DOCUMENTAÇÃO

SECRETÁRIO DA CONGREGAÇÃO PARA OS INSTITUTOS DE VIDA CONSAGRADA

 

AS RELIGIOSAS CONTEMPLATIVAS NA VIDA DA IGREJA

 

 

A propósito da publicação da Constituição Apostólica “Vultum Dei quaerere” do Papa Francisco, para as religiosas de vida contemplativa, Nicola Gori entrevistou o Secretário da Congregação para os Institutos de vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, arcebispo José Rodríguez Carballo, OFM (cf. L’Osservatore Romano, ed. port., 28-VII-2016).

Damos a seguir a sua resposta acerca da inserção destas religiosas contemplativas na vida da Igreja:

 

— Às vezes não há muita participação das comunidades contemplativas na vida das Igrejas locais. Procurou-se envolvê-las mais?

— Para a vida contemplativa ou inteiramente contemplativa é válido quanto se afirma acerca da vida consagrada em geral: nasce na Igreja, vive-se na Igreja, cresce na Igreja. A comunhão e a inserção na Igreja é um elemento essencial também por este modo de sequela Christi. Mas a maneira de inserir e de manifestar a comunhão é diversa de outras formas de vida consagrada. Reside também aqui a beleza da vida consagrada. Na vida da Igreja nem todos somos chamados a fazer o mesmo ou a fazê-lo do mesmo modo. Por outro lado, recorde-se que a Igreja não se edifica apenas com aquilo que se faz, mas sobretudo com aquilo que se é. A importância da vida consagrada, e menos ainda a importância da vida contemplativa, não se pode julgar apenas pela sua funcionalidade. Esta é uma grande tentação na nossa sociedade, que procura apenas eficiência e resultados visíveis. E isto é um grande erro que está a levar a consequências não indiferentes, quer na Igreja quer na vida consagrada. As monjas contemplativas ou inteiramente contemplativas colaboram com a Igreja particular e com o mundo com a sua oração de intercessão, que na constituição é bem evidenciada (cf. nn. 16-18.36). A oração é plenamente missionária. Não se deve esquecer que a padroeira das missões é uma contemplativa, Santa Teresinha do Menino Jesus, a qual viveu grande parte da sua vida em clausura. Clara de Assis dá às suas irmãs como missão apoiar com as suas orações os membros débeis da Igreja, como é recordado pela mesma Constituição. Depois, não se deve esquecer que com o próprio trabalho, realizado com devoção e fidelidade, elas partilham o destino dos pobres da terra fazendo-se instrumento de evangelização na Igreja e no mundo (cf. n. 32), e com o seu testemunho de vida contemplativa são um «necessário complemento de quantos, contemplativos no coração do mundo, dão testemunho do Evangelho permanecendo imersos nas realidades e na construção da cidade terrena» (n. 36).

 

Que papel desempenharão os bispos e os superiores dos institutos religiosos na vida dos mosteiros?

— Tanto uns como outros continuarão a desempenhar o papel de ordinários dos mosteiros, com as mesmas competências que lhes foram atribuídas pela normativa particular e pelo Código de direito canónico, e segundo os cânones 615, 625 § 2, 628 § 2, 1º, 637, 638 § 4, 688 § 2, 699 § 2. Deve-se recordar contudo que nem os bispos nem os superiores dos institutos religiosos são os superiores dos mosteiros. A abadessa ou a prioresa é sempre a superiora maior, analogamente a um superior provincial de qualquer outro instituto de vida consagrada (cf. cân. 620). Os bispos e os superiores dos institutos religiosos — e com mais razão os vigários/delegados ou os assistentes religiosos — não devem por conseguinte interferir na vida ordinária nem no governo dos mosteiros. Tais intervenções de bispos ou de superiores de institutos religiosos, se não forem explicitamente estabelecidas ou permitidas pela normativa particular e/ou universal da Igreja, devem ser consideradas impróprias e ilegítimas. O superior hierárquico da abadessa é unicamente a Sé Apostólica, não outras autoridades da Igreja, não obstante a normativa lhes atribua competência sobre os mosteiros e sobre cada uma das religiosas que a eles pertencem. Em consideração da minha experiência no Dicastério, posso dizer que surgem muitos problemas devido às interferências impróprias na vida interna dos mosteiros, por parte quer de alguns bispos quer de alguns superiores de institutos religiosos ou assistentes. Sobretudo nos casos de supressão de um mosteiro, não são raros os interesses e as finalidades económicas pessoais por parte de muitos, sem excluir os eclesiásticos. Contudo, deve-se considerar que as monjas não são «menores» ou pessoas não totalmente competentes, que precisam de ter alguém ao seu lado, para ser apoiadas, aconselhadas e para não adotarem escolhas erradas. Elas são também pessoas adultas que devem gerir com autonomia e responsabilidade a sua vida. Diria que os bispos e os superiores maiores dos institutos devem ater-se unicamente às competências e ao papel que lhes é atribuído pela normativa da Igreja. Também sob este aspeto, a futura instrução que o dicastério está para publicar, a fim de pôr em prática a Constituição apostólica (cf. art. 14 § 2), conterá esclarecimentos a este propósito, a fim de evitar intervenções com conotações mais ou menos evidentes de um verdadeiro controle — ou até de autoritarismo antievangélico — acerca dos mosteiros.


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