemos pedir a Deus, e que é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho (CIC, 2761).

As Leituras recomendam duas petições. A Primeira, 'seja feita a vossa vontade', que exige que acolhamos a palavra que sai da boca de Deus, e que a levemos à prática (Leit.). A segunda, 'perdoai-nos as nossas ofensas': «O perdão é a condição fundamental da reconciliação dos filhos de Deus com o seu Pai e dos homens entre si» (CIC, 2844).

 

4ª Feira, 8-III: Apelo à conversão e Confissão sacramental.

Jonas 3, 1-10 / Lc 11. 29-32

Ergue-te e vai à grande cidade de Nínive e proclama-lhe a mensagem que te direi.

Os habitantes da cidade de Nínive aceitaram bem o pedido de conversão que lhes foi dirigido pelo Senhor, através do profeta Jonas (Leit. e Ev.). E nós, como estamos a levar à prática pedido idêntico feito por Nª Sª em Fátima?

Há um sacramento especialmente relacionado com a conversão: «É o chamado Sacramento da conversão, porque realiza sacramentalmente o apelo de Jesus à conversão e o esforço por regressar à casa do Pai. É chamado Sacramento da Penitência, porque consagra uma caminhada de conversão, de arrependimento e de satisfação por parte do pecador» (CIC, 1423).

 

5ª Feira, 9-III: Conversão e oração de penitência.

Est 14, 1. 3-5. 12-14 / Mt 7, 7-12

Pedi e dar-vos-ão. Procurai e achareis. Batei e hão-de abrir-vos.

A oração é uma das formas de vivermos a conversão quaresmal. «O coração, assim decidido a converter-se, aprende a orar na fé... Ele (Jesus) pode pedir-nos que 'procuremos' e 'batamos' à porta (Ev.), porque Ele próprio é a porta e o caminho» (CIC, 2609). Nª Senhora também pediu muita oração em Fátima: Rezai muito, Rezai muito!

A rainha Ester é um belo exemplo desta oração: «Vinde socorrer-me, que eu estou só e só em vós tenho auxílio, pois sinto ao alcance da mão o perigo que me espreita» (Leit.). Recorramos também ao Senhor, e a sua Mãe Santíssima, que nos socorram nas tentações.

 

6ª Feira, 10-III: Conversão do coração e amor ao próximo.

Ez 18, 21-28 / Mt 5, 20-26

Se o pecador se arrepender de todas as faltas que tiver cometido... há-de viver e não morrerá.

A Quaresma é um tempo de conversão, de arrependimento, um caminho para a vida (Leit.). A conversão do coração tem muito que ver com a caridade, pois devemos reconciliar-nos com o irmão antes de apresentarmos a nossa oferta no altar (Ev.).

E também devemos empenhar-nos por introduzir, nas instituições e condições de vida, as correcções convenientes, quando induzem ao pecado, para que estejam conformes com as normas da justiça e favorecerem o bem em vez de se lhe oporem (CIC, 1888). É o caso do relacionado com a vida, desde o princípio até ao fim. Assim também a sociedade se reconciliará com Deus.

 

Sábado, 11-III: Heroicidade na caridade.

Deut 26, 16.19 / Mt 6, 43-48

Pois eu digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus.

Moisés lembrava ao povo que deveria pôr em prática os preceitos e sentenças do Senhor, cumprindo-os com todo o coração e com toda a alma (Leit.).

Entre os preceitos de Jesus está o amor ao próximo, levado até às últimas consequências: amar os inimigos e rezar por eles (Ev.). Exige heroicidade, mas foi isso que Ele próprio viveu: quando o foram prender não permitiu que Pedro usasse a espada; na Cruz, perdoou a quem o ofendeu e maltratou. Façamos o mesmo, pois o perdão testemunha também que, no nosso mundo, o amor é mais forte do que o pecado (CIC, 2844).

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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