acontecimentos eclesiais

DA SANTA SÉ

 

 

O CALVÁRIO DO PAPA

JOÃO PAULO II

 

«Às 21.37 o Santo Padre João Paulo II regressou à casa do Pai. Rezemos por ele» – palavras de Mons. Leonardi Sandri, Substituto da Secretaria de Estado, aos milhares de fiéis que, rezando na Praça de São Pedro, acompanhavam a agonia do Papa, nesse dia 2 de Abril.

 

Depois da traqueostomia realizada no Policlínico Gemelli, no dia 24 de Fevereiro (ver CL, 2004/05, 3, p. 42), para resolver a insuficiência respiratória, João Paulo II iniciou os exercícios de reabilitação da respiração e da voz. Recomeçou a despachar com os colaboradores mais chegados (Cardeal Ângelo Sodano, Cardeal Joseph Ratzinger, etc.), enquanto Mons. Sandri se encarregava de ler os seus discursos aos fiéis. No último domingo de Fevereiro e no primeiro de Março, acompanhou pela TV o Angelus rezado na Praça de São Pedro e a seguir apareceu à janela do seu quarto no hospital, por detrás da vidraça, abençoando os fiéis que se encontravam fora, sem pronunciar palavra.

No domingo seguinte, 13 de Março, a seguir ao Angelus, já pôde pronunciar algumas palavras em italiano e em polaco. Nesse dia assinou a carta dirigida aos sacerdotes por ocasião da Quinta-feira Santa e, pela tarde, regressou ao Vaticano para continuar a convalescença. Daqui acompanhou a Semana Santa, enviando Mensagens para as várias celebrações litúrgicas; algumas vezes aparecia à janela do seu escritório para abençoar os fiéis na Praça de São Pedro; seguiu a Via-Sacra do Coliseu graças ao écran de TV na sua capela privada (ao mesmo tempo que a câmara o filmava por trás para que os fiéis o pudessem ver).

No domingo da Páscoa, 27 de Março, depois de lhe terem lido a Mensagem na Praça de São Pedro, apareceu à janela do escritório, que estava aberta, para dar a bênção urbi et orbi. Ainda tentou dizer as palavras da bênção, mas não conseguiu, apesar dos esforços impressionantes que fez, limitando-se a abençoar com a mão várias vezes. A doença de Parkinson já não lhe permitia engolir nem articular as palavras. Na quarta-feira seguinte, 30 de Março, embora continuasse suspensa a tradicional audiência geral, voltou a aparecer à janela para abençoar; seria a sua última aparição em público. A partir daí, começou um progressivo e irreversível agravamento da sua saúde, devido a uma forte desnutrição e uma infecção generalizada, conforme comunicava o porta-voz do Vaticano na noite do dia 31. Plenamente consciente, informado da gravidade da sua situação e perante a hipótese de voltar mais uma vez ao hospital, perguntou se era estritamente necessário; quando lhe disseram que não, pois no quarto teria toda a assistência, decidiu continuar nos seus aposentos. Voltou a receber a Unção dos Doentes e o Viático.

 

Nas mãos de Deus

 

No dia 1 de Abril, às 6.00 da manhã, concelebrou a Santa Missa no seu quarto, deitado na cama. Como era sexta-feira, pediu que lhe lessem as 14 estações da Via-Sacra, fazendo o sinal da cruz em cada uma. Quis despedir-se dos seus amigos pessoais; embora sofrendo, estava sereno, abandonando-se completamente nas mãos de Deus. Ao saber que na Praça rezavam muitos jovens, balbuciou, parecendo dizer: “Eu procurei-vos. Agora viestes ver-me. Agradeço-vos”. Ao fim da tarde entrou em agonia, começando a perder a consciência. O Cardeal Camilo Ruini, Vigário geral para a diocese de Roma, pediu a todos orações pelo Papa: “Queremos estar perto dele nestes momentos com a mesma amorosa proximidade com a qual João Paulo II nos acompanha desde quase 27 anos”.

No dia 2 de Abril, primeiro sábado do mês, pelas 20.00, Mons. Stanislaw Dziwicz, seu secretário particular desde Cracóvia, celebrou no quarto a Missa vespertina do II Domingo da Páscoa, domingo da Divina Misericórdia, festividade instituída pelo próprio João Paulo II; participaram outros bispos polacos e ao Papa deram-lhe ainda a Comunhão com o Viático. Na Praça, os fiéis rezavam o terço. Ao terminarem, o arcebispo Mons. Leonardi Sandri comunicou o falecimento de João Paulo II. Em 20 de Maio faria 85 anos.

Na manhã do dia seguinte, domingo, o Cardeal Sodano presidiu a Missa de sufrágio pela sua alma na Praça de São Pedro, com fiéis de todas as idades e proveniências enchendo também a Via della Conciliazione e as ruas adjacentes. No fim, Mons. Sandri rezou o Regina Coeli e leu o texto que o Papa deixara preparado.

O corpo do Pontífice – que não foi embalsamado –, revestido das suas vestes próprias, esteve colocado na Basílica de São Pedro desde o dia 4 de Abril à tarde, para a homenagem e oração dos fiéis. Posteriormente, foi dado a conhecer o seu Testamento.

A Missa de exéquias celebrou-se na manhã do sábado, dia 8 de Abril, na Praça de São Pedro, mais uma vez repleta e com a presença das altas individualidades do mundo. Presidiu à concelebração dos cardeais o Decano, Cardeal Joseph Ratzinger. Milhões de pessoas seguiram a cerimónia através de écrans gigantes colocados nos dois estádios de futebol, nalgumas Basílicas e em várias Praças da cidade. Em vários momentos da Missa houve gritos pedindo a rápida canonização de João Paulo II (ver Secção «João Paulo II»).

 

 

A ELEIÇÃO DO

PAPA BENTO XVI

 

«Anuncio-vos uma grande alegria: temos Papa, o eminentíssimo e reverendíssimo Senhor Cardeal da Santa Igreja Romana Joseph Ratzinger, que tomou o nome de Bento XVI».

 

Estas palavras do Cardeal protodiácono Jorge Medina, proclamadas às 18.45 (hora de Roma) do dia 19 de Abril passado no balcão da Basílica vaticana, foram recebidas com um aplauso de palmas cheias de alegria da multidão de fiéis que se fora concentrando na Praça de São Pedro, desde que às 17.50 apareceu o fumo branco na chaminé colocada na Capela Sistina. O conclave dos cardeais, iniciado na tarde do dia anterior, chegara ao fim, na quarta votação.

Precedido pela Cruz, assomou ao balcão o novo Papa, já revestido das vestes pontificais. Quando os aplausos pararam, antes de dar a sua primeira bênção urbi et orbi, o Santo Padre falou:

«Queridos irmãos e irmãs: Depois do grande Papa João Paulo II, os cardeais escolheram-me a mim, um simples e humilde operário da vinha do Senhor».

«Consola-me o facto de que o Senhor sabe trabalhar e actuar mesmo com ferramentas insuficientes, e sobretudo confio-me às vossas orações».

«Na alegria do Senhor Ressuscitado, confiados na sua ajuda permanente, prossigamos. O Senhor ajudar-nos-á e Maria, sua Mãe Santíssima, estará ao nosso lado. Obrigado».

Na manhã seguinte, o Santo Padre presidiu à concelebração eucarística com os cardeais na Capela Sistina, no fim da qual pronunciou em latim a primeira mensagem do seu pontificado (ver Secção «A Palavra do Papa»).

A Missa da inauguração solene do pontificado foi celebrada na manhã do domingo 24 de Abril, mais uma vez repleta a Praça de São Pedro e a Via della Conciliazione.

No dia seguinte, na audiência aos milhares de peregrinos alemães, cheia de humor, fez uma referência ao conclave que o elegeu Papa: «Quando, lentamente, o andamento das votações me fez compreender que, por assim dizer, o machado ia cair sobre mim, a minha cabeça começou a andar à roda. Estava convencido de ter realizado a obra de toda uma vida e de poder esperar terminar os meus dias com tranquilidade. Com profunda convicção, disse ao Senhor: Não me faças isto! Tens pessoas mais jovens e melhores, que podem enfrentar esta grande tarefa com novo impulso e nova força.

«Então fiquei muito tocado por um cartão que me escreveu um colega do colégio cardinalício. Recordava-me que, na Missa por João Paulo II, eu tinha centrado a homilia, partindo do Evangelho, na palavra que o Senhor disse a Pedro junto do lago de Geneserat: Segue-me! Tinha explicado como Karol Wojtila recebera uma e outra vez esta chamada do Senhor e como uma e outra vez tivera de renunciar a muita coisa e dizer simplesmente: Sim, sigo-te, mesmo se me conduzes para onde não queria. O colega escreveu-me: Se o Senhor te dissesse agora 'Segue-me!', recorda então o que pregaste. Não recuses! Sê obediente como disseste que fez o grande Papa, que voltou para a casa do Pai. Isto tocou-me profundamente. Os caminhos do Senhor não são cómodos, mas nós não fomos criados para a comodidade, mas para coisas grandes, para o bem. Assim, por fim, não pude fazer outra coisa senão dizer que sim. Confio no Senhor e confio em vós, queridos amigos».

 

A razão do nome de Bento

 

Na sua primeira audiência geral da quarta-feira, dia 27 de Abril, depois de referir os seus sentimentos contrastantes – «assombro e gratidão a Deus, que surpreendeu antes de tudo a mim mesmo ao chamar-me a suceder ao apóstolo Pedro; comoção interior ante a magnitude da tarefa e a responsabilidade que me confiou» –, explicou a razão do nome que escolhera como Papa.

«Quis chamar-me Bento XVI para unir-me idealmente com o venerado pontífice Bento XV, que guiou a Igreja num período difícil por causa do primeiro conflito mundial. Foi corajoso e autêntico profeta de paz e trabalhou com grande valentia, primeiro, para evitar o drama da guerra e, depois, para limitar as suas nefastas consequências. Seguindo as suas pegadas, desejo colocar o meu ministério ao serviço da reconciliação e da harmonia entre os homens e os povos, com o profundo convencimento de que o grande bem da paz é sobretudo um dom de Deus, frágil e precioso, que temos de invocar, defender e construir todos os dias com a colaboração de todos.»

«O nome de Bento evoca, também, a extraordinária figura do grande 'Patriarca do monaquismo ocidental', São Bento de Núrsia, padroeiro da Europa juntamente com os Santos Cirilo e Metódio e as Santas mulheres Brígida da Suécia, Catarina de Sena e Edith Stein. A progressiva expansão da Ordem beneditina por ele fundada exerceu um influxo enorme na difusão do cristianismo em todo o Continente. Por isso, São Bento é muito venerado também na Alemanha e, em particular, na Baviera, minha terra de origem; constitui um ponto fundamental de referência para a unidade da Europa e um forte apelo às irrenunciáveis raízes cristãs da sua cultura e da sua civilização.»

«Deste Pai do monaquismo ocidental conhecemos o conselho deixado aos monges na sua Regra: 'Não antepor nada ao amor de Cristo' (Regra 72, 11; cfr. 4, 21). No início de meu serviço como Sucessor de Pedro, peço a São Bento que nos ajude a manter com firmeza Cristo no centro de nossa existência. Que Ele esteja sempre no primeiro lugar nos nossos pensamentos e em todas as nossas actividades!»

 


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