acontecimentos eclesiais

COMENTÁRIO

 

SALVE BENTO XVI!

 

Desde a tarde de terça-feira, dia 19 de Abril, temos Papa, o antigo Cardeal José Ratzinger, eleito à quarta votação e que escolheu o nome de Bento XVI.

 

Não sou profeta nem fui eleitor, mas não estou surpreendido com a eleição do nosso Papa. De resto, a rapidez com que foi eleito e por um colégio cardinalício pertencente na quase totalidade a uma geração mais nova, revela a capacidade que lhe foi reconhecida.

É aquele que em 1981 fora escolhido por João Paulo II para presidir á Congregação da Doutrina da Fé, e cujo trabalho João Paulo II muitas vezes agradecera com sinais visíveis de afecto.

Exerceu até aqui o ministério de «Defensor e Promotor da Fé Católica», trabalho diferente do antigo Inquisidor, como algumas pessoas são tentadas a repetir. De qualquer modo, era essa a sua missão, missão difícil mas essencial, pois a fé da Igreja não é um mero sentimento religioso.

Agora é o Pastor Universal, a quem incumbe promover a unidade e santidade interna da Igreja, manter o diálogo ecuménico com as outras confissões cristãs, e com as religiões não cristãs, responder pastoralmente ao crescimento da descrença na Europa, ao avanço da gnose e do sincretismo religioso, do relativismo e subjectivismo culturais.

Todos estes problemas eram já visíveis e foram denunciados no pontificado de João Paulo II e constituíram as suas grandes dores de cabeça. Uma certa comunicação social tende a ignorar estes problemas ou a pensar que o Papa tudo pode alterar. São problemas da cultura e as respostas que o Papa lhes vier a dar nascerão do mesmo tesouro da fé da Igreja. É saudável que no início deste agitado milénio governe a Igreja um Papa familiarizado com essa problemática e que traz consigo um sentimento de segurança doutrinária, psicológica e de piedade Para todo tipo de diálogo cultural é essencial conhecer o terreno sobre que se fala.

 

Não tenhamos medo. A homilia na abertura do Conclave, na segunda feira, testemunha que o Papa é um homem que conhece o mundo de hoje, e a homilia nas exéquias de João Paulo II revela que o nosso Papa é um homem de coração e de sentido pastoral. Os seus livros estão traduzidos em português e a eleição deste Papa pode constituir um estímulo para a sua leitura. Lembro-me de alguns mais acessíveis, desde a «Introdução ao Cristianismo», «Introdução ao Espírito da Liturgia», «Diálogo sobre a Fé» e vários estudos sobre a Europa. É um prazer ler agora estes textos, sentir a segurança intelectual, a sequência cultural, a beleza e o rigor da análise do nosso tempo. Quem lidou de perto com o Cardeal Ratzinger acrescentará a esse prazer mental a experiência de uma sensibilidade viva, de grandes recursos estéticos, de simplicidade de maneiras e de vida. O mundo mais dado a sentir que a reflectir, mais aberto aos gestos ruidosos que aos conteúdos, mais atento ao espectáculo que ao discurso, irá ter como pastor um homem que fala de Jesus como o Verbo, o Mestre, a Palavra. Num tempo de pensamento frágil, de sentimentos desconexos, vai deslizar pela Praça de S. Pedro um rio caudaloso de fé e de doutrina, de amor à Igreja e ao mundo, de segurança doutrinária e de reflexão, de respeito pela razão e pela fé .

 

Se quisermos fazer um paralelo pessoal com o seu antecessor, diremos que em João Paulo II se conjugavam a instituição e o carisma, a fidelidade à Igreja e o brilho pessoal no exercício do seu governo; no novo Papa mantém-se a fidelidade à instituição e altera-se o carisma da pessoa, o que, para um mundo dominado pelos critérios da comunicação social, fundamentalmente o espectáculo, é um empobrecimento. Um novo estilo notou-se logo na saudação à multidão na Praça de S. Pedro, no tom de voz e nos gestos, mais contidos que em João Paulo II, próprios de um homem de reflexão, nas palavras proferidas ditadas mais pela lógica da missão que pelos dinamismos de multidões.

Isso, porém, longe de o diminuir, faz avultar a sua humildade em aceitar o ministério a seguir a João Paulo II, pois sabia que, com os seus 78 anos, iria ser comparado com o seu antecessor, que iniciara o pontificado aos 58 em plena juventude adulta. Foi humilde e corajoso. Os seis Pontífices Romanos que conheci (desde Pio XII) pareceram sempre distanciar-se do brilho do anterior, mas, passadas as primeiras horas, vê-se logo que são reflectores do mesmo Sol. Os nossos olhos é que tiveram de se adaptar à lâmpada.

Afastemos de nós os critérios do mundo, a tentação de olhar para o Papa com os esquemas políticos. Lembremo-nos dos discípulos de Emaús, cujas fantasias e preconceitos sobre o Messias os impediam de reconhecer o Senhor Ressuscitado: «nós esperávamos que», «nós sonhámos que», e que mereceram do Senhor a advertência de homens sem compreensão.

O nome escolhido pode levar-nos a Bento XV que governou a Igreja de 1914 a 1922, o Papa da Paz, da reorganização canónica e litúrgica da Igreja, da preocupação pelas Igrejas do Oriente, do diálogo com os anglicanos e da misericórdia durante a I Grande Guerra; e pode evocar S. Bento, o Padroeiro da Europa, o mundo da cultura e da civilização daquele tempo.

A nós, católicos, pede-se que rezemos pelo Papa e pelo mundo, dando graças a Deus e implorando a sua bênção.

D. Joaquim Gonçalves

Bispo de Vila Real

 


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