Ano da Eucaristia

EUCARISTIA, CONTEMPLAÇÃO DO ROSTO DE CRISTO

 

D. JOSÉ POLICARPO

Cardeal Patriarca de Lisboa

 

O Patriarca de Lisboa dedicou as Catequeses Quaresmais deste ano à Eucaristia, situando-se no Ano especial proclamado pelo Papa João Paulo II e aprofundando no último magistério do pontífice.

Enquanto esperamos pela sua publicação em livro, oferecemos aos nossos leitores a catequese pronunciada no I Domingo da Quaresma, 13 de Fevereiro de 2005.

 

1. A Páscoa deste ano tem de ser especial para a Igreja de Lisboa. Aproxima-se a realização do Congresso Internacional da Nova Evangelização. Centrámo-lo no anúncio de Jesus Cristo Vivo, fonte da plenitude da Vida. Mas esse é o anúncio da Igreja sempre que celebra a Eucaristia: a proclamação da morte e da ressurreição de Cristo, na intimidade de uma comunhão de vida. A nossa ousadia de celebrar este Congresso tem de dar densidade e verdade à nossa Páscoa, a cada Eucaristia que celebramos.

Na Páscoa e no Congresso responderemos ao desafio do Papa João Paulo II, na sequência do Jubileu do Ano 2000: queremos contemplar o rosto de Cristo. «Contemplar o rosto de Cristo e contemplá-lo com Maria é o programa que propus à Igreja na aurora do terceiro milénio, convidando-a a fazer-se ao largo no mar da história, lançando-se com entusiasmo na nova evangelização. Contemplar Cristo implica saber reconhecê-lO onde quer que Ele se manifeste, com as suas diversas presenças, mas sobretudo no sacramento vivo do seu Corpo e Sangue. A Igreja vive de Jesus eucarístico, por Ele é alimentada e iluminada» [1].

Contemplar o rosto de Cristo é um estádio avançado da experiência da fé, é encontrá-l’O na intimidade mais profunda do seu ser, numa comunhão de vida que só o amor torna possível. No Ano da Eucaristia, na Páscoa que nos preparamos para celebrar, procuremos o rosto de Cristo na Eucaristia. Há um rosto eucarístico de Jesus Cristo [2].

 

O rosto eucarístico de Jesus Cristo

 

2. Esta expressão é, de certo modo, paradoxal. Se há algo que eu não posso contemplar na Eucaristia, é o rosto físico de Jesus Cristo. Puderam fazê-lo aqueles que conviveram com o Senhor durante a sua vida terrena: Maria Madalena pôde fixá-lo longamente nos olhos, procurando aí o reflexo do seu mistério; os Apóstolos e os discípulos sentiram a atracção irresistível da sua Palavra, quando os convidou a segui-l’O; João sentiu-se o «discípulo predilecto», porque Jesus lhe deixou reclinar a cabeça no seu peito; ficaram impressionados quando viram Jesus a rezar, tendo estampado no rosto o recolhimento da adoração e, no Tabor, ficaram extasiados porque viram brilhar no rosto de Jesus o anúncio da sua Glória. Também os bem-aventurados que Deus recebeu na sua Casa, têm o privilégio de contemplar o rosto físico de Cristo ressuscitado.

Mas na Eucaristia não. Encontramos o Senhor e entramos na intimidade da comunhão com Ele, na simplicidade e austeridade dos sinais. Como é que conhecemos melhor uma pessoa amada, contemplando-lhe os traços fisionómicos ou penetrando-lhe no coração? O «rosto eucarístico de Cristo» revela-nos o seu coração. Coração de Filho, o único que conhece o Pai e nos conduz a Ele; coração amoroso de irmão que deu a vida, para que todos possam viver; coração fiel, a quem O ama, pondo essa fidelidade acima da própria vida; coração bondoso e misericordioso, que perdoou a traição de Pedro, leu a verdade íntima daquela mulher adúltera e da pecadora arrependida, que nos dá sempre a certeza de que os nossos pecados podem ser perdoados e não impedirem a vida; coração jubiloso que nos comunica já a alegria da vida futura. É este o rosto de Cristo que podemos contemplar na Eucaristia.

O momento em que conhecemos melhor as pessoas que nos amam e amamos, é quando partilhamos o mais íntimo do seu coração, aquela verdade que as define e que é perene, embora possa ser ainda e apenas uma capacidade e um desejo. Nesse momento uma relação de amor torna-se imortal e definitiva. Essa verdade que define uma pessoa e nos abre para o seu mistério, torna-se a base sólida do crescimento do conhecimento e da comunhão e a ela são reconduzidos todos os outros aspectos da vida. Na Eucaristia podemos tocar nessa verdade eterna de Jesus Cristo, que O define e resume tudo o que disse e fez: o Filho eterno do Pai, que na sua humanidade é expressão do amor infinito de Deus por nós, que «apagou» a glória da sua divindade, ao fazer-se homem, para a recuperar para si e para nós, vencendo os obstáculos que impediam os outros homens, seus irmãos, de serem «filhos de Deus». E esses obstáculos eram o pecado e a morte e Ele venceu-os, num único combate. Ao «resolver» o drama da morte, na grandeza com que a aceitou e ofereceu e na ressurreição que assim mereceu, venceu o nosso pecado e garantiu-nos a possibilidade do triunfo da vida. A morte e a ressurreição são a verdade profunda e misteriosa daquele Homem, Verbo de Deus encarnado; a sua Páscoa resume a sua vida e missão e exprime o seu mistério. Comungar dessa verdade fundamental de Jesus Cristo é estabelecer com Ele uma relação perene e imortal. E é esse seu mistério profundo e decisivo que Ele nos comunica na Eucaristia. O rosto eucarístico de Jesus Cristo é um «rosto pascal», o rosto serenamente doloroso de quem oferece a vida, o rosto jubiloso onde brilha a alegria da vida em plenitude [3].

Um rosto que só o amor revela

3. A Eucaristia é uma experiência de comunhão com Cristo, que gera o envolvimento pessoal próprio do amor. Celebrar a Eucaristia é muito mais que o cumprimento de um dever ou o assegurar um meio necessário à salvação. A Eucaristia deseja-se, procura-se, luta-se por a conseguir, como se luta pelo amor. Entregamo-nos a ela, sem limites nem reservas, como acontece em toda a busca do amor.

João Paulo II, também como testemunho pessoal, fala-nos de «enlevo», «grande e reconhecido enlevo», que ele deseja suscitar na Igreja, ao falar da Eucaristia: «é este enlevo eucarístico que desejo despertar com esta encíclica». «Este enlevo deve invadir sempre a assembleia eclesial reunida para a celebração eucarística; mas, de modo especial, deve inundar o ministro da Eucaristia» [4].

Esta é uma linguagem amorosa, que aponta para a Eucaristia como experiência de amor, a Cristo e, por Ele, à Santíssima Trindade. A Ceia Pascal revelou-se, para os discípulos, que tinham vivido tantos momentos de intimidade com Jesus, a mais forte e envolvente experiência de união e comunhão com Cristo. Diz o Papa: «No Cenáculo, os Apóstolos, tendo aceite o convite de Jesus: 'Tomai, comei… bebei' (Mt 26, 26-27), entraram pela primeira vez em comunhão sacramental com Ele» [5]. O gesto sacramental leva-os mais longe na comunhão vital com Cristo do que todas as experiências vividas até aí. Estava feita a «passagem», que relativizava a convivência natural como caminho de comunhão com Cristo, só tornada radicalmente possível no gesto sacramental. «Desde então e até ao fim dos séculos, a Igreja edifica-se através da comunhão sacramental com o Filho de Deus imolado por nós: 'fazei isto em minha memória (…) todas as vezes que o beberdes, fazei-o em minha memória' »(1Cor 11,24-25) [6].

Só este envolvimento amoroso com Cristo, que nós recebemos e que recebe cada um de nós [7], na celebração da Eucaristia, se prolonga na adoração do Senhor, na reserva eucarística. Quando, cada um de nós, se encontrou com o «seu amado», como pode separar-se d’Ele, se Ele continua presente, à nossa espera, com a mesma força de amor? Só a dimensão amorosa da Eucaristia revela a inseparável unidade entre a celebração do sacrifício pascal, e a presença real do Senhor, na reserva eucarística. Ouçamos o comovido testemunho pessoal de João Paulo II: «É bom demorar-se com Ele e, inclinado sobre o seu peito como o discípulo predilecto (Jo 13,25), deixar-se tocar pelo amor infinito do seu coração. Se actualmente o cristianismo se deve caracterizar sobretudo pela arte da oração, como não sentir de novo a necessidade de permanecer longamente, em diálogo espiritual, adoração silenciosa, atitude de amor, diante de Cristo presente no Santíssimo Sacramento? Quantas vezes, meus queridos irmãos e irmãs, fiz esta experiência, recebendo dela força, consolação, apoio!» [8].

 

4. É nesta experiência de comunhão que nos é revelado o «rosto eucarístico de Cristo». De Eucaristia em Eucaristia, de adoração em adoração, Ele vai-se afirmando como vivo, atraente, proposta de amor. E quanto mais se entrega a nós, mais manifesta o seu desejo de nos introduzir no seio de Deus, na intimidade do amor trinitário.

A Eucaristia revela-se um sacramento decisivo para a nossa aprendizagem da oração e aprofundamento da caridade. É certo que podemos rezar em qualquer lugar e em todas as circunstâncias. Mas há uma graça própria do sacramento da Eucaristia para aprender a louvar e a mergulhar cada vez mais no mistério insondável do amor de Deus. A Eucaristia, como nenhum outro meio de salvação, suscita em nós o desejo, cada vez mais profundo, de conhecer Deus e mergulhar no seu mistério.

É nessa experiência forte de atracção por Jesus Cristo, graça própria da Eucaristia, que nasce o desejo da frequência da celebração. Há, ainda hoje, tantos cristãos que procuram a celebração diária, prolongada em adoração. Passar do obrigatório ao gratuito é sinal de que se foi envolvido pela voragem de amor, o amor de Jesus Cristo pelo Pai e pelos homens, em que a Eucaristia nos introduz.

 

A Eucaristia torna-nos contemporâneos de Jesus Cristo

 

5. A Páscoa de Jesus, a sua morte e ressurreição, torna Cristo, Verbo encarnado, contemporâneo de todos os homens e é a Eucaristia que torna perene a Páscoa do Senhor. João Paulo II afirma: na Eucaristia «Jesus Cristo entrega à Igreja a actualização perene do mistério pascal. Com ele instituía uma misteriosa contemporaneidade entre aquele Triduum e o arco inteiro dos séculos. Este pensamento suscita em nós sentimentos de grande e reconhecido enlevo. Há, no acontecimento pascal e na Eucaristia que o actualiza ao longo dos séculos, uma capacidade imensa, na qual está contida a história inteira, enquanto destinatária da graça da redenção» [9].

É esta actualidade de Cristo morto e ressuscitado, vivida na Eucaristia, que nos permite mergulhar na Páscoa e ser protagonistas do acontecer da redenção. Cristo é actual e vivo, na sua oferta sacrificial e nós podemos, no momento presente que é o nosso, mergulhar nesse acontecimento, reagir a ele, definir atitudes, comprometer a vida. Só tem sentido participarmos na Eucaristia em interacção com o seu protagonista principal, Jesus Cristo. É por isso que a Eucaristia nunca é repetição, mas sim acontecimento surpreendentemente novo, que nos envolve a nós, no realismo do nosso momento presente. É nela que se torna vivo todo o drama da nossa história de salvação, simbiose de pecado e de graça, de fidelidade e infidelidade, de certeza e de dúvidas. Em cada Eucaristia podemos definir o rumo da nossa liberdade.

É por isso que a Eucaristia é comunhão de amor. Só há amor entre pessoas vivas, contemporâneas no momento que passa, face a face, aceitando fazer comunhão e unir as suas vidas num destino comum. Na Eucaristia, Cristo morto e ressuscitado não é apenas memória de um passado ou promessa de um futuro. Ele está agora, perante nós, no drama da sua Páscoa que nos revela o drama da nossa própria existência, a convidar-nos a essa «passagem», a sermos Páscoa com Ele, realizando a nossa salvação e contribuindo, n’Ele, para a salvação do mundo. A Eucaristia é o lugar de todos os «sins», da actualização de todas as vocações, de vitória sobre todas as indecisões. É-nos aí oferecida essa possibilidade imensa da nossa liberdade de reduzir a vida a um momento.

 

Contemplar o rosto eucarístico de Cristo guiados pelo olhar maternal de Maria

 

6. De todos aqueles que, durante a vida terrena de Jesus, puderam contemplar o seu rosto com o seu olhar natural, a maneira como a Mãe de Jesus contemplou o rosto do seu Filho, é a que se aproxima mais do olhar crente com que somos chamados a contemplar o rosto de Cristo, na Eucaristia, o que levou o Santo Padre a chamar a Maria mulher eucarística [10].

Dizíamos atrás que a Eucaristia é, para nós, o momento de todos os «sins». O «sim» de Maria ao projecto de Deus é o que inspira mais os «sins» que somos chamados a dar em cada Eucaristia. Escreveu João Paulo II: «existe uma profunda analogia entre o fiat pronunciado por Maria, em resposta às palavras do Anjo, e o ámen que cada fiel pronuncia quando recebe o Corpo do Senhor» [11].

As atitudes fundamentais que a Eucaristia exige de nós, encontram modelos nas atitudes de Maria. «Fazei tudo o que Ele vos disser» (Jo 2, 5). É por isso que cumprimos a sua palavra: «fazei isto em Minha memória».

A Eucaristia é «mistério de fé». «Feliz és tu porque acreditaste», disse-lhe Isabel (Lc 1, 45). É como se ela nos dissesse, antes de cada Eucaristia: «não hesiteis, confiai na palavra de Meu Filho. Se Ele pôde mudar a água em vinho, também é capaz de fazer do pão e do vinho o seu Corpo e Sangue» [12].

Maria compreendia tudo com o coração (Lc 2, 51). Ao contemplar o rosto do seu Filho, habituou-se a contemplar o invisível no que via com os seus olhos humanos. Não é comum que uma mãe, ao contemplar o seu filho, tenha de balbuciar, não apenas eu amo, mas também eu creio. Essa é a atitude de cada crente, na Eucaristia, balbuciando: eu amo, porque creio; eu creio porque amo.

Maria é mulher eucarística porque, num certo modo, há uma contemporaneidade no seu olhar maternal, com que nos ensina a contemplar o rosto do seu Filho, na Eucaristia que o actualiza. E esse será sempre um caminho belo para nos introduzir no mistério: deixar-se atrair por um olhar que fixa o infinito.

 

 



[1] Ecclesia de Eucharistia (EE), n. 6.

 

[2] Cf. Ibidem, n. 7.

[3] Cf. Novo Millenio inneunte, n. 24 ss.

[4] EE, nn. 5 e 6.

 

[5] Ibidem, n. 21.

[6] Ibidem.

[7] Cf. Ibidem, n. 22.

[8] Ibidem, n. 25.

[9] Ibidem, n. 5.

[10] Ibidem, nn. 53 ss.

[11] Ibidem, n. 55.

[12] Ibidem, n. 54.

 


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