Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

Padroeira de Portugal

08 de Dezembro de 2016

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Ditosa Virgem, cheia de graça, J. Santos, NRMS 75

Is 61, 10

Antífona de entrada: Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu com o manto da justiça, como esposa adornada com suas jóias.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Igreja universal celebra hoje com a maior alegria e júbilo a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.

Esta celebração integra-se perfeitamente no espírito do Advento, porque Maria é o sinal da proximidade de Deus e a Imaculada Conceição anuncia-nos que a salvação está próxima.

A Liturgia da Palavra ajuda-nos a compreender ainda melhor o sentido da nossa vida na terra.

Por isso, o nosso olhar comovido se volta para Maria Imaculada, cantando, cheios de gratidão, os seus louvores.

 

Acto penitencial

 

A isenção de toda a mancha em Maria Imaculada contrasta com a nossa situação de filhos de Adão e Eva cheios de manchas.

Reconheçamo-las com humildade, peçamos perdão ao Senhor e prometamos-Lhe, com a Sua ajuda, emendar-nos.

 

 (Tempo de silêncio. Sugerimos o esquema A: Confissão; Senhor, tende piedade de nós!)

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que, pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preparastes para o vosso Filho uma digna morada e, em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo, a preservastes de toda a mancha, concedei-nos, por sua intercessão, a graça de chegarmos purificados junto de Vós. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Depois da queda dos nossos primeiros pais, Deus procura Adão e Eva para lhes prometer o resgate do pecado.

Uma Mulher extraordinária — Maria Imaculada — enfrentará a serpente num combate sem tréguas e derrotá-la-á.

 

Génesis 3, 9-15.20

9Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?». 10Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». 11Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?». 12Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor 13Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». 14Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Hás-de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. 15Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». 20O homem deu à mulher o nome de «Eva», porque ela foi a mãe de todos os viventes.

 

A leitura é extraída do segundo bloco do livro do Génesis, que vai do v. 4b do capítulo 2 até ao fim do capítulo 4, que os estudiosos atribuem à chamada «tradição javista», onde se encontra a narrativa da criação do homem e da mulher, do pecado dos primeiros pais com as suas consequências e da continuidade da vida humana marcada pelo pecado. É evidente que esta narrativa não é um relato jornalístico, pois tudo é descrito numa linguagem simbólica, muito expressiva e densa; a narrativa coloca o leitor perante realidades transcendentes que dizem respeito ao «ser humano» – o adam –, o homem de todos os tempos. O autor sagrado, que deu forma definitiva e inspirada ao Pentateuco, quis dar-nos um panorama coerente da história da salvação – que arranca da eleição divina e se concretiza na aliança e nas promessas de salvação – desenvolvendo-se por etapas correspondentes a um maravilhoso projecto divino, a que não escapa o enigma das origens.

Se perdêssemos de vista este plano divino, que conhecemos pela Revelação, a curiosidade científica poderia levar-nos a ficar atolados nos aspectos arqueológicos e episódicos, como poderia suceder a alguém que, para estudar um monumento antigo, se ficasse no estudo das pedras e na análise dos materiais de construção; por mais científica que fosse a sua análise, ficaria sem se aperceber da harmonia do conjunto, do significado histórico desse monumento e da sua verdade mais profunda. A doutrina da Igreja sobre o pecado original, de que Maria foi isenta por singular privilégio, não se fundamenta na narrativa do Génesis; muito menos se pode partir do estudo das fontes do Génesis para negar a existência desse pecado (uma ridícula ingenuidade, além do mais); a doutrina da fé encontra a sua sólida base na obra redentora de Cristo e nos ensinamentos do Novo Testamento, nomeadamente de S. Paulo; no entanto, a fé projecta grande luz sobre esta narrativa simbólica das origens.

10 «Tive medo porque estava nu; e então escondi-me». Deste modo se descreve, com fina psicologia, o sentimento de culpabilidade e de vergonha que não podia deixar de ser estranho ao primeiro pecado e igualmente ao pecado de todo aquele que não empederniu a sua consciência; esta, que antes de pecar era o aviso de Deus, toma-se depois uma premente censura. Este dar conta da própria nudez parece também indicar, por um lado, a enorme frustração de quem, ao pecar, em vão tinha tentado «ser igual a Deus» e, por outro lado, sugere o descontrolo das tendências instintivas (a concupiscência): depois do primeiro pecado, sentem-se dominados por movimentos e apetites contrários à razão, que tentam esconder (v. 7).

Não resistimos a citar algumas palavras da profunda reflexão antropológica de João Paulo II, nas audiências gerais de Maio de 1980: «Por meio destas palavras (v. 10) desvela-se certa fractura constitutiva no interior da pessoa humana, quase uma ruptura da original unidade espiritual e somática do homem. Este dá-se conta pela primeira vez de que o seu corpo cessou de beber da força do espírito, que o elevava ao nível da imagem de Deus. A sua vergonha original traz em si os sinais duma específica humilhação comunicada pelo corpo. (...) O corpo não está sujeito ao espírito como no estado da inocência original, tem em si um foco constante de resistência ao espírito e ameaça de algum modo a unidade do homem pessoa. (...) A concupiscência, em particular a concupiscência do corpo, é ameaça específica à estrutura da auto-posse e do autodomínio, por meio do qual se forma a pessoa humana».

14 «Hás-de rastejar e comer do pó da terra». Na narrativa, a sentença é dada primeiro contra a serpente, a primeira a fazer mal. Ninguém pense que o autor quer insinuar que dantes as cobras tinham patas: a sentença é proferida contra o demónio tentador; a expressão designa uma profunda humilhação (cf. Salm 71(72), 9; Is 49, 23; Miq 7, 17), infligida contra o demónio, que é o sentenciado, não as serpentes (cf. Apoc 12, em especial os vv. 9 e 17).

15 «Esta te esmagará a cabeça». Todo o versículo constitui o chamado Proto-Evangelho, o primeiro anúncio da boa nova da salvação que se lê na Bíblia. Não se limita esta passagem a anunciar o estado de guerra permanente entre as potências diabólicas – «a tua descendência» – e toda a Humanidade – «a descendência dela». É sobretudo uma vitória que se anuncia. Note-se que essa vitória é expressada não tanto pelo verbo, que no original hebraico é o mesmo para as duas partes em luta (xuf – na Neovulgata conterere), mas sim pela parte do corpo atingida nessa luta: a serpente será atingida na cabeça (ferida mortal, daí a tradução «esmagará»), ao passo que a descendência será apenas atingida no calcanhar (ferida leve, daí a tradução «atingirás»).

Mas, pergunta-se, a quem é que designa o pronome «esta» (v. 15)? Segundo o original hebraico, podia ser a descendência da mulher. A verdade, porém, é que esta descendência pecadora fica incapacitada para, por si, vencer o demónio e o pecado em que se precipitara. Assim, o tradutor grego da Septuaginta (inspirado?) referiu o dito pronome ao Messias (traduzindo-o na forma masculina, designando um indivíduo, autós, em vez da forma neutra (designando uma colectividade), autó, referindo este pronome a descendência, (que em grego se diz com a palavra neutra, sperma); esta tradução visava pôr em evidência que quem vence o pecado e o demónio é Ele, o Messias. A tradição cristã, e com ela a tradução da Vetus Latina seguida pela Vulgata, ao traduzir o pronome pelo feminino ipsa, aplicou este texto à Virgem Maria, explicitando um sentido (chamado eminente), que entreviu nesta passagem (se quisesse designar a descendência – semen – teria empregado o neutro ipsum, e não ipsa).

Eis como se costuma explicar o sentido mariano da passagem: a vitória é prometida à descendência de Eva, mas quem faz possível essa vitória é Jesus Cristo, com a sua obra redentora. Assim, unidos a Cristo, todos somos vencedores, mas Maria é a vencedora de um modo eminente, porque Mãe do Redentor e Mãe de toda a comunidade dos redimidos, a Igreja. O próprio contexto facilita esta referência a Maria: é que, contra tudo o que era de esperar, a profecia aparece dita a Eva, e não a Adão. Segundo o ensino da Igreja (cf. Bula «Ineffablis Deus» do Beato Pio IX), esta vitória de Maria sobre o demónio, inclui a perfeita isenção de toda a espécie de mancha do pecado, incluindo o original.

 

Salmo Responsorial    Salmo 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4 (R. 1a)

 

Monição: O Salmo que o Espírito Santo nos convida a cantar é um hino de louvor ao Altíssimo pelas maravilhas que Ele operou na história da Salvação.

Hoje aparece como uma referência à maravilha da Virgem concebida sem pecado original.

 

Refrão:        Cantai ao Senhor um cântico novo:

o Senhor fez maravilhas.

 

Cantai ao Senhor um cântico novo,

pelas maravilhas que Ele operou.

A sua mão e o seu santo braço

Lhe deram a vitória.

 

O Senhor deu a conhecer a salvação,

revelou aos olhos das nações a sua justiça.

Recordou-Se da sua bondade e fidelidade

em favor da casa de Israel.

 

Os confins da terra puderam ver

a salvação do nosso Deus.

Aclamai o Senhor, terra inteira,

exultai de alegria e cantai.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Paulo, na Carta aos fiéis de Éfeso, entoa um hino de louvor e acção de graças ao Altíssimo «que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo.»

Em Jesus Cristo, por Maria, nos elegeu a todos para que fôssemos santos na Sua presença.

 

Efésios 1, 3-6.11-12

3Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. 4N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. 5Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, 6para louvor da sua glória e da graça que derramou sobre nós, por seu amado Filho. 11Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, 12para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo.

 

Este início da epístola aos Efésios de que é extraída a leitura tem o aspecto de um hino litúrgico e é uma das mais ricas sínteses doutrinais paulinas.

3 «Em Cristo». Toda a graça – «bênçãos espirituais» – que Deus concede ao homem, após o pecado original, incluindo a Imaculada Conceição da Virgem Maria, é concedida pela mediação de Cristo e através da união com Ele.

4-5 «Santos». «Filhos». O objectivo desta eleição eterna de Deus é «sermos santos», isto é, destacados do profano e pecaminoso para servir ao culto e glória divina: «diante d’Ele», isto é, na presença de Deus; estamos chamados a estar sempre diante de Deus para O glorificar a partir de tudo o que fazemos, dizemos ou pensamos, como ensina o Concílio Vaticano II: «Todos os cristãos são, pois, chamados e devem tender à santidade e perfeição do próprio estado» (LG 42). A santidade está em sermos «participantes da natureza divina» (2 Pe 1, 4; Rom 12, 1), sendo filhos de Deus e vivendo como tais, imitando a Cristo, o Filho de Deus por natureza (cf. Rom 8, 15-29; Gal 4, 5-7; 1 Jo 3, 1-3). E o modelo humano mais perfeito de santidade é Maria.

A expressão «santos e irrepreensíveis» faz pensar nas vítimas oferecidas a Deus no Antigo Testamento (cf. Lv 20, 20-22), insinuando-se assim o carácter oblativo e sacrificial de toda a vida do cristão (cf. 1 Pe 2, 5), bem como a perfeição que devemos pôr em tudo o que fazemos, demais que não se trata duma pureza meramente exterior e ritual, mas de um culto em espírito e verdade (cf. Jo 4, 23), «na sua presença» (de Deus) «que examina os rins e o coração» (Salm 7, 10), isto é, que perscruta o que há de mais íntimo no homem, a sua consciência, afectos e intenções.

 

Aclamação ao Evangelho        cf. Lc 1, 28

 

Monição: Aclamemos com júbilo o Evangelho que anuncia o começo da nossa Redenção, pela Anunciação do Arcanjo S. Gabriel à Virgem Imaculada.

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS10 (II)

 

Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco,

bendita sois Vós entre as mulheres.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1, 26-38

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».

 

A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria!

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêem na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).

 

Sugestões para a homilia

 

• Maria, sinal da benevolência divina

Maria, nossa Esperança

Maria, terror do Inimigo

Conduz-nos à felicidade

• Virgem fiel e Imaculada

A Eleita do Senhor

Mestra da fidelidade

Mãe de Deus

 

 

1. Maria, sinal da benevolência divina

 

a) Maria, nossa Esperança. «Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: “Onde estás?” Ele respondeu: “Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me”.»

A serpente seduziu Eva e esta arrastou Adão na sua desgraça e ruína do pecado original. De repente, Adão e Eva viram-se reduzidos à mais extrema indigência.

Afinal o que Satanás queria não era fazê-los como deuses, mas reduzi-los à miséria e à infelicidade.

Tive medo. Destruiu a filiação divina e a consequente intimidade com Deus. Adão e Eva escondem-se, porque têm medo de se encontrarem com Deus.

Adão e Eva têm medo de Deus. Não é normal que um filho tenha medo do pai e se esconda, a tremer de medo, quando ele chega a casa. O mais normal é que se lance a correr ao seu encontro e se abrace a ele, cobrindo-o de beijos.

Estava nu. Roubou-lhe o tesouro da graça e da filiação divina. Adão confessa, triste que está nu. A nudez é sobretudo a extrema indigência a que o demónio conseguiu reduzi-los, levando-os ao pecado.

Os nossos pecados pessoais fazem-nos perder o gosto de estar com Deus — de orar — de tratar de coisas espirituais.

O pecado original dos nossos primeiros pais não é uma lenda, mas um tremendo acontecimento cujas consequências ainda se fazem sentir hoje.

O pecado grave pessoal é como um naufrágio em que perdemos tudo o que levávamos connosco, ou como um incêndio que nos permite retirar de dentro de casa os nossos haveres.

Este tudo quer dizer a graça santificante — veste indispensável para entrarmos no Céu — a comunhão de Amor com Deus, a paz e a alegria interior, a paz da consciência e o sentido da vida.

Deus vem ao encontro dos dois, não para os castigar e humilhar, mas para os ajudar a compreender o mal que tinham feito e anunciar-lhes a misericórdia.

O primeiro sinal da benevolência do Senhor é a promessa de confiar a luta contra Satanás e seus sequazes a uma Mulher que seguirá à frente dos filhos de Deus.

 

b) Maria, terror do Inimigo. «Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar

Deus vem ao encontro de Adão e Eva trazendo consigo um plano de resgate, de salvação.

Segundo os Seus desígnios eternos, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade — o Verbo — assumirá a nossa natureza humana com todas as suas fragilidades, excepto no pecado.

Como Deus, as Suas obras têm merecimento infinito, podendo, com efeito, pagar a dívida infinita contraída pelo pecado dos nossos primeiros pais e pelos pecados de cada um de nós, até ao fim do mundo. Como Homem, poderá apresentar-se diante do Pai em nome de cada um de nós.

Mas, para assumir verdadeiramente a natureza humana — um corpo mortal — seguindo as leis da natureza, precisará do seio de uma mulher.

Foi assim que Deus “sonhou” com Maria desde toda a eternidade. Adornou-A com todas as qualidades, dons e graças.

Ela foi imune da culpa original, pelos méritos do seu futuro Filho. Como poderia Deus suportar que o demónio Lhe pudesse dizer: “A Tua Mãe, antes de ser Tua, foi minha escrava, pois contraiu a culpa de Adão!?”

Deus projectou ainda outra maravilha: o demónio seria vencido por uma Mulher, tal como conseguira entrar no mundo por Eva. Foi ela que lhe abriu a porta para entrar também no coração de Adão.

Maria comanda os exércitos de Deus. Maria aparece, pois, revelada, como a Mensageira da vitória de Deus, como sinal de esperança para todos nós.

A partir de agora já não será o arco íris a lembrar a Aliança de Deus com a criação, mas Maria, verdadeira bênção de Deus para todos nós.

Esta mulher profetizada no Génesis não pode ser Eva. No momento em que deus profere esta sentença, Eva é amiga de Satanás, pois fez-lhe a vontade e colaborou na sua maldade seduzindo Adão.

A descendência da Mulher — de Maria — é Jesus e todos os que estão unidos a Ele pelo Baptismo; a descendência de Satanás são a terceira parte dos Anjos do Céu que o seguiram na sua rebelião contra Deus e foram precipitados no abismo; e todas as pessoas que se lhe entregam pelo pecado em breve começam também a trabalhar para ele, quer pelos maus exemplos, quer mesmo pelas atitudes de arrastar outros ao pecado.

Maria triunfará. Esmagará a cabeça da serpente maldita. Na linguagem bíblica, esta figura significa a vitória perfeita contra o Inimigo.

Se quisermos avançar na vida unidos a Ela, também venceremos o Maligno que nos quer tornar infelizes para sempre, como ele.

Ela entrega-nos uma arma para combater: o Terço. Deus realiza maravilhas com coisas simples: com água lava as almas do pecado e infunde-lhes a vida divina; transubstancia um pouco de pão de trigo no Seu Corpo e Sangue.

O demónio tenta convencer as pessoas que o Terço é uma arma sem valor, que rezá-lo é uma rotina sem sentido, etc.

Mas ele tem sido a arma com que Maria venceu o Inimigo nas grandes batalhas da história.

Seremos tentados. É o que significam as ciladas armadas ao calcanhar da mãe, ou seja os atentados contra os seus filhos que somos nós.

 

c) Conduz-nos à felicidade. «N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, [...] por termos sido predestinados [...], para sermos um hino de louvor da sua glória».

Saímos do Coração do nosso Deus pela força do Seu Amor, e para Ele devemos voltar no fim da vida, se aceitarmos o Seu convite. Ele quer-nos sentados à mesa da Sua felicidade para sempre.

Eleitos de Deus. Não estamos nesta vida por um acaso. Deus quis que existíssemos, felizes com Ele para sempre, e chamou-nos à vida, para nos oferecer esta possibilidade.

Para a santidade pessoal. Esta fidelidade À vontade de deus na nossa vida chama-se santidade pessoal.

Para a felicidade eterna. Deus criou-nos para sermos felizes na terra e no Céu. Mas não podemos confundir felicidade verdadeira com prazer dos sentidos ou afirmação pessoal orgulhosa.

Maria guia-nos para o Céu. Maria é de todas as criaturas a única que realizou perfeitamente o projecto de Deus. Viveu em consonância perfeita com a Sua vontade, sem o menor desvio, todos os momentos da sua vida.

Mas, como é Mãe, defende-nos dos ataques venenosos da serpente infernal e quer que A acompanhemos no caminho do Céu.

Como em Caná, aos serventes de mesa das bodas matrimoniais, recomenda a cada um de nós: «Fazei tudo o que Ele vos disser

Maria é revelada no texto do Génesis como a mensageira do Senhor, a que zela pelos Seus interesses, pois comanda as hostes de Deus em luta contra o Altíssimo.

Defende-nos cuidadosamente das ciladas do Inimigo, se quisermos seguir as suas recomendações.

Para tudo isto foi concebida Imaculada, desde o primeiro momento da sua existência.

 

2. Virgem fiel e Imaculada

 

a) A Eleita do Senhor. «disse o Anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo!. [...] Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo.”»

A Sabedoria infinita de Deus escolhe o momento da Anunciação do Arcanjo a Maria para nos revelar ou revelar diversos mistérios da nossa fé:

Santíssima Trindade. O Filho de Maria será Deus, Filho unigénito do Pai e será concebido pela força do Espírito Santo;

A maternidade divina de Maria. Ela será verdadeira Mãe de Jesus: “eis que conceberás e darás à luz”.

A sua Imaculada Conceição. Deus estabelecerá inimizades (perpétuas, irreconciliáveis) entre a Mulher e a serpente).

A virgindade perpétua de Maria. O Arcanjo explica-lhe que, ao contrário do que acontece com qualquer mulher, para ser mãe, Ela não precisará de sacrificar a virgindade, pondo de parte o anterior compromisso com o Senhor, Ao nascer, Jesus respeitou e guardou a integridade da Sua Mãe que quisera preservar na Conceição: E se Maria tinha o compromisso de virgindade com o Senhor, por que havia de sacrificá-lo na constância do matrimónio?

O Arcanjo saúda Maria como a Escolhida de Deus para esta missão única da história da Salvação, a Eleita do Senhor. «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo».

O Arcanjo saúda Maria, mudando-lhe o nome. É a “Cheia de Graça”.

Na história da Salvação, Deus muda o nome das pessoas a quem chama a uma missão importante: Abrão converte-se em Abraão, quando se torna o “Pai dos crentes”, do Povo de Deus. Isaca passa a ser Isaac; Jacob vê o seu nome mudado para Israel.

Já no Novo testamento, Jesus muda o nome de Simão para Pedro, rocha, quando o chama para chefe da Igreja que vem fundar.

Maria é aclamada “cheia de graça” porque nunca desperdiçou um momento de graça, desde a sua Conceição.

Até ao fim dos tempos, conduzirá a luta do Povo de Deus contra o Inimigo.

 

b) Mestra da fidelidade. «Maria disse ao Anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?”.»

A pergunta de Maria não encerra uma recusa, caso não se cumpram as condições que apresenta, mas apenas conhecer qual é a vontade do Senhor a Seu respeito. Ela está ali para fazer a Sua vontade.

Na Sua vida pública, Jesus há-de elogiá-la neste comportamento: «Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática.»

Maria ouve com toda a atenção a proposta do Céu; pergunta delicadamente o que não compreende, não para discutir com Deus, mas para fazer precisamente o que Deus quer.

Muitas vezes, ao fazermos oração de petição, não damos oportunidade ao Senhor de escolher outra coisa. Se não nos concede o que Lhe pedimos, entramos em crise de fé, duvidando do Seu Amor.

Maria não recorre à oração para fazer a sua vontade, mas para saber o que Deus quer. Mesmo em Canaã da Galileia, quando a análise superficial das palavras de Jesus parecem indicar que a graça não deve ser concedida, Ele retira-se com a certeza de ter obtido o que pediu e dá imediatamente aos serventes uma indicação oportuna e concreta, não vá a sua ignorância estragar tudo, negando-se a fazer o que Jesus lhes manda, por o julgarem inoportuno e desacertado: «Fazei tudo o que Ele vos disser.»:

Ela quer apenas seguir uma dos dois caminhos que lhe parecem irreconciliáveis: permanecer virgem ou ser Mãe.

Imaginamos o Arcanjo a responder-lhe com um sorriso: “As duas coisas”. Maria será única Virgem e Mãe de toda a história da humanidade, por especial privilégio do Altíssimo.

Nisto consiste a fidelidade: procurar conhecer o que Deus quer a nosso respeito e segui-lo com generosidade, sem fugas cobardes nem descontos mesquinhos.

 

c) Mãe de Deus. «O Anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus.”  [...] Maria disse então: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”.»

Jesus Cristo não é um corpo estranho que passa por dentro de Maria, totalmente alheio à sua vida.

A expressão «conceberás e darás à luz» indica as duas funções principais da mãe biológica.

Maria Mãe de Jesus. Quando isto acontece, o filho concebido vive na mais perfeita união com a mãe durante os nove meses de gestação. Alimenta-se com o seu sangue, respira o ar que ela respira, e os dois corações pulsam em uníssono.

Ao mesmo tempo, por dom de Deus, desenvolve-se entre a mãe e o filho das suas entranhas uma intimidade que vai perfurar para sempre.

Denunciam-no os traços fisionómicos, tanto mais que humanamente, Jesus não tem pai; a vigilância do coração que faz com que a mãe acompanhe o filho momento a momento, mesmo quando está afastado fisicamente, até ao ponto de pressentir qualquer perigo que o ameaça.

 • Maria Mãe de Deus. Pelo mistério da Incarnação, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade une-se à natureza humana recebida de Maria, formando uma única Pessoa divina e humana: Jesus Cristo. 

Maria Santíssima aparece-nos na Anunciação como Mãe da Pessoa que Se chama Jesus Cristo. É assim que o trata, depois de O encontrar no templo entre os Doutores da Lei: «Filho, porque procedeste assim para connosco

Jesus comporta-se como verdadeiro Filho, entregando-se confiadamente nos braços, em Belém, aceitando o alimento que lhe dá do seu seio, e acolhendo as indicações que lhe dá pra que aprenda as palavras, gestos e costumes de todas as pessoas.

Que maravilhosos não devem ter sido os colóquios de Maria com Jesus ainda Menino e adolescente, no lar de Nazaré.

Maria nossa Mãe. Uma vez que é Mãe de Jesus — Cabeça do Corpo Místico do qual fazemos parte — é também nossa Mãe. Jesus proclama solenemente esta verdade do alto da Cruz, talvez para nos ensinar que esta maternidade universal da Imaculada Conceição é fruto do sacrifício da Cruz.

Rejubilemos, pois, nesta Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, porque temos motivos de sobejo para o fazer.

 

Fala o Santo Padre

 

«A Imaculada está inscrita no desígnio de Deus; é fruto do amor de Deus que salva o mundo.»

Hoje [...], dia da festa da Imaculada Conceição de Maria, o nosso olhar é atraído pela beleza da Mãe de Jesus, nossa Mãe! Com grande alegria, a Igreja contempla-a «cheia de graça» (Lc 1, 28) e, começando com estas palavras, saudemo-la todos juntos: «Cheia de graça!». Digamos três vezes: «Cheia de graça!». Todos juntos: Cheia de graça! Cheia de graça! Cheia de graça! E assim Deus contemplou-a desde o primeiro instante do seu desígnio de amor. Viu-a bela, precisamente cheia de graça! A nossa Mãe é linda! Maria sustém-nos no nosso caminho rumo ao Natal, porque nos ensina a viver este tempo do Advento à espera do Senhor. Porque este tempo do Advento é uma expectativa do Senhor, que visitará todos nós na festividade, mas também cada um de nós, no nosso coração. O Senhor vem! Esperemo-lo!

O Evangelho de são Lucas apresenta-nos Maria, uma jovem de Nazaré, pequena localidade da Galileia, nos arrabaldes do império romano e também na periferia de Israel. Um pequeno povoado. E no entanto, sobre ela, uma jovem daquela aldeia pequena e longínqua, sobre ela pousou-se o olhar do Senhor, que a escolheu para ser a Mãe do seu Filho. Em vista desta maternidade, Maria foi preservada do pecado original, ou seja, daquela ruptura na comunhão com Deus, com os outros e com a criação que fere cada ser humano em profundidade. Mas esta ruptura foi curada antecipadamente na Mãe daquele que veio para nos libertar da escravidão do pecado. A Imaculada está inscrita no desígnio de Deus; é fruto do amor de Deus que salva o mundo.

E Nossa Senhora nunca se afastou daquele amor: a sua vida inteira, todo o seu ser constitui um «sim» àquele amor, é um «sim» a Deus. Mas certamente isto não foi fácil para Ela! Quando o Anjo lhe chama «cheia de graça» (Lc 1, 28), Ela permanece «muito perturbada», porque na sua humildade se sente como nada diante de Deus. O Anjo consola-a: «Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus» (vv. 30-31). Este anúncio inquieta-a ainda mais, também porque ainda não estava casada com José; mas o Anjo acrescenta: «O Espírito Santo descerá sobre ti... Por isso, Aquele que nascer de ti será santo, chamar-se-á Filho de Deus» (v. 35). Maria ouve, obedece interiormente e responde: «Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra» (v. 38).

O mistério desta jovem de Nazaré, que se encontra no Coração de Deus, não nos é alheio. Não significa que Ela está lá e nós aqui. Não, estamos unidos. Com efeito, Deus pousa o seu olhar de amor sobre cada homem e mulher! Com um nome e um sobrenome. O seu olhar de amor está sobre cada um de nós. O Apóstolo Paulo afirma que Deus «nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis» (Ef 1, 4). Também nós, desde sempre, fomos escolhidos por Deus para levar uma vida santa, livre do pecado. É um desígnio de amor que Deus renova cada vez que nós O frequentamos, especialmente nos Sacramentos. [...]

Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, 8 de Dezembro de 2013

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos caríssimos:

Bendigamos a Deus Pai, Filho e Espírito Santo,

que nos enviou na Virgem Maria Imaculada

grande bênção prometida a nossos pais

e, por intercessão d’Ela, Mãe do Redentor,

e Padroeira de Portugal, aparecida em Fátima,

imploremos (cantando), com alegria:

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

1. Pelo Santo Padre, com os Bispos em comunhão com ele,

    para que nos lembre sempre a devoção à Virgem Maris,

    oremos, irmãos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

2. Pelos cristãos do mundo inteiro que rezam à Imaculada,

    para que vejam n’Ela o sinal da benevolência de Deus,

    oremos, irmãos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

3. Por todas as Associações Marianas da Igreja Universal,

    para que imitem a Virgem Imaculada e dêem a conhecer,

    oremos, irmãos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

4. Por todas as mulheres que em breve esperam ser mães,

    para que amem e agradeçam, como Maria, o dom da vida,

    oremos, irmãos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

5. Pelos que perderam toda a esperança e alegria na vida,

    para que a encontrem numa profunda devoção a Maria,

    oremos, irmãos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

6. Por todos os devotos da Imaculada Conceição falecidos,

    para que Ela os acolha, quanto antes na bem aventurança,

    oremos, irmãos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

Senhor, nosso Deus, nosso Pai, e nosso Salvador

que convocastes e reunistes estes vossos filhos

para celebrarem os louvores da Virgem Imaculada,

fazei que, olhando para Ela, aprendam a imitá-l’A

e a progredir continuamente na santidade pessoal.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

Na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Deus quis fazer que dependesse do sim de Maria, na manhã da Anunciação, a Palavra de Deus que nos foi anunciada e a Eucaristia que agora está a ser preparada, para nosso Alimento.

Que a Virgem Imaculada nos ensine e ajude a agradecer ao Altíssimo tantos e tão preciosos dons.

 

Cântico do ofertório: Ó Nuvens chovei o Justo, F. da Silva, NRMS 15

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai, Senhor, o sacrifício de salvação que Vos oferecemos na solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria e, assim como acreditamos que, por vossa graça, ela foi isenta de toda a mancha, sejamos nós, por sua intercessão, livres de toda a culpa. Por Nosso Senhor...

 

Prefácio

 

O mistério de Maria e da Igreja

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, e louvar-Vos, bendizer-Vos e glorificar-Vos na Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.

Vós a preservastes de toda a mancha do pecado original, para que, enriquecida com a plenitude da vossa graça, fosse a digna Mãe do vosso Filho. Nela destes início à santa Igreja, esposa de Cristo, sem mancha e sem ruga, resplandecente de beleza e santidade. Dela, Virgem puríssima, devia nascer o vosso Filho, Cordeiro inocente que tira o pecado do mundo. Vós a destinastes, acima de todas as criaturas, a fim de ser, para o vosso povo, advogada da graça e modelo de santidade.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos com alegria a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Saudação da Paz

 

Maria aparece nas grandes encruzilhadas da história como a grande mensageira da verdadeira paz.

Invoquemos a sua ajuda maternal para vivermos este dom com Deus, com os irmãos e com cada um de nós.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Agora que vamos comungar, recordemos que o Corpo e Sangue do Senhor que vamos receber nesta Comunhão foi dado generosamente por Maria ao seu Divino Filho, no momento da Anunciação. Ela o guardou fervorosamente durante nove meses em seu seio imaculado.

Peçamos nos ajude e comungar com as indispensáveis condições que o Senhor quer de nós: com fé, na graça de Deus, amor e devoção.

 

Cântico da Comunhão: É celebrada a vossa glória, F. dos Santos, NCT 50

 

Antífona da comunhão: Grandes coisas se dizem de vós, ó Virgem Maria, porque de vós nasceu o sol da justiça, Cristo nosso Deus.

 

Cântico de acção de graças: Cantai um cântico novo, J. Santos, NRMS 10 (II)

 

Oração depois da comunhão: O sacramento que recebemos, Senhor, cure em nós as feridas daquele pecado, do qual, por singular privilégio, preservastes a Virgem Santa Maria, na sua Imaculada Conceição. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Celebremos com alegria, na semana que vai continuar o dom da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, a maior maravilha que Deus criou em toda o universo.

Imploremos a sua ajuda materna quando os nossos caminhos de fidelidade forem mais difíceis de trilhar.

 

Cântico final: Gloriosa Mãe de Deus, M. Carneiro, NRMS 33-34

 

 

 

 

 

 

Homilias Feriais

 

6ª Feira, 9-XII:Felicidade e palavra de Deus.

Is 48, 17-19 / Mt 11, 16-19

 Se tivesses atendido às minhas ordens, o teu bem estar seria como um rio e a tua prosperidade como as ondas do mar.

A nossa felicidade está ligada, segundo o Profeta, ao acolhimento da palavra de Deus. Teríamos a serenidade semelhante à de um rio e a energia semelhante à das ondas do mar (Leit.). Mas, no seu tempo, nem Jesus nem João Baptista foram bem acolhidos (Leit.).

Ante a expectativa da vinda do Messias procuremos aceitar cada vez melhor os seus ensinamentos e os levarmos à prática, para adquirirmos uma confiança plena no Senhor, para apreciarmos melhor os tesouros de bondade e ternura que derramou sobre nós. Rejeitemos completamente o comportamento dos ímpios e os seus conselhos (S. Resp.).

 

Sábado, 10-XII: Elias preparou a vinda do Messias.

Sir  48, 1-4, 9-11 / Mt 17, 10-13

Como tu brilhaste, Elias, pelos teus prodígios. Foste preparado em ordem ao futuro.

Em ambas Leituras é recordada a figura do profeta Elias, pois ele realizou grandes prodígios, graças ao poder divino: ressuscitou o filho da viúva de Sarepta, fez descer o fogo de Deus sobre o monte Carmelo, etc. O seu nome significa: o Senhor é o meu Deus!

Todos estes prodígios são uma pequeníssima parte daquilo que o Messias realizou. Mas o fogo passa a ser o fogo do Espírito Santo, que queimará todas as impurezas do nosso coração e nos fará aumentar o amor de Deus. Se Elias restaurou tantas coisas (Ev.), o Messias vem restaurar tudo para que fique como no princípio da criação.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 

 


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